632. 632. Aparições a várias pessoas em lugares diversos.


16-17 de abril de 1947.

I. Aparição à mãe de Anália.

632.1Elisa, a mãe de Anália, está chorando desconsoladamente em sua casa, fechada num quartinho onde há uma cama sem coberta nenhuma, que talvez tenha sido de Anália. Está com a cabeça abandonada nos braços, que por sua vez estão abandonados, estendidos sobre a cama como se quisesse abarcá-la toda. O corpo está apoiado sobre os joelhos numa posição de quem está prostrado. De vigoroso nela, há somente o pranto.

Pouca é a luz que entra pela janela aberta. O dia surgiu de novo há pouco tempo, mas uma luz viva se fez quando Jesus entrou.

Eu digo: “Quando Jesus entrou,” para dizer que Ele está no quarto, e que não estava antes. E direi sempre assim para expressar o seu aparecimento em um lugar fechado, sem ficar repetindo que Ele aparece por trás de uma grande luminosidade que me faz lembrar daquela luz da Transfiguração, por detrás de um fogo brando — se me é permitida a comparação — que parece liquefazer as paredes e portas para permitir que Jesus entre com o seu verdadeiro Corpo, respirando, com seu Corpo sólido, mas agora glorificado; um fogo, uma luminosidade que se concentra sobre ele e que o esconde quando Ele vai embora. Mas depois Ele retoma o seu belíssimo aspecto de Ressuscitado, como Homem, verdadeiro homem, mas com uma beleza cem vezes maior do que aquela que Ele já tinha, antes da Paixão. É Ele, mas é Ele glorioso, Rei.

632.2– Por que choras, Elisa?

Não sei como foi que a mulher não reconheceu aquela Voz inconfundível. Talvez porque a dor a entorpeceu. Ela responde como se estivesse falando a um parente que talvez a tenha encontrado depois da morte de Anália.

– Ouviste ontem de tarde aqueles homens? Ele não era nada. Era um poder mágico, mas não divino. E eu me resignava com a morte da minha filha, pensando que ela fosse amada por um Deus, em paz… Ela me havia dito!

E chora ainda mais fortemente.

– Mas muitas pessoas já o viram ressuscitado. Somente Deus é que pode, por Si mesmo, ressuscitar-se.

– Eu também disse isso aos que estavam reunidos ontem. E tu o ouviste. Eu combati as palavras deles. Porque as palavras deles eram a morte da minha esperança. Mas eles — tu não ouviste? — eles disseram: “Foi tudo uma comédia dos seguidores dele, para não confessarem que eram uns doidos. Ele está morto e bem morto, já está podre, e eles o roubaram e destruíram, dizendo que Ele ressuscitou.” Assim disseram eles… E por isso é que o Altíssimo mandou o segundo terremoto, para fazê-los experimentar a sua ira por causa da mentira sacrílega deles. Oh! Eu não tenho mais conforto!

– Mas se tu visses o Senhor ressuscitado, se o visses com os teus olhos e o apalpasses com as tuas mãos, tu crerias?

– Eu não sou digna disso… Mas certamente eu creria. Para mim bastaria vê-lo. Eu não ousaria tocar em sua carne, porque, se assim fosse, seriam carnes divinas, e uma mulher não pode aproximar-se do Santo dos Santos.

632.3– Levanta a cabeça, Elisa, e olha Quem está diante de ti!

A mulher levanta a cabeça encanecida, o rosto desfigurado pelo pranto, e olha… Ela cai ainda mais para baixo sobre os calcanhares, esfrega os olhos, abre a boca para um grito que quis sair, mas que o espanto sufocou na garganta.

– Sou Eu. O Senhor. Toca em minha Mão. Beija-a. Tu me sacrificaste tua filha. Tu o mereces. Mereces achar de novo, sobre esta Mão, um beijo espiritual de tua filha. Ela está no Céu. Está feliz. Dirás isso aos discípulos, ainda no dia de hoje.

A mulher está tão fascinada, que nem ousa fazer o gesto, e é o próprio Jesus que lhe aperta sobre os lábios as pontas dos seus dedos…

– Oh! Tu ressuscitaste mesmo! Que feliz que eu sou! Bendito sejas Tu que me consolaste!

Ela se inclina para beijar-lhe os pés, e o faz, ficando naquela posição. A luz sobrenatural envolve o Cristo em seu esplendor, e o quarto fica sem Ele. Mas a mãe está com o coração cheio de uma firme certeza.

II. Aparição a Maria de Simão em Keriot, com Ana, mãe de Joana e o velho Ananias.

632.4É a casa de Ana, mãe de Joana. É a casa de campo na qual Jesus, acompanhado pela mãe de Judas, realizou o milagre1 de curar Ana.

Também aqui há um quarto e alguém doente que jaz sobre um leito. Uma pessoa que está irreconhecível de tão desfigurada, por uma angústia mortal. O rosto está desfeito. A febre a consome, avermelhando as maçãs do rosto, que estão tão mais salientes devido às bochechas encovadas. Os olhos, perdidos em um círculo escuro, vermelhos de febre e de pranto, estão semicerrados sob as pálpebras inchadas. Lá onde não há vermelhidão de febre, há uma amarelado intenso, esverdeado, como se a bílis tivesse se espalhado pelo sangue. Os braços descarnados estão abandonados sobre as cobertas que se movimentam pelo arquejar apressado.

Ao lado da doente, que não é outra pessoa senão a mãe de Judas, está Ana, mãe de Joana. Esta vai enxugando as lágrimas e o suor, agitando um leque de palma, faz a troca das peças molhadas em um vinagre aromatizado sobre a fronte e a garganta da enferma, acariciando-lhe as mãos, os cabelos soltos, que em pouco tempo se tornaram mais brancos do que pretos, espalhados por sobre o travesseiro e colados pelo suor por cima das orelhas, que já se tornaram transparentes. E Ana também chora, dizendo-lhe palavras de conforto:

– Não fiques assim, Maria! Assim, não! Basta! Ele… ele pecou. Mas tu, tu sabes que o Senhor Jesus…

– Cala-te! Esse nome… a mim… dito a Mim… se profana… Eu sou a mãe… do Caim… de Deus! Ah!

O pranto silencioso se muda em um já extenuado e dilacerante soluço. Ela se sente sufocar e agarra-se ao pescoço da amiga, que está procurando socorrê-la na hora do vômito bilioso que lhe sai da boca.

– Paz! Paz, Maria! Assim, não! Oh! Que é que deverei dizer-te a fim de persuadir-te que Ele, o Senhor, te ama? Eu repito! Juro-te pelas coisas para mim mais santas: o meu Salvador e a minha filha. Ele me disse isto, quando tu o trouxeste a mim. Ele teve para contigo palavras e previdências de um amor infinito. Tu és inocente. Ele te ama. Eu tenho certeza de que Ele daria a Si mesmo uma vez mais a fim de trazer-te paz, ó pobre mãe mártir.

– Mãe do Caim de Deus! Estás ouvindo aquele vento lá fora? Ele está dizendo…E pelo mundo afora a voz… a voz do vento está dizendo: “Maria de Simão, mãe de Judas, aquele que traiu o Mestre e o entregou aos que o crucificaram’. Estás ouvindo? Tudo o diz… o rio, lá fora… as rolas… as ovelhas…Toda a Terra grita quem eu sou… Não. Não quero sarar. Eu quero morrer!… Deus é justo e não me ferirá na outra vida. Mas aqui, não. O mundo não me perdoa… não faz distinções… Eu enlouqueço, porque o mundo não cessa de gritar: ‘Tu és a mãe de Judas!”

E ela torna a cair exausta sobre os travesseiros. Ana a ajeita e sai, levando lá para fora os panos sujos…

Maria, com os olhos fechados, exausta depois de todo o esforço que fez, geme:

– A mãe de Judas! De Judas! De Judas!

Ela fica ofegante, e depois recomeça:

Mas quem é Judas? Quem foi que eu dei à luz? Que é Judas? O que eu…

632.5Jesus está no quarto, iluminado por uma lamparina tremulante, porque é ainda muito fraca a luz do dia para iluminar o quarto amplo, no qual a cama fica no fundo, bem distante da única janela. Ele a chama com doçura:

– Maria! Maria de Simão!

A mulher está quase delirando e não ouve aquela voz. É como se ela estivesse ausente, arrebatada pelos redemoinhos de sua dor, e fica repetindo as ideias que tomaram conta do seu cérebro, monotonamente, como o tique-taque de um pêndulo:

– A mãe de Judas! O que foi que eu gerei? O mundo grita: “A mãe de Judas.”

Jesus tem duas lágrimas no canto de cada um de seus olhos dulcíssimos. E elas me fizeram ficar muito admirada. Eu não pensava que Jesus pudesse ainda chorar, depois de ter ressuscitado… Ele se inclina. A cama é tão baixa para Jesus, que é tão alto! Ele põe a mão sobre aquela fronte febril, afastando as peças umedecidas pelo vinagre, e diz:

– Um infeliz… É isso, e nada mais. Se o mundo grita, Deus cobre o grito do mundo, dizendo-te: “Tem a paz, porque Eu te amo!” Olha para Mim, pobre mãe! Recolhe o teu espírito desnorteado e coloca-o nas minhas mãos. Eu sou Jesus!…

Maria de Simão abre os olhos como se estivesse saindo de um íncubo e vê o Senhor, sente a mão Dele sobre sua fronte, leva as mãos trêmulas ao rosto e geme:

– Não me amaldiçoes! Se eu tivesse sabido o quê iria gerar, teria arrancado minhas vísceras para impedir que ele nascesse.

– Mas assim terias pecado. Maria! Oh! Maria. Não saias de tua justiça por causa da culpa de um outro. As mães que cumpriram sua tarefa não devem considerar-se responsáveis pelos pecados dos filhos. Tu fizeste o teu dever, Maria. Dá-me as tuas pobres mãos. E fica tranquila, pobre mãe.

– Eu sou a mãe de Judas. Sou imunda, como tudo aquilo que foi tocado por aquele demônio. Mãe de um demônio! Não toques em mim.

Ela se esforça para escapar das Mãos divinas que a querem tocar.

As duas lágrimas de Jesus caem sobre o rosto dela, que está ardendo de febre.

– Eu te purifiquei, Maria. O meu pranto de piedade está sobre ti. Sobre ninguém Eu chorei, desde quando Eu consumei a minha dor. Mas sobre ti Eu choro, com toda a minha amorosa piedade.

E tendo conseguido segurar-lhe as mãos, Jesus se assenta, sim, isso mesmo, se assenta à beira da pequena cama, conservando entre as suas aquelas duas mãos trêmulas.

A piedade amorosa dos seus fúlgidos olhos acaricia, enfaixa, trata da infeliz que vai-se acalmando, chorando em silêncio, e que murmura:

– Não tens rancor de mim?

– O que eu tenho é amor. E vim aqui para isso. Tem paz!

– Tu me perdoas. Mas e o mundo? E a tua Mãe? Ela me odiará.

– Ela pensa em ti como se pensa numa irmã. O mundo é cruel. É verdade. Mas minha Mãe é Mãe do Amor, e é boa. Tu não podes andar pelo mundo, mas Ela virá a ti quando tudo estiver em paz. O tempo traz a paz…

– Faze-me morrer, se me amas…

– Espera um pouco. O teu filho não soube dar-me nada. Mas tu, dá-me um tempo do teu sofrimento. Será breve.

– Meu filho te deu demais…Ele te deu um horror infinito.

– E Tu, a dor infinita. O horror já passou. Não serve mais. Mas a tua dor serve. Ela se une a estas minhas chagas, e as tuas lágrimas unidas ao meu Sangue lavam o mundo. As tuas lágrimas estão entre o meu Sangue e o pranto de minha Mãe, e ao redor de tudo isso estão a dor dos santos, que sofreram por Cristo e pelos homens, por amor a Mim e aos homens. Pobre Maria!

Jesus a acomoda docemente, cruza as mãos dela, e fica olhando enquanto ela se acalma…

632.6Ana retorna e fica perplexa na soleira da porta.

Jesus, que se levantou, olha para ela, dizendo:

– Obedeceste ao meu desejo. Para as obedientes há paz. Tua alma me compreendeu. Vive na minha paz.

Torna a baixar os olhos sobre Maria de Simão, que está olhando para Ele em meio às lágrimas que fluem mais calmas, e ainda lhe sorri. E lhe diz ainda:

– Põe todas as tuas esperanças no Senhor. Ele te dará todas as suas consolações.

Ele a abençoa e faz como quem quer ir-se embora.

Maria de Simão dá um grito apaixonado:

– Dizem que meu filho te traiu com um beijo! É verdade, Senhor? Se for verdade, deixa que eu o lave, beijando-te as Mãos. Nada mais posso fazer! Não posso fazer mais nada para cancelar…

E a dor se apodera dela com mais força.

Jesus, oh! Jesus não lhe dá as mãos a beijar, aquelas mãos sobre as quais a larga manga da veste cândida recai até à metade do metacarpo, escondendo as feridas, mas lhe toma a cabeça entre as mãos e se inclina para roçar com seus lábios divinos a fronte afogueada da mais infeliz de todas as mulheres, e lhe diz, ao erguer-se: – As minhas lágrimas e o meu beijo! Ninguém recebeu tanto de Mim. Portanto, fica na confiança de que entre Mim e ti só existe amor–. Ele a abençoa e, tendo atravessado o quarto velozmente, passa por trás de Ana, que não teve coragem de ir para a frente nem de falar, mas que está chorando, emocionada.

632.7Porém, quando estão no corredor que conduz à porta de casa, Ana ousa falar, e faz a pergunta que está em seu coração:

– E a minha Joana?

– Há quinze dias que ela já goza no Céu. Eu não o quis dizer lá, porque o contraste é grande demais entre a tua filha e o filho dela.

– É verdade! Que grande tormento. Eu creio que ela morrerá!

– Não. Ela não vai morrer logo.

– Mas agora ela terá mais paz. Pois Tu a consolaste. Tu! Que mais do que todos…

– Eu, que mais do que todos, me compadeço dela. Eu sou a divina Compaixão. Eu sou o Amor. E Eu te digo, mulher: se Judas me tivesse lançado, ainda que só um olhar de arrependimento, Eu lhe teria obtido o perdão de Deus…

Que tristeza no rosto de Jesus!

A mulher fica impressionada. As palavras e os momentos de silêncio estão em combate sobre os seus lábios, mas ela é mulher, e a curiosidade a vence. Ela pergunta:

– Mas aquilo foi uma… um… Sim, eu quero dizer: aquele infeliz pecou repentinamente ou…

– Havia meses que ele vinha pecando, e nenhuma palavra minha, nenhum ato meu valeu para freá-lo, de tão forte que era a vontade dele de pecar. Mas não contes isso a ela

– Não contarei…! Senhor! Que hora terrível quando Ananias, tendo fugido de Jerusalém, mesmo antes de terminar a Páscoa, mesmo na noite da Parasceve, entrou aqui gritando: “O teu filho traiu o Mestre e o entregou aos seus inimigos! Ele o traiu com um beijo. E eu vi o Mestre sendo espancado e escarrado, flagelado, coroado de espinhos, carregado com a cruz, crucificado e morto, por obra do teu filho. E o nosso nome foi gritado de um modo triunfal e obsceno pelos inimigos do Mestre, e vão narrando as proezas do teu filho, o qual, por muito menos do que custa um cordeiro, vendeu o Messias e, com um beijo traiçoeiro, fez que os guardas ficassem sabendo qual era o que devia ser preso!” Maria caiu por terra, com suas feições enegrecidas de repente, e o médico diz que a bílis se espalhou depois que o fígado dela estourou, e que todo o sangue ficou contaminado. E… o mundo é mau. Ela tem razão… Eu tive que transportá-la para cá, porque todos estavam indo para perto da casa dela em Keriot, e ficavam gritando: “O teu filho é deicida e suicida!Ele se enforcou! E Belzebu já agarrou a alma dele, e Satanás já tomou para si até mesmo o corpo dele.” Será verdade um prodígio horrendo como este?

– Não, mulher. Ele foi encontrado morto, pendurado em uma oliveira…

– Ah! E eles gritavam: “Cristo ressuscitou e é Deus. Teu filho traiu Deus. Tu és a mãe do traidor de Deus. Tu és a mãe de Judas.” De noite, com Ananias e um servo fiel, o único que eu ainda pude ter comigo, porque ninguém queria ficar perto dela… eu a trouxe até aqui. Mas Maria escuta aqueles gritos no vento, no barulho do chão, em tudo.

– Pobre mãe! Isto é horrível, sim.

– Mas será que aquele demônio não pensou nisso, Senhor?

– Era esta uma das razões das quais Eu fazia uso a fim de fazê-lo pensar. Mas de nada valeram. Judas chegou a odiar Deus, não tendo nunca amado com verdadeiro amor nem o pai, nem a mãe, e nenhum outro que fosse seu próximo.

– É verdade.

– Adeus, mulher. Que a minha bênção te conforte e te ajude a suportar os escárnios do mundo pela piedade que tu tens para com Maria. Beija a minha mão. A ti Eu a posso mostrar. A ela teria feito muito mal ver isso.

Ele puxa para trás a manga a fim de mostrar o pulso traspassado.

Ana dá um gemido, enquanto roça apenas os lábios nas pontas dos dedos.

632.8Ouve-se o barulho de uma porta que se abre e um grito sufocado:

– O Senhor!

Um homem já idoso se prostra e fica nessa posição.

– Ananias, o Senhor é bom. Ele veio para confortar a tua parenta e para confortar a nós também –diz Ana, a fim de confortar também o velhinho em sua emoção, que é grande demais.

Mas o homem não tem coragem de fazer nenhum movimento. E chora, dizendo:

– Nós somos de um sangue horripilante. Eu não posso nem olhar para o Senhor.

Jesus, então, vai até ele. E toca na cabeça dele, dizendo as mesmas palavras que disse a Maria de Simão:

– Os parentes que cumpriram o seu dever não precisam considerar-se responsáveis pelo pecado de seu parente. Cria coragem, ó homem! Deus é justo. A paz esteja contigo e com esta casa. Eu vim, e tu irás para onde Eu te mandar. Pela Páscoa suplementar, os discípulos estarão em Betânia. Tu irás a eles e lhes dirás que no duodécimo dia de Sua morte, tu viste o Senhor em Keriot, vivo e verdadeiro, em Corpo, Alma e Divindade. Eles acreditarão, porque Eu já tenho estado muito com eles. Mas o fato de saber que estou em todos os lugares, no mesmo dia os confirmarás na fé a respeito de minha natureza Divina. Mas, antes disso, irás hoje mesmo a Keriot pedindo ao Sinagogo que reúna o povo, e tu dirás, na presença de todos, que Eu vim aqui, e que eles se lembrem daquelas minhas palavras ditas na despedida2. Certamente eles te irão dizer: “Por que é que Ele não chegou até nós?” E tu responderás assim: “O Senhor me disse que vos falasse que se tivésseis feito o que ele vos tinha mandado fazer para com a mãe sem culpa, Ele teria se mostrado. Vós faltastes com o amor, e foi por isso que o Senhor não se mostrou…” Tu farás isso?

– É difícil isso, Senhor! Coisa difícil de fazer-se! Todos nos consideram uns leprosos de coração… O Sinagogo me ouvirá nem me deixará falar ao povo. Talvez mandará que me espanquem. Contudo, eu vou fazê-lo, porque Tu o queres.

O velhinho não levanta a cabeça. Mas fala estando inclinado e em profunda prostração.

– Olha para Mim, Ananias!

O homem, todo trêmulo, levanta o rosto cheio de veneração.

Jesus está fulgente e belo, como lá sobre o Tabor… A luz o cobre, escondendo o seu aspecto e o seu sorriso… E Ele não é mais visto no corredor, sem que nenhuma porta se tenha movido para dar-lhe passagem.

Os dois adoram, e continuam adorando, fazendo juntos uma adoração daquela manifestação divina.

III. Aparição às crianças em Juta, com a mãe Sara.

632.9É o pomar da casa de Sara. As crianças estão brincando embaixo das árvores frondosas. O menor deles está rolando na grama, ao lado de uma fileira viçosa de videiras, enquanto os maiores correm uns atrás dos outros, gritando como andorinhas em festa, brincando de esconde-esconde por detrás das sebes e das videiras.

Jesus, ei-lo que aparece ao lado de um pequenino ao qual Ele deu o nome3. Oh! Que simplicidade a dos inocentes! Jesai não se espanta por vê-lo lá de repente, mas lhe estende os bracinhos para que Jesus o pegue no colo, e Jesus o pega: e os gestos dos dois acontecem com a maior naturalidade.

Os outros chegam correndo e — mais uma vez, feliz simplicidade das crianças! — sem se espantarem, aproximam-se Dele, felizes. Parece que nada mudou para eles. Talvez eles ainda não saibam. Mas depois das carícias de Jesus a cada um deles, Maria, a maiorzinha e a mais ajuizada, diz:

– Então, não estás sofrendo mais, Senhor, agora que ressuscitaste? Eu senti uma grande dor!…

– Agora Eu não sofro mais. Eu vim para abençoar-vos, antes de subir até o meu Pai, e vosso Pai, que está no Céu. Mas também de lá Eu vos abençoarei sempre, se fordes sempre bons. E vós ireis dizer àqueles que me amam que Eu deixei-vos a minha bênção hoje. Lembrai-vos deste dia.

632.10– Não entras em casa? A mamãe está lá. Não acreditarão em nós

–diz ainda Maria.

Mas o irmão dela não pergunta. Ele grita:

– Mamãe, mamãe! O Senhor esta aqui!… –e, correndo para casa, vai repetindo aquele grito.

Sara chega correndo, e olha… ainda em tempo de ver Jesus, muito belo, lá no limite do pomar, que desaparece na luz que o absorve…

– O Senhor! Mas por que não me chamaram antes?… –diz Sara, logo que consegue falar–. Mas, quando? De onde foi que Ele veio? Estava sozinho? Que tolos que vós sois!

– Nós o encontramos aqui. Um minuto antes Ele não estava aqui… Da estrada Ele não veio, muito menos do pomar. E estava com Jesai nos braços… E nos disse que veio para abençoar-nos e dar a bênção para aqueles que o amam em Juta, e para nos lembrarmos deste dia. E agora vai para o Céu. Mas nos quer bem se formos bons. Como Ele estava bonito! Estava com as mãos feridas. Mas as feridas não doem mais. Até seus pés estavam feridos. Eu os vi no meio da grama. Aquela flor lhe estava tocando justamente na ferida de um dos pés. E eu vou colhê-la…

Falam todos ao mesmo tempo, cheios de emoção. Estão até suados pelo contentamento de dizer aquilo.

Sara os acaricia, murmurando:

– Deus é grande! Vamos, vinde! Vamos dizer isso a todos. Falai vós, que sois inocentes. Vós podeis falar de Deus.

IV. Aparição ao jovenzinho Jáia, em Pela.

632.11O jovenzinho está trabalhando intensamente ao redor da carroça. Está carregando nela as verduras que foram colhidas numa horta ali perto. O burrinho bate as patas no chão duro daquela estrada de chão batido.

Ao virar-se para apanhar um cesto de alface, vê Jesus, que lhe está sorrindo. Deixa, então o cesto no chão, ajoelha-se, esfregando os olhos para poder enxergar melhor, e murmura:

– Senhor Altíssimo, não deixes que a ilusão me arraste! Não permitas, Senhor, que eu esteja sendo enganado por Satanás com falsas aparências sedutoras. Pois está bem morto o meu Senhor! Já foi sepultado e agora dizem que o seu cadáver foi roubado. Piedade, Senhor Altíssimo! Mostrai-me a Verdade.

– Eu sou a Verdade, Jáia. Eu sou a Luz do mundo. Olha para Mim. Procura ver-me. Eu te restituí a vista4 para isso, para que tu pudesses dar testemunho do meu poder e da minha Ressurreição.

– Oh! É o Senhor mesmo! És Tu! Sim! Tu és Jesus!

E ele vai até Jesus arrastando-se sobre os joelhos para poder beijar-lhe os pés.

– Tu dirás que me viste e falaste comigo, e que Eu estou bem vivo. Dirás que me viste hoje. A ti a minha paz e a minha bênção.

Jáia fica sozinho. Mas está feliz. Esqueceu-se até da carroça e das verduras. Inutilmente o burro, irrequieto, bate no chão, ou zurra, reclamando pela longa espera… Jáia está extasiado.

632.12Uma mulher sai da casa que fica perto da hora e o vê lá, pálido de emoção e com a expressão ausente. Grita:

– Jáia! O que tens? O que te aconteceu?

Corre até lá e o sacode. E o faz voltar a si…

– O Senhor! Eu vi o Senhor Ressuscitado. Eu beijei-lhe os pés e vi suas chagas. Eu fiquei com medo de estar enganado. Mas é Ele! É Ele mesmo!

A mulher treme, com um arrepio de emoção, e murmura:

– Tens mesmo certeza disso?

– Tu és uma boa mulher. Por amor a Ele foi que nos tomaste como servos, a mim e à minha mãe. Não queiras deixar de crer!…

– Se tu tens certeza, eu creio. Mas Ele era de carne e ossos mesmo? Seu corpo tinha calor? Ele respirava? Falava? Ele tinha mesmo uma voz, ou só te pareceu que tinha?

– Eu tenho certeza… Ele tinha a carne tépida de um vivo, tinha uma voz verdadeira e estava respirando. Belo como Deus, mas Homem, como eu e tu. Vamos, vamos logo dizer tudo isso aos que estão sofrendo ou duvidando.

V. Aparição na casa de João, em Nobe.

632.13O velho está sozinho em sua casa. Mas está sereno. Está consertando uma espécie de cadeira que se despregou de um lado, e sorri, quem sabe por qual sonho.

Ouve alguém bater à porta. Sem deixar o trabalho, o velho diz:

– Pode entrar. Que desejais, vós que estais chegando? Ainda pensais como aqueles? Eu estou velho para mudar! E mesmo se o mundo inteiro me gritasse: “Ele morreu,” eu digo: “Ele está vivo.” Mesmo se eu tivesse que morrer por dizer isso. Portanto, podeis entrar!

Levanta-se para ir até a porta, para ver quem é que está batendo sem entrar. Mas, quando chega lá, a porta se abre e Jesus entra.

– Oh! Oh! Oh! O meu Senhor! Vivo! Eu acreditei! E Ele vem premiar a minha fé! Sê bendito! Eu não duvidei. Na minha dor, eu disse: “Se Ele me mandou o cordeiro5 para o banquete da alegria, é sinal que neste dia Ele ressurgirá.” Então, eu entendi tudo. Quando tu morreste e a terra tremeu, eu entendi aquilo que ainda não havia entendido. E fiquei parecendo um doido, em Nobe, porque, assim que terminou o dia depois daquele sábado, eu preparei o banquete e fui convidar os mendigos, dizendo: “Ressurgiu o nosso Amigo!” E já se dizia que não era verdade. Diziam que te haviam roubado, de noite. Mas eu não acreditei, porque, desde quando Tu morreste, eu compreendi que morrias para ressurgir, e que este era o sinal de Jonas.

632.14Jesus o deixa falar enquanto fica sorrindo. Depois pergunta:

– E ainda queres morrer6 ou queres ficar para testemunhar a minha glória?

– O que Tu quiseres, Senhor!

– Não. O que tu quiseres.

O velhinho fica pensando. Depois decide:

– Seria belo sair do mundo, onde Tu não estás mais como antes. Mas eu renuncio a paz do Céu para poder dizer aos incrédulos: “Eu o vi!”

Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça, abençoando-o, e acrescenta:

– Mas logo virá também a paz, e tu virás a Mim com o grau de confessor do Cristo.

E lá se vai. Aqui, talvez por piedade do velho já idoso, não deu aquela forma maravilhosa ao seu aparecer e desaparecer, mas fez tudo como se fosse o Jesus de tempos atrás, que entrava e saía de uma casa de um modo humano.

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VI. Aparição a Matias, o solitário, junto a Jabes de Galaad.

632.15O velho está trabalhando com suas verduras e fala sozinho:

– Todas as riquezas que tenho são para Ele. E Ele não as aproveitará nunca mais. Trabalhei inutilmente. Eu creio que Ele era o Filho de Deus, que morreu e ressuscitou. Mas não é mais o Mestre que se assenta à mesa do pobre ou do rico, e reparte com o mesmo amor, talvez, aliás, com certeza, com mais amor o alimento do pobre do que o do rico. Agora Ele é o Senhor Ressuscitado. Ressuscitou para confirmar na fé todos nós, seus fiéis. E aqueles lá estão dizendo que não é verdade. Que nunca ninguém ressuscitou por si só. Ninguém. Não. Nenhum homem. Mas Ele sim. Porque Ele é Deus.

Ele bate as mãos para espantar os seus pombos, que descem para apanhar as sementes que estão na terra, que foi preparada e semeada há pouco, e diz:

– É inútil que vós tenhais muitos filhotes! Ele não provará mais da carne da vossa prole! E vós, ó abelhas inúteis? Para quem é que fazeis o vosso mel? Eu tinha esperado tê-lo comigo pelo menos uma vez, agora que eu estou menos miserável. Tudo tem prosperado aqui, depois da vinda Dele… Ah! Mas com aqueles denários, em que eu nunca toquei, eu quero ir a Nazaré, à casa de sua Mãe, para dizer-lhe: “Faze-me teu servo, mas deixa-me aqui onde estás, por que Tu és Ele ainda…”

E enxuga uma lágrima com o dorso da mão…

632.16– Matias, tens um pão para um peregrino?

Matias levanta a cabeça, mas assim de joelhos como ele está, não vê quem foi que falou do outro lado da sebe alta que rodeia a sua pequena propriedade, perdida no meio daquela solidão verde que é este lugar do outro lado do Jordão. Mas, assim mesmo, ele responde:

– Seja lá quem tu fores, vem em Nome do Senhor Jesus.

E ele se levanta para ir abrir o tapume.

Encontra-se diante de Jesus e fica com a mão no ferrolho, sem conseguir fazer mais nenhum gesto.

– Não me queres como teu hóspede, Matias? Já me recebeste uma vez7. Te lamentavas de não podê-lo mais fazer. Estou aqui e não me abres a porta? –sorri Jesus.

– Oh! Senhor…eu…eu… não sou digno de que o meu Senhor entre aqui… Eu…

Jesus passa a mão sobre o tapume e puxa o ferrolho, dizendo:

– O Senhor entra onde quer, Matias.

Depois Ele entra, vai para o meio da humilde horta, vai até à casa, e na soleira Ele diz:

– Sacrifica, então, os filhotes dos teus pombos, levanta do chão as tuas verduras e o mel de tuas abelhas. Partiremos juntos o pão, e não terá sido inútil o teu trabalho nem ficará vazio o teu desejo. E este lugar ficará sendo um lugar querido, sem que precises ir para lá, onde logo só haverá silêncio e abandono. Eu estou em toda parte, Matias. Quem me ama está comigo sempre. Os meus discípulos ficarão em Jerusalém. Lá surgirá a minha igreja. Procura estar lá na Páscoa Suplementar.

– Perdoa-me, Senhor. Mas eu não fui capaz de ficar naquele lugar e fugi de lá. Eu havia chegado lá à nona hora do dia antes da Parasceve, e um dia depois… Oh! Eu fugi para não te ver morrer. Só por isso, Senhor.

– Eu sei. E sei que tu voltaste, um dos primeiros, a fim de chorar sobre o meu sepulcro. Mas ele já estava vazio de Mim. Eu sei tudo. Aí está. Eu aqui me assento e repouso. Sempre repousei aqui. E os anjos sabem disso.

632.17O homem começa a movimentar-se, mas parece que está se movendo numa igreja, de tão reverentes que são os seus gestos. De vez em quando, enxuga uma lágrima que quer se misturar com o seu sorriso, enquanto vai e vem para pegar as pombas, matá-las, prepará-las, fazer o fogo, colher e enxaguar as verduras, colocar num prato os figos maduros, preparar a pobre mesa com as melhores louças. Mas quando tudo está pronto, como pode se sentar e comer? Quer só servir, e parece-lhe já tanto, não quer mais nada.

Mas Jesus, que ofereceu e abençoou, oferece-lhe metade da ave, que Ele mesmo cortou, colocando a carne em um pedaço de focaccia que embebeu no molho.

– Oh! Tratado como um predileto! –diz o homem, e come, chorando de alegria e emoção, sem tirar os olhos de Jesus, que está comendo… que bebe, que saboreia as verduras, as frutas, o mel, e que lhe oferece o seu cálice depois de ter tomado um gole de vinho. Até aquele momento, ele havia tomado somente água.

A refeição terminou.

– Eu estou bem vivo. Tu o estás vendo. E tu estás bem feliz. Lembra-te de que, há doze dias, eu estava morrendo pela vontade dos homens. Mas, como é nulo o querer dos homens quando o querer de Deus não o consente. Antes, pelo contrário, o querer dos homens, um instrumento servil, torna-se um Querer eterno. Adeus, Matias. Assim como Eu disse que comigo estará quem me deu de beber quando eu era o Peregrino, sobre o qual ainda era lícita qualquer dúvida, assim Eu te digo: tu terás parte no meu Reino celeste.

– Mas agora eu vou perder-te, Senhor!

– Em todo peregrino procura ver-Me; em todo mendigo, vê-Me; em todo enfermo, vê-Me; em todo aquele que precisa de pão, de água, de roupa, vê-Me nele. Eu estou em cada sofredor, e o que é feito ao que sofre, é feito a Mim.

Jesus abre os braços, abençoando, e desaparece.

VII. Aparição a Abraão de Engadi, que lhe morre entre os braços.

632.18Na praça de Engadi se vê o templo hipostilo de palmas rumorejantes. A fonte parece um espelho sob o sol de abril. As pombas, um murmúrio suave de órgão.

O velho Abraão a atravessa, com as ferramentas do seu ofício nas costas. Está ainda mais velho, mas sereno como quem encontrou alívio depois de muitas tempestades. Ele vai atravessando também o resto da cidade, para ir às vinhas que ficam perto das fontes. As belas vinhas fecundas já estão cheias de promessas de uma colheita abundante. Ele entra pelo meio delas e se põe a carpir, a podar e a amarrar. De vez em quando, ele se ergue, apoia-se no cabo da enxada e fica pensando. Depois alisa a barba patriarcal, suspira, balança a cabeça com algum pensamento invisível.

Um homem muito encapotado vem subindo pela estrada, a caminho das fontes e das vinhas. Eu disse: um homem. Mas é Jesus, porque a veste dele é aquela e também porque é dele aquele modo de andar. Mas para o velho é um homem. E aquele homem interpela Abraão, dizendo:

– Posso parar aqui?

– Sagrada é a hospitalidade. Nunca a recusei a ninguém. Vem. Entra. Que seja doce para ti o repouso à sombra de minhas videiras. Queres leite? Pão? Eu te darei o que possuo aqui.

– E eu que é que te posso dar? Não tenho nada.

– Aquele que é o Messias me deu tudo, para todos os homens. E por mais que eu dê, não dou nada em comparação com aquilo que Ele me deu.

– Sabes que o crucificaram?

– Sei que Ele ressuscitou. Serás tu um dos crucificadores? Eu não posso odiar, porque Ele não quer saber de ódio. Mas se eu pudesse, te odiaria se tu o fosses.

– Eu não sou um dos crucificadores. Fica em paz. Então tu sabes tudo sobre Ele?

– Tudo. E Eliseu… É o meu filho, sabes? Eliseu não voltou mais de Jerusalém, dizendo: “Despede-te de mim, meu pai, pois eu vou deixar todos os bens para pregar o Senhor. Eu irei a Cafarnaum procurar João e me unirei aos discípulos fiéis.”

– Então, o teu filho te deixou? Assim idoso e sozinho?

– É a alegria tão sonhada o que chamas de abandono. Pois a lepra não me havia privado dele? E quem foi que o restituiu a mim? O Messias. E eu irei perdê-lo porque ele prega o Senhor? Isso não! 632.19Eu o encontrarei também na vida eterna. Mas tu falas de um modo que me causa suspeita. És um emissário do Templo? Vens para perseguir quem acredita no Ressuscitado? Podes bater-me! Não fugirei. Não imito os três sábios8 de tempos longínquos. Eu fico aqui. Porque, se eu cair por Ele, o reencontrarei no Céu, e será atendido o meu pedido do ano passado.

– É verdade. Tu dizias naquele tempo: “Esperei ansiosamente o Senhor e ele dirigiu-se a mim.”

– Como sabes disso? Serás tu um dos discípulos dele? Estavas com Ele quando fiz o meu pedido? Oh! Se estavas! Ajuda-me a fazer que chegue a Ele o meu pedido, para que Ele se lembre.

E ele se prostra, julgando que está falando a um dos apóstolos.

– Sou eu, Abraão de Engadi, e te digo: “Vem.”

E Ele abre os braços. E Jesus, manifestando-se, o convida a precipitar-se neles e a abandonar-se em seu coração.

Naquele momento está entrando na vinha um menino, acompanhado por um jovenzinho, e que está chamando:

– Pai! Pai! Viemos para ajudar-te.

Mas o grito agudo do menino, dominado pelo grito forte do velho, foi um verdadeiro grito de libertação:

– Estou aqui! E já vou!

E Abraão se joga entre os braços de Jesus, gritando ainda:

– Jesus, Messias Santo! Em tuas mãos eu encomendo o meu espírito!

Morte feliz! Morte que eu invejo. Sobre o coração de Cristo, na paz serena de um campo florido em um mês de abril.

632.20Jesus apoia com calma o velho na grama florida, que ondula ao sopro da brisa, aos pés de um fuso, e diz aos meninos, que ficaram perplexos e assustados, quase a ponto de chorar:

– Não choreis! Ele morreu no Senhor. Felizes aqueles que morrem Nele! Ide, crianças, e avisai os de Engadi que o seu sinagogo viu o Ressuscitado e que o seu pedido foi atendido por Ele. Não choreis! Não choreis!

E os acaricia, levando-os até a saída. Depois volta para perto do falecido, compõe-lhe a barba e os cabelos, abaixa-lhe as pálpebras, que ficaram semiabertas, recompõe os seus membros e estende sobre ele o manto que ele havia tirado para trabalhar.

E lá fica, até que começa a ouvir vozes na estrada. Eles estão gritando e aumentando a velocidade de sua corrida para chegarem até Jesus. Mas Ele se oculta aos seus olhares, envolto como está no fulgor de um raio de luz mais vivo do que o do sol.

VIII. Aparição a Elias, o essênio de Carit.

632.21É áspera a solidão da montanha áspera, em cuja base corre o rio Carit. Elias está rezando, ainda mais magro e barbudo, vestindo uma grosseira veste de lã, que não nem cinza nem marrom, e o torna semelhante às pedras que o circundam.

Ele ouve um som como se fosse de vento ou de trovão. Levanta a cabeça e Jesus lhe aparece, acima de um dos blocos, suspenso e equilibrado por cima do precipício, em cujo fundo corre a torrente.

– É o Mestre!

E se joga, batendo o rosto no chão.

– Sou Eu, Elias. Não percebeste o terremoto9 no dia de Parasceve?

– Eu percebi e desci para Jericó, indo para a casa de Nique. Não encontrei nenhum daqueles que te amam. Andei perguntando por Ti. E eles me bateram. Depois, percebi mais uma vez a terra tremer, mas mais levemente, e voltei para cá a fim de fazer penitência, pensando que foi aberto o dique da ira celeste.

– Da Misericórdia Divina. Eu morri e ressuscitei. Olha as minhas chagas. Vai unir-te sobre o Tabor aos servos do Senhor, e dize-lhes que fui Eu que te mandei.

E Jesus o abençoa e desaparece.

IX. Aparição a Dorcas e ao seu menino, no castelo de Cesaréia de Felipe.

632.22O filho de Dorcas, guiado pela mãe, está fazendo os primeiros passos no bastião da fortaleza. E Dorcas, encurvada segurando o menino, não vê o Senhor aparecer. Mas tendo deixado o menino um pouco mais livre, ela o vê começar a caminhar seguro e rápido em direção ao ângulo do bastião. Ela se levanta e sai correndo atrás dele, para que ele não caia e talvez até morra, caindo pelas ameias ou pelas passagens feitas com arte para as armas ofensivas. E, ao fazer isso, vê Jesus que pega o menino no colo e o beija.

A mulher não ousa fazer nenhum gesto. Mas ela grita bem alto. É um grito que faz levantarem as cabeças dos que vivem no palácio, que colocam rostos nas janelas:

– É o Senhor! É o Senhor! O Messias está aqui! Ele está verdadeiramente ressuscitado.

Mas antes que as pessoas comecem a reunir-se ao redor dele, Jesus já desapareceu.

– Tu estás doida! Ou tu estavas sonhando! Um movimento da luz te pareceu um fantasma.

– Não. Ele estava bem vivo! Vede como o meu filho está ainda olhando para lá, e como tem em suas mãos uma maçã bonita como o seu pequeno rosto. Ele a está roendo com os seus dentinhos e está rindo. Eu não tenho maçãs…

– Ninguém tem maçãs maduras neste tempo, e ainda menos frescas assim… –dizem, admiradas, as pessoas.

632.23– Interroguemos Tobias –dizem algumas mulheres.

– E que quereis fazer? Ele só sabe falar “mamãe”! –riem os homens.

Mas as mulheres se inclinam sobre o pequenino e lhe dizem:

– Quem foi que te deu a maçã?

E aquela boquinha que ainda mal sabe até as palavras mais fáceis, diz com firmeza, por entre suas risadinhas, mostrando os dentinhos miúdos e as gengivas ainda vazias:

– Jesus.

– Oh!

– Vós o chamais de Jesai. E ele já sabe dizer o seu nome.

– Jesus tu, ou Jesus o Senhor? Que Senhor? Onde está Ele? Para onde foi? –procuram as mulheres.

– Ali, o Senhor. Jesus, o Senhor..

– Onde está? Para onde foi?

– Para lá.

E mostra o céu cheio de Sol, e ri, todo feliz por poder morder sua maçã.

Enquanto os homens lá se vão, balançando a cabeça, Dorcas diz às mulheres:

– Ele estava lindo! Parecia vestido de luz. E tinha em suas mãos o sinal dos cravos, um sinal vermelho como uma pedra preciosa e de grande candor. E eu vi bem porque Ele segurava o menino assim.

E imita como é que Jesus o segurava.

632.24O intendente chega correndo, faz com que lhe contem a história, pensa e conclui:

– O salmo diz10: “Na boca das crianças e dos bebês puseste o louvor perfeito.” E por que não dizer a verdade? Eles são inocentes. E nós…Vamos lembrar-nos deste dia…Mas, não! Eu vou ao lugar onde estão os discípulos. Vou ver se o Rabi está lá… No entanto… Ele estava morto… Mas!…

E com este “mas”, que se conclui internamente, ele lá se vai, enquanto as mulheres, impressionadas, continuam a fazer perguntas ao pequeno, que ri e fica repetindo:

– Jesus lá. E depois lá. Jesus Senhor.

E mostra o lugar onde estava Jesus, e depois o sol, no qual ele o viu desaparecer, todo feliz, muito feliz.

X. Aparição às pessoas recolhidas na sinagoga de Quédes.

632.25O povo de Quédes está reunido na sinagoga e discuto com o velho Matias, o sinagogo, sobre os últimos acontecimentos. A sinagoga está semiescura, porque as portas estão fechadas e as cortinas soltas, cobrindo as janelas, cortinas pesadas, que o vento de abril mal consegue mover.

Um relâmpago ilumina o quarto. Parece um relâmpago, mas é a luz que vem na frente de Jesus. E Jesus aparece, diante do espanto de muitos. Ele abre os braços, e aparecem, bem visíveis, as feridas das mãos e dos pés, pois Ele está sobre o último dos três degraus, que conduzem para uma porta fechada. E Ele diz:

– Eu estou ressuscitado. E eu vos recordo a discussão11 entre Mim e os escribas. À geração má Eu dei o sinal que Eu havia prometido, o sinal de Jonas. A quem me ama e me é fiel, dou a minha bênção.

Nada mais, Ele desapareceu.

– Mas era Ele! De onde veio? Contudo Ele estava vivo. Ele o havia dito! Aí está. Agora Eu entendo qual era o sinal de Jonas: três dias nas vísceras da Terra e depois a ressurreição…

E continua o murmúrio dos comentários…

XI. Aparição a um grupo de rabis em Gíscala.

632.26Um grupo venenoso de rabis está procurando persuadir com suas ideias alguns homens titubeantes. Querem conseguir que eles se dirijam a Gamaliel, que se trancou em sua casa e não quer ver ninguém.

Esses homens dizem:

– Nós garantimos que aqui ele não está. Nem nós sabemos onde está. Ele veio. Consultou alguns rótulos. Mas depois partiu. Não disse uma palavra sequer. Ele dava medo, pelo tanto que estava desfigurado e envelhecido.

Sem muita delicadeza, os rabis viraram as costas para esses que estão falando e vão embora, dizendo:

– Gamaliel também está doido, como Simão! Pois não é verdade que o Galileu ressuscitou. Não é verdade. Não é verdade que ele seja Deus. Não é verdade. Nada disso é verdade. Somente nós é que estamos com a verdade.

Mas esta repetição deles, o afã ao dizerem que não é verdade, já mostra o medo que eles têm de que seja verdade e o desejo deles de estarem certos.

Eles foram costeando a parede da casa e estão indo para o sepulcro de Hilel. Sempre gritando as suas negações, eles levantam o rosto… e fogem de lá gritando. É Jesus, que é tão bom com os bons, está lá adiante, terrível em seu poder, de braços abertos como ficou na cruz… As chagas das mãos estão vermelhas como se estivessem ainda gotejando sangue. Ele não diz uma palavra. Mas os seus olhares fulminam.

Os rabis fogem, caem, levantam-se, ferem-se, esbarrando nas ervas espinhosas e nas pedras, estão loucos de medo. São semelhantes a homicidas reconduzidos à presença de suas vítimas.

XII. Aparição a Joaquim e Maria, em Bozra.

632.27– Maria! Maria! Joaquim e Maria! Venham aqui para fora.

Os dois estão em um quarto silencioso e iluminado por um fogo. Ela está ocupada na cozinha e ele em fazer as contas. Os dois levantam a cabeça e se olham… Joaquim, empalidecendo-se de medo, sussurra:

– A voz é do Rabi. Ele vem da outra vida…

A mulher, amedrontada, agarra-se ao homem.

Mas lá fora o chamado se repete, e os dois, continuando abraçados para se darem coragem um ao outro, resolvem sair e ir na direção de onde veio a voz.

O jardim, que resplandece sob a luz de uma lua nova, fica iluminado agora com uma luz muito mais forte do que a de muitas luas juntas: Jesus. A luz o circunda, mostrando que Ele é Deus. Seu sorriso doce e seu olhar amoroso faz ver nele o Homem:

– Ide dizer aos de Bozra que me vistes vivo e verdadeiro. E dizei-o lá no Tabor, Joaquim, aos que lá se reúnem.

Jesus os abençoa. E desaparece.

– Mas era Ele mesmo! Não foi um sonho! Eu… Amanhã eu irei à Galileia. Ele disse ao Tabor, não foi?…

XIII. Aparição a Maria de Jacó em Efraim.

632.28A mulher está misturando a farinha para fazer o pão. Ela se volta ao ouvir um chamado e vê Jesus. Cai com o rosto no chão, as mãos no chão, muda de adoração, um pouco assustada.

Jesus lhe fala:

– Dirás a todos que me viste e que Eu te falei. O Senhor não fica subjugado pelo sepulcro. Eu ressuscitei no terceiro dia, como havia predito. Perseverai, vós que estais no meu caminho, e não vos deixeis seduzir pelas palavras daqueles que me crucificaram. A minha paz esteja contigo.

XIV. Aparição a Síntique, em Antioquia.

632.29Síntique está preparando a sacola de viagem. Já é noite, porque está acesa uma lamparina pequena, trêmula, de uma luz muito relativa, apoiada numa mesa junto à mulher, que está ocupada a dobrar os vestidos.

O quarto se ilumina vivamente e Síntique levanta a cabeça, assustada por ver o que está acontecendo, e de onde é que está vindo aquela luz tão clara e que entra no quarto, que está fechado de todos os lados. Mas antes que ela veja o que é, Jesus a previne:

– Sou Eu. Não tenhas medo. Eu já me mostrei a muitos a fim de confirmá-los na fé. E também a ti Eu me mostro, a ti que és uma discípula obediente e fiel. Eu ressuscitei. Estás vendo? Não sinto mais dor. Por que é que estás chorando?

A mulher, diante da beleza do glorificado, nem encontra palavras… Jesus lhe sorri para encorajá-la e acrescenta:

– Eu sou o mesmo Jesus que te acolheu12 na estrada, perto de Cesaréia. Soubeste falar naquela hora quando estavas tão temerosa, e eu era para ti um desconhecido. E agora não sabes me dizer uma palavra?

– Oh! Senhor! Eu estava para partir… a fim de tirar do meu coração tantas inquietações e dores.

– Dor, por quê? Não te disseram que Eu havia ressuscitado?

– Disseram, mas depois se contradisseram. Com aquelas contradições deles eu não me perturbei. Eu sabia que Tu não podes corromper-te em um sepulcro. Chorei pelo teu martírio. Acreditei, mesmo antes que me falassem disso, em tua ressurreição. E continuei a crer, quando vieram outros dizer que não era verdade. Eu queria ir à Galileia. Eu pensava assim: a Ele eu não posso mais fazer mal. Ele agora é mais Deus do que homem. Não sei se estou conseguindo falar bem…

– Eu compreendo o teu pensamento.

– E eu dizia: Lá eu o adorarei e verei Maria. Eu pensava que Tu não ficarias muito tempo entre nós, e estava apressando a minha partida. Eu dizia: Quando Ele voltar para o Pai, como Ele dizia, sua Mãe ficará um pouco triste em sua alegria. Porque é uma alma, mas é também uma Mãe… E eu procurarei consolá-la, agora que ela está sozinha… Como eu era soberba!

– Não. Tu eras piedosa. Eu direi à minha Mãe o teu pensamento. Mas não vás para lá. Fica onde estás e continua a trabalhar por Mim. Agora, mais do que antes. Os teus irmãos, os discípulos, precisam do trabalho de todos para poderem propagar a minha doutrina. Tu já me viste. Maria está confiada a João. Que todos os teus sofrimentos desapareçam. Poderás fortalecer o teu espírito com a certeza de me teres visto e com o poder da minha bênção.

632.30Síntique tem um grande desejo de beijá-lo. Mas não ousa fazer isso. Jesus lhe diz:

– Vem.

Ela arrisca arrastar-se de joelhos indo perto de Jesus e faz o gesto de beijar-lhe os pés. Mas vê as duas chagas e se detém. Pega o orlo da roupa e a beija chorando. E murmura:

– O que te fizeram!

Depois, faz uma pergunta:

– E João-Félix?

– Ele está feliz. Não se lembra de nada mais a não ser do amor, e vive nele. A paz a ti, Síntique!

E desaparece.

A mulher fica num ato de adoração, de joelhos, a cabeça levantada, as mãos um pouco estendidas, com lágrimas no rosto, e um sorriso nos lábios…

XV. Aparição ao levita Zacarias.

632.31É um quarto pequeno. Zacarias, o levita13, está sentado com a cabeça reclinada numa das mãos.

– Não sejas duvidoso. Não dês atenção às vozes que perturbam. Eu sou a Verdade e a Vida. Olha para Mim. Toca em Mim.

O jovem que, às primeiras palavras levantou o rosto e viu Jesus, depois de arrastar-se de joelhos, grita:

– Perdoa-me, Senhor. Eu pequei. Eu dei acolhida à dúvida a respeito da tua verdade.

– Mais do que tu, culpáveis são aqueles que procuram seduzir o teu espírito. Não cedas às tentações deles. Eu tenho um corpo vivo e real. Procura perceber qual é o peso e o calor, a consistência e a força da minha Mão.

E o segura pelo antebraço, levantando-o com força e dizendo-lhe:

– Levanta-te e anda pelos caminhos do Senhor. Deixa toda dúvida e todo medo. E feliz de ti, se souberes perseverar até o fim.

Depois o abençoa e desaparece.

O jovem, depois de alguns momentos de um espanto atordoado, precipita-se para fora do quarto, gritando:

– Minha mãe! Meu pai! Eu vi o Mestre. Não é verdade o que os outros andam dizendo! Eu não estava louco. Não queirais continuar a crer na mentira, mas bendizei comigo ao Altíssimo, que teve piedade do seu servo. Eu vou partir. Vou à Galileia. Encontrarei algum dos discípulos. Vou dizer-lhes que creiam. Que Ele ressuscitou mesmo.

Ele não apanha sacola com alimento nem veste. Mas se encapota todo, e sai correndo, sem dar tempo a seus pais de voltarem a si mesmos do atordoamento e poderem intervir, a fim de impedi-lo.

XVI. Aparição a uma mulher da planície de Saron, que obtém a cura do filho doente.

632.32Trata-se de uma estrada litorânea. Talvez seja aquela que liga Cesareia a Joppe, ou é uma outra. Eu não sei. Sei que estou vendo campos na parte interna e o mar na parte externa, um mar azul vivo depois da linha amarelada da orla. Com certeza é uma estrada romana. A pavimentação dela indica isso.

Uma mulher, que está chorando, vai indo por essa estrada nas primeiras horas de uma manhã serena. Há pouco tempo surgiu a aurora. A mulher deve estar muito cansada, porque, de vez em quando, ela para a fim de sentar-se em alguma das pedras miliárias, ou então, na estrada mesmo. Depois ela se levanta e continua a andar, como se alguma coisa a incitasse a prosseguir, apesar do seu grande cansaço.

Jesus, encapotado como um viandante, põe-se ao lado dela. A mulher não olha para Ele. Ela continua mergulhada em sua dor. Então, Jesus lhe pergunta:

– Por que estás chorando, mulher? De onde estás vindo? E para onde vais assim sozinha?

– Estou vindo de Jerusalém e estou de volta para a minha casa.

– É longe?

– A meio caminho, entre Jope e Cesaréia.

– E vais a pé?

– No vale de antes de Modin, os ladrões me tomaram o burro e tudo o que eu ia levando nele.

– Tu foste imprudente ao viajares sozinha. Não se costuma andar sozinho pela Páscoa.

– Eu não tinha vindo para a Páscoa. Eu havia ficado em casa, porque tenho, espero tê-lo ainda, um filho doente. Meu marido tinha ido com os outros. Eu o deixei ir na minha frente e, quatro dias depois, eu parti. Porque eu pensava assim: “Certamente Ele estará em Jerusalém pela Páscoa. E eu o irei procurar.” Eu tinha um pouco de medo. Mas eu disse: “Não estou fazendo nada de mal. Deus está vendo. Eu creio. E sei que Ele é bom. E Ele não me repelirá, porque…”

Meio amedrontada, ela para de falar e dá uma olhada de relance no homem que vai caminhando perto dela, tão encapotado, que dele só são vistos os olhos, os olhos inconfundíveis de Jesus.

632.33– Por que te calas? Tens medo de Mim? Crês que Eu seja inimigo Daquele que procuravas? Porque tu estavas procurando o Mestre de Nazaré para lhe pedir que viesse à tua casa para curar o menino, enquanto teu marido está ausente…

– Vejo que Tu és um profeta. Assim é. Mas quando eu cheguei à cidade, o Mestre estava morto.

E o pranto a sufoca…

– Ele ressuscitou. Não acreditas?

– Eu sei. Eu creio. Mas eu… Mas eu… Por alguns dias eu também esperei vê-lo… Dizem que Ele já se mostrou a alguns. E como eu tardei a partir… todos os dias estou aflita, porque… o meu menino está muito doente… O meu coração está indeciso. Ir para consolá-lo ao morrer. Ou ficar por aqui procurando o Mestre… Eu não pretendia que Ele fosse à minha casa. Mas que me prometesse curá-lo.

– E terias acreditado? Acreditas que mesmo de longe…

– Acredito. Oh! Se ele me tivesse dito: “Vai em paz, que o teu filho ficará são,” eu não teria duvidado. Mas eu não mereço isso, porque…

E ela chora, apertando a boca com o véu, como para impedi-la de falar.

– Porque o teu marido foi um dos acusadores e carrasco de Jesus Cristo. Mas Jesus Cristo é o Messias. É Deus. E Deus é justo, mulher. Ele não castiga um inocente em lugar de um culpado. Ele não tortura uma mãe porque um pai é pecador. Jesus Cristo é a misericórdia viva…

– Oh! Por acaso, serás tu um dos apóstolos Dele? Por acaso sabes onde Ele está? Tu… Quem sabe se Ele te mandou a mim para dizer-me isso. Ele ouviu e viu a minha dor, a minha fé, e te mandou, assim como o Altíssimo mandou o arcanjo Rafael ao Tobiazinho. Dize-me se é assim, e eu, ainda que esteja cansada e com febre, voltarei atrás sobre os meus passos a fim de procurar o Senhor.

– Eu não sou um dos apóstolos. Mas em Jerusalém ficaram ainda os apóstolos por muitos dias, depois da Ressurreição…

– É verdade. Eu podia pedir a eles.

– Isso mesmo. Eles são a continuação do Mestre.

– Eu não acreditava que eles pudessem fazer milagres.

– Eles os estão fazendo ainda…

– Mas agora… Disseram-me que só um deles é que ficou fiel, e eu não acreditei…

– Sim. Teu marido te disse isto, zombando de ti, em seu delírio de falso triunfo. Mas eu te digo que o homem pode pecar, pois só Deus é perfeito. E o homem pode arrepender-se, e se ele se arrepende sua fortaleza cresce, e Deus aumenta para ele as suas graças pela sua contrição. Não é verdade que o Senhor Altíssimo perdoou a Davi?

632.34– Mas quem tu és? Quem tu és, que falas de modo tão doce e sábio, se não és apóstolo? Talvez sejas um anjo? O anjo do meu menino. Talvez ele já tenha expirado e tu vieste só para preparar-me…

Jesus deixa cair o manto de sobre a cabeça e o rosto. E, passando do aspecto modesto de um peregrino comum para a sua imponência de Deus Homem, ressuscitado da morte, diz com uma suave solenidade:

– Sou Eu. O Messias que em vão eles crucificaram. Eu sou a Ressurreição e a Vida. Vai, ó mulher. Teu filho está vivo, porque eu premiei a tua fé. Teu filho está curado. Porque, se o Rabi de Nazaré já terminou sua missão, o Emanuel continua a sua até o fim dos séculos para todos os que têm fé, esperança e caridade no Deus uno e trino, do qual o Verbo Encarnado é uma Pessoa que, por amor divino, deixou o Céu para vir ensinar, sofrer e morrer, a fim de dar aos homens a Vida. Vai em paz, mulher. E sê forte na fé, porque chegou o tempo em que em uma família o esposo estará contra a esposa, os pais contra os filhos, estes contra o Pai, por ódio ou por amor a Mim. Mas felizes aqueles a quem a perseguição não afastará do meu Caminho.

Ele a abençoa, e desaparece.

XVII. Aparição aos pastores, sobre o Grande Hermon.

632.35Há um grupo de rebanhos e de pastores. Estes estão repousando nas escarpadas de pastos esplêndidos. E falam dos acontecimentos de Jerusalém. E estão aflitos, dizendo um ao outro: “Não teremos nunca mais na terra o Amigo dos pastores.” E relembram os muitos encontros que tiveram aqui ou ali com Ele…

– Encontros –diz um senhor idoso–, que não teremos mais.

Jesus aparece, como tendo posto o pé naquele lugar vindo por detrás de um bosque cerrado, onde os troncos altos estão abraçados por matagais baixos, que não permitem que se veja o caminho. Os pastores não o reconhecem naquele homem solitário, e ficam murmurando ao vê-lo envolto naquelas vestes cândidas:

– Quem será? Será um essênio? Qual deles? Será algum fariseu rico?

Eles estão perplexos. Jesus lhes pergunta:

– Por que dizeis que não encontrareis mais ao Senhor? Porque aquele de quem estais falando é o Senhor.

– Disto nós sabemos. Mas será que tu não sabes o que fizeram com Ele? Agora, uns dizem que ele ressuscitou e outros que não. Mas, mesmo que tenha ressuscitado, como nós preferimos crer, agora Ele já terá ido embora. Como é que Ele pode ainda amar e continuar no meio de um povo que o crucificou? E nós, que o amávamos, ainda que nem todos o tivéssemos conhecido, estamos todos tristes por tê-Lo perdido.

– Há um modo de tê-lo ainda. E Ele o ensinou.

– Oh! Sim. Fazendo o que Ele ensinava. Então, teremos o Reino dos Céus e estaremos com Ele. Mas antes se deve viver e depois morrer. E Ele não está mais entre nós para confortar-nos.

E eles balançam as cabeças.

– Meus filhos, aqueles que vivem como Ele ensinou e conservam em seus corações os seus ensinamentos, é como se tivessem Jesus em seu coração. Porque Palavra e Doutrina são a mesma coisa. Ele não era um Mestre que ensinasse coisas que não fossem como Ele era. Por isso, quem faz o que Ele disse tem Jesus vivendo em si e não está separado dele.

– Dizes bem. Mas nós somos homens e… queremos ver também com os olhos para sentirmos bem a alegria… Eu nunca o vi, nem o meu filho, nem Jacó, aquele ali. E nem Melquias, aquele outro. Nem Tiago, aquele, nem Saul. Estás vendo, somente entre nós aqui, quantos ainda não o viram? Sempre o procurávamos, mas quando chegávamos Ele já havia partido.

– Não estáveis em Jerusalém, naquele dia?

– Sim, estávamos. Mas quando ficamos sabendo o que é que lhe queriam fazer, fugimos como loucos para os montes, só voltando à cidade depois do sábado. Não somos culpados do Sangue dele, porque não estávamos na cidade. Mas fizemos mal, por termos sido covardes. Nós pelo menos o teríamos visto e saudado. E certamente Ele nos teria abençoado pela nossa saudação… mas não tivemos mesmo coragem de olhar para Ele em seus tormentos…

– Ele vos abençoa. Olhai para Aquele cujo Rosto vós desejais conhecer.

E Ele se manifesta, com um esplendor divino sobre o prado verde. Diante do espanto que os joga no chão, mas que também fixa suas pupilas no Rosto divino, Ele desaparece no meio de um fulgor de luz.

XVIII. Aparição ao menino que era cego de nascença, em Sidon.

632.36O menino está brincando sozinho sob as folhagens de uma frondosa parreira. Ouve alguém o chamar e vê diante de si Jesus. Pergunta-lhe sem medo nenhum:

– Ma Tu és o Rabi que me deu a vista14?

E fixa os seus olhos límpidos de criança, de um azul igual aos de Jesus, nos fulgurantes olhos divinos.

– Sou Eu, menino. Estás com medo de Mim?

E o acaricia na cabeça.

– Medo, não. Mas é que eu e a mamãe choramos muito quando meu pai voltou antes do tempo e nos disse que havia fugido porque tinham prendido o Rabi para matá-lo. Ele não fez a Páscoa, e deve partir de novo para fazê-la. Mas Tu agora, não morreste?

– Morri. Olha minhas feridas. Morri na Cruz. Mas ressuscitei. Dirás ao teu pai que fique algum tempo em Jerusalém depois da segunda Páscoa, e vá para as vizinhanças do Monte das Oliveiras, em Betfagé. Lá ele encontrará quem lhe diga o que deve fazer.

– Meu pai estava pensando em ir procurar-te. Na festa dos Tabernáculos ele não pôde te falar. Ele queria dizer-te que te quer bem por me teres dado os olhos. Mas não pôde fazê-lo, nem daquela vez nem agora…

– Ele o fará, com a fé em Mim. Adeus, menino. A paz a ti e à tua família.

XIX. Aparição aos camponeses de Jocanã.

632.37Os campos de Jocanã estão sendo beijados pela lua. O silêncio é absoluto. As pobres casas dos camponeses, nessa noite de muito calor, têm a porta aberta para que eles não morram de calor nos cômodos baixos, onde estão amontoados corpos demais em relação à capacidade do ambiente.

Jesus entra em um quarto maior. Parece que a própria lua encompridou o seu raio de luz para fazer para Ele um tapete real sobre um chão de terra batida. Ele se inclina sobre um que está dormindo de bruços, num sono pesado devido ao cansaço. Ele o chama. Depois passa para um outro, e mais outro. A todos Ele chama, dizendo que são seus fiéis e pobres amigos. Ele vai passando sem fazer barulho e rápido como um anjo voando. Entra em outras choupanas… Depois vai esperá-los lá fora, perto de umas moitas de plantas. Os camponeses, meio sonolentos, estão saindo dos seus casebres. São dois, são três, é um só, são até cinco ao mesmo tempo e algumas mulheres. Estão admirados por terem sido todos chamados por uma voz conhecida, que dizia a todos as mesmas palavras: “Vinde ao pomar!”

Eles vão até lá, terminando de pôr suas vestes, os homens, ou de ajeitar as tranças, as mulheres, e vão falando baixo.

– A mim a voz parecia ser a de Jesus de Nazaré.

– Talvez seja o seu espírito. Eles o mataram. Já ouvistes falar?

– Eu não posso crer nisso. Ele era Deus.

– No entanto, Joel o viu também passar sob a cruz…

– A mim disseram, ontem, enquanto eu estava esperando que o feitor cuidasse de sua feira, que viram em Jezrael os discípulos que diziam que Ele ressuscitou mesmo.

– Cala-te. Tu sabes o que diz o Patrão. É a flagelação para quem disser isso.

– Talvez a morte. Mas não seria melhor do que sofrer assim?

– E agora Ele não existe mais!

– E eles também são piores, agora que conseguiram matá-lo.

– São maus porque Ele ressuscitou.

Eles falam em voz baixa, enquanto vão indo para o ponto que lhes foi dito.

632.38– O Senhor! –grita uma mulher caindo de joelhos por primeiro.

– O fantasma dele! –gritam outros, e alguns estão com medo.

– Sou Eu. Não temais. Não griteis. Vinde para frente. Sou Eu mesmo. Eu vim para confirmar a vossa fé, pois eu sei que outros estão armando ciladas. Estais vendo? O meu corpo faz sombra porque é um verdadeiro corpo. Não estais sonhando, não. Minha voz é verdadeira. Eu sou o mesmo Jesus que repartia convosco o pão e vos amava. Também agora Eu vos amo. Eu vos mandarei os meus discípulos. E serei ainda Eu, porque eles vos darão aquilo que Eu vos dava, e aquilo que Eu dei a eles a fim de poder comunicar-me com aqueles que creem em Mim. Suportai a vossa cruz como Eu suportei a minha. Sede pacientes. Perdoai. Eles vos dirão como foi que Eu morri. Imitai-me. O caminho da dor é o caminho do Céu. Ide por ele em paz e tereis o meu Reino. Não há outro caminho, a não ser o da resignação à vontade de Deus, o da generosidade, da caridade para com todos. Se houvesse outro caminho, Eu vo-lo teria dito. E Eu passei por este caminho porque é o caminho certo. Sede fiéis à Lei do Sinai, que é imutável em seus dez mandamentos, e à minha Doutrina. Virão aqueles que vos haverão de instruir para que não sejais abandonados aos embustes dos maus. Lembrai-vos sempre de que Eu vos amei e de que Eu vim para o meio de vós antes e depois da minha glorificação. Em verdade Eu vos digo que muitos desejariam ver-me agora e não me verão. Muitos dentre os grandes. Mas Eu me mostro àqueles que Eu amo e que me amam.

Um homem ousa dizer:

– Então, o Reino dos Céus existe mesmo? És Tu verdadeiramente o Messias? Eles nos sugestionam…

– Não fiqueis escutando as palavras deles. Lembrai-vos das minhas e acolhei as dos meus discípulos, que são vossos conhecidos. São palavras de verdade. E quem as acolhe e pratica, ainda que seja servo ou escravo, será um cidadão e coerdeiro do meu Reino.

E Jesus, abrindo os braços, os abençoa e desaparece.

632.39– Oh! Eu… Não tenho medo de mais nada!

– E eu também não. Tu ouviste? Também para nós há lugar!

– Precisamos ser bons!

– Precisamos perdoar!

– Ter paciência!

– Saber resistir.

– Procurar os discípulos.

– Ele veio até nós, pobres servos.

– Diremos isso aos seus apóstolos.

– Se Jocanã soubesse disso!

– E Doras!

– Eles nos matariam para que não se falasse nisso.

– Mas nós ficaremos calados. Falaremos disso somente aos servos do Senhor.

– Miquéias, tu não deves ir com aquela carga a Séforis? Por que não vais a Nazaré para dizer…

– Dizer a quem?

– À Mãe. Aos apóstolos. Talvez eles estejam com Ela…

E eles se afastam, cochichando sobre os seus projetos.

XX. Aparição a Daniel, parente do fariseu Elquias, com o sinedrita Simão.

632.40Elquias, o fariseu, está discutindo com outros fariseus o que fazer com o sinedrita Simão que, tendo enlouquecido na sexta-feira santa, fala e diz coisas demais. E as propostas são várias. Alguém sugere de isolá-lo em algum lugar deserto, onde seus gritos não possam ser ouvidos a não ser por algum servo fiel e que tenha o mesmo pensamento deles. Alguém, um pouco mais benigno, sugere que, tratando-se de um mal estar passageiro, talvez convenha deixá-lo ali mesmo.

Elquias responde:

– Eu o trouxe até aqui sem saber para qual outro lugar levá-lo. Mas vós sabeis que eu duvido muito do meu parente Daniel…

Outros, mais malvados ainda do que Elquias, dizem:

– Ele quer fugir viajando pelo mar. Por que não fazermos a vontade dele?

– Porque ele não é capaz de atos ordenados. Sozinho no mar, ele morreria, pois nenhum de nós sabe conduzir uma barca.

– E depois? Antes ele fosse capaz! Que aconteceria no porto do desembarque ao ouvirem o que ele diz? Deixai que ele mesmo escolha seu caminho… Na presença de todos e do teu parente também, faze que ele diga qual é a sua vontade, e como é que ele quer que se faça.

Essa proposta foi aprovada, e Elquias, tendo chamado um servo, ordena-lhe que seja conduzido Simão e que chame Daniel. Vêm os dois e, se Daniel tem o aspecto de um homem que se sente incomodado no meio de certas pessoas, o outro tem justamente o aspecto de um doente mental.

– Ouve-nos, Simão. Tu dizes que nós te conservamos preso, porque queremos matar-te…

– Assim deveis fazer, porque esta é a ordem.

– Tu estás delirando, Simão. Cala-te e escuta. Onde é que achas que ficarás são?

– No mar. No mar. No meio do mar. Onde não se ouve voz alguma. Onde não há nenhum sepulcro. Porque os sepulcros se abrem e saem os mortos, e minha mãe diz…

– Cala-te! E escuta. Nós te amamos. Como a nossa carne. Queres mesmo ir para lá?

– É certo que eu quero. Porque aqui os sepulcros estão sendo abertos, e minha mãe…

– Pois bem. Tu irás para lá. Nós te levaremos para o mar, te daremos uma barca, e tu…

– Mas o que estais dizendo é um homicídio!. Ele está doido! Não pode andar sozinho! –grita o honesto Daniel.

– Deus não violenta a vontade do homem. Podemos nós fazer o que Deus não faz?

– Mas ele está doido! Não tem mais vontade. É mais bobo do que um recém-nascido! Vós não podeis…

– Cala essa boca. Tu és um agricultor e nada mais. Nós sabemos… Amanhã partiremos para o mar. Alegra-te, Simão. Para o mar, entendes?

– Ah! Não ouvirei mais as histórias da terra! Nem mais as vozes… 632.41Ah!

Um grito longo, um espasmo de agitação, um fechar de olhos e de ouvidos. E um outro grito, o de Daniel, que foge aterrorizado.

– Mas quem é? Que é que está acontecendo? Parai aquele doido, aquele estulto! Talvez estejamos perdendo o juízo? –grita Elquias.

Mas aquele que Elquias chama de “estulto,” isto é, o seu parente Daniel, depois de ter corrido alguns metros, prostra-se no chão, enquanto o outro está espumando, lá onde está, em uma convulsão que mete medo, e grita, grita:

– Faze-o calar!Ele não está morto, mas gritando, gritando, gritando! Mais do que minha mãe, mais do que meu pai, mais do que no Gólgota! Vede lá, lá, não estais vendo lá?

Está mostrando onde está Daniel plácido, sorridente, com o rosto levantado, depois de ter ficado com o rosto no chão.

Elquias o alcança e o sacode rudemente, furioso, sem preocupar-se com Simão, que está rolando no chão, espumando e dando urros como de animais, dentro de um círculo dos outros, que estão aterrorizados. Elquias provoca Daniel:

– Ó visionário preguiçoso, queres dizer-me o que estás fazendo?

– Deixa-me. Agora eu te conheço. E de ti eu me afasto. Eu vi, benigno para comigo, tremendo para vós, Aquele que vós quereis me fazer crer que está morto. Eu vou embora! Mais do que o dinheiro e toda riqueza, eu cuido de minha alma. Adeus, maldito! E tu, se puderes, procura merecer o perdão de Deus.

– Mas para onde vais? Para onde? Eu não quero!

– Tu tens o direito de me conservares prisioneiro? Quem foi que me deu a ti? Eu te deixo aquilo que amas e sigo a quem eu amo. Adeus.

Vira-lhe as costas e lá se vai, rápido, como se fosse arrastado por uma força sobre-humana, descendo pela encosta verde dos olivais e pomares.

Elquias, e não só ele, está lívido. A ira sufoca a todos. Elquias ameaça o seu parente com uma vingança, e todos os que — em seu frenesi — como ele diz, afirmam que o Cristo está vivo. Ele quer falar… quer agir…

Um deles, que eu não sei quem seja, diz:

– Faremos, faremos, mas não poderemos fechar todas as bocas, e as pupilas, que falam porque estão vendo. Estamos vencidos! O delito pesa sobre nós. Agora vem a expiação…

E bate no peito, oprimido por uma angústia que o faz ficar semelhante a um que vai subindo os degraus de um patíbulo.

– A vingança de Javé –diz ele ainda, e é todo o terror milenar de Israel que aflora em sua voz.

Nesse ínterim, ferido, espumante, amedrontador, Simão lança gritos de um condenado:

– Parricida15, foi assim que ele me chamou! Fazei-o calar-se! Calar-se! Parricida! É justamente a palavra de minha mãe! Será que os mortos terão todos as mesmas palavras?!…

XXI. Aparição a uma mulher galileia, que obtêm a ressurreição do marido morto.

632.42A lua está quase sumindo no poente, escondendo o seu arco fino de lua nova por detrás da curva do monte. A sua luz, portanto, já não é tão evidente, e daqui a pouco não será mais vista nos vastos campos.

Contudo, há um viandante naquela estrada solitária. É uma ruela, um beco entre os campos. Ele vai indo, segurando por uma argola um farolete rudimentar, daqueles que são velhos como o mundo, penso seu, e que os carreteiros usam para alumiar o caminho de noite. Este farolete, já que o vidro não é comum — aliás, eu acho até que seja ainda desconhecido, pois nunca me aconteceu vê-lo em nenhuma casa, nem sob a forma de copo, nem como um vaso maior, nem como anteparo nas janelas — tem um anteparo para as chamas, uma coisa que tanto pode ser a mica como o pergaminho. A luz passa através dele tão fraca, que só serve para clarear um pequeno espaço ao redor do farolete. Mas, como a lua já sumiu completamente, a luz do pobre farolete parece aumentar de força e ficar saltitando, como um ponto claro no meio da escuridão do campo.

Enquanto isso, o viandante vai sempre caminhando… Lá para os lados do horizonte, o céu já está dando um sinal de que a aurora se aproxima. Mas é um sinal ainda tão fraco, que não ilumina nada, e a pobre luzinha bem que ainda serve.

Perto de uma pequena ponte, todo encapotado, talvez esperando alguém ou descansando um pouco, há um outro viandante.

Aquele viandante do farolete, que vinha dirigindo-se para a ponte, para, em dúvida. Ele não sabe se é bom passar por lá ou se voltar, indo para o leito de uma pequena torrente que tem grandes pedras largas, que podem servir de passagem para atravessar a pouca água do fundo.

O homem que está sentado sobre a rústica margem, formada naquele ponto por um tronco de casca branco esverdeada, levanta a cabeça para observar o outro homem que parou. E põe-se de pé, para dizer-lhe:

– Não tenhas medo de Mim. Vem para a frente. Eu sou um bom companheiro e não um ladrão.

É Jesus. Eu o reconheço pela voz, mais do que pelo aspecto, pois este está coberto pelo crepúsculo ainda escuro, que a luz do farol não consegue vencer até lá onde está Jesus. Mas aquela pessoa duvida ainda.

– Vem, mulher. Não temas. Teremos que andar juntos, ainda por um bom trecho do caminho, e isso será bom para ti.

A mulher, agora eu sei que é uma mulher, vem para a frente, vencida pela doçura daquela voz ou por uma força misteriosa, e murmura:

– Não há mais nada de bom para mim.

632.43Agora prosseguem lado a lado por aquele caminho, que é largo o suficiente para deixar passar dois pedestres. A aurora que vem chegando mostra, de um lado do caminho, uma plantação bem densa, como uma floresta em miniatura, de trigo maduro à espera da foice. Do outro lado, o trigo já ceifado está espalhado em feixes pelo campo, que ficou despojado da sua glória da colheita madura.

– Malditos! –diz em voz baixa a mulher, lançando um olhar sobre os feixes que lá se encontram.

Jesus ficou calado.

O dia vai chegando. A mulher apaga a pobre luz e, para fazer isso, teve que descobrir o rosto devastado pelo pranto. Ela levanta o rosto a fim de olhar para o Oriente, onde uma faixa amarelo-rosada está anunciando o nascer do sol. Então, ela sacode o punho contra o oriente e diz ainda:

– E maldito sejas tu!

– O dia? Foi Deus quem o fez. Assim como fez o grão. São os benefícios de Deus. Não devem ser amaldiçoados… –diz com doçura Jesus.

– Mas eu os amaldiçoo. Amaldiçoo o sol e as messes. E tenho razão de fazê-lo.

– Eles não têm sido bons para ti durante tantos anos? Não amadurecem para ti o pão de cada dia, a uva que se transforma em vinho, as verduras e as frutas do pomar, tendo feito crescer também as pastagens para nutrir as ovelhas e os cordeiros, com cujo leite e carne te alimentaste, e com cuja lã teceste as tuas vestes? E o trigo não deu pão a ti, aos teus filhos, ao teu pai, à tua mãe, ao teu esposo?

Um grande frouxo de pranto, e um grito:

– Eu não tenho mais esposo! Eles o mataram! Ele tinha saído para o trabalho, pois nós tivemos sete filhos e não nos bastava o pouco que tínhamos de nosso para matar a fome de dez pessoas. E ontem de tarde, ele chegou, dizendo: “Estou cansado e sou um tolo,” e se jogou na cama com febre alta. Eu e sua mãe o socorremos como se podia, pensando em chamar hoje o médico da cidade… Mas depois do canto do galo, ele morreu. Quem o matou foi o sol. Eu vou para a cidade, sim. Vou buscar tudo o que for preciso. E na volta de lá avisarei aos irmãos. Eu deixei a mãe cuidando do seu filho e dos meus filhos… e parti para ir fazer o que era necessário… E, então, eu não devo amaldiçoar o sol ardente e os trigais?

Se antes estava tão moderada, a tal ponto que eu nem teria pensado que fosse uma mulher, e uma mulher aflita, agora ela rompeu os diques de sua dor, e eles estão transbordando fortemente. Diz tudo aquilo que ela nunca havia dito em sua casa, – para não despertar os meninos que estavam dormindo no quarto vizinho, – tudo o que lhe pesava tanto no coração, a ponto de perceber que estava para explodir. As recordações de amor, a ansiedade pelo futuro, os espasmos de uma viúva, todas essas coisas passam confusas como detritos de uma rapina boiando sobre a onda alta de um rio na cheia…

632.44Jesus a deixa falar. Porque Jesus sabe se compadecer do sofrimento, Ele a deixa desabafar, para que a criatura tenha um alívio e o próprio cansaço, que provém depois da explosão da dor, torne-a capaz de entender quem a está consolando. Então, Ele diz com doçura:

– Em Naim e em Nazaré, e nos lugares entre um e outro, estão os discípulos do Rabi de Nazaré. Vá até eles…

– E que queres que eles façam? Se Ele inda estivesse aqui!… Mas eles? Eles não são santos! Meu marido estava em Jerusalém, naquele dia. E sabe… Oh! Não. Ele sabia! Agora não sabe mais nada. Está morto!

– Que é que o teu marido fez naquele dia?

– Quando o clamor da estrada o despertou, ele correu para o terraço da casa onde estava com os seus irmãos e viu passando o Rabi que ia sendo levado para o Pretório, e o acompanhou junto a outros galileus até ser morto. Jogaram pedras nele e nos outros quando descobriram que eles eram galileus, lá no alto do monte, e os expulsaram mais para baixo. Mas eles ficaram lá até que tudo se cumpriu. Depois… saíram de lá… Agora, ele está morto. Oh! Pelo menos se eu ficasse sabendo que, pela sua piedade para com o Rabi, ele está em paz!

Jesus não responde a esse desejo. Mas Ele diz:

– Então ele terá visto que alguns discípulos estavam no Gólgota. Quem sabe se todos os judeus foram como o teu marido?

– Oh! Não. Muitos, até de Nazaré, o insultaram. E isto se sabe. Que vergonha!

– E, então, se muitos, até de Nazaré, não tiveram amor pelo seu Jesus e, contudo, Ele os perdoou e muitos deles se santificarão no futuro, por que é que queres julgar do mesmo modo todos os discípulos de Cristo? Queres tu ser mais severa do que Deus? Deus concede muitas coisas aos que Ele perdoa…

– Não existe mais o Rabi bom! Não existe mais. E o meu marido está morto…

– O Rabi deu aos seus discípulos o poder de fazer o que Ele fazia.

– Eu assim quero crer. Mas somente Ele é que vencia a morte. Só Ele!

– E não se lê que Elias restituiu o espírito ao filho da viúva de Sarepta? Em verdade, Eu te digo que Elias era um grande profeta, mas que os servos do Salvador — que morreu e ressuscitou, porque é o Filho do Deus verdadeiro que se encarnou para redimir os homens — têm ainda maior poder, porque Ele, na Cruz, os perdoou de seus pecados por primeiro, porque conhecia, por sua sabedoria divina, a verdadeira dor dos seus espíritos contritos; e os santificou depois da Ressurreição com um novo perdão, infundiu neles o Espírito Santo a fim de que pudessem representar-me dignamente, com a palavra e com as ações, para que o mundo não ficasse desolado depois do meu afastamento deles.

632.45A mulher retrocede com veemência, atordoada. Joga o véu para trás, para olhar bem para o seu companheiro de caminho. Porém, não o reconhece. Acredita ter entendido errado. Não ousa mais falar…

– Estás com medo de Mim? Antes pensavas que Eu fosse um ladrão, pronto para tomar-te os denários que tens no seio, úteis para com eles comprar o que é necessário para a sepultura. E tu tiveste medo. Agora estás com medo de saber que Eu sou Jesus? E não é Jesus aquele que dá e não toma? Aquele que salva e não arruína? Volta, mulher. Eu sou a Ressurreição e a Vida. Não são necessários o Sudário e os aromas para aquele que não morreu, que não está mais morto, porque Eu sou Aquele que vence a morte e premia quem tem fé. Vai. Vai para a tua casa! O teu marido está vivo. Uma fé em Mim não fica sem prêmio.

Ele faz o gesto de abençoá-la e de ir-se embora.

Então a mulher sai do seu estarrecimento. Não pergunta, não duvida… Nada. Ela cai de joelhos, adorando. E finalmente abre a boca e, dando uma busca em seu seio, tira uma bolsa pequena, magra, daquelas que usam os pobres, cuja miséria proíbe prestar solenes honrarias aos seus mortos, e diz, oferecendo a bolsa:

– Não tenho nada mais… Nada tenho para dar-te como gratidão e para prestar-te uma homenagem, para…

– Não tenho mais necessidade de dinheiro, mulher. Levarás isso aos meus apóstolos.

– Oh! Sim E eu irei lá com o meu marido… Mas o que, então, te daremos, meu Senhor? O quê? Tu apareceres a mim… este milagre… e eu não reconhecer-te… e eu tão inquieta… sim, injusta até com as coisas…

– Sim. E não pensavas que estas coisas existem porque Eu existo, e que tudo o que é bom foi Deus quem fez. Se o sol não tivesse existido, se os grãos não estivessem presentes, não teríeis recebido esta graça.

– Mas quanta dor também!…

E a mulher derrama uma lágrima ao lembrar-se do acontecido.

Jesus sorri e mostra suas mãos, dizendo:

– Esta é uma parte mínima da minha dor. E Eu fiz tudo sem queixar-me, para o vosso bem.

A mulher se inclina até o chão para confessar:

– É verdade. Perdoa os meus lamentos.

632.46Jesus desaparece na sua luz e quando a mulher ergue o rosto, vê que está sozinha. Ela se levanta e gira o olhar. Não mais impede a visão, porque a essa altura o dia está luminoso e só há campos cheios de messe ao redor. A mulher diz a si mesma: “Mas eu não sonhei!” Talvez o demônio a tente, para fazê-la duvidar, porque ela tem um momento de incerteza enquanto segura a bolsa entre as mãos.

Mas depois é a fé que vence, e ela vira as costas para o lugar aonde tinha ido e volta por sobre os seus passos, rápida, como se o vento a estivesse transportando, sem sentir-se cansada, com o rosto irradiando uma alegria maior do que a alegria humana, de tão pacífica. E ela repete, de vez em quando:

– Como é bom o Senhor. Ele é verdadeiramente Deus! Ele é Deus. Seja bendito o Altíssimo e Aquele que Ele mandou.

E não sabe dizer mais nada. E esta sua ladainha se mistura agora com os cantos dos passarinhos.

A mulher está tão absorta com o que lhe aconteceu que nem ouve as saudações dos ceifadores, que a veem passar e que lhe perguntam de onde está vindo, numa hora daquelas… Um deles se aproxima e lhe diz:

– Marcos já está melhor? Tu foste ao médico?

– Marcos morreu ao cantar do galo, e ressuscitou. Pois o Messias do Senhor fez isso –responde ela, andando sempre apressadamente.

– A dor a fez ficar louca! –murmura o homem, e balança a cabeça ao chegar perto dos companheiros, que já começaram a ceifar os trigais.

Os campos vão-se enchendo cada vez mais de gente. Mas a curiosidade vence a muitos, que resolvem acompanhar a mulher, que acelera cada vez mais os seus passos.

632.47Ela prossegue. Eis uma casa paupérrima, baixa, solitária, perdida no meio do campo. Ela se dirige para lá, apertando as mãos no coração.

Entra. Mas assim que põe os pés dentro de casa, uma velha se joga em seus braços gritando:

– Oh! Minha filha, que graça do Senhor! Coragem, filha, porque aquilo que vou dizer-te é tão grande, tão feliz, que…

– Eu sei, mãe. Marcos não está mais morto. Onde está ele?

– Tu sabes? Como?

– Eu encontrei o Senhor. Não o reconheci, mas Ele me falou e, quando lhe aprouve, Ele me disse: “Teu marido está vivo.” Mas aqui… quando?

– Eu tinha acabado de abrir a janela e estava olhando os primeiros raios do Sol sobre a figueira. Sim, isso mesmo. O primeiro raio tocou na figueira pelo lado do quarto… quando eu ouvi um suspiro forte, como o de alguém que desperta. Aí eu me virei, espantada, e vi Marcos sentando-se e jogando para frente o lençol que eu lhe havia colocado sobre o rosto, e olhar para o alto de um modo, um modo tal… Depois ele olhou para mim, e disse: “Mãe, eu estou curado!” Eu… Eu quase morri, e ele me socorreu, e eu compreendi que tinha estado morto. Mas Marcos não se lembra de nada. Ele diz que só se lembra de quando o colocamos na cama e, depois, de mais nada, até o momento em que viu um anjo, uma espécie de anjo, que tinha o rosto do Rabi de Nazaré, e que lhe disse: “Levanta-te!” E ele ergueu-se. Justamente na hora em que o sol surgiu completamente.

– Na hora em que Ele me disse: “O teu marido está vivo.” Oh! Mãe, que graça! Como Deus nos amou!

632.48As pessoas que vão chegando, encontram-nas abraçadas, chorando. Pensam que Marcos esteja morto e que a mulher, num momento de lucidez, tenha entendido a desventura. Mas Marcos, que ouve as vozes, aparece, sereno, com um filho nos braços e os outros agarrados à sua túnica, e diz com força:

– Eis-me aqui. Vamos bendizer o Senhor.

Os que estão chegando, cobrem-no de perguntas e, como sempre nas coisas humanas, começa a surgir a contradição. Uns creem numa verdadeira ressurreição, e outros, a maioria, dizem que ele apenas tinha caído em um torpor, mas que não tinha morrido. Alguns admitem que o Cristo tenha aparecido a Raquel e, outros, que todos estão doidos, porque “Ele está morto.” E outros ainda dizem: “Ele ressuscitou, mas está tão desprezado, deve ser isso, que não faz mais milagres para o seu povo assassino.”

– Dizei o que quiserdes –diz o homem, perdendo a paciência–, dizei-o onde quiserdes. Basta que não digais aqui onde o Senhor Jesus me ressuscitou. E ide embora, ó infelizes! E queira o Céu dobrar-vos a cerviz para crerdes. Mas agora ide e deixai-nos em paz.

E os põe para fora, fechando a porta atrás deles.

632.49Abraça a mulher e a mãe, dizendo:

– Nazaré não é distante daqui. Eu vou lá proclamar o milagre.

– Assim é que quer o Senhor, Marcos. Levaremos estes denários para os seus discípulos. Vamos bendizer o Senhor. Assim como estamos. Nós somos pobres, mas Ele também era, e os seus apóstolos não nos desprezarão.

E se põe a dar os laços nas pequenas sandálias dos meninos, enquanto a mãe põe alguma provisão nas bolsas, fechando as portas e as venezianas, e Marcos vai fazer não sei o quê.

Eles vão saindo à medida que estão prontos, e vão sem demora, os pequeninos nos braços, os outros alegres e meio estonteados ao redor, indo para o leste, para Nazaré, compreende-se. Talvez este lugar ainda exista na planície de Esdrelon, mas em ponto diferente, fora da propriedade de Jocanã.

1 realizou o milagre, no capítulo 395.
2 daquelas minhas palavras ditas na despedida, em 394.3.
3 ao qual Ele deu o nome, em 76.9/10.
4 Eu te restituí a vista, em 358.10.
5 me mandou o cordeiro, em 576.2.
6 ainda queres morrer, como em 529.8.
7 Já me recebeste uma vez, no capítulo 359.
8 os três sábios, lembrados por ele mesmo em 390.6; o meu pedido, em 390.4.
9 o terremoto, preanunciado por Jesus in 381.10.
10 diz, em: Salmo 8,3.
11 a discussão, em 342.6/7.
12 te acolheu, em 254.4/7.
13 o levita, encontrado em: 201.4 - 281.11.14 - 490.9/10 - 506.1 - 507.2.10/12.
14 me deu a vista, em 473.2/6.
15 Parricida, como em 548.15, em referência a 520.6/11 e 535.11.


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