372. 372. Dia da Parasceve.O despertar no palácio de Lázaro.
30 de janeiro de 1946.
372.1 O palácio de Lázaro, transformado em dormitório por aquela noite, mostra corpos de homens adormecidos, por todos os lados. Mulheres não se veem. Talvez tenham sido levadas para os quartos de cima. A claridade da aurora vem lentamente invadindo a cidade, penetrando pelos pátios do palácio, despertando os primeiros trinados, ainda tímidos, pelo meio da folhagem das árvores plantadas para fazerem sombra, e os primeiros arrulhos dos pombos, que dormem no encaixe da cornija. Mas os homens não despertam. Cansados e saciados pela comida e pelas emoções, eles estão ainda dormindo e sonhando…
Jesus sai para o vestíbulo, sem fazer barulho, e do vestíbulo passa para o corredor nobre. Lava-se em uma bica d’água clara, que cai cantando no centro do corredor, no meio de um quadrado de murtas, a cujos pés crescem pequenos lírios, semelhantes aos chamados lírios-do-vale franceses. Ele retoma o caminho e, sempre sem fazer barulho, volta para lá onde está a escadaria, que leva para os pavimentos superiores, e para o terraço que está por cima da casa. Sobe até lá em cima, para rezar e meditar…
Ele está dando lentamente uns passos para um lado e para outro, e os poucos que o podem ver são os pombos, que espicham os pescoços e, garganteando, parecem estar perguntando um ao outro: “Quem é este?” Depois Ele se apoia ao pequeno muro, e fica recolhido em Si mesmo, imóvel. Enfim, levanta a cabeça, talvez por ter sido chamado pelos primeiros raios do sol, que se levanta por detrás das colinas, que escondem Betânia e o vale do Jordão, e fica olhando o panorama que se estende a seus pés.
372.2 O palácio de Lázaro está certamente sobre uma dessas elevações do solo, que fazem das ruas de Jerusalém um sobe-desce contínuo, principalmente nas menos bonitas. Está quase no centro da cidade, levemente afastado para o sudoeste. Colocado acima de uma bela estrada, que desemboca no Sisto, formando com ele um T, domina a cidade baixa, tendo à sua frente Bizeta, o Mória e o Ofel, e, atrás deles, a cadeia do Monte das Oliveiras, estando este mais atrás, e já fazendo parte do lugar em que surge1, o monte Sião, enquanto dos dois lados, nosso olhar pode espraiar-se para o sul, para o lado das colinas meridionais, ficando ao norte Bezeta, que esconde grande parte do panorama. Mas do outro lado do vale do Gion, a cabeça pelada do Gólgota aparece, amarelada, à luz rósea da aurora, triste sempre, ainda que esteja exposta a uma luz tão alegre.
Jesus olha para ela… O seu olhar, ainda que mais viril e mais pensativo, me faz lembrar-me daquela longínqua visão de Jesus, aos doze anos, a visão da disputa com os doutores. Mas agora, como naquela ocasião, não é uma visão de terror. Não. É um honrado olhar de herói, que olha para o campo de sua extrema batalha.
Depois Ele se vira para as colinas meridionais da cidade e diz:
– A casa de Caifás.
E, com o olhar, mostra como que todo um itinerário, daquele ponto, até o Getsêmani, e depois até o Templo, continuando a olhar para além do muro da cidade, para o Calvário…
Enquanto isso, o sol já nasceu de todo, e a cidade está toda cheia de luz…
372.3 No portão do palácio estão sendo dadas umas batidas fortes, sem parada entre uma e outra: Jesus se levanta para ir ver, mas a cornija é muito saliente, ao passo que o portão é muito reentrante, e, as suas paredes maciças o impedem de ver quem é que está batendo. Em compensação, Ele ouve logo a vozearia dos que estavam dormindo, que despertam, enquanto o portão, que foi aberto por Levi, torna a ser fechado, com grande barulho. Depois, Jesus ouve que estão gritando por seu Nome, e os gritos são com vozes de homens e de mulheres… Ele se apressa a descer, e lhes diz:
– Eis-me aqui. Que quereis?
Aqueles que o estavam chamando, logo que o ouviram, tomaram de assalto a escadaria, subindo de carreira, e gritando. São os apóstolos e discípulos mais antigos, e no meio deles está Jonas, o que cuida do Getsêmani. Falam todos ao mesmo tempo e não se entende nada.
Jesus tem que ordenar energicamente que eles fiquem parados onde estão, e façam silêncio, a fim de poder acalmá-los e lhes diz:
– Que está acontecendo?
Ouve-se um outro ruído fragoroso, que continua inexplicável. Atrás dos gritadores, aparecem muitos rostos tristes ou espantados de mulheres e de discípulos.
– Que fale um de cada vez. Tu, Pedro, por primeiro.
– Jonas chegou. Disse que eram muitos os que te procuravam por toda parte. Ele passou mal a noite toda e, depois de ter aberto as portas, foi à Joana, e ficou sabendo que estavas aqui. Mas, que vamos fazer? Seja como for, precisamos fazer a Páscoa.
Jonas do Getsêmani reforça a notícia, dizendo:
– Sim, eles chegaram a me maltratar. Eu disse que não sabia onde estavas, e que talvez não voltarias. Mas eles viram as vossas vestes, e compreenderam que estais de volta ao Getsêmani. Não me faças mal, Mestre! Eu sempre te hospedei com amor, e esta noite tive que sofrer por Ti. Mas… mas…
– Não tenhas medo! Não te porei mais em perigo, de agora em diante. Não farei mais parada em tua casa. Eu me limitarei a vir a ela de passagem, de noite, para rezar… Tu não me podes proibir…
Jesus está sendo muito delicado para com o espavorido Jonas do Getsêmani.
372.4 Mas a voz de ouro de Maria de Magdala prorrompe com veemência:
– Desde quando, ó homem, tu te esqueces de que és servo, e achas que a nossa condescendência te permite usar modos de patrão? De quem é esta casa e o olival? Somente nós é que podemos dizer ao Rabi: “Não vades danificar os nossos bens.” Mas nós não dizemos isso. Porque um grande bem ainda seria se, para procurá-lo, os inimigos do Cristo destruíssem as plantas, os muros, e até aterrassem os valos. Porque tudo seria destruído por ter hospedado o Amor, e o Amor daria amor a nós seus fiéis amigos. Mas que venham! Destruam! Calquem! E daí? Basta que Ele nos ame, e que não sofra nada!
Jonas se vê colocado entre o medo dos inimigos e o de sua enérgica patroa, e murmura:
– E se maltratarem o meu filho…
Jesus o conforta:
– Não tenhas medo, Eu te digo. Eu não ficarei mais. Podes dizer a quem te perguntar, que o Mestre não mora mais no Getsêmani… Não, Maria! É bom fazer assim. E deixa-me agir. Eu te agradeço por tua generosidade… Mas ainda não é a minha hora! Suponho que eram fariseus…
– E sinedritas, e herodianos, e saduceus… e soldados de Herodes… e… todos… todos… Não gosto de tremer de medo… Mas, Tu estás vendo, Senhor? Eu fui correndo para avisar-te… fui à Joana… depois vim para cá…
O homem nos detém para fazer-nos notar que, pondo em risco a sua paz, já cumpriu o seu dever para com o Mestre.
Jesus sorri, com compaixão e bondade, e diz:
– Eu estou vendo! Eu estou vendo! Deus te recompense por isso. Agora, vai em paz para tua casa. Eu te mandarei dizer para onde deves mandar as bolsas, ou mandarei eu mesmo que alguém venha retirá-las.
O homem vai-se embora, e todos, menos Jesus e a Virgem Maria, o cobrem de reprovação e de escárnio. Salgada é a reprovação de Pedro, muito mais salgada é a de Iscariotes, e irônica a do Bartolomeu. Judas Tadeu não lhe diz nada, mas olha para ele de um modo bem significativo. O murmúrio e os olhares de reprovação o acompanham, saindo para isso até das fileiras das mulheres, para terminarem no foguete de Maria Madalena, a qual responde à inclinação do servo:
– Irei dizer a Lázaro que, para o banquete da festa venha buscar frangos bem gordos nas terras de Getsêmani.
– Eu não tenho galinheiro, patroa.
– Tu, Marcos e Maria sois três magníficos capões!
Riem-se todos por aquela saída rústica… maliciosa, de Maria de Lázaro, que está furiosa por ver com medo os seus dependentes, e pela falta de cuidados para com o Mestre, que ficou privado do seu ninho tranquilo no Getsêmani.
– Não te inquietes, Maria! Paz! Paz! Nem todos têm o teu coração.
– Oh! Não, infelizmente! Tivessem todos os meu coração, ó Raboni! Nem mesmo as lanças, e as flechas a mim dirigidas me fariam separar-me de Ti.
Há um murmúrio entre os homens… Maria o percebe, e responde prontamente:
– Sim. Nós o veremos. E o esperamos para breve, se isso puder servir para ensinar-vos a ter coragem. Nada me fará medo, se eu puder servir ao meu Rabi. Servir! Sim! Servir! E é nas horas de perigo que se serve, meus irmãos! Nas outras… Nas outras já não é servir! É gozar!… E não se segue o messias para gozar!
Os homens inclinam a cabeça, feridos por esta verdade.
372.5 Maria abre as fileiras, e vai até à frente de Jesus.
– Que é que vais resolver, Mestre? Já é a Parasceve2. Onde vai ser a tua Páscoa? Manda… e, se eu tiver encontrado a graça necessária diante de Ti, permite-me que te ofereça o meu cenáculo, e que eu possa providenciar quanto a tudo…
– Graça tu encontraste junto ao Pai dos Céus, e, portanto, graça junto ao Filho do Pai, ao qual é consagrado cada movimento do Pai. Mas, se Eu aceitar o cenáculo, deixa que Eu, como bom israelita, vá ao Templo para sacrificar o cordeiro…
– E, se eles te prenderem? –dizem muitos.
– Eles não me prenderão. De noite, na escuridão, como fazem os covardes, eles poderão ousar. Mas, no meio das turbas, que me veneram, não. Não vos torneis uns covardes!
– Oh! Além disso, aqui está Cláudia! –grita Judas–, O Rei e o Reino não estão mais em perigo!…
– Judas, te peço! Não faças que desmoronem em ti. Não sejas mesquinho. O meu Reino não é deste mundo. Eu não sou um rei como aqueles que estão em seus tronos. O meu Reino é do espírito. Se tu o rebaixas à mesquinhez de um reino humano, tu fazes de ti uma cilada para ele e o fazes desmoronar.
– Mas, e Cláudia!…
– Cláudia é uma pagã. Por isso ela não pode saber qual o valor do espírito. Já é muito se ela percebe e apoia Aquele que para ela é um sábio… Muitos em Israel nem mesmo como um sábio me julgam!… Mas tu não és um pagão, meu amigo! O teu providencial encontro com Cláudia, não faças que ele se transforme em prejuízo teu, assim como também não faças que todos os dons de Deus, para tornar mais firme a tua fé e a tua vontade de servir ao Senhor, se transformem em uma desventura espiritual.
– E, como poderia ser isso, meu Senhor.
– Facilmente. E não somente em ti. Se um dom dado para socorrer a fraqueza do homem, em vez de fortificá-lo, e torná-lo cada vez mais desejoso do bem sobrenatural ou ainda, simplesmente moral, ele servir para enchê-lo de pesados apetites humanos e levá-lo para longe do caminho certo, então o dom se transformaria em prejuízo. Basta a soberba para fazer de um dom um prejuízo. Basta a desorientação provocada por alguma coisa que nos exalta, pela qual se perde de vista o Fim supremo e bom, para fazer de um dom um prejuízo. Não estás persuadido? A vinda de Cláudia pode dar-te, quando muito, a oportunidade de fazer uma observação. E é esta: se uma pagã percebeu a grandeza da minha doutrina e a necessidade de que ela triunfe, tu, e contigo todos os discípulos, com um poder ainda maior, deveis perceber tudo isso e, por consequência, entregar-vos todos a Mim. Mas sempre espiritualmente. Sempre… 372.6E agora decidamo-nos. Onde achais que é bom fazer a Páscoa? Eu quero que estejais em paz de espírito para esta Ceia ritual, para ouvirdes a Deus, que não se ouve no meio da perturbação. Nós somos muitos. Mas me seria agradável que estivésseis todos juntos, para Eu poder fazer-vos dizer: “Vamos fazer a Páscoa com Ele.” Escolhei, pois, um lugar onde, dividindo-vos segundo o ritual, de modo a formar grupos em número suficiente para cada grupo comer o seu próprio cordeiro, e que se possa dizer: “Nós estávamos unidos, e um irmão ouvia a voz do outro.”
Uns escolhem um lugar, outros escolhem outro, mas as irmãs de Lázaro ganham.
– Oh! Senhor! Aqui. Mandaremos buscar o nosso irmão. Aqui. Há muitas salas e quartos. Estaremos juntos, e de acordo com o rito. Aceita, Senhor! O palácio tem salas com capacidade para pelo menos duzentas pessoas divididas em grupos de vinte. E nós somos neste número. Alegremo-nos , Senhor! Pelo nosso Lázaro, que está tão triste… tão doente…
E as duas irmãs terminam chorando e dizendo:
– … Pois não se pode pensar que vós ireis comer uma outra Páscoa…
– Que dizeis? Que dizer às boas irmãs? –diz Jesus, interrogando a todos.
– Eu diria que sim –diz Pedro.
– Eu também –diz Iscariotes, e muitos outros.
E quem não fala, consente.
– Então, tomai as providências. E nós iremos ao Templo, para mostrarmos que quem tem a certeza de estar obedecendo ao Altíssimo, não tem medo, nem é covarde. Vamos. A quem fica, a minha paz.
E Jesus acaba de descer a escadaria, atravessa o vestíbulo, e sai com os discípulos pela rua, toda tomada pela multidão.
1 em que surge subentende, como sujeito, o palácio de Lázaro.
2 Parasceve era a preparação que se fazia antes do início do sábado, durante o qual eram proibidas todas as atividades, inclusive aquela de preparar a alimentação. A obra valtortiana, concordando com Marco 15,42, dá o nome de parasceve ao dia que precedia o sábado (por exemplo em 609.34); mas frequentemente, por compreender melhor (como diremos em nota em 591.6), o chama sexta-feira (como em 93.3, em 174.17 e em outros tópicos). Poderia também ser dia do mercado, como é mencionado em 83.3.
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