468. 468. Um arrependimento de Judas Iscariotese os episódios que ilustram a sua figura.


23 de setembro de 1944.

468.1 Diz Jesus:

– Neste meio tempo Eu te digo que o episódio de quarta-feira (20-9)1, se fizerdes uma ordem regular, o deveis colocar um ano antes de minha morte, porque aconteceu no tempo da colheita da messe, no meu 32º aniversário. A necessidade de um conforto e de instrução para ti, querida, e para os outros, me obrigaram a seguir uma ordem especial, ao dar-te as visões e os ditados sobre os diferentes assuntos. Mas Eu indicarei, a seu tempo, como se haverá de distribuir os episódios dos três anos da vida pública.

A ordem dos Evangelhos é boa, mas não perfeita, como ordem cronológica. Um observador atento nota isso. Aquele que teria podido dar a ordem exata dos fatos, por ter estado comigo, desde o início da evagelizaçião até a minha Ascensão, não o fez, porque João, verdadeiro filho da Luz, ocupou-se e preocupou-se em fazer refulgir a Luz, através de sua veste de carne, aos olhos dos herejes, que impugnavam a verdade da Divindade encerrada na carne humana. O Evangelho sublime de João atingiu sua meta sobrenatural, mas a crônica de minha vida pública não teve vantagem com isso. Os outros três evangelistas mostram uniformidade entre si, como a dos fatos, mas alteram a ordem do tempo, porque dos três só um que esteve presente a quase toda a minha vida pública: Mateus, que não a havia escrito senão quinze anos depois, enquanto que os outros os escreveram mais tarde ainda, e por ouvirem a narração deles da boca de minha Mãe, de Pedro, de outros apostolos e discípulos.

Eu vos quero dar uma guia, ao reunir os fatos dos três anos, um por um. Agora olha e escreve: o episódio que vem e o de quarta-feira (20-9).

468.2Estou vendo Jesus que lentamente está dando uns passos para diante e para trás, por um estreito caminho do campo iluminado pela lua. É lua cheia, ela brilha com sua grande face risonha em um céu muito sereno. Mas pela sua posição no céu, no qual começa o seu ocaso, eu tiro a conclusão de que já passou da meia noite.

Jesus caminha, pensando e rezando, com certeza, ainda que eu não ouça nenhuma palavra. Mas Ele não perde de vista as coisas que lhe estão ao redor. Em certo momento Ele para a fim de escutar, sorrindo, o canto de um rouxinol enamorado, com sua completa melodia cheia de arpejos, trilos e notas isoladas, bem prolongadas, fortes, e por tanto tempo, que até parece impossível que saiam daquele pequeno ser todo feito de penas. Para não perturbá-lo, nem mesmo com o barulho das sandálias sobre as pequenas pedras do caminho e o de sua veste sobre a grama, Jesus parou, de braços cruzados, com o rosto erguido e sorridente. Ele chega até a entreabrir os olhos para concentrar-se mais na audição e, quando o rouxinol termina, com uma nota aguda, na qual persiste, enquanto o fôlego lhe permite. Ele mesmo aprova e aplaude em silêncio, inclinando a cabeça duas ou três vezes, com um sorriso de contentamento.

Agora ele vai inclinar-se sobre uma moita de madressilva em flor, que está exalando um fino perfume dos seus milhares de cálices brancos, parecidos com umas bocas bocejantes de serpentes, nas quais se vê a língua tremulando dos pistilos amarelados e, brilhando, o sinal do dedo de ouro da pétala inferior. As flores, à luz da lua, parecem ser ainda mais brancas, como se fossem de prata. Jesus as admira, cheira e as acaricia com a mão.

Depois Ele volta sobre os seus passos. O lugar deve ser levemente elevado, porque o luar está mostrando ao sul uma coisa que está brilhando, parecendo um pedaço de vidro exposto à luz. Certamente será o espelho de algum lago, pois rio não pode ser, nem é o mar, que podem ver-se algumas colinas que o rodeiam do lado oposto àquele em que Jesus está. Jesus fica olhando aquele sereno brilho das águas paradas, na calma de uma noite de verão. Depois Ele dá uma meia volta, do sul para o oeste, e fica olhando o branco das casas de um lugarejo que está, quando muito, a uns dois quilômetros, antes menos do que mais. Deve ser um belo lugarejo. Jesus para a fim de olhar para ele, sacode a cabeça para acompanhar um pensamento que o está afligindo muito.

Depois Ele continua o seu passeio lento e sua oração, até resolver sentar-se sobre uma grande pedra, aos pés de uma árvore muito alta, e tomar sua posição de costume, com os cotovelos sobre os joelhos e os antebraços para fora, com as mãos unidas em oração.

468.3 Fica assim durante algum tempo. Assim continuaria a ficar por mais tempo, se um homem, ou melhor, uma sombra não saísse da parte mais cerrada do mato, em direção dele, e o chamasse:

– Mestre?

Jesus se volta — pois quem sai de lá vem vindo por detrás dele — e lhe diz:

– É Judas? Que queres?

– Onde estás, Mestre?

– Aos pés da nogueira. Vem para a frente.

E Jesus se levanta e se põe no caminho, à luz da lua, a fim de que Judas o possa ver.

– Tu vieste, Judas, para fazer um pouco de companhia ao teu Mestre?

Agora já estão perto um do outro e põe com afeto um braço sobre o ombro do discípulo.

– Será que precisais de Mim em Corozaim?

– Não, Mestre. Nada de precisão. Eu senti o desejo de vir para perto de Ti.

– Então, vem. Há lugar para nós dois sobre esta rocha.

Assentam-se bem perto um do outro. Silêncio. Judas não fala. Olha para Jesus. Está lutando consigo mesmo.

Jesus o quer ajudar. Olha para ele, com olhares muito afetuosos, mas penetrantes.

– Que bela noite, Judas, olha como tudo é puro! Eu creio que mais pura do que esta não foi a primeira noite que sorriu sobre a terra e sobre o sono de Adão no Paraíso Terrestre. Procura sentir como agradáveis são os perfumes dessas flores. Procura aspirá-los. Mas não as apanhes. São tão agradáveis e puras! Eu também me abstive disso, porque colhê-las é profaná-las. Sempre é um mal fazer uso da violência, tanto a feita a uma planta, como a um animal. E tanto ao animal, como ao homem. Por que tirar a vida? Tão bela é a vida, quando seu tempo é bem empregado! Aquelas flores a empregam bem, porque exalam seus perfumes, alegram com sua beleza e aromas, dão mel às abelhas e às borboletas, cedem a estas o ouro dos seus pistilos para que o coloquem, como pequenas gotas de topázio sobre a pérola de suas asas, e serve de cama nos ninhos… Se estivesses aqui, há poucos momentos, ouvirias um rouxinol cantar, de um modo muito agradável, a sua alegria de viver e de louvar o Senhor. Queridos passarinhos! Como eles servem de exemplo aos homens! Com pouca coisa eles se contentam, e, assim mesmo, só com coisas lícitas e santas. Um grãozinho, um vermezinho, porque o Criador lhos dá: se eles não obtêm isso, não sentem ira, nem ódio, mas enganam a fome da carne com o ímpeto do coração que os faz cantar os louvores do Senhor e as alegrias da esperança. Eles se sentem felizes por estarem cansados de voar, desde a manhã até à tarde, para fazerem um ninho morno, macio, firme, não para o seu egoísmo, mas por amor à sua prole. Cantam pela alegria de se amarem honestamente. O pássaro macho assim faz por amor à sua fêmea e os dois o fazem por amor aos futuros filhos. Os animais estão sempre felizes, porque eles não têm remorsos nem censuras em seus corações. Nós é que os tornamos infelizes, porque o homem é mau, desrespeitoso, prepotente e cruel. E não lhe basta que ele seja assim com os seus semelhantes. Ele extravasa sua malvadez sobre os inferiores. Quanto mais tem dentro de si os remorsos, tanto mais sua conscência o fustiga, e mais cruel ele se torna para com os outros. Eu estou certo de que, por exemplo, aquele cavaleiro que hoje estava esporeando o seu cavalo até o fazer sangrar, pois já estava tão suado e cansado, ainda batia nele, até fazer que ele ficasse com o pêlo arrepiado, já com vergões no pescoço e nos flancos, até sobre aquele tão delicado focinho e sobre as escuras pálpebras que, de doloridas, se fechavam sobre aqueles olhos tão resignados e indefesos. Aquele homem não podia estar com sua alma tranquila. Ou ele estava indo praticar algum delito contra a honestidade, ou estava voltando dele!

Jesus se cala e fica pensando.

468.4 Judas fica calado. Também ele está pensando. Depois ele fala:

– Como é belo, Mestre, ouvir-te falar assim. Tudo se ilumina diante de nossos olhos, diante de nossa mente, de nosso coração… e tudo fica fácil. Fica fácil até mesmo dizer: “Eu quero ser bom!” E até dizer-te… dizer-te: “Mestre, eu também estou com minha alma perturbada! Não tenhas asco de mim, Mestre, Tu que tanto amas o que é puro!”

– Oh! Meu Judas! Eu ter asco de ti? Meu amigo, meu filho, que é que tens que te perturba?

– Conserva-me contigo, Mestre. Unido a Ti. Eu jurei que vou ser bom, depois que Tu me falaste tão docemente. Jurei tornar a ser o Judas daqueles primeiros dias, quando eu te seguia e te amava como um esposo ama a sua esposa, não desejava nada mais do que a Ti, encontrava em Ti todo o meu prazer. Eu te amava assim, Jesus…

– Eu o sei… e te amei por isso… mas te amo ainda, ó meu pobre amigo ferido…

– Como sabes que estou assim? Por que meio o sabes?…

Silêncio. Jesus olha para o Judas com um olhar muito afetuoso… Parece que um pranto vem chegando mais abundante e afetuoso e diminuindo-lhe o esplendor. É como o olhar de um menino inocente e inerme, que em seu amor tudo dá.

Judas se lhe joga aos pés, com o rosto sobre os joelhos e os braços apertados aos lados, e diz, gemendo:

– Segura-me contigo, Mestre… Segura-me. A minha carne está urrando como um demônio… e, se eu ceder, daí vem todo o mal… Eu sei que Tu sabes, mas que estás esperando que eu o diga… Mas é duro, Mestre, dizer: “Eu pequei.”

– Eu sei, meu amigo. Por isso seria necessário agir bem. Para não ter que humilhar-se depois, e dizer: “Eu pequei.” Contudo, Judas, há nisso também um grande remédio. Tu que fazes esforço para dizer a culpa, isso já pode conservar longe dela. E, se ela foi consumada, o mal-estar produzido pela acusação já é uma penitência que redime. Portanto, se alguém sofre, não somente por seu orgulho e medo de castigo, mas porque sabe que por sua falta fez sofrer, então, Eu te digo, sua culpa se cancela. É um amor que salva.

– Eu te amo, Mestre. Mas sou muito fraco. Oh! Tu não me podes amar! Tu és puro, amas os puros… Não me podes amar, porque eusou… eu sou… 468.5Oh! Jesus, tira-me a fome da sensualidade. Sabes Tu que demônio ela é?

– Eu o sei. Não lhe dei ouvidos, mas sei que vozes tem.

– Estás vendo? Estás vendo? Tens tanto asco que, só ao dizer isso, o teu rosto se desfigura… Oh! Não me podes perdoar!

– Judas. Não te lembras de Maria? Não te lembras de Mateus? Nem daquele publicano que ficou leproso? Nem daquela mulher, a meretriz romana, cuja sorte no Céu Eu profetizei, porque, depois do meu perdão, ela terá força para uma vida santa?

– Mestre… Mestre… Oh! Que mal eu tenho no coração! Nesta tarde eu fugi… fugi de Corozaim… porque se eu ficasse lá… se eu ficasse… estaria perdido. Tu sabes… é como alguém que bebe e fica doente. O médico lhe tira o vinho e toda bebida inebriante, ele fica curado, enquanto não torna a sentir aquele sabor… Mas, se ele ceder, ainda que só uma vez… já não resiste mais, bebe e torna a beber… e fica doente… doente para sempre… louco… possesso… possuído por aquele seu demônio… por aquele seu demônio… Oh! Jesus! Não digas isso aos outros… Não o digas… Eu tenho vergonha de todos…

– Mas não de Mim.

Judas entende mal.

– É verdade! Perdão! Eu deveria ter mais vergonha de Ti do que de qualquer outro, porque tu és perfeito.

– Não, meu filho. Eu não queria dizer isso. A tua dor, a tua angústia, o teu aviltamento não te sirvam de véu. Eu disse que podes ter vergonha de todos. Mas não de Mim. Um filho não tem medo e vergonha de um pai bom, nem um doente de um médico de boa fama. Tanto a um como ao outro vai fazer sua confissão sem temor, a um porque o ama e perdoa, ao outro porque o compreende e cura. Eu te amo e te compreendo. Por isso Eu te perdoo e curo. Mas, dize-me uma coisa, Judas. Quem te põe nas mãos do teu demônio? Serei Eu? Ou os teus irmãos? As mulheres do vício? Não. É a tua vontade. Agora Eu te perdoo e curo… Que alegria me deste, ó meu Judas! Eu já estava tão alegre com esta noite serena, perfumada, cheia de cantos, por tudo isso, louvava o Senhor. Mas agora a alegria que tu me dás supera até a deste luar, a destes pefumes e desta paz, destes cantos. Estás ouvindo? O rouxinol parece que se une a Mim para dizer-te que estás feliz pela tua boa vontade. Logo ele, o pequenino pássaro canoro, tão cheio de boa vontade em fazer aquilo para o que foi criado. E até esta aragem da manhã, que vai passando pelas flores, despertando-as, fazendo cair no fundo do cálice um diamante de orvalho para que o encontrem, daqui a pouco a borboleta e o raio de sol, a fim de que ela encontre nele o alimento, ele um pequenino espelho para o seu majestoso fulgor. Olha, a lua já está desaparecemdo no ocaso. A aurora já se está anunciando nesse canto do galo, lá ao longe. As trevas da noite e os fantasmas da noite já se estão desvanecendo. Vê como passou veloz e docemente o tempo que, se não tivesses vindo a Mim, teria passado entre o desgosto e o remorso? Vem sempre a Mim, quando estiveres com medo de ti mesmo. O próprio eu!!! Grande amigo, mas grande tentador e grande juiz, Judas! Não o estás vendo? Enquanto ele é amigo sincero e fiel, se tiveres sido bom, sabe ser amigo não sincero, se não és bom e, depois de ter sido teu cúmplice, se eleva até ser teu juiz inexorável, te tortura com suas censuras. Ele é terrível emcensurar. Eu, não. 468.6Pois bem. Vamos. A noite passou…

– Mestre, eu não te deixei descansar… e logo hoje, quando terás que falar tanto…

– Eu descansei com a alegria que me deste. Não há descanso melhor do que o de poder dizer: “Hoje salvei alguém que estava perecendo.” Vem, vem… Desçamos para Corozaim! Oh! Se esta cidade soubesse imitar-te, Judas!

– Mestre, que irás dizer aos meus companheiros?

– Nada, se não me perguntarem… Se me perguntarem, direi que falamos sobre as misericórdias de Deus… uma resposta verdadeira, tão sem limites, que até a mais longa das vidas não basta para explicá-la… Vamos…

E vão descendo. Altos os dois, mas bonitos de modos diferentes, igualmente jovens, um ao lado do outro, e desaparecem atrás de um capão de mato.

468.7Diz Jesus:

– É um episódio de misericórdia, como aqueles2 de Madalena.

Mas, se fizeres um livro, será melhor colocar ordenadamente por época, antes que por categoria, limitando-vos a dizer acima ou no final de cada episódio a qual categoria pertence.

Por que ilustro a figura de Judas? Muitos o pediram. Respondo.

A figura de Judas foi muito desvirtuada nos séculos. E ultimamente corrompida totalmente. Em certas escolas, se tem feito quase a apoteose como o artífice segundo e indispensável da Redenção.

Muitos, depois, pensam que ele foi pego de improviso, feroz assalto do Tentador. Não. Cada queda tem premissas de tempo. Quanto mais a queda é grave, maior é a preparação. Os fatos anteriores explicam o fato. Não se precipita e não se sobe de improviso. Nem no bem. Nem no mal. Há coeficientes longos e insidiosos para as descidas, pacientes e santos para as subidas. E o desventurado drama de Judas pode dar-vos tantos ensinamentos para salvar-vos, e conhecer o método de Deus e as suas misericórdias para salvar e perdoar aqueles que descem em direção ao Abismo. Não se chega ao delírio satânico, no qual viste debater-se Judas depois do Delito, se não se está totalmente corrompido pelo hálito do Inferno, aspirado por anos com vontade. Quando alguém realiza um delito, mas levado a este de um improviso acontecimento que o tira da razão, sofre mas sabe expiar; por que também das partes sãs do coração há veneno infernal.

Ao mundo que nega Satanás, porque tem tanto em si que não o percebe, aspirou e tornou-se parte do eu, Eu mostro quem é Satanás. Eterno e imutável no método usado para fazer de vós as suas vítimas.

Basta agora. Tu, permanece com a minha paz.

1 o episódio de quarta-feira (20-9) é relatado no capítulo 406. O do presente capítulo o segue (como se lê mais abaixo) na série de alguns episódios ilustrativos da figura de Judas Iscariotes, mas não o segue imediatamente na narração completa dos fatos da vida pública de Jesus. Fala-se sobre a personalidade de Judas, por exemplo, em 70.8 - 81.7 - 85.5 - 101.2/3 - 113.4 - 121.4 - 122.3 - 139.2 - 214.6 - 216.4 - 262.7 - 296.4 - 313.3 - 365.16 - 565.16.
2 aqueles, que são assinalados em nota em 174.11.


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