513. 513. Em Emaús da Montanha, uma parábolasobre a verdadeira sabedoria e uma admoestação a Israel.


14 de outubro de 1946.

513.1Eis a praça de Emaús. Está cheia de gente. Completamente cheia. No centro da praça está Jesus que, com dificuldade pode se mover, pelo aperto com que está rodeado pelos que querem estar perto dele. Jesus está entre o filho do sinagogo e o outro discípulo, e, ao seu redor, na boa intenção de protegê-lo, os apóstolos e os discípulos, e, entre estes e aqueles, foram-se aproximando de todos os lados, como umas lagartixinhas, por entre a maranha de uma sebe fechada, meninos e mais meninos.

É maravilhosa a atração que Jesus exerce sobre os pequenos. Nunca houve um lugar em que, conhecido ou não, Ele não tenha sido imediatamente rodeado pelas crianças, felizes por se encostarem em suas vestes, e ainda mais felizes se Ele passa levemente por sobre elas a mão, com uma amorosa carícia, mesmo quando, ao mesmo tempo, Ele está dizendo coisas severas aos adultos, e muito mais felizes depois, quando Ele se assenta em uma cadeira, em uma pedra ou algum tronco derrubado, ou mesmo simplesmente sobre a grama. Quando isso acontece, tendo-o eles à sua própria altura, podem abraçá-lo, pôr suas cabecinhas sobre os ombros ou sobre os joelhos dele, enfiarem-se por baixo do seu manto, para se encontrarem ao alcance dos seus braços, como uns pintinhos que acabaram de encontrar a mais ardorosa e protetora das defesas. E sempre Jesus os defende da prepotência dos adultos, do respeito imperfeito deles para com Ele que, deixando de o prestar por muitos motivos mais sérios, querem ser cuidadosos afastando os pequenos do Mestre…

Mas, nessa hora, a costumeira frase de Jesus ressoa em defesa dos seus pequenos amigos:

– Deixai-os! Eles não estão me aborrecendo. Não são as crianças que dão aborrecimento e fazem sofrer!

Jesus se inclina sobre eles com um fulgor no sorriso, que o faz rejuvenescer dando-lhe como que a aparência de um irmão mais velho, de um benigno cúmplice dos inocentes passatempos deles, e sussurra:

– Sede bons, calados, não façais barulho, e assim eles não vos mandarão embora, e ficaremos juntos ainda uma vez.

– E nos contarás uma bela parábola? –diz o mais… corajoso.

– Sim. Toda para vós. Depois falarei aos vossos pais. Ouvi todos. Porque o que serve para os pequenos, serve também para os homens.

513.2Um dia um homem ouviu dizer que estava sendo chamado por um grande rei, o qual lhe disse: “Fiquei sabendo que tu és merecedor, porque és sábio e honras a tua cidade com o teu trabalho e tua ciência. Pois bem. Eu não te darei isto ou aquilo, mas te levarei até o salão de meus tesouros e tu escolherás o que quiseres, e eu te darei. Desse modo eu também poderei julgar se tu és o que tua fama me diz de ti.”

E ao mesmo tempo, o rei, encostado ao terraço que estava ao redor do seu átrio, lançou um olhar sobre a praça que ficava diante do palácio real e viu passar um meninozinho vestido com vestes muito pobres, certamente de alguma família muito pobre, talvez até órfão e mendigo. O rei virou-se para os seus servos, e disse: “Ide àquele menino e o trazei-me aqui.”

Os servos foram e voltaram com o menino, que tremia de medo ao ser levado à presença do rei. Por mais que os dignitários da corte lhe dissessem: “Inclina-te e saúda ao rei, dizendo: ‘Honra e glória a ti, meu rei. Eu dobro o joelho diante de ti, Ó poderoso, que a Terra exalta como um ser que maior não pode haver’”, e o menino não queria inclinar-se nem dizer aquelas palavras, e os dignitários, contrariados, o sacudiam com violência, e diziam: “Ó rei, este menino é idiota e sujo, e é uma vergonha em tua morada. Deixa que nós o tiremos daqui, e o levemos para o meio da rua. Se desejas muito ter ao teu lado um menino, nós iremos procurá-lo entre os ricos da cidade se já estiveres cansado dos nossos, e o encontraremos para ti. Mas não este bobo, que não sabe nem saudar!…”

O homem rico e sábio, que antes se havia humilhado em muitas inclinações servis e profundas, como se estivesse diante do altar, disse: “Os teus dignitários falaram bem. Pela majestade de tua casa deves exigir que seja prestada à tua sagrada pessoa a homenagem que se te deve prestar.” E, ao dizer estas palavras, ainda prostrou-se para beijar o pé do rei.

Mas o rei lhe disse: “Não. Eu quero este menino. E não só isso. Mas quero conduzi-lo até o salão dos meus tesouros para que ele escolha o que quiser, e eu lhe darei. Por que não me será concedido, sendo eu o rei, fazer feliz uma pobre criança? Por acaso, não é ele meu súdito como todos vós? Por acaso tem ele culpa de ser um infeliz? Não, viva Deus, que eu quero fazê-lo contente pelo menos uma vez! Vem cá, menino, e não fiques com medo de mim.” E lhe estendeu a mão, que o menino segurou com simplicidade, dando nela, espontaneamente, um beijo. O rei sorriu. E pelo meio de duas filas de dignitários inclinados em homenagem ao rei, indo por sobre tapetes de púrpura e flores de ouro, ele se dirigiu para o salão dos tesouros, tendo à direita o homem rico e sábio, e à esquerda o menino ignorante e pobre. E o manto do rei fazia um grande contraste com a roupinha esfarrapada e os pezinhos descalços do pobre menino.

Entraram no salão dos tesouros, do qual dois grandes da Corte haviam aberto a porta. Era um salão alto, redondo, sem janelas. Mas a luz penetrava pelo teto, que era uma grande placa de mica. Havia lá dentro uma luz mansa, mas que fazia brilhar as moedas de ouro dos cofres e as fitas purpurinas de muitos rótulos colocados sobre altos e adornados facistóis. Rótulos pomposos e de lombadas preciosas, portando um fecho e um sinal ornado com pedras reluzentes, obras raras, que somente um rei podia possuir. E abandonado sobre um facistol mais simples, escuro e baixo, estava um pequeno rolo, todo enrolado em um pauzinho branco, amarrado com um fio rústico, coberto de poeira, como coisa sem valor.

O rei disse, mostrando as paredes: “Eis: aí estão todos os tesouros da terra e outros maiores ainda do que os tesouros terrestres. Porque estão todas são as obras filhas do engenho humano, e há ainda obras que são de fontes sobre-humanas. Ide e apanhai o que quiserdes.” E foi colocar-se no centro do salão, com os braços cruzados, observando.

O homem rico e sábio dirigiu-se logo aos cofres, levantou as tampas deles com uma ânsia cada vez mais febril, ouro em barras e em joias, prata, pérolas, safiras, rubis, esmeraldas, opalas… O reluzir de todos os cofres, os gritos de admiração a cada um deles que era aberto… E depois dirigiu-se aos facistóis e, ao ler os títulos dos rótulos, novos gritos de admiração saíam de seus lábios. Enfim, o homem, cheio de entusiasmo, virou-se para o rei, e disse: “Mas tu tens um tesouro incomparável, e as pedras igualam-se aos rótulos em valor, e os rótulos a elas. E posso eu escolher livremente?”

“Eu já o disse. Como se tudo te pertencesse.”

O homem se jogou com o rosto por terra, dizendo: “Eu te adoro, Ó grande rei!” E levantou-se, correndo primeiro para os cofres, depois para os facistóis, apanhando destes e daqueles o melhor que ele via.

O rei, que havia sorrido uma primeira vez por entre a barba, ao ver a febre com que o homem corria de um cofre para outro, e na segunda vez, ao vê-lo jogar-se no chão para adorar, e que agora sorria pela terceira vez, vendo com que cupidez e com que critério e preferência o homem escolhia as gemas e os livros, virou-se para o menino, que havia ficado a seu lado, e lhe disse: “E tu, não vais escolher belas pedras, ou rótulos de valor?”

O menino balançou a cabeça para dizer que não.

“E por quê?”

“Porque, quanto aos rótulos, não os sei ler. E quanto às pedras, não conheço o valor delas. Para mim elas são umas pedrinhas e nada mais.”

“Mas, tu ficarias rico…”

“Não tenho pai, nem mãe, nem irmão. Para que me serviria ir para o meu refúgio com um tesouro no seio?”

“Mas poderias com ele comprar uma casa…”

“Eu moraria sempre sozinho.”

“Comprarias roupas.”

“Ficaria sempre com frio, pois falta o amor dos pais.”

“Comprarias alimentos.”

“Eu não poderia saciar-me com os beijos de minha mãe nem comprá-los por preço nenhum.”

“Podias pagar a mestres e aprender a ler…”

“Isto é o que mais me agradaria. Mas ler o quê depois?”

“As obras dos poetas, dos filósofos, dos sábios… e as palavras antigas, as histórias dos povos.”

“Coisas inúteis, vazias e passadas. Não vale a pena.”

“Que menino tolo!”, exclamou o homem, que já estava com os braços carregados de rótulos, com a cintura e a túnica, sobre o peito, cheias de pedras preciosas.

O rei continua a sorrir por entre sua barba. E pegando o menino pelo braço, levou-o aos cofres e mergulhando a mão pelo meio das pérolas, dos rubis, dos topázios e das ametistas, e fazendo-as cair como uma chuva reluzente tentou fazer que o menino pegasse alguma delas.

“Não, Ó rei, não quero isso. Eu gostaria de uma outra coisa…”

O rei o levou aos facistóis e leu estrofes de poetas, episódios de heróis, descrições de lugares.

“Oh! Ler é mais bonito. Mas não é isso que eu quereria.”

“Que é, afinal? Fala e eu te darei, menino.”

“Oh! Não creio, ó rei, que tu o possas fazer, mesmo com todo o teu poder. Não é coisa daqui de baixo…”

“Ah! Queres obras que não sejam da terra! Então, aqui estão as obras ditadas por Deus aos seus servos. Escuta”, e lhe leu algumas páginas inspiradas.

“Isto é muito mais bonito. Mas para compreendê-lo bem é necessário saber antes bem a linguagem de Deus. Não existe algum livro que ensine isso, que nos faça compreender quem é Deus?”

O rei fez um gesto de espanto e não se riu mais, mas apertou contra o seu coração o menino.

O homem, ao contrário, se riu, zombeteiro, dizendo: “Nem os mais sábios sabem o que é Deus, e tu, menino ignorante, queres sabê-lo? Se quiseres tornar-te rico com isso!…”

O rei olhou muito sério para ele e o menino respondeu-lhe: “Eu não ando atrás de riquezas, o que eu procuro é amor, e um dia me disseram que Deus é Amor.”

O rei o levou para perto do facistol simples, onde estava o pequeno rótulo atado com uma cordinha e coberto de poeira. Ele o apanhou, o desenrolou e leu nas primeiras linhas: “Quem é pequeno, venha a Mim, e Eu, Deus, lhe ensinarei a ciência do amor. Neste livro ela está, e Eu…”

“Oh! Isso é que eu quero! E conhecerei a Deus, e terei tudo, se o tiver. Dá-me este rótulo, ó rei, e eu serei feliz.”

“Mas em dinheiro ele não tem valor. Aquele menino é bobo. Ele não sabe ler e quer um livro! Não é sábio e não quer instruir-se. É um que não tem nada e não pega os tesouros.”

“Eu me esforçarei para possuir o amor e este livro me ensinará. Que tu sejas bendito, ó rei, pois me estás dando o modo de não sentir-me mais órfão e pobre!”

“Pelo menos, adora-o, como eu fiz, se crês que te tornaste tão feliz por meio dele!”

“Eu não adoro o homem, mas a Deus, que o fez tão bom assim.”

“Este menino é um verdadeiro sábio em meu reino, ó homem, que usurpas a fama de sábio. Tu te tornaste embriagado pelo orgulho e pela avidez, até o ponto de pôr em prática a adoração à criatura, em vez de oferecê-la ao Criador. E isso, porque a criatura te dava pedras e obras humanas. E ainda não pensaste que as pedras tu as tens, e eu as tive, porque Deus as criou; e teus rótulos raros, onde estão os pensamentos do homem, porque Deus deu ao homem a inteligência. Este pequeno, que passa fome e frio, que está sozinho e que foi atacado por tantas dores, e que seria desculpado e desculpável se se tornasse embriagado diante das riquezas, eis que o que ele faz é justamente dar graças a Deus por ter feito bom o meu coração e não procura outra coisa, senão a necessária: amar a Deus, conhecer o amor, para ter as verdadeiras riquezas aqui e no além. Homem, eu prometi que te teria dado aquilo que tivesses escolhido. Palavra de rei é sagrada. Vai, pois, com as tuas pedras e os teus rótulos: são pedrinhas multicores e… palha do pensamento humano. E vai viver, tremendo por medo dos ladrões e das traças, os primeiros inimigos das pedras, e os segundos, dos pergaminhos. E ofusca-te com os fátuos brilhos daquelas escamas, e desgosta-te com o adocicado sabor da ciência humana, que teve apenas sabor, mas que não alimenta. Vai. Este menino ficará ao meu lado, e juntos nos esforçaremos para ler o livro que é amor, isto é, que é Deus. E não teremos esplendores fátuos de pedras frias, nem o adocicado sabor de palha das obras do saber humano. Mas os fogos do Espírito Eterno nos darão desde agora o êxtase do Paraíso, e possuiremos a Sabedoria, que fortalece mais do que o vinho, e nutre mais do que o mel. Vem, menino, ao qual a Sabedoria mostrou o seu rosto, para que tu a desejasses como uma esposa verdadeira.”

E tendo mandado embora o homem, tomou consigo o menino e o instruiu na divina Sabedoria, para que se tornasse um justo e um rei digno da sagrada unção nesta terra e um cidadão do Reino de Deus depois desta vida.

Esta é a parábola prometida aos pequeninos e proposta aos adultos.

513.3Estais lembrados de Baruc? Ele diz1: “Por qual motivo, ó Israel, estás em terra inimiga e vais ficando velho num lugar estrangeiro, estás contaminado entre os mortos e colocado no número daqueles que vão descer para o abismo?” E ele responde: “Porque tu abandonaste a fonte da Sabedoria. Se tu tivesses caminhado pelo caminho de Deus, terias vivido uma longa vida, em paz e para sempre.”

Escutai, ó vós, que estais sempre queixando-vos de estardes no exílio, ainda que estejais em vossa pátria, pois a tal ponto a pátria não é mais nossa, mas do dominador. Queixais-vos disso, e não sabeis que, em comparação com o que vos espera no futuro, isso é semelhante a uma gota de água, em comparação com o cálice inebriante que se dá aos condenados, e que, vós o sabeis, é amargo, mais do que qualquer outra bebida.

O povo de Deus sofre porque abandonou a Sabedoria. Como podeis ter prudência, força, inteligência, como podeis saber onde são encontradas, para saberdes depois as coisas menores, se não ides mais abeberar-vos nas fontes da Sabedoria? O seu Reino não é desta terra, mas a misericórdia de Deus nos concede ir à fonte dela. Ela é o próprio Deus. Mas Deus abre o seu seio para que ela desça até vós. Pois bem. O que Israel tem agora, ou teve — e crê ainda ter, com a soberba estulta dos prodígios que eles desperdiçaram e que se creem ainda ricos, e exigem o favor crendo que são tais, enquanto recebem somente a compaixão e o escárnio — Israel, que tem ou teve riquezas, conquistas, honras, possui ainda o único tesouro? Não. Mas perde até os outros, porque quem perde a Sabedoria perde a capacidade de ser grande. E Israel conhece muitas coisas, até demais, mas não conhece mais a sabedoria.

513.4Bem que diz Baruc: “Os jovens deste povo viram a luz, moraram sobre esta terra, mas não conheceram o caminho da Sabedoria nem as suas sendas, e os seus filhos não a receberam, e ela foi para longe deles.” Para longe deles! Seus filhos não a receberam. E que proféticas palavras!

Eu, que vos falo, sou a Sabedoria. E três quartos de Israel não me acolhem. Então, a sabedoria se afasta, e se afastará mais deixando-o sozinho. E que farão, então, esses que se julgam uns gigantes e, por isso, capazes de forçar o Senhor a ajudá-los e a servi-los? Haverá gigantes que possam ajudar a Deus na fundação do seu Reino? Não. E Eu, com Baruc, o digo: “Para fundar o Reino verdadeiro de Deus, Deus não escolherá esses soberbos, e os deixará morrer em sua estultice”, fora de suas sendas. Porque, para subir ao Céu com o espírito, e compreender as lições da Sabedoria, é preciso ter um espírito humilde, obediente, e sobretudo todo amor, pois a Sabedoria fala a sua linguagem, isto é, fala a linguagem do amor, pois ela é Amor. Para conhecer as suas sendas, requer-se um olhar límpido e humilde, livre da tríplice concupiscência. Para possuir-se a Sabedoria, é preciso comprá-la com as moedas vivas, as virtudes.

Isto Israel não tinha e Eu vim para explicar a Sabedoria, para levar-vos ao caminho dele, para semear em vossos corações as virtudes. Porque Eu tudo conheço e tudo sei, e vim para ensiná-lo ao Jacó2, meu servo, e a Israel, meu dileto. Eu vim à terra para conversar com os homens, Eu, a Palavra do Pai, a tomar pela mão os filhos do homem, a Mim, Filho de Deus e do Homem, a Mim, Caminho da Vida. Eu vim para fazer-vos entrar no salão dos tesouros eternos, Eu vim, Eu o Amor Eterno, para tomar como minha esposa a Humanidade, que Eu quero elevar ao meu trono e ao meu tálamo, para que esteja comigo no Céu, para introduzi-la no compartimento dos vinhos, a fim de que ela se inebriasse com a verdadeira Videira, da qual os sarmentos recebem Vida.

Mas Israel é uma esposa indolente, que não se levanta do leito para abrir a porta para Aquele que chegou. E então, o esposo vai-se embora e passará ao largo. Ele está para passar. E depois Israel o procurará em vão e achará não a misericordiosa Caridade do seu Salvador, mas os carros de guerra dos dominadores, e será esmagado, esvaziando-se de sua soberba e de sua vida, depois de ter querido esmagar até a misericordiosa Vontade de Deus.

513.5Oh! Israel, Israel, que perdes a verdadeira Vida, para conservar uma mentirosa ilusão de poder! Oh! Israel, que crês te estares salvando, e que estás querendo salvar-te indo por caminhos que não são os da Sabedoria, e te perdes vendendo-te à Mentira e ao Delito, ó Israel náufrago, que não te agarras à forte amarra que te é jogada para teu salvamento, mas, sim, aos bancos de areia do teu passado de transgressões; e, então, a tempestade te leva para outro lugar, para o alto mar, um mar pavoroso e sem luz, e aí, ó Israel, que vale salvar a tua vida ou presumir salvá-la por uma hora, um ano, dez anos, dois ou três decênios, à custa de um delito, e depois morrer para sempre? A vida, a glória, o poder, afinal, o que são? Uma bolha de água suja, que está em um canal, sendo usada pelos lavradores, e que está iridescente, não porque tenha sido feita de pedras preciosas, mas pela sujeira gordurosa do nitro se incha, formando bolhas vazias destinadas a escorrer, sem que delas nada sobre, a não ser um círculo sobre a água lodosa dos mares humanos. Uma só coisa é necessária, ó Israel. Possuir a Sabedoria. Ainda que a custo da vida. Porque a vida não é a coisa mais preciosa. É melhor perder cem vidas do que perder a própria alma.

Jesus terminou com um silêncio que causou admiração. Mas as crianças reclamam o seu beijo. E os adultos, a sua bênção. E, somente depois destas duas coisas, despedindo-se de Cléofas e de Hermes de Emaús, é que Ele pôde sair de lá.

1 diz, em Baruc 3,10-13.20-21.26-28.
2 ao Jacó..., como em Baruc 3,37-38; no compartimento dos vinhos, como em Cântico dos cânticos 2,4.


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