427. 427. Áurea Gala instruída por Bartolomeu.


2 de maio de 1946.

427.1 São coisas precoces as auroras do verão, porque breve é o tempo que permeia entre o desaparecimento da lua no poente e o surgimento das primeiras claridades do dia. De modo que, por mais que tenham caminhado com vontade, o período mais escuro da noite os surpreende ainda nas vizinhanças da cidade de Cesareia, a tal ponto que nem um ramo de abrunheiro aceso produz a luz suficiente. É preciso parar por algum tempo, também porque a mocinha, menos acostumada do que eles a caminhar de noite, tropeça muitas vezes nas pedras escondidas no chão poeirento.

– É melhor pararmos por algum tempo. A menina não está enxergando, e está cansada –diz Jesus.

– Não, não, eu posso. Vamos para longe, muito longe… Poderia ir. Por aqui foi que nós passamos para chegar àquela casa –diz, batendo os dentes, a menina, misturando hebraico com latim, em um idioma novo, procurando fazer-se entender.

– Iremos para trás daquelas árvores, e ninguém nos verá. Não tenhas medo –responde-lhe Jesus.

– Sim, não tenhas medo. Aquele… romano, numa hora destas, deve estar embriagado debaixo da mesa –diz Bartolomeu, para dar-lhe coragem.

– E, além disso, tu estás conosco, e nós te queremos bem. Não deixamos ninguém te fazer mal. Como não? Somos doze homens robustos… –diz Pedro, pouco mais alto do que ela, mas robusto, ao passo que ela é franzina.

Ele queimado pelo Sol, ao passo que ela é de neve, pobre flor crescida na sombra, para ser admirada por sua beleza.

– Tu és uma pequena irmã. E os irmãos defendem as irmãs –diz João.

A menina, à última chamazinha da tocha improvisada, levanta sobre os seus confortadores os claros íris de um cinzento-ferro, tingido apenas de azul, duas limpas íris que ainda estão brilhando por causa do pranto há pouco derramado, pelo terror de pouco antes… Ela está desconfiada. No entanto, confia neles. E vai atravessando com os outros o pequeno córrego seco para lá da estrada, a fim de entrar em uma propriedade que termina em um pomar com muitas árvores frutíferas.

427.2 Assentam-se no escuro. E ficam esperando. Os homens talvez estivessem dormindo. Mas cada barulho faz que a menina dê um gemido, e ao ouvir o galope de um cavalo, ela se agarra ao pescoço de Bartolomeu que talvez, por ter mais idade, atrai a confiança dela. E desse modo é impossível que se durma.

– Mas, não tenhas medo! Quando estamos com Jesus, não acontece nada de mal –diz Bartolomeu.

– Por quê? –pergunta a menina, tremendo, e ainda agarrada ao pescoço do apóstolo.

– Porque Jesus é Deus na terra, e Deus é mais forte que os homens.

– Deus? Quem é Deus?

– Pobre criatura! Mas, como foi que te criaram? Não te ensinaram nada?

– Ensinaram-me a ter a pele branca, os cabelos brilhando, a obedecer aos patrões… a dizer sempre sim… Mas eu não podia dizer sim ao romano… ele era feio, e me causava medo… Todos os dias aquele medo… E sempre lá: no banho, na hora de vestir-se… com aqueles olhos… aquelas mãos, oh!… E quem não disser sim, leva pancadas…

– Mas não vais levar pancadas. Não está mais aqui o romano com aquelas mãos… oh! Aqui estamos em paz… –responde-lhe Jesus.

E os outros comentam:

– Mas é um horror. Como se fosse um animal de valor, não mais que um animal! E pior ainda… Sempre um animal, pelo menos sabe que o estão ensinando a arar, a levar a sela e o freio, porque isso é o seu ofício. Mas esta criatura foi jogada lá sem saber!

– Se eu soubesse, me teria jogado ao mar. E ele havia dito: “Eu te farei feliz.”

– De fato, ele te fez feliz. E de um modo que ele nem imaginava. Feliz nesta Terra e no Céu. Porque conhecer a Jesus é uma felicidade –lhe diz Zelotes.

427.3 Um silêncio, durante o qual cada um medita sobre os erros do mundo. Depois, em voz baixa, a menina pergunta a Bartolomeu:

– Dize-me o que é Deus.? E por que Ele é Deus? . Por que Ele é belo e bom?

– Deus… Como irei fazer para ensinar-te uma coisa tão grande, a ti que não tens nenhuma ideia de religião?

– Religião, que é isso?

– Ó altíssima sabedoria. Eu sou como alguém que está se afogando num mar profundo. Como farei diante desse abismo?

– É muito simples, Bartolomeu, o que te parece tão difícil. É um abismo, sim, mas vazio. E tu podes enchê-lo com a verdade. Pior é quando os abismos estão cheios de lama, de venenos, de serpentes… Fala com simplicidade, como falarias a uma criança. E ela te compreenderá melhor do que um adulto.

– Oh! Mestre! Mas não poderias fazer isso?

– Eu poderia. Mas a menina aceitará a palavra de um seu semelhante, mais facilmente do que as minhas de Deus. E, por outro lado… é diante de abismos como este que vós devereis encontrar-vos no futuro, para enchê-los de Mim. E deveis aprender a fazer isso.

– É verdade. Eu vou experimentar. Escuta, menina… Tu te lembras de tua mãe?

– Sim, Senhor… Há sete anos que as flores vêm florescendo sem ela. Mas antes eu estava com ela.

– Está bem. E te lembras dela. E lhe queres bem?

– Oh!

Um soluço, junto com essa exclamação, já diz tudo.

– Não chores, pobre criatura… Escuta… O amor que tu tens pela mamãe…

– … E o pai… e os irmãozinhos… –diz, entre soluços, a menina.

– Sim… pela tua família, o amor para com a tua família, o pensamento que tens dela, o desejo de voltar a ela…

– Nunca mais…

– Mas!… Tudo isso é uma coisa que pode ser chamada a religião da família. As religiões, as ideias religiosas, portanto, são o amor, o pensamento e o desejo de ir para onde está aquele ou aqueles em que nós cremos, que nós amamos e desejamos.

– Ah! Se eu crer naquele Deus ali, terei uma religião… É fácil!

– Bem. Que os que é fácil? Ter uma religião, ou crer naquele Deus ali?

– Tanto isto, como aquilo. Porque se pode crer facilmente em um Deus bom, como aquele ali. O romano falava de tantos deuses, e jurava… Ele dizia: “Pela deusa Vênus,” “pelo deus Cupido.” Mas deviam ser dos não bons, porque ele fazia coisas não boas, quando falava o nome deles.

– A menina não é estúpida –comenta Pedro em voz baixa.

427.4 – Mas eu ainda não sei o que é Deus. Eu o vejo, sendo homem como tu… Então. Deus é um homem. E como se há de fazer para entendê-lo? Em que é que Ele é forte mais do que todos? Ele não tem espadas, nem servos…

– Mestre, ajuda-me…

– Nada disso, Natanael! Estás ensinando muito bem…

– Dizes isso por bondade… Pensemos nos diversos modos de irmos para a frente. Escuta, menina: Deus não é homem. Ele é como uma luz, um olhar, um som, tão grande, que enche o céu e a terra, e a tudo ilumina, tudo vê, a todos instrui e a tudo dá ordem…

– Até ao romano? Então, não é um Deus bom. Fico com medo!

– Deus é bom, e dá boas ordens, e aos homens tinha dado a ordem de não fazerem guerras, de deixar as meninas com as mães delas e de não espantar as meninas Mas os homens nem sempre ouvem a voz de Deus.

– Mas Tu ouves…

– Eu, sim.

– Mas, se é mais forte do que todos, por que Deus não se faz obedecer? E, como Ele fala, se não é homem?

– Deus… oh! Mestre!

– Vai adiante, Bartolomeu. És um mestre tão sábio, sabes dizer com tanta simplicidade os pensamentos mais profundos, e estás com medo? Não sabes que o Espírito Santo está sobre os lábios daqueles que ensinam a Justiça?

– Fica parecendo coisa tão fácil, quando te ouvimos falar… e todas as tuas palavras estão aqui dentro. Mas, puxá-las para fora, quando precisamos fazer o que Tu fazes!… Oh! Que miséria há em nós, pobres homens! Que mestres de nada!

– Isso de reconhecer o vosso nada já predispõe o vosso espírito para ser ensinado pelo Espírito Paráclito…

– Está bem. Escuta, menina. Deus é forte, fortíssimo, mais do que o César, mais do que todos os homens tomados juntos, com os seus exércitos e máquinas de guerra. Mas Ele não é um patrão desapiedado que faz dizer sempre que sim e faz sofrer a pena do chicote a quem não o disser. Deus é um pai. Teu pai te queria bem?

– Muito! Ele me pôs o nome de Áurea Gala, porque o ouro é precioso, e a Gália é a pátria, e ele dizia que eu era mais cara do que o ouro, que ele já tinha tido, e do que a pátria.

– O teu pai te batia?

– Não. Nunca. Mesmo quando eu procedia mal, ele me dizia: “Pobre de minha filha!”, e chorava…

– Eis: É assim que Deus faz. Ele é pai, e nos ama, e chora quando procedemos mal, mas não nos obriga a obedecer-lhe. Quem, porém, é mau será castigado um dia com suplícios horríveis…

– Oh! Que bonito! O patrão que me tirou de minha mãe, e me levou para a ilha, e o romano, irão para os suplícios. E eu verei isso?

– E tu verás, se estiveres com Deus, se nele creres, e se fores boa. Mas, para seres boa, não deves odiar nem mesmo ao romano.

– Não? Então, como hei de fazer?

– Reza por ele, ou…

– Que é rezar?

– É falar com Deus, dizendo-lhe o que queremos…

– Mas eu quero uma má morte para os patrões –diz, com uma veemência selvagem, a menina.

– Não. Não deves fazer assim. Jesus não te ama, se falas assim!

– Por quê?

– Porque não se deve odiar a quem nos fez mal.

– Mas eu não posso amá-los…

– Por enquanto, esquece-te deles… Procura esquecer-te. Depois, quando estiveres mais… instruída sobre Deus, rezarás por eles…

427.5Portanto, estávamos dizendo que Deus é poderoso, mas deixa livres os seus filhos.

– Eu sou filha de Deus? Tenho, então, dois pais? Quantos filhos Ele tem?

– Todos os homens são filhos de Deus, porque foi ele que os fez. Estás vendo lá em cima as estrelas? Foi Ele que as fez. Estás vendo estas plantas? Foi Ele quem as fez. E a terra em que estamos sentados, e aquele passarinho, que está cantando, e o mar, que é tão grande, tudo e todos os homens. E os homens são mais filhos dele do que tudo mais, porque são filhos por aquela coisa que se chama a alma, e que é luz, é som, é olhar, não grandes como os dele, que enchem todo o céu e a terra, mas belos, e que não morrem nunca, como Ele não morre.

– Onde é que está a alma? Eu tenho uma alma?

– Sim. No teu coração, e foi ela que te fez compreender que o romano era mau, e que certamente não te fará desejar ser como ele. Não é verdade?

– Sim…

E a menina fica refletindo, depois desse “sim” hesitante… Depois, ela diz com convicção:

– Sim! Era como uma voz dentro de mim, e uma necessidade de receber um socorro… e, com uma outra voz dentro, mas essa era minha, eu chamava por minha mãe… pois eu não sabia que havia Deus, que havia… Jesus… Se eu tivesse sabido, o teria chamado, com aquela voz que eu tinha dentro de mim…

– Tu entendeste bem, menina, e crescerás na Luz. Eu to digo: Crê no verdadeiro Deus, escuta a voz de tua alma virgem que não tem uma sabedoria adquirida nesta terra e está livre da má vontade, e terás em Deus um Pai e na morte, que é a passagem para o Céu para todos os que creem no Deus verdadeiro e são bons, terás um lugar no Céu, perto do teu Senhor –diz Jesus, pondo a mão sobre a cabeça da menina.

A qual muda de posição e se ajoelha, dizendo:

– Perto de Ti. É belo estar contigo. Não te afastes de mim, Jesus. Agora sei quem és, e me prostro. Em Cesareia eu tinha medo de fazê-lo. Pois me parecias um homem. Agora sei quem és: um Deus escondido em um homem e sei que és meu Pai e Protetor.

– E Salvador, Áurea Gala.

– E Salvador. Tu me salvaste!

– E mais te salvarei. Terás um nome novo…

– Tiras, então o meu nome, que me foi dado por meu pai? O patrão na ilha me chamava Áurea Quintília, porque nos separavam pela cor e pelo número, e eu era a quinta loura assim. Mas, por que não me deixas o nome dado por meu pai?

– Eu não tiro o teu nome. Mas ao teu nome antigo levarás acrescentado o nome novo, eterno.

– Qual é?

– Cristiana. Porque foi o Cristo que te salvou. 427.6Mas o dia já vem clareando. Vamos. Estás vendo, Natanael, como é fácil falar de Deus aos abismos vazios… Tu falaste muito bem. A menina se formará rapidamente na verdade… Vai na frente com os meus irmãos, Áurea…

A menina obedece, mas com temor. Ela preferiria continuar perto de Bartolomeu, e este o compreende, e promete:

– Voltarei logo, eu também. Vai, obedece…

E, tendo ficado com Jesus, Pedro, Simão e Mateus, observa:

– É uma pena que ela fique com Valéria. Sempre ficará com uma pagã…

– Não posso impô-la ao Lázaro…

– Mas temos Nique, Mestre –sugere Mateus.

– E Elisa… –diz Pedro.

– E Joana… É amiga de Valéria, e Valéria lhe cederá, com certeza, de boa vontade. E ela ficaria numa casa boa –diz Zelotes.

Jesus pensa, e se cala…

– Tu o farás… Eu fico com a menina, que está sempre olhando para trás. Ela confia em mim, porque eu estou velho… Eu a tomaria… seria uma filha a mais… Mas ela não é de Israel…

E lá se vai o bom, mas israelita demais, Natanael.

Jesus olha para ele, e sacode a cabeça.

– Por que esse gesto, Mestre? –pergunta o Zelotes.

– Porque… fico com pena de ver que até os sábios são escravos dos preconceitos…

– Mas… seja dito entre nós… Bartolomeu tem razão… e até… Tu deverias tomar providências… Lembra-te de Síntique e de João… Que não vá suceder uma coisa igual… Manda-a para Síntique…

–diz Pedro, com medo de terem aborrecimentos por conservarem entre si a pagãzinha.

– João vai morrer logo… Síntique está ainda muito inexperiente, para ser mestra de uma menina como esta… E o ambiente não é adequado…

– Contudo, não deves conservá-la. Pensa bem que Judas logo já estará conosco. E Judas, Mestre, permite-me dizê-lo, é um luxurioso, e um… propenso a falar para conseguir algumas vantagens… tem amigos demais entre os fariseus… –insiste Zelotes.

– Eis. Simão falou bem! Justamente o que eu pensava em falar

–exclama Pedro–. Escuta o que ele diz, Mestre!

Jesus fica pensando, e se cala. Depois diz:

– Vamos rezar! E o Pai nos ajudará…

E, indo atrás dos outros, rezam fervorosamente.

427.7 A alba se transforma em aurora. Deixam para trás um lugarejo, e tomam o caminho que vai pelo meio das campinas… O sol vai ficando cada vez mais forte. Eles param para comer, à sombra de uma nogueira muito alta.

– Estás cansada? –pergunta Jesus à menina, que está comendo sem vontade–. Dize-o, e nós pararemos.

– Não, não. Vamos para frente.

– Nós já lhe perguntamos muitas vezes. Mas ela responde sempre que não… –diz Tiago de Alfeu.

– Posso. Ainda posso. Vamos para longe…

Começam de novo a caminhar. Mas Áurea torna a lembrar-se:

– Eu tenho uma bolsa. As damas me disseram: “Tu a entregarás, quando começarem a aparecer os montes.” E os montes já estão aqui. E eu a entrego.

E rebusca na sacola, onde Lívia lhe colocou uma peça de roupa… Ela puxa de lá a bolsa, e a entrega a Jesus.

– É o óbolo… Mas não quiseram receber agradecimentos. São melhores do que muitos de nós… Toma, Mateus. E conserva estas moedas. Servirão para esmolas secretas.

– Não devo dizê-lo a Judas Iscariotes?

– Não.

– Ele verá a menina…

Jesus não responde… Continuam a andar, com muita canseira, por causa do grande calor, da poeira e da luz ofuscante. Depois, começam a subida pelas primeiras ramificações do Carmelo, como me parece. Mas, ainda que aqui haja mais sombra, e esteja mais fresco, Áurea vai devagar, tropeçando frequentemente.

Bartolomeu volta atrás, dirigindo-se ao Mestre:

– Mestre, a mocinha está com febre e exausta. Que vamos fazer?

Eles se consultam. Será bom parar? Tomá-la nos braços, e continuar? Sim. Não. Afinal, decidem que é preciso pelo menos alcançar a estrada que vai para Sicaminon, para se pedir ajuda a algum viandante, que tiver uma cavalgadura ou um carro. E eles bem que gostariam de levar nos braços a mocinha, mas ela, heroica no seu desejo de afastar-se, repete sempre o seu refrão: “Posso! Eu posso!” e quer ir andando mesmo. Está vermelha, com os olhos febris, realmente exausta. Mas não cede… Vai devagar, aceitando ser ajudada por Bartolomeu e por Filipe… Mas continua a caminhar. Já estão todos verdadeiramente cansados. Mas compreendem que é necessário ir para a frente, e vão andando…

A colina já ficou para trás. Já estão do outro lado do monte… a planície de Esdrelon está lá embaixo, e para além dela estão as colinas, entre as quais a de Nazaré…

– Se não encontrarmos ninguém, faremos uma parada em casas dos camponeses… –diz Jesus.

427.8 Vão indo, vão andando. Quase ao chegarem à planície, veem um grupo de discípulos. Lá estão Isaque e João de Éfeso com sua mãe, Abel de Belém, também com a sua, entre outros que eu não conheço pelo nome. E, para as mulheres, há um carro rústico, puxado por um forte burrinho. E lá estão também os pastores Daniel e Benjamim, o barqueiro José, e outros.

– É a Providência que nos socorre! –exclama Jesus, e ordena a parada, enquanto Ele vai falar aos discípulos, e especialmente às duas discípulas.

Ele as leva para um lado junto com Isaque, e lhes conta uma parte do que aconteceu com Áurea:

– Nós a libertamos de um patrão imundo. Eu gostaria de levá-la para Nazaré, para curá-la, porque está doente pelo medo e pelo cansaço. Mas estou sem um carro. Para onde vós estais indo?

– Para Belém da Galileia, perto de Mirta. É impossível resistir aos calores da planície –responde Isaque.

– Ide a Nazaré primeiro, Eu vo-lo peço por caridade. Levai à minha Mãe a menina, e dizei-lhe que dentro de dois a três dias estarei na casa dela. A mocinha está com febre. Por isso, não deis atenção aos seus delírios. Depois, Eu vos falarei…

– Sim, Mestre. Será como Tu queres. Partimos em seguida. Pobre criatura. Ele lhe dava pancadas? –perguntam os três.

– Ele a queria profanar.

– Oh! Quantos anos ela tem?

– Talvez treze anos.

– Que homem vil! Que imundo, mas nós a amaremos. Nós somos mães por merecimento, não é mesmo, Noemi?

– É certo, Mirta. Senhor, Tu a tens como discípula?

– Por enquanto, não…

– Se a tens, nós aqui estamos. Eu não volto para Éfeso. Mandei uns amigos liquidar tudo. E fico com a Mirta… Lembra-te de nós no caso da mocinha. Tu salvaste os nossos filhos. Nós queremos salvar esta menina.

– Veremos isso em seguida…

– Mestre, as duas discípulas dão garantia de santidade… –perora Isaque.

– Não depende de Mim. Rezai muito e calai-vos com todos. Entendeis? Com todos.

– Nós nos calaremos.

– Vinde com o carro.

E Jesus volta para trás, acompanhado por Isaque, que vai guiando o carro, e por duas mulheres. A menina estendeu-se sobre a grama, procurando refrescar-se por entre os pedúnculos, em sua grande febre…

– Pobre criatura! Mas não morrerá, não é verdade?

– Que bela menina!

– Querida, não tenhas medo. Eu sou uma mamãe, sabes? Vem. - Ajuda-a Mirta. Ela está sendo muito sacudida. Ajuda-nos, Isaque… Vamos por aqui, por onde o carro não dá tantos solavancos… Ponde a bolsa por baixo da cabeça… Vamos pôr debaixo dela os nossos mantos… Isaque, vai molhar estes linhos para lhos colocarmos na fronte… Que febre, pobre filha…

As duas mulheres são solícitas e maternais. Áurea, aturdida pela febre alta, está quase ausente a tudo.

427.9 Tudo já está em seus lugares. O carro já pode partir… Isaque, antes de agitar o chicote, lembra-se de uma coisa:

– Mestre, se fores à ponte, encontrarás Judas de Keriot. Ele está te esperando com um mendigo. Foi ele que nos disse que irias passar por aqui… A paz a Ti, mestre. Pela noite estaremos a Nazareth!

– A paz a Ti, Mestre –dizem as discípulas.

– A paz a vós.

O carro lá se vai, puxado a trote…

– Demos graças ao Senhor… –diz Jesus.

– Sim. É bom, para a menina e bom para Judas… É melhor que ele não fique sabendo de nada…

– Sim. É melhor. E, tanto é melhor, que Eu peço aos vossos corações um sacrifício. Que nos separemos, antes de estarmos em Nazaré, e vós do lago ireis com Judas para Cafarnaum, enquanto Eu com os irmãos, Tomé e Simão, irei para Nazaré.

– Assim faremos, Mestre. E a estes que estão te esperando, que é que dirás?

– Que tínhamos urgência em avisar à minha Mãe sobre a minha chegada… Vamos…

E reúne os discípulos que, muito felizes por terem o Mestre consigo, não fazem nenhum espécie de perguntas.