643. 643. Maria Santíssima com João nos lugares da Paixão.
8 de setembro de 1951.
643.1O dia está amanhecendo. É uma clara aurora de verão. Maria, com o seu fiel João, sai da casa do Getsêmani e caminha ágil para o olival silencioso e deserto. Somente o canto dos pássaros e o piar dos filhotes nos ninhos rompem o grande silêncio daquele lugar.
Maria se dirige com firmeza para a rocha da Agonia. Lá ela se ajoelha, beija o lugar onde certas fendas rasas ainda mostram leves traços de um vermelho enferrujado do Sangue de Jesus, que penetrou pelas pequenas fissuras e lá ficou preso, e as acaricia como se estivesse acariciando o seu Filho ou uma parte do corpo Dele. João, de pé atrás Dela, observa-a e chora silenciosamente, enxuga rapidamente os olhos quando Maria faz um movimento para levantar-se, ou melhor, ele a ajuda a erguer-se, e o faz com muito amor, veneração e piedade.
643.2Maria, agora, está descendo para o lugar onde Jesus foi capturado. Ali também Ela se ajoelha e se curva para beijar a terra, depois de ter dito a João:
– É esse mesmo o lugar do beijo horrendo e infame, que contaminou este lugar mais do que tenha contaminado o Paraíso terrestre o colóquio sujo e corruptor da Serpente com Eva?
Depois ela se levanta dizendo:
– Mas Eu não sou Eva. Eu sou a mulher do Ave. Eu revirei as coisas. Eva jogou sua lama suja no que era coisa do Céu. Eu aceitei tudo: incompreensões, críticas, suspeitas, dores — quantas dores, e de quantas espécies, antes da dor suprema — para tirar da lama suja o que Eva e Adão lá haviam jogado, e elevá-lo ao Céu. A Mim o demônio não pôde falar, ainda que tentasse, como tentou com o meu Filho, para destruir definitivamente o desígnio da Redenção. Comigo ele não pôde falar, porque eu fechei os ouvidos e os olhos diante dele e de sua voz e, sobretudo, eu fechei meu coração e o meu espírito contra todos os assaltos de tudo o que não é santo nem puro. O meu eu límpido, sem condições de ser arranhado, pois era como um puro diamante, só se abriu para o Anjo anunciador. Os meus ouvidos ouviram somente aquela voz espiritual, e assim eu fiz uma reparação, tendo reedificado aquilo que Eva tinha lesado e destruído. Eu sou a mulher do Ave e do Fiat. Restabeleci a ordem destruída por Eva. E agora posso tirar e lavar, com o meu beijo e meu pranto, a marca deixada por aquele beijo maldito e por aquela contaminação. A maior de todas, porque feita não por uma criatura a uma criatura, mas por uma criatura ao seu Mestre e Amigo, ao seu Criador e seu Deus.
643.3Em seguida, Ela se dirige ao portão, aberto por João. Saem juntos do Getsêmani, descem para o Cedron, passam pela pequena ponte, e lá também Maria se ajoelha para beijar o parapeito rústico da ponte, no ponto em que o Filho caiu. Ela diz:
– Para mim é sagrado todo lugar em que Ele sofreu as dores supremas e os ultrajes. Gostaria de ter tudo na minha casinha. Mas não se pode ter tudo!
Suspira e acrescenta:
– Vamos depressa. Antes que as pessoas comecem a se mover.
E retoma o caminho com João.
643.4Não entra na cidade. Vai beirando o Vale de Hinon e as cavernas onde vivem os leprosos. E levanta os olhos para aqueles antros de dor. Faz um sinal a João, o qual coloca imediatamente sobre uma pedra alguns alimentos que trazia numa sacola, lançando ao mesmo tempo um grito de aviso. Alguns leprosos aparecem e se dirigem à pedra, agradecendo. Mas nenhum deles pede para ser curado. Maria nota e diz:
– Sabem que Ele não está mais aqui e, abalados como ficaram pela sua Morte horrenda, não sabem mais ter fé Nele e nos seus discípulos. São duas fezes infelizes! Duas vezes leprosos! Duas? Não, aliás, são totalmente infelizes, leprosos, mortos! Nesta terra e no outro mundo.
– Queres que eu experimente falar com eles, ó Mãe?
– É inútil. Já experimentaram isso Pedro, Judas de Alfeu, Simão o Zelotes… E zombaram deles. Veio Maria de Lázaro, que sempre os socorre em memória de Jesus, e ela também sofreu a zombaria deles. Até Lázaro já foi lá, e em companhia de José e de Nicodemos, a fim de persuadi-los que Ele era o Cristo, narrando-lhes a sua Ressurreição, por obra de Jesus, depois de ter estado quatro dias no sepulcro e a Ressurreição do Homem-Deus pelo seu próprio poder, e sua Ascensão. Foi tudo inútil. Eles responderam: “São mentiras. Aqueles que sabem a verdade assim o dizem.”
– E esses tais certamente são os fariseus e os sacerdotes. São eles que trabalham para acabar com a fé Nele. Eu tenho a certeza de que são eles!
– Pode ser, João. O certo é que os leprosos, que não se converteram antes nem diante dos milagres de Jesus, não se converterão mais. Nunca mais. São como sinais e exemplos de todos aqueles que, nos séculos futuros, não se converterão ao Cristo, e serão por sua livre vontade os que têm a lepra do pecado, mortos para a graça que é Vida, símbolo de todos aqueles pelos quais Ele morreu inutilmente… E daquele modo!…
E chora calmamente, sem soluços, mas com uma verdadeira efusão de lágrimas.
643.5João a segura por um braço quando Maria, para esconder o choro a algumas pessoas que passam por ali e a observam, cobre o rosto com o véu. João, enquanto a guia amorosamente, lhe diz:
– O teu pranto, a tua oração, o teu, aliás o vosso amor por todos os homens — vosso porque o teu está ativo, assim como está ativo, perfeitamente ativo, o de Jesus glorioso no Céu — o vosso sofrimento, o teu pela surdez dos homens, o Dele pelo pecado obstinado de muitos, não pode deixar de dar frutos. Espera, Mãe! Muita dor te causaram e te causarão os homens, mas também amor e alegria. Quem não te amará quando te conhecer? Agora estás aqui, ignorada, desconhecida pelo mundo. Mas quando a terra souber, porque se tornou cristã, quanto amor sentirá por ti! Tenho certeza, Mãe santa.
643.6O Gólgota já está próximo, e mais próximo ainda está o horto de José. Quando chegam a este último, Maria não entra. Vai primeiro ao Gólgota. E nos lugares nos quais se verificaram episódios particulares durante a Paixão, ou seja, nos lugares das quedas de Jesus, do encontro Dele com Nique e com Ela mesma, Ela se ajoelha e beija o chão.
Tendo chegado ao cume, os seus beijos são mais numerosos sobre o lugar da Crucifixão. São beijos e lágrimas, os primeiros quase convulsivos, e as segundas calmas, mas fortes como uma chuva caindo sobre uma terra amarelada, embebendo-a e tornando mais escura a sua tonalidade amarela.
Uma plantinha nasceu exatamente no lugar onde a terra foi escavada para lá se pôr o pé da cruz. É uma humilde plantinha do prado, com folhas em forma de coração, com florezinhas vermelhas, como rubis. Maria olha para ela, pensa, depois delicadamente a levanta do chão, junto com um pouco de terriço, coloca-a em uma dobra do seu manto, dizendo a João:
– Eu vou colocá-la em um vaso. Parece ser sangue Dele, e nasceu sobre a terra que ficou vermelha pelo seu Sangue. Certamente é uma semente trazida pelo turbilhão daquele dia e vinda não se sabe de onde, e que caiu lá não se sabe porque, para lançar raízes na poeira fecundada por aquele Sangue. Bom seria se fosse assim com todas as almas! Por que será que o maior número delas é mais renitente do que a árida e maldita terra do Gólgota, lugar do suplício dos ladrões e homicidas e do deicídio cometido por um povo todo? Maldita? Não. Ele santificou esta poeira. Malditos por Deus são aqueles que fizeram desta colina o lugar do mais horrendo, injusto, sacrílego delito, como nunca mais haverá sobre a terra.
E agora os soluços se unem às lágrimas.
João, com um braço, cinge-lhe as costas, para fazer-lhe sentir todo o seu amor, e a persuade a deixar aquele lugar doloroso demais para Ela.
643.7Descem novamente aos pés da colina. Entram no horto de José. O Sepulcro mostra o seu interior de ampla abertura, mas não mais fechada pela pedra, que ainda está ali, revirada no chão, no meio do mato. O interior está vazio. Desapareceram todos os sinais da Deposição e da Ressurreição. Parece um sepulcro que nunca foi usado.
Maria beija a pedra da Unção e acaricia com seu olhar as paredes. Depois Ela faz um pedido a João:
– Repete-me de novo como foi que encontraste as coisas aqui, quando vieste com Pedro a este lugar naquela aurora da Ressurreição.
E João, deslocando-se para cá e para lá, para fora e para dentro do sepulcro, torna a descrever como é que estavam as coisas, e o que ele e Pedro fizeram, e termina dizendo:
– Deveríamos ter retirado os linhos. Mas estávamos tão agitados por todos os acontecimentos daqueles dias, que nem pensamos nisso. Quando voltamos, os linhos não estavam mais aqui.
– Aqueles do Templo devem tê-los apanhado, para profaná-los
–diz Maria, interrompendo-o.
E conclui:
– Nem Maria de Magdala pensou que seria bom levá-los para os dar a mim… Pois também ela estava perturbada demais.
– Os do Templo? Não. Eu penso que quem os apanhou foi José.
– Ele me teria dito… Oh! Para prestar-lhe algum último gesto de desprezo, os inimigos de Jesus devem tê-lo apanhado! –geme Maria.
– Não chores, não sofras mais. Ele já está na glória. No amor perfeito e infinito. O ódio e o desprezo não podem feri-lo mais.
– É verdade. Mas aqueles linhos…
– Eles te causariam dor, como te causou o primeiro Lençol, que não tens força para abrir, pois, além dos sinais do seu Sangue, têm também os das coisas imundas jogadas sobre aquele Corpo Santíssimo.
– Aquele Lençol, sim. Mas este, não. Eles absorveram tudo o que gotejava Dele quando Ele não sofria mais… Oh! Tu nem podes entender!
– Eu entendo, mãe. Mas eu pensava que Tu — que certamente não estás separada Dele Deus como nós somos, e como são mais ainda os simples fiéis que creem Nele — não sentisses tão fortemente o desejo, ou melhor, a necessidade de ter alguma coisa Dele, Homem torturado. Perdoa a minha estupidez. Vem… Retornaremos aqui ainda. Agora vamos, porque o Sol vai-se levantando sempre mais, e já está forte, e o caminho é longo para nós, que precisamos evitar a cidade.
643.8Saem do Sepulcro e depois do horto. E, seguindo o mesmo caminho usado para vir, voltam ao Getsêmani. Maria caminha depressa e silenciosa, toda recolhida no seu manto. Ela só tem um gesto de repulsa e de horror quando passa perto do olival onde Judas se enforcou e perto da casa de campo de Caifás, e murmura:
– Aqui ele completou a sua condenação de impenitente desesperado, e lá concluiu seu horrendo negócio.