126. 126. Os discursos de Águas Belas:Não matar. Morte de Doras.


10 de março de 1945.

126.1 – “Não matar”, foi dito. Este mandamento pertence a qual dos 2 grupos? “Ao segundo”, direis vós, estais certos disso? Eu vos pergunto ainda: É um pecado que ofende a Deus ou à vítima? Vós dizeis: “À vítima”. Também disto tendes certeza? E vos pergunto ainda: Será somente um pecado de homicídio? Matando, cometeis somente este único pecado? “Este só”, dizeis vós. Ninguém tem dúvidas sobre isso? Dizei em voz alta vossa resposta. Que um de vós fale por todos. Eu espero.

E Jesus se inclina para acariciar uma menininha, que se aproximou Dele e que o olha extasiada, esquecendo-se até de morder a maçã que a mãe lhe deu para que ficasse quieta.

Levanta-se um velho imponente e diz:

– Escuta, Mestre. Eu sou um velho sinagogo e me pediram para falar por todos. E vou falar. Parece-nos, que já respondemos segundo a justiça a tudo o que nos foi ensinado. Apoio a minha segurança no capítulo da Lei1 sobre o homicídio e sobre os ferimentos. Mas Tu sabes por que viemos: para sermos ensinados, reconhecendo em Ti a sabedoria e a verdade. Portanto, se eu estiver errado, ilumina as minhas trevas, a fim de que o velho servo vá ao seu Rei vestido de luz. E, como fizeres comigo, faze-o com estes, que são do meu rebanho e que vieram com o seu pastor para beberem das fontes da Vida –e se inclina, antes de assentar-se, com o máximo respeito.

– Quem és tu, pai?

– Cléofas de Emaús, teu servo.

– Não meu, mas Daquele que me mandou. Porque é dada ao Pai toda precedência e todo amor no Céu, na terra e nos corações. E o primeiro a dar-lhe esta honra é o seu Verbo, que oferece, sobre a mesa sem defeito, os corações dos bons, como faz o sacerdote com os pães da proposição. Mas escuta, Cléofas, para que tu possas ir a Deus bem iluminado, como é o teu santo desejo.

126.2 Ao medir uma culpa, é preciso pensar nas circunstâncias que a precedem e as justificam. “Quem? O que? Onde e com que meios por que? quando eu feri?”: isto deve-se perguntar aquele que matou, antes de se apresentar a Deus para pedir-lhe perdão.

Quem eu feri? Um homem.

Eu digo: um homem. Não estou pensando nem considerando se ele é rico ou pobre, se é livre ou escravo. Para Mim não existem escravos ou poderosos. Existem somente homens criados por um único Criador. Por isso todos são iguais. De fato, diante da majestade de Deus, é pó até o mais poderoso monarca da terra. Aos nossos olhos, só existe uma escravidão: a do pecado e, portanto, de satanás. A Lei antiga distingue os livres dos escravos e tem a sutileza de distinguir entre o matar com um golpe e o matar deixando a vítima sobreviver um dia ou dois Por exemplo quando a mulher grávida é levada à morte por pancadas, ou quando matava somente o seu fruto. Mas isto foi dito, quando a luz da perfeição ainda estava longe. Agora a perfeição está entre vós e diz: “Qualquer um que ferir de morte um seu semelhante, peca.” E não peca somente contra o homem, mas também contra Deus.

Que é o homem? O homem é a criatura soberana, que Deus criou para ser o rei da criação, criado à sua imagem e semelhança, tirando esta imagem do seu pensamento perfeito. Olhai para o ar, para a terra e para as águas. Porventura vedes algum animal, ou alguma planta, que, por mais belos que sejam, cheguem a se igualar ao homem? O animal corre, come, bebe, dorme, gera, trabalha, canta, voa, rasteja, sobe. Mas não tem fala. O homem também sabe correr e saltar, e no salto é tão ágil, que emula o pássaro; sabe nadar, e no nado é tão veloz que parece um peixe; sabe rastejar e parece um réptil; sabe subir e parece um macaco; sabe cantar e parece um pássaro. Sabe gerar e reproduzir-se. Mas, além disso, sabe falar.

E não digais: “Cada animal tem a sua linguagem.” Sim. Um muge, outro bale, outro zurra, outro chilreia, outro gorjeia, mas do primeiro até o último bovino, todos terão sempre o mesmo mugido, e assim também o ovino balirá até o fim do mundo, e o burro zurrará como zurrou o primeiro, e o pássaro sempre soltará o seu curto chilreio enquanto a cotovia e o rouxinol farão ouvir o mesmo hino, ao sol a primeira, e à noite estrelada o segundo, mesmo se for o último dia da terra, do mesmo modo como saudaram ao primeiro sol e à primeira noite. O homem, ao contrário, porque não tem apenas uma garganta e uma língua, mas um complexo de nervos, que se concentram no cérebro, sede da inteligência, sabe captar novas sensações, e pensar a respeito delas, e dar-lhes um nome.

Adão deu nome de cão ao animal seu amigo e o de leão ao que lhe pareceu mais semelhante, na juba basta, encimando uma cara de pouca barba. Chamou de ovelha ao animal que o saudava manso, e chamou pássaro aquela flor de penas, que voava como a borboleta, mas cantava docemente um canto que a mesma não tem. E depois, com o passar dos séculos, os filhos de Adão foram criando sempre novos nomes, à medida que foram “conhecendo” as obras de Deus nas criaturas ou que, pela centelha divina que há no homem, não somente geraram filhos, mas criaram também coisas úteis ou nocivas aos próprios filhos, conforme estavam com Deus ou contra Deus. Estão com Deus os que criam ou produzem coisas boas. Estão contra Deus os que criam coisas más, que prejudicam o próximo. Deus se vinga por seus filhos que foram torturados pelo mau gênio humano.

126.3 O homem é, portanto, a criatura predileta de Deus. Ainda que agora seja culpado o homem, é sempre o que Lhe é mais caro. E o que testemunha isso é ter-lhe mandado o seu próprio Verbo, não um anjo, nem um arcanjo, ou querubim, ou Serafim, mas o seu Verbo, revestindo-o da carne humana, para salvar o homem. Não achou indigna Dele essa veste, que tornava passível de sofrer e expiar Aquele que, como puríssimo Espírito, não teria conseguido sofrer e expiar a culpa do homem.

O Pai me disse: “Serás homem: o Homem. Eu havia feito um homem perfeito, como tudo o que Eu faço. Para ele estava destinada uma vida doce, um dulcíssimo adormecer, um feliz despertar, uma felicíssima permanência eterna no meu Paraíso celeste. Mas, Tu o sabes, nesse Paraíso não pode entrar o que está contaminado, porque nele Eu-Nós, uno e trino Deus, reinamos. E diante deste trono, não pode haver senão santidade. Eu sou Aquele que sou. A minha Natureza divina, a nossa misteriosa Essência, não pode ser conhecida senão por aqueles que são sem mancha. Agora o homem, por causa de Adão, está sujo. Vai, limpa-o. Eu quero. Tu serás, de agora em diante, o Homem. O Primogênito. Porque serás o primeiro a entrar aqui com carne mortal, livre do pecado, com alma livre da culpa de origem. Aqueles que te precederam na terra e aqueles que virão depois de Ti terão vida pela tua morte de Redentor.” Não poderia morrer, senão alguém que nasceu. Eu nasci e Eu morrerei.

O homem é a criatura predileta de Deus. Agora, dizei-me: Se um pai tem muitos filhos, mas um deles é o seu predileto, a pupila de seus olhos, e este vem a ser morto, aquele pai não sofre mais do que se tivesse sido morto um outro filho? Isto não deveria acontecer, porque o pai deveria ser justo com todos os seus filhos. Mas acontece porque o homem é imperfeito. Deus o pode fazer com justiça porque o homem é a única criatura, que tem a alma espiritual em comum com o Pai Criador, sinal inegável da paternidade divina.

Se a um pai se lhe mata o filho, ofende-se somente ao filho? Não. Também ofende-se ao pai. Na carne se ofende o filho, no coração o pai. Em ambos se produz a ferida. Matando um homem, ofende-se somente o homem? Não. Também a Deus. Na carne se ofende o homem, no seu direito se ofende a Deus. Porque a vida e a morte só por Ele podem ser dadas ou tiradas. Matar é fazer violência a Deus e ao homem. Matar é penetrar no domínio de Deus. Matar é faltar ao preceito de amor. Quem mata não ama a Deus, porque destrói uma de suas obras: um homem. Quem mata não ama o próximo, porque tira do próximo aquilo que o assassino quer para si: a vida.

E eis que respondo às duas primeiras perguntas.

126.4 Onde eu feri?

Pode-se ferir pelo caminho, na casa do agredido ou atraindo a vítima para a própria casa. Pode-se ferir um ou outro órgão, causando sofrimento mais grave, e fazendo-se também dois homicídios em um, ao ferir-se uma mulher que tem o ventre grávido.

Pode-se ferir pelo caminho, sem ter intenção de fazê-lo. Um animal, que nos toma a rédea da mão, pode matar quem passa. Mas então não há em nós premeditação, enquanto que se alguém, armado com um punhal, sob as hipócritas vestes de linho, vai à casa do inimigo — e, muitas vezes, o inimigo é o que tem a culpa de ser melhor — ou então o convida a ir à sua casa, com sinais de honra e depois o estrangula e joga num poço, havendo nesse caso premeditação e malícia completa, ferocidade e violência.

Se eu mato o fruto junto com a mãe, eis que Deus me pedirá conta dos dois. Porque o ventre, que gera um novo homem, segundo o mandamento de Deus, é sagrado, e sagrada é a pequena vida, que nele está amadurecendo, à qual Deus deu uma alma.

126.5 Com que meios feri?

Em vão diz alguém “Eu não queria ferir”, andando armado com uma arma de qualidade. Na hora da ira, até as mãos se tornam armas, sendo arma a pedra apanhada do chão, ou o galho arrancado de uma árvore. Mas quem observa friamente o punhal ou o machado, e, quando acha que eles estão cegos, os afia, e depois os segura junto ao corpo, de modo que não sejam vistos, mas possam ser brandidos com facilidade e vai até o rival assim preparado, certamente não poderá dizer “Eu não tinha vontade de ferir.” Quem prepara um veneno, colhendo ervas e frutos tóxicos, e faz deles um pó ou uma infusão e depois os oferece à vítima, como um tempero ou uma bebida, certamente não pode dizer “Eu não queria matar.”

E agora, escutai vós, ó mulheres, caladas e impunes assassinas de tantas vidas. Também é matar, arrancar um fruto que está crescendo no ventre, porque ele vem de uma semente culposa ou porque é um embrião não desejado, um peso inútil para os vossos flancos e para a vossa riqueza. Só tendes um modo de não sentir aquele peso: permanecendo castas. Não unais o homicídio à luxúria, a violência à desobediência e não penseis que Deus não vê, porque o homem não vê. Deus tudo vê e de tudo se lembra. Lembrai-vos disso, vós também.

126.6 Por que eu feri?

Oh! Quantos porques! Pelo repentino desequilíbrio que cria em vós uma emoção violenta, como é aquela de encontrar o tálamo profanado, ou o ladrão em casa, ou o sórdido intento de violentar a própria filha mocinha, ou o frio e meditado cálculo de livrar-se de uma testemunha perigosa, alguém que possa colocar embaraços na carreira, alguém, cujo posto ou cuja bolsa se deseja: estes são alguns e muitos outros porques. E se ainda Deus pode perdoar a quem, na febre da dor se torna um assassino, não perdoa a quem se torna assassino pela avidez do poder ou estima entre os homens.

Agi sempre bem e não temereis o olhar de ninguém, nem a palavra de ninguém. Contentai-vos com o que é vosso e não desejareis o que é dos outros, a ponto de tornar-vos assassinos para terdes o que é do próximo.

126.7 Como eu feri?

Desfechando outros golpes, além do primeiro golpe, irrefletido? Às vezes o homem não pode refrear-se. Porque satanás o atira ao mal, como o fundibulário atira a pedra. Mas, que diríeis de uma pedra que, depois de ter acertado no alvo, voltasse por si mesma atrás, para ser lançada de novo e tornar a golpear? Vós diríeis: “Ela está possuída por uma força mágica e infernal.” Assim é o homem que, depois do primeiro golpe, desse um segundo, um terceiro, um décimo, sem que a sua ferocidade se amansasse. Porque a ira se apaga e cai em si, logo depois do primeiro ímpeto, se esse ímpeto tem origem em algum motivo ainda justificável. Enquanto que a ferocidade aumenta, quanto mais a vítima vai sendo ferida, no verdadeiro assassino, ou seja, em satanás, que não tem, não pode ter piedade do irmão, porque sendo satanás, é ódio.

126.8 Quando eu feri?

No primeiro impulso? Depois deste? Fingindo perdão, enquanto o rancor ia fermentando sempre mais? Terei esperado talvez muitos anos para ferir, para dar uma dupla dor, matando o pai através dos filhos?

Vós estais vendo que, matando, se peca contra o primeiro e o segundo grupo dos mandamentos. Porque vos arrogais o direito de Deus e porque conculcais o próximo. Portanto é pecado contra Deus e contra o próximo. E fazeis, não apenas um pecado de homicídio. Fazeis também um pecado de ira, de violência, de soberba, de desobediência, de sacrilégio e, às vezes, se matais para roubar um posto ou uma bolsa, de cobiça. Explicarei melhor em outro dia, mas nem se peca por homicídio somente com a arma e o veneno. Mas também com a calúnia. Meditai.

126.9 E vos digo ainda: o patrão que, batendo num escravo, o faz com astúcia, para que ele não morra em suas mãos, é duplamente culpado. O homem escravo não é dinheiro do patrão: é alma do seu Deus. E maldito seja para sempre quem o trata pior do que a um boi.

Jesus parece estar soltando faísca e troveja. Todos o olham espantados, porque antes Ele falava calmo.

– Maldito seja. A Lei nova abole esta dureza, que ainda era justiça, quando no povo de Israel não havia hipócritas, que se fingem de santos e aguçam as suas inteligências somente para explorar frustrando a Lei de Deus. Mas agora, que em Israel estão transbordando esses seres viperinos, que o líbito os fazem lícito, só porque eles são miseráveis poderosos, que Deus olha com abominação e repugnância, Eu digo: isto não existe mais.

Caem os escravos sobre os sulcos ou nas moendas. Caem com os ossos moídos e os nervos expostos pelos flagelos. Os patrões os acusam, para poderem bater neles, de delitos que não existem, para justificarem seu sadismo satânico. Até o milagre de Deus é usado como acusação, para ter direito de bater Nem o poder de Deus, nem a santidade do escravo converte a alma sua perversa. Não pode ser convertida. O bem não entra onde existe saturação do mal. Mas Deus vê e diz “Basta!”

Muitos são os Cains que matam os Abéis. E que achais, ó sepulcros imundos — por fora caiados e cobertos com as palavras da Lei, e com um interior onde passeia satanás, como um rei e onde brota o satanismo mais astuto —, que achais vós? Que Abel tenha sido somente filho de Adão e que o Senhor olhe benignamente só aqueles que não são escravos de um homem, enquanto repele a única oferta que o escravo pode fazer: a sua honestidade, temperada com pranto? Não. Pois em verdade vos digo que todo justo é um Abel, mesmo se estiver submetido a grilhões, mesmo se estiver morrendo sobre a gleba ou sangrando, por causa de vossas flagelações. E são Cains todos os injustos, que fazem ofertas a Deus por orgulho, não por um ato de verdadeiro culto, mas oferecem o que está poluído pelos seus pecados e manchados de sangue.

Profanadores do milagre. Profanadores do homem, assassinos, sacrílegos! Fora! Longe da minha presença! Basta! Eu digo: Basta. E Eu posso dizer isso porque sou a divina Palavra que traduz o Pensamento divino. Fora!

Jesus, em pé sobre o rústico estrado, está espantoso em sua imponência. Com o braço direito estendido, para mostrar a porta de saída, os olhos como duas fogueiras azuis parece fulminar os pecadores presentes. A pequenina, que está a seus pés, começou a chorar e corre para sua mãe. Os discípulos, assombrados, se olham e olham para quem seria aquela investida. O povo também se vira, com olhares interrogativos.

126.10 Finalmente o mistério se desfaz. Lá no fundo, perto da porta, meio escondido atrás de um grupo de pessoas altas do povo, pode-se ver o Doras. Ainda mais descarnado, amarelo, todo encarquilhado, com seu longo nariz, o queixo prognata. Tem consigo um servo que o ajuda a mover-se, porque ele parece ter sofrido algum acidente. E quem o tinha visto lá no meio da eira? Ele ainda ousa falar com voz rouca:

– É a mim que estás falando? É para mim?

– É para ti, sim. Sai da minha casa.

– Eu vou sair. Mas logo faremos as contas, não tenhas dúvidas.

– Logo? . O Deus do Sinai, como Eu te disse2, está à tua espera.

– Também Tu, maléfico, que fizeste que viessem sobre mim as desgraças e os animais nocivos nas terras. Nós nos tornaremos a ver. E vai ser a minha alegria.

– Sim. Mas não quererás rever-me. Porque Eu te julgarei.

– Ah! Ah! Mald…

Debate-se, gorgoleja e cai.

– Morreu! –grita o servo–. Meu patrão morreu! Que Tu sejas bendito, ó Messias, nosso vingador!

– Não Eu. Deus, o Senhor eterno. Ninguém se contamine. Que apenas o servo cuide de seu patrão. E que sejas bom para com o seu corpo. Sejais bons, vós todos, servos dele. Não tripudieis, com ódio pelo que morreu, para que não mereçais condenação. Deus e o justo Jonas vos sejam sempre amigos, e Eu com eles. Adeus.

– Mas ele morreu por tua vontade? –pergunta Pedro.

– Não. Mas o Pai entrou em Mim… É um mistério que não podes entender. Fica sabendo apenas que não é lícito ferir a Deus. Ele por si mesmo faz as vinganças.

– Mas não poderias, então, dizer ao teu Pai que faça morrer todos os que te odeiam?

– Cala-te! Tu não sabes de que espírito és. Eu sou Misericórdia e não Vingança.

Aproxima-se Dele o velho sinagogo:

– Mestre, Tu deste respostas a todas as minhas perguntas, e a luz está em mim. Que sejas bendito. Vem à minha sinagoga. Não recuses a um pobre velho a tua palavra.

– Eu irei. Vai em paz. O Senhor é contigo.

Enquanto a multidão vai-se afastando lentamente, tudo termina.



1 Lei, que está em: Êxodo 21,12-26; Levítico 24,17-22; Números 35,9-34; Deuteronômio 19,1-13.
2 Eu te disse, em: 109.12.