528. 528. Em Nobe, o conforto materno de Elisae o retorno inquietante de Judas Iscariotes.


9 de novembro de 1946.

528.1– Sim, Mestre. Judas Iscariotes está aqui há muitos dias. Ele veio na tarde de um sábado. Parecia estar cansado e ofegante. Dizia ter-te perdido pelas ruas de Jerusalém e ter corrido para procurar-te por todas as casas aonde tens o costume de ir. Ele vinha para cá todas as tardes. Daqui a pouco, ele chega. Pela manhã, vai-se embora e diz que vai pelas vizinhanças para pregar em teu Nome.

– Está bem, Elisa… E tu acreditaste nele?

– Mestre, Tu sabes que eu não gosto daquele homem. Se tivessem devido ser assim os meus filhos, eu teria rezado ao Altíssimo que os tomasse de mim. Eu não acreditei, não, nas palavras dele. Mas por amor a Ti procurei agir ajuizadamente. E assim consegui que ele voltasse cada tarde.

– Tu fizeste bem.

Jesus olha para ela, fixando-a e, de repente, pergunta:

– Onde está Anastásica?

Elisa fica com um rubor arroxeado, próprio das pessoas já de idade, mas responde com franqueza:

– Está em Betsur.

– Fizeste bem também nisso. E Eu te peço, tem compaixão do homem.

– Foi porque me compadeço dele que eu quis apagar o incêndio antes que se espalhasse com escândalo, ou causasse um dano menor, mas possível, o de assustar a filha.

– Deus te abençoe, mulher justa…

528.2– Estás sofrendo muito, Mestre?

– Estou. É verdade. A uma mãe Eu posso dizer.

– A uma mãe o podes dizer… Se não fosses Jesus, ó Senhor, quereria acolher tua cabeça cansada sobre meu ombro e apertar o teu coração aflito sobre o meu coração. Mas Tu és tão santo que uma mulher não pode tocar em Ti, a não ser tua Mãe…

– Elisa, boa amiga de minha Mãe e boa mãe, o teu Senhor brevemente vai ser tocado por mãos muito menos santas do que as tuas, e beijado… Oh!… E depois, outras mãos… Elisa, se te fosse concedido tocar no Santo dos Santos, com que espírito o farias? Será que te absterias, se a voz de Deus, do meio da nuvem de incensos, te pedisse amor, para ter finalmente uma carícia de amor, depois de tantos que se aproximaram dele sem amor?

– Meu Senhor! Mas se Deus me pedisse isso, eu de joelhos iria cobrir de beijos o lugar santo, e quisera Deus ficasse satisfeito com o meu amor!

– E então, Elisa, boa amiga de minha Mãe, fiel e boa discípula do teu Salvador aflito, deixa-me apoiar a cabeça sobre o teu coração porque meu coração está tão aflito a ponto de experimentar sofrimentos mortais.

E Jesus, sentado onde está, perto da Elisa, que está a seu lado de pé, apoia de fato sua fronte contra o peito da velha discípula e umas lágrimas silenciosas vão deslizando ao longo da veste escura da mulher, que não pode conter-se sem apoiar a mão na cabeça inclinada sobre o seu coração, e depois, sentindo caírem lágrimas sobre os seus pés nus nas sandálias, inclina-se para roçar com um beijo os cabelos de Jesus, e, por sua vez, chora silenciosamente, levantando os olhos para o céu, em uma muda oração. Ela fica parecendo uma Mãe Dolorosa já bem anciã… Não quer dizer outras palavras nem fazer outros gestos. Mas assim mesmo é tão “mãe” naquele seu ato, que melhor não poderia ser.

Jesus levanta o rosto e olha para ela. Esboça um pálido sorriso, e diz:

– Deus te abençoe pela tua piedade. Oh! É bem necessária uma mãe, quando os sofrimentos tomam conta das forças do homem!

Jesus põe-se de pé. Olha ainda para a discípula e diz:

– Esta hora fica entre Mim e ti, em tudo o que acontecer. Para isso é que Eu vim na frente sozinho.

– Sim, Mestre. Mas Tu não podes ficar sozinho. Faze que tua Mãe venha.

– Daqui a dois meses Ela estará comigo…

528.3E já estava para dizer alguma outra coisa quando lá em baixo, na cozinha, ressoa a voz forte, sempre um pouco insolente, de Judas de Keriot:

– Ainda em teu entalhe, velho? Está fazendo frio! E aqui não há fogo. Estou com fome. Mas não há nada preparado. Será que Elisa está dormindo? Ela quis fazer por conta. Mas os velhos são vagarosos e a lembrança deles é fraca. Olá! Não dizes nada? Estás completamente surdo esta tarde?

– Não. Mas eu te deixo falar, porque tu és um apóstolo e não me convém fazer-te censuras –responde o velho.

– Censuras? Por quê?

– Procura em ti mesmo e acharás o porquê.

– A minha consciência não diz nada…

– É sinal de que ela está deformada ou que tu a mutilaste.

– Ah! Ah! Ah!

E Judas deve logo ter saído da cozinha, porque se ouve antes o bater de uma porta e depois o de uns pés na escada.

– Eu vou descer para preparar, Mestre.

– Vai, Elisa.

Elisa vai descendo do quarto de cima e logo se encontra com Judas, que já ia pondo o pé no terraço.

– Eu estou com frio e com fome.

– E com nada mais? Então, ainda estás com muito pouca coisa, homem.

– E que é que eu devia ter a mais?

– Ora! Muitas coisas!…

E a voz da Elisa vai ficando distante.

– São todos uns velhos estultos. Puxa!

528.4Ele empurra a porta, encontrando-se frente a frente com Jesus. Espantado, dá um passo para trás. Depois, cai em si, para dizer:

– Mestre, a paz esteja contigo!

– A paz esteja contigo, Judas.

Jesus recebe o beijo do apóstolo, mas não lhe retribui.

– Mestre, então não me beijas?

Jesus olha para ele e fica calado.

– É verdade. Eu errei. E não beijar-me é o mínimo que Tu me podias fazer. Mas não me julgues de modo severo demais. Naquele dia me pegaram no meio de alguns que… não te amavam, e eu discuti com eles até ficar rouco. Depois, eu disse: “Para onde Ele terá ido?”, e voltei até aqui para ficar te esperando. Afinal, já não é tua esta casa?

– Enquanto me concederem.

– Não irás guardar rancor de mim por isso?

– Não. Eu só quero que penses bem no exemplo que deste aos outros.

– Já estou ouvindo as tuas palavras. Mas eu tenho com que justificar-me junto a eles. Contigo não o faço, porque sei que já me perdoaste.

– Já te perdoei. É verdade…

De Judas seria de esperar um ato de humildade, de amor por tamanha bondade. Mas, ao contrário, ele faz um gesto completamente oposto, um gesto de cólera, enquanto exclama:

– Então, não há modo de ver-te irado? Que homem és Tu?

Jesus se cala. Judas, em pé, olha para Jesus, que está sentado de cabeça baixa, e sacode a cabeça com um sorriso mau sobre o lábio. E, para ele, o incidente terminou. E se põe a falar disto e daquilo, como se fosse o mais bem informado de todos.

Começa a anoitecer. Os rumores da rua vão cessando.

– Vamos descer –manda Jesus.

Entram pela cozinha, onde o fogo está brilhando e uma candeia de três bicos está acesa…

Jesus, cansado, vai sentar-se perto do fogão e, àquele agradável calor, parece cochilar.

528.5Batem à porta. O velho vai abrir. São os apóstolos. Pedro, que é o primeiro a entrar, vê Judas e o interpela:

– Pode-se saber onde tens estado?

– Aqui. Simplesmente aqui. Era uma bobagem ficar correndo para cá e para lá atrás de seres desaparecidos. Eu vim para cá onde estava certo de que voltaríeis.

– Bonito modo de agir.

– O Mestre não me censurou por isso. E, afinal, fica sabendo que eu não perdi o meu tempo. Evangelizei todos os dias e fiz até milagres. Isto é bom.

– E quem foi que te autorizou a fazer assim? –diz sério Bartolomeu.

– Ninguém. Nem tu nem ninguém. Mas basta ser dos… da… Em resumo: o povo fica admirado, murmura e se ri de nós, apóstolos, que não fazemos nada. E eu, que sou apóstolo, trabalhei por todos. E fiz ainda mais. Fui à casa de Elquias e lhe demonstrei que não se faz mal quando somos santos. Lá havia muita gente. Eu persuadi a todos. Vereis que aqui não nos perturbam mais. E agora estou contente.

Os apóstolos olham uns para os outros. Depois olham para Jesus. O rosto dele está incompreensível. Parece estar coberto por um grande cansaço físico. Só isso é que se vê.

– Mas podias fazer isso com a licença do Mestre –observa Tiago de Alfeu–, pois estávamos sempre pensativos por causa de ti.

– Ora, muito bem. Agora poderão ficar sossegados. Ele não me teria dado licença. Ele nos fica tutelando demais. E tanto, que o povo murmura, dizendo que Ele tem ciúme de nós, que tem medo que façamos mais do que Ele, e até que somos castigados por Ele. O povo tem uma língua mordaz. A verdade, porém, é que Ele nos considera mais queridos do que as pupilas de seus olhos. Não é verdade, Mestre? E teme que corramos perigo ou que causemos… má impressão. E nós também pensávamos, dentro de nós, que éramos uns castigados, e que Ele fosse um ciumento…

– Mas isso não! Eu nunca pensei nisso! –interrompe Tomé.

E os outros lhe fazem eco, menos Tadeu, que põe o seu olhar sincero e muito bonito nos olhos também bonitos de Judas, e diz:

– E como foi que tu pudeste fazer milagres? Em nome de quem?

– Como? Em nome de quem? Mas não te lembras de que Ele nos deu esse poder? Por acaso Ele no-lo terá tirado? Que eu saiba, não. E por isso…

– E por isso eu não me consentiria nunca fazer uma coisa sem o seu consentimento e ordem.

– Pois bem. Eu o quis fazer. Tinha medo de não saber mais como fazer. E o fiz. Estou feliz!

E corta a discussão, saindo para a horta escura.

Os apóstolos se viram para olhar. Estão surpresos por tão grande atrevimento. Mas nenhum deles tem coragem de dizer o que pode entristecer ainda mais o seu Mestre, que pelo rosto já mostra quanto está sofrendo.

Livram-se das sacolas que João, André e Tomé antes vinham carregando. E Bartolomeu, inclinando-se para apanhar um ramo seco que caiu de um feixe, sussurra a Pedro:

– Queira Deus que o demônio não o tenha ajudado!

Pedro faz um gesto com as mãos, como para dizer: “Misericórdia!”, e não diz mais nada. Vai até Jesus e pousa sua mão no ombro dele, perguntando-lhe:

– Estás muito cansado?

– Muito, Simão.

528.6– Já está pronto, Mestre. Vem para a mesa. Ou então… Não. Fica ali, perto do fogão. Eu te trarei o leite e o pão –diz Elisa.

E, de fato, tendo posto em uma bandeja uma boa tigela de leite quente e pão com mel, leva tudo a Jesus, e fica esperando que Ele reze de pé, oferecendo a comida. Depois ela se acocora no chão, a boa velha, muito maternal, toda cheia do desejo de consolá-lo, e lhe sorri, con-vidando-o a comer; e respondendo a Jesus, que docemente a censura, por causa do mel passado no pão:

– Eu te daria o meu sangue para fortalecer-te, Mestre meu! Este não é mais do que o pobre mel do meu jardim de Betsur, e só pode fortalecer-te o corpo. Mas o meu coração…

Os outros comem ao redor da mesa, com o bom apetite de quem caminhou muito. E Judas, tranquilo, arrogante, come com eles e ninguém fala, só ele.

Fala ainda quando Jesus diz:

– Cada um vá para as casas que vos hospedam. Ide. A paz esteja convosco.

Ficam com Ele Judas, Bartolomeu, Pedro e André.

E Jesus manda logo que todos vão repousar. Ele está mortalmente cansado, a tal ponto que nem pode aguentar o esforço para falar e ouvir falar. E, penso eu, o de suportar o esforço para dominar-se diante do que diz e faz Judas de Keriot.