567. 567. Parábola do tecido rasgado e milagre da parturiente.Admoestação a Judas de Keriot, surpreendido ao roubar.
15 de fevereiro de 1947.
567.1Jesus está com as discípulas e os dois apóstolos sobre uma das primeiras ondulações do monte, do outro lado de Efraim. Joana não trouxe consigo nem os meninos nem Ester. Penso que eles já tenham sido mandados com Jônatas para Jerusalém. Por isso é que estão aqui somente estes, além da Mãe de Jesus, Maria de Cléofas, Maria Salomé, Joana, Elisa, Nique e Susana. Ainda não estão presentes as duas irmãs de Lázaro.
Elisa e Nique estão dobrando umas roupas, que certamente terão sido lavadas em um córrego cujas águas estão brilhando lá embaixo, ou então trazidas até aqui pela torrente e depois espalhadas por sobre este altiplano ensolarado. E Nique, depois de ter examinado uma delas, leva-a a Maria de Cléofas, dizendo:
– Também desta teu filho descolou a orla.
Maria de Alfeu pega a veste e a põe junto com as outras, que estão perto dela sobre a grama. Todas as discípulas estão ocupadas, umas em cozinhar e outras em consertar os estragos feitos na casa durante os meses em que os apóstolos aí estiveram sozinhos.
Elisa, que vem vindo com três vestes enxutas, diz:
– Bem se pode ver que há três meses que não tendes uma mulher ativa entre vós! Não há nenhuma veste em ordem, com exceção das do Mestre, que só tem duas: a que Ele está vestindo e a que hoje foi lavada.
– Todas as outras Ele as deu. Parecia estar dominado pela ideia de nunca ter nada. Há muitos dias que está vestido de linho –diz Judas.
– Ainda bem que tua Mãe pensou em trazer para Ti vestes novas. Aquela tingida de púrpura é muito bonita mesmo. Era dela que Tu precisavas, Jesus, ainda que já estejas bem vestido com essa de linho. Ficas até parecendo um lírio! –diz Maria de Alfeu.
– É um lírio muito alto, Maria! –diz em tom de zombaria, Judas.
– Mas é puro como com certeza tu não és, e nem mesmo como é João. Tu também estás vestido de linho, mas podes crer que tu não tens a parecença de um lírio! –replica com franqueza Maria de Alfeu.
– Eu sou de cabelos castanhos e de aparência morena. Por isso sou diferente.
– Não. Não é disso só que depende. É que a tua candura tu a levas nas costas e Ele a tem dentro de Si e transparece em seu olhar, em seu sorriso e em suas palavras. Isto é que é! Ah! Como se está bem aqui com o meu Jesus!
E a boa Maria põe uma de suas mãos emagrecidas, de mulher já idosa e trabalhadeira, sobre o joelho de Jesus, que lhe acaricia aquela mão honesta.
567.2Maria Salomé, que está examinando uma das vestes, exclama:
– Isto está pior do que um rasgão! Oh! Meu filho! Mas quem foi que fechou o rasgão de tua roupa desse modo?
E mostra admirada às companheiras uma espécie de… umbigo muito enrugado, de um modo tal que faz um anel em relevo acima da veste e preso a ela com uns pontos feios e capazes de fazer ficar horrorizada uma mulher. E aquele estranho conserto tornou-se o centro de uma série de dobras que, como os raios de um círculo, vão se alargando por sobre o ombro da veste. Todos riem.
O primeiro foi João, autor do remendo, que dá esta explicação:
– Com aquele rasgão eu não podia ficar e então… eu o fechei!
– Estou vendo, coitada de mim! Estou vendo! Mas não podias pedir a Maria de Tiago que o consertasse?
– A pobre mulher está quase cega! E além disso… O pior era que não se tratava de um rasgão! Era um verdadeiro buraco. A veste ficou agarrada à pequena faixa que eu tinha no ombro e, tirando a faixa do ombro, saiu com um pedaço da veste. Foi então que eu a fiz ficar assim.
– Estragaste tudo assim, meu filho! Pois seria preciso…
Ela examina a veste e sacode a cabeça. Depois diz:
– Eu esperava poder tirar a orla. Mas ela não existe mais…
– Eu o tirei em Nobe, porque estava cortado na dobra. Mas eu teria dado a parte tirada a teu filho –explica Elisa.
– Sim. Mas eu a aproveitei para fazer as cordas de minha sacola…
– Pobres filhos! Como é necessário que nós estejamos perto deles!
–diz a Virgem Maria, que está remendando a veste não sei de quem.
– Também aqui se precisa de tecido. Olhai. Os pontos acabaram por repuxar tudo ao redor, e de um grande mal nasceu outro irremediável. A não ser que… se possa encontrar alguma coisa que substitua o tecido que falta… Então… veremos ainda… mas ficará passável.
– Tu me deste o tema para uma parábola… –diz Jesus.
E, ao mesmo tempo, Judas diz:
– Eu acho que tenho no fundo da bolsa um pedaço de tecido daquela cor, o resto de uma veste que, já desbotada demais para ser vestida, eu a dei a um homenzinho, tão mais baixo do que eu que tivemos que cortar dela uns palmos. Se esperas, eu o vou procurar. Mas antes eu gostaria de ouvir a parábola.
– Deus te abençoe. Então, escuta. Enquanto isso, eu vou colocar de novo os cordões na de Tiago. Eles estão todos consumidos.
– Fala, Mestre. Depois eu farei feliz Maria Salomé.
– Eu falo. 567.3Eu comparo a alma a um tecido. Quando ela é infundida no homem, é nova e sem rasgões. Só tem a mancha original, mas não tem feridas em sua estrutura, nem outras manchas, nada de puído. Depois, com o tempo e com a acolhida dada aos vícios, ela vai-se consumindo até chegar ao ponto em que se rompe pelas imprudências e se mancha, e pelas desordens fica ferida. Então, quando fica lacerada, não é preciso fazer para ela um remendo mal feito, que dá origem a mais numerosos rasgões, mas sim, um remendo suficientemente longo, capaz de anular, quanto possível, a ruína que foi feita. E se o tecido estiver rasgado demais, se estiver rasgado até o ponto de ter perdido um pedaço, não se deve com soberba pretender anular por si mesmo a ruína, mas é preciso ir a Quem pode tornar novamente inteira a alma, porque tudo lhe foi concedido fazer, tudo Ele pode fazer. Eu falo de Deus, meu Pai, e do Salvador, que sou Eu. Mas o orgulho do homem é tal, que quanto maior é a ruína de sua alma, mais ele procura remendá-la com remédios incompletos, que vão criando um mal-estar sempre maior.
Poder-me-íeis objetar que um rasgão sempre se verá. Até Salomé já o disse. Sim, ver-se-ão sempre as feridas que uma alma recebeu. Mas a alma luta em sua batalha e, por isso, é muito possível que seja ferida. Pois muitos são os inimigos que ela tem ao redor de si. Mas ninguém, ao ver um homem coberto de cicatrizes, sinais de outras tantas gloriosas feridas recebidas na batalha para conseguir a vitória, pode dizer: “Este homem é imundo”, mas dirá: “Este homem é um herói. Aí estão os sinais purpúreos do seu valor.” Nunca se verá um soldado que evite os curativos de uma gloriosa ferida. Pelo contrário, ele vai ao médico e lhe diz com um santo orgulho: “Eis-me aqui. Eu combati e venci. Não me poupei, como estás vendo. Agora, cura-me, a fim de que eu esteja pronto para outras batalhas e vitórias.” Mas, ao contrário, aquele que está todo chagado com doenças imundas, que lhe foram causadas pelos vícios infames, envergonha-se de suas chagas diante dos familiares e amigos, e até diante dos médicos; e às vezes se torna tão desvairado, que as conserva escondidas até que o seu fedor as revele. Mas nesse ponto já é muito tarde para buscar a cura.
Os humildes são sempre sinceros e também são valorosos, pois não precisam envergonhar-se das feridas provenientes da luta. Os soberbos são sempre mentirosos e vis por seu orgulho, até morrerem, sem terem querido ir a quem poderia curá-los e dizer-lhe: “Pai, eu pequei. Mas se quiseres podes curar-me.” Muitas são as almas que, pelo orgulho, não querem confessar uma culpa inicial e chegam assim à morte. E, então, também para elas é tarde demais. Não refletem como a misericórdia divina é mais poderosa e ampla do que qualquer gangrena, por mais forte e ampla que ela seja, e que tudo pode ser recuperado. Mas elas, as almas dos orgulhosos, quando percebem que desprezaram toda salvação, caem em desespero, pois estão sem Deus, e dizem: “Já é tarde demais”, e dão a si mesmos a última morte, a condenação. 567.4E agora vai, Judas, vai buscar o teu tecido…
– Eu vou. Mas não me agradou esta parábola. Eu não a entendi.
– Mas se ela é tão clara! Eu, que sou uma pobre mulher, a compreendi! –diz Maria Salomé.
– E eu, não. Mas nas outras vezes as contavas mais belas. Agora… são as abelhas… o tecido… as cidades que mudam de nome, as almas-barcas, coisas tão pobres e tão confusas que não me agradam mais, nem eu as entendo… Mas agora vou buscar o tecido porque, com a prática que eu tenho, digo que é o que se requer, mas sempre será uma veste remendada –e Judas se levanta e vai.
Maria continuou sempre com a cabeça inclinada enquanto Judas falou, mas Joana tinha a cabeça levantada, fixando com desdém o imprudente. Também Elisa a tinha levantado, mas depois fez como Maria e Nique. Susana abriu ao máximo os seus grandes olhos, assombrada, e olhando para Jesus, em vez de olhar para o Apóstolo, como se estivesse perguntando por que é que Ele não reagia. Mas nenhuma delas falou nada nem fez gestos. Só Maria Salomé e Maria de Alfeu, mais decididas, olharam uma para a outra, balançando as cabeças. E logo que Judas saiu, Salomé disse:
– É ele que está com a cabeça em mau estado.
– Isso mesmo. É por isso que não entende nada, e eu nem sei se Tu poderás consertá-la. Se a do meu filho estivesse assim, eu a romperia. Sim, assim como a fiz a fim de que fosse a cabeça de um justo, assim eu a desfaria. É melhor estar com o rosto deformado, do que com o coração! –diz Maria de Alfeu.
– Sê mais indulgente, Maria. Tu não podes comparar os teus filhos, que cresceram em uma família honesta, em uma cidade como Nazaré, com este homem –diz Jesus.
– A mãe dele é boa. O pai dele não era um homem mau, pelo que eu ouvi dizer –replica Maria de Alfeu.
– Sim. Mas orgulho era o que não faltava em seu coração. Por isso, ele afastou o filho da mãe muito cedo e contribuiu, ele também, para fazer crescer a herança moral que tinha dado ao seu filho quando o mandou para Jerusalém… É doloroso dizer isso, mas com toda certeza não é o Templo o lugar onde o orgulho herdado possa diminuir –diz Jesus.
– Nenhum posto em Jerusalém, se for algum posto de honra, é apropriado para diminuir o orgulho ou qualquer outro defeito –suspira Joana.
E acrescenta:
– E também nenhum outro posto de honra, seja em Jerusalém ou Cesaréia de Filipe, em Tiberíades ou na outra Cesaréia… –e continua a costurar rapidamente, inclinando o rosto sobre o seu trabalho mais do que o necessário.
– Maria de Lázaro é enérgica, mas não tem orgulho –observa Nique.
– Agora. Mas antes era muito soberba, o oposto de seus pais, que nunca foram assim –responde Joana.
– Quando é que elas virão? –pergunta Salomé.
– Que venham logo, pois nós, daqui a três dias, devemos partir.
– Então, trabalhemos depressa. Trabalhemos todo o tempo necessário para terminar tudo –estimula-as Maria de Alfeu.
567.5– Nós tardamos a vir por causa de Lázaro. Mas foi bom, porque Maria foi poupada de muita canseira –diz Susana.
– Mas tu não te sentes mal ao fazer tão longa viagem? Estás tão pálida e cansada, Maria! –pergunta-lhe Maria de Alfeu, pondo a mão no colo de Maria e olhando para ela com ansiedade.
– Eu não estou doente, Maria, e posso caminhar com certeza.
– Doente, não. Mas aflita, sim, ó Mãe. Eu daria dez e mais dez anos de minha vida, abraçaria todas as dores para poder tornar a ver-te de novo como te vi pela primeira vez –diz João, que olha para ela com piedade.
– Mas o teu amor já é um remédio, João. Eu sinto acalmar-se o meu coração ao ver como vós amais a minha Criatura. Porque não é outra a causa do meu sofrimento. Outra, senão vê-lo não ser amado. Aqui, perto dele, estando entre vós que sois tão fiéis, eu já estou florescendo de novo. Mas com certeza… todos esses meses… sozinha em Nazaré, depois de tê-lo visto partir já tão angustiado, já tão perseguido e ouvindo todas aquelas vozes… Oh! Quanta! Quanta dor! Estando assim perto, eu estou vendo e posso dizer: “Pelo menos o meu Jesus tem sua Mãe que o consola, que lhe diz palavras que fazem esquecer as outras palavras”, e vejo também que todo amor ainda não morreu em Israel. E fico em paz. Com um pouco de paz. Não muita… porque…
Maria não diz mais nada. Inclina o rosto, que ela tinha levantado para falar a João, e deste nada mais se vê senão o alto da fronte que está enrubescida por causa de uma emoção muda… E, depois, duas lágrimas brilham ao caírem na veste escura que ela está remendando.
Jesus suspira e se levanta de seu lugar, indo sentar-se aos pés dela, bem de frente, e deixa cair sua cabeça sobre os joelhos dela, beijando-lhe a mão que está segurando o tecido e ficando como um menino que descansa. Maria tira a agulha do tecido para que ela não fira o Filho, depois põe a mão direita sobre a cabeça, que está inclinada sobre os joelhos dela, e levanta o olhar para o céu, certamente rezando, mesmo sem mover os lábios. Toda a aparência é que ela está rezando. Depois se inclina para beijar seu Filho por sobre os cabelos, perto da têmpora descoberta.
567.6As outras não falam, mas afinal Salomé diz:
– Como Judas está tardando! O sol já começou a descer! E eu não poderei ver bem!
– Talvez alguém o tenha feito parar! –responde João, que pergunta à sua mãe:– Queres que eu vá chamá-lo?
– Farias bem. Porque se ele não tiver achado o tecido igual, eu encurtarei as mangas, pois já vem aí o verão; e no outono te prepararei outra veste, já que com esta não se pode mais andar, e com o pedaço cortado eu a remendarei aqui. Para ir pescar ainda estará boa. Porque certamente depois de Pentecostes, voltareis para a Galileia…
– Agora eu me vou –diz João.
E, sempre gentil, pergunta às outras mulheres:
– Tendes vestes já prontas que eu possa levar para as nossas casas? Se as tiverdes, podem me dar. Assim, ao voltardes, tereis menos peso para transportar.
As mulheres recolhem tudo o que foi consertado e o entregam a João, que já se ia virando para ir embora, 567.7mas tem que parar de repente, ao ver que vem vindo ao encontro deles Maria de Tiago.
A boa velhinha vem vindo tão depressa quanto lhe consentem os seus muitos anos, e grita para João:
– O Mestre está aí?
– Sim, mãe. Que queres?
A mulher, continuando a correr, responde:
– Ada está mal, muito mal. E o marido quereria consolá-la, chamando Jesus… Mas, depois que aqueles samaritanos foram tão maus, ele não ousa… Então, eu disse: “Tu não o conheces ainda. Eu vou e não me dirás que eu não vá…”
A velhinha está ofegante pela corrida e pelas subidas.
– Não corras mais. Eu vou contigo. Ou melhor, eu vou à tua frente. Tu nos acompanharás com um passo moderado. Já estás idosa, mãe, para estas corridas –diz-lhe Jesus.
E depois diz à sua mãe e às discípulas:
– Eu fico no povoado. A paz esteja convosco.
Ele pega João por um braço e desce com ele rapidamente. A velhinha, retomando o fôlego, bem que o seguiria depois de ter respondido às mulheres que a interrogavam:
– Hum! Só o Rabi é que a pode salvar. Se não, ela morrerá como Raquel. Ela já está perdendo a temperatura e as forças, e se contorcendo com convulsões dolorosas.
Mas as mulheres a entretêm, dizendo-lhe:
– Mas já experimentastes colocar tijolos quentes por baixo dos rins?
– Não. É melhor enrolá-la em tecidos de lã embebidos em vinho com aroma, o mais quente que se puder.
– Para mim, através de Tiago, fizeram bem as unções de óleo, e depois os tijolos quentes.
– Fazei que ela beba bastante.
– Se ela pudesse ficar de pé e dar alguns passos, enquanto se fizesse uma boa massagem sobre os rins, seria bom.
As mulheres-mães, isto é, todas, menos Nique e Susana, e Maria que não sofreu as dores que todas as mulheres sofrem ao darem à luz um filho, vão aconselhando a fazer-se isso ou aquilo.
– Tudo. Tudo se experimentou. Mas os rins dela já estão cansados demais. É o seu décimo primeiro filho! E agora eu vou. Já posso respirar. Rezai por aquela mãe. Que o Altíssimo a conserve viva até que chegue o Rabi.
E sai trotando, em seus passinhos curtos, a pobre e bondosa velhinha.
567.8Enquanto isso, Jesus vai descendo para a cidade, que já está toda ensolarada. Ele entra na cidade do lado oposto àquele onde está a casa deles, isto é, a noroeste de Efraim, enquanto que a casa de Maria de Tiago fica a sudeste. Jesus vai apressado, sem parar para falar com os que o quisessem deter. Ele os saúda e vai em frente.
Um homem observa:
– Ele está desconfiado de nós. Os de outros lugares lhe fizeram mal. Ele tem razão.
– Não. Ele está indo à casa do Janoé. A mulher dele está quase morrendo em seu undécimo parto.
– Pobres filhos! E o Rabi vai lá? Três vezes bom. É ofendido e faz o bem.
– Janoé não o ofendeu! Nenhum de nós o ofendeu!
– Mas são sempre homens de Samaria.
– O Rabi é justo e sabe distinguir. Vamos lá para vermos o milagre.
– Não poderemos entrar. É uma mulher e está de parto.
– Mas ouviremos a criatura nova chorar e essa voz será o milagre.
Vão correndo para alcançarem a Jesus. Outros mais se unem a eles para verem.
567.9Jesus chega à casa desolada pela iminente desventura. Dos dez filhos, a maior deles é uma jovenzinha chorosa, agarrada pelos irmãozinhos menores, que choramingam. Ela está em um canto da entrada, ao lado da porta escancarada. As mulheres vão e vêm sussurrando, enquanto se ouve um tropel de pés descalços que vêm correndo por cima do chão ladrilhado.
Uma mulher vê Jesus e dá um grito:
– Janoé! Espera! Ele já veio!
E sai correndo para fora, com um cântaro soltando vapores.
Um homem chega e se prostra. Não faz mais do que um gesto, e diz estas palavras:
– Eu creio. Piedade para com estes! –e mostra os seus filhos.
– Levanta-te e cria coragem. O Altíssimo ajuda a quem tem fé e tem piedade dos seus filhos aflitos.
– Oh! Vem, Mestre! Vem! A mulher está ficando escura. Sufocada pelas convulsões. Quase não respira mais. Vem!
E o homem, que perdeu a cabeça, acaba de perdê-la totalmente ao grito de uma das mulheres, que o chama:
– Janoé, corre! Ada está morrendo!
Ele se apressa mais, puxa Jesus a fim de fazê-lo andar mais rápido para o quarto da moribunda e, surdo às palavras de Jesus, que lhe está dizendo:
– Vai e tem fé!
Fé é o que o pobre homem tem. O que lhe falta é a capacidade de entender o sentido daquelas palavras, o sentido oculto que já é a certeza do milagre. E Jesus, puxado e arrastado, vai subindo pela escada, que está a uns três metros da porta aberta, e permite ver um rosto já exangue, já lívido e contrafeito pela máscara da agonia. As mulheres não têm coragem de fazer mais nada. Por isso, tornam a cobrir a mulher até junto ao queixo e ficam olhando. Elas estão como que petrificadas à espera do momento fatal.
Jesus estende os braços, grita: “Eu quero!” e se volta para sair.
O marido, as mulheres, os curiosos, que se haviam aglomerado, ficam decepcionados, pois eles talvez estivessem esperando que Jesus fosse fazer coisas mais maravilhosas, que o menino nascesse instantaneamente. Mas Jesus, abrindo caminho e fitando-os no rosto, à medida que vai passando por diante deles, diz:
– Não duvideis. Mais um pouco de fé. Um momento. A mulher tem que pagar o amargo tributo do parto. Mas está salva.
E Ele desce pela escada, deixando-os estupefatos. E quando está para sair pela estrada vai dizendo aos dez filhos, que estão espavoridos:
– Não temais! A mamãe está salva.
E, ao dizer isso, vai passando a mão pelos rostinhos espantados, quando um grito alto ecoa pela casa e se espalha até a estrada, à qual está chegando também no mesmo momento Maria de Tiago, que diz: “Misericórdia!”, pois aquele grito parece um sinal de morte.
– Não temas, Maria. Mas vai lá logo, que verás nascer o pequenino. Já lhe voltaram as forças e as dores. Mas daqui a pouco haverá alegria.
567.10E Jesus põe-se a caminho com João. Ninguém o acompanha, porque todos querem ver realizar-se o milagre, e outros correm para a casa, porque se espalhou a notícia de que o Rabi foi salvar Ada. E assim Jesus, encaminhando-se para uma ruazinha secundária, pode dirigir-se sem obstáculos para uma casa em que Ele entra, chamando: “Judas! Judas!”, mas ninguém responde.
– Ele foi lá para cima, Mestre. Nós também podemos ir para casa. Eu coloco aqui as vestes de Judas, de Simão e do teu irmão Tiago, depois colocarei as outras de Simão Pedro, de André, de Tomé e de Filipe, na casa de Ana.
De fato eles fazem assim, e eu compreendo que, para dar lugar às discípulas, os apóstolos se espalharam por outras casas, se não todos, pelo menos uma parte deles.
Agora, sem precisarem estar transportando as roupas, lá se vão eles, conversando uns com os outros, para a casa de Maria de Tiago, e entram nela pelo portãozinho da horta que está apenas encostado. A casa está silenciosa e vazia. João vê no chão uma ânfora cheia de água e, talvez pensando que a tenha deixado ali a velhinha antes de ser chamada para prestar assistência à mulher, apanha-a e se dirige para o quarto fechado. Jesus para um pouco no corredor para tirar o manto e dobrá-lo com os cuidados de costume, antes de ir colocá-lo no baú do corredor.
567.11João abre a porta e dá um grito, como se estivesse aterrorizado. Deixa cair no chão a ânfora e tapa os olhos com as mãos, curvando-se como que para fazer-se pequeno e ficar mais baixo, a fim de não ver. Lá do quarto vem um barulho de moedas, que se espalham pelo chão, retinindo.
Jesus já está à porta. Eu precisei de mais tempo para escrever estas palavras do que Ele para chegar. Afasta energicamente João, que está dizendo: “Fora! Sai daí!” Depois abre toda a porta, já semi-aberta, e entra.
Agora é este o quarto onde, enquanto aqui estão as mulheres, eles tomam as refeições. Nele estão dois cofres de ferro e, na frente de um deles, justamente diante da porta, está Judas, com os olhos cheios de ira e de temor ao mesmo tempo, com uma bolsa nas mãos… O cofre está aberto… e no chão já há moedas, enquanto outras vão escapulindo da bolsa que está colocada ao lado do cofre, aberta e meio inclinada. Tudo dá testemunho, de modo a não deixar dúvidas, do que estava acontecendo, isto é, que Judas entrou na casa, abriu o cofre e estava roubando.
Ninguém fala nada. Ninguém se move. Mas isso é pior do que se todos gritassem ou se lançassem uns contra os outros. Há três personagens. Judas representa o demônio, Jesus é o Juiz e João, o aterrorizado pela revelação da baixeza de seu companheiro.
A mão de Judas, que está segurando a bolsa, treme, e as moedas que estão colocadas nela têm um tinido meio em surdina.
João treme de alto a baixo e, por mais que tenha ficado com as mãos apertadas sobre a boca, seus dentes estão batendo, enquanto os seus olhos, assombrados, olham mais para Jesus do que para Judas.
Jesus não tem nenhum tremor. Está de pé, glacial, parecendo congelado, de tão rígido que está.
Finalmente, Ele dá um passo, faz um gesto e diz uma palavra. Um passo na direção de Judas. Um gesto que foi o de fazer um sinal a João para que se retire, e uma palavra: “Vai!”
Mas João está com medo, e diz, quase gemendo:
– Não! Não me mandes embora. Deixa-me aqui. Eu não direi nada… Mas deixa-me aqui contigo.
– Vai para fora! Não tenhas medo! Fecha todas as portas… E se vier alguém, seja lá quem for, mesmo que seja minha Mãe… não deixes que venham para cá. Vai. Obedece!
– Senhor!…
Fica parecendo que o culpado seja João, de tão suplicante e abatido ele está.
– Vai, Eu te digo. Não acontecerá nada. Vai –e Jesus tempera sua ordem, pondo a mão sobre a cabeça do Predileto, com um gesto de carícia.
Mas eu vejo que aquela mão agora está tremendo. E João percebe o tremor dela e a segura, e a beija com um soluço que quer dizer muitas coisas. E sai.
567.12Jesus fecha a porta e o ferrolho. Torna a virar-se a fim de olhar para Judas, que deve sentir-se bem aniquilado, pois não ousa, ele que é tão corajoso, não ousa dizer uma palavra nem fazer um gesto. Jesus vai pôr-se exatamente diante dele, andando ao redor de uma mesa que está no centro do quarto. Não sei dizer se Ele vai depressa ou devagar. Fiquei muito espantada com o seu rosto para poder saber qual a medida do tempo. Estou vendo os seus olhos e fico com medo, como João. O próprio Judas está com medo e se afasta para ficar entre o cofre e uma janela aberta, cuja luz, que está vermelha pelo pôr do sol, se espalha toda sobre Jesus.
Que olhos tem Jesus! Ele não diz uma palavra. Mas quando Ele vê que da cintura da veste de Judas está pendurada uma espécie de gazua, sente um sobressalto. Levanta o braço, com o punho fechado, como para atacar o ladrão. E de sua boca se ouve o começo de uma palavra: “Maldito” ou “Maldição.” Mas Ele se contém. Detém o braço e não termina a palavra, tendo pronunciado dela só as três primeiras letras. E se limita, com um esforço de domínio que o faz tremer todo, a abrir o punho e a abaixar o braço até à altura da bolsa que ainda está na mão de Judas, e a arrancá-la, jogando-a no chão, dizendo, com voz sufocada, enquanto espezinha a bolsa com as moedas e as espalha com um furor moderado, mas terrível:
– Fora! Sujeira de Satanás! Ouro maldito! Veneno da Serpente! Fora!
Judas, que dera um grito sufocado ao ver que Jesus estava quase no ato de amaldiçoá-lo, não reage mais. Mas do outro lado da porta fechada, outro grito ressoa, quando Jesus joga a bolsa no chão. E esse grito de João exaspera o ladrão. E lhe restitui uma demoníaca audácia. E o faz ficar furioso. Só lhe falta pular contra Jesus, gritando:
– Tu puseste um espião a vigiar-me para me desonrar. Ser vigiado por um rapaz tolo, que não sabe nem calar-se. Que me envergonhará diante de todos. Mas isto é o que Tu querias. E, afinal… Sim! Isto eu também quero. Eu quero isso! Fazer-te expulsar-me! Fazer-te amaldiçoar-me! Tudo eu tentei para ser expulso.
Ele está rouco pela ira e feio como um demônio. Está ofegante, como se tivesse alguma coisa que o estivesse estrangulando.
Jesus lhe repete, em voz baixa, mas terrível:
– Ladrão! Ladrão! Ladrão!
E termina dizendo:
– Hoje ladrão, amanhã assassino. Como Barrabás. Pior do que ele.
E lhe sopra essas palavras no rosto, pois seus rostos naquele momento estavam muito perto um do outro, a cada palavra que cada um dizia.
567.13Judas, depois de tomar fôlego, diz:
– Sim. Ladrão. E por culpa tua. Todo mal que eu faço é por culpa tua, e Tu não te cansas de me arruinares. Tu salvas a todos. Dás amor e honras a todos. Acolhes os pecadores. Não te causam nojo as prostitutas. Tratas como amigos os ladrões, os agiotas e os rufiões de Zaqueu, e os acolhes como se fosse o Messias o espião do Templo, ó estulto que és! E fazes que seja nosso chefe um ignorante, como nosso tesoureiro puseste um cobrador de impostos, e como teu confidente, um tolo. Para mim medes um dinheirinho, não me dás nem uma moeda, queres ter-me perto de Ti como um galeote, que é obrigado a ficar ao lado do banco do remo; e não queres que nós, eu digo nós, mas na verdade sou eu, eu só que não devo aceitar óbolos de peregrinos. E para que eu não toque no dinheiro que tu ordenaste que não se recebesse dinheiro de ninguém. É porque me odeias. Pois bem. Eu também te odeio. Tu não soubeste bater em mim, nem maldizer-me, há pouco. A tua maldição me teria reduzido a cinzas. Por que não a disseste? Eu a teria preferido a ver-te assim inepto, assim enfraquecido, um homem acabado, vencido…
– Cala-te!
– Não. Tens medo que João ouça? Tens medo que ele finalmente fique sabendo quem és Tu e te deixe? Ah! Sim, que tens este medo, Tu que te fazes de herói! Sim, que o tens. E tens medo de mim. Sim, que o tens. Tens medo! Por isso não me soubeste maldizer. Por isso finges que me tens amor, mas é para adular-me. Para segurar-me quieto. Pois tu sabes que eu sou uma força. Sim, Tu sabes que eu sou uma força. A força que te odeia e te vencerá. Eu prometi seguir-te até a morte, oferecendo-te tudo, e tudo eu te ofereci, e estarei perto de Ti à tua hora e à minha hora. Magnífico é esse rei que não sabe amaldiçoar e expulsar! Rei-nuvem! Rei ídolo! Rei estulto. Mentiroso! Traidor do teu próprio destino. Tu sempre me desprezaste, desde o nosso primeiro encontro. Não me correspondeste. Tu te julgavas um sábio. És um embotado. Eu te ensinava o bom caminho. Mas Tu… Oh! Tu és o puro! És a criatura que é homem, mas que é Deus. E desprezas os conselhos do Inteligente… Tu erraste desde o primeiro momento, e ainda erras. Tu…Tu és…Ah!
567.14O rio de palavras cessa de repente e se segue um silêncio lúgubre depois de tanto clamor, e uma lúgubre imobilidade depois de tantos gestos. Porque, enquanto eu escrevo sem poder dizer o que estava acontecendo, Judas, curvo, parecendo, sim, parecendo muito com um cão feroz que late ao encontrar a caça, e que dela se aproxima pronto para dar o bote, foi-se aproximando cada vez mais de Jesus, com um rosto que não se podia olhar, com as mãos em forma de garras, os cotovelos bem apertados junto ao corpo, como se fosse saltar sobre Jesus, o qual não dá sinal de nenhum medo e se move, virando até as costas para ele, que poderia agarrá-lo e segurá-lo pelo pescoço, mas não o faz, porque vai antes abrir a porta, e olhar pelo corredor se João foi-se embora ou não. O corredor está vazio e meio escuro, tendo João fechado a porta que vai para a horta, depois que saiu de lá. Jesus, então, torna a fechar a porta com o ferrolho e se encosta nela, esperando, sem fazer nenhum gesto e sem dizer nenhuma palavra, que a tempestade se acalme.
Eu não sou competente. Mas creio não estar errada se disser que, pela boca de Judas, quem falou foi o próprio Satanás, e que este é um momento de possessão evidente por Satanás do apóstolo pervertido, e que ele já está para cometer o Delito, já condenado por sua própria vontade. Até o modo como cessa o rio de palavras, deixando fora de si o apóstolo, faz-me lembrar de outras cenas de possessão, vistas nos três anos da vida pública de Jesus.
Jesus, encostado na porta, todo de branco sobre a madeira escura, não faz nenhum gesto. Somente os seus olhos poderosos, cheios de dor e de fervor, é que estão olhando para o apóstolo. Se se pudesse dizer que os olhos rezam, eu diria que os olhos de Jesus estão rezando, enquanto ele olha para o desgraçado. Porque não é somente um poder dominador o que sai daqueles olhos tão aflitos, mas é também o fervor da oração. Depois, lá pelo fim da falação de Judas, Jesus abre os braços, que estavam estendidos ao longo do corpo, mas não os abre nem para tocar em Judas, nem para fazer gestos na direção dele, nem para elevá-los para o céu. Ele os abre horizontalmente, tomando a posição em que estão no Crucifixo, sobre a madeira escura e a parede avermelhada. É aí que da boca do Judas saem devagar as últimas palavras e sai aquele “ah”, que interrompe o discurso.
Jesus fica como está, com os braços abertos, e olhando para o apóstolo, sempre com aquele olhar de dor e de oração. E Judas, como alguém que acabou de sair de um delírio, passa a mão sobre o rosto suado… Depois fica pensando e procurando lembrar-se de tudo, cai por terra, não sei se chorando ou não, como se lhe houvessem faltado as forças.
567.15Jesus abaixa o olhar e os braços e, com uma voz baixa, mas clara, diz:
– E então? Eu te odeio? Eu poderia atacar-te com o pé, achatar-te, chamando-te de “verme”, poderia amaldiçoar-te, assim como te livrei da força que te fazia delirar. Tu pensavas que era uma fraqueza a minha impossibilidade de amaldiçoar-te. Oh! Não era fraqueza. É que Eu sou o Salvador. E o Salvador não pode amaldiçoar. Ele pode salvar. E quer salvar… Tu disseste: “Eu sou a força. A força que te odeia e que te vencerá.” Eu sou a Força, aliás, sou a única força. Mas a minha força não é ódio. É amor. E o amor não odeia e não amaldiçoa, nunca. A Força poderia até vencer as batalhas individuais, como entre Mim e ti, entre Mim e Satanás que está em ti, e acabar com o teu patrão para sempre, como Eu fiz agora transformando-me no sinal que salva, no Tau que Lúcifer não pode ver. Ela poderia até vencer cada uma dessas batalhas, como vencerá a última, ainda longínqua para quem conta por séculos, mas próxima para quem mede o tempo com a medida da eternidade.
Mas que adiantaria violar as regras perfeitas do meu Pai? Seria justiça? Nisso haveria algum mérito? Não. Não seria justiça, nem nisso haveria mérito. Não haveria justiça para com os outros homens culpados, aos quais não é tirada a liberdade de o serem e os quais poderiam no dia final perguntar-me e reprovar-me quanto ao porque da condenação e a parcialidade para contigo sozinho. Serão dez, cem mil aqueles, ou setenta vezes dez mil ou cem mil que farão os teus mesmos pecados e se endemoninharão por sua própria vontade, e serão ofensores de Deus, torturadores da mãe e do pai, assassinos, ladrões, mentirosos, adúlteros, luxuriosos, sacrílegos, e no fim deicidas, matando materialmente o Cristo num dia próximo, e matando-o espiritualmente em seus corações nos tempos futuros. E todos poderiam dizer-me, quando Eu vier separar os cordeiros dos cabritos, a abençoar os primeiros e a amaldiçoar os segundos; a amaldiçoar, porque, então, não haverá mais redenção, mas só salvação ou condenação, a tornar a amaldiçoá-los, depois de já tê-los amaldiçoado individualmente na primeira morte e no juízo particular — porque o homem, e tu o sabes pois me ouviste dizê-lo centenas e milhares de vezes —, porque o homem pode salvar-se enquanto dura a vida, enquanto estiver vivo, até os seus últimos suspiros. Basta um instante, a milésima parte de um minuto para que tudo isso seja dito entre a alma e Deus, que seja pedido o perdão e obtida a absolvição… Todos, como eu dizia, poderiam dizer-me, todos esses condenados: “Por que é que a nós não nos ligaste ao Bem, como fizeste com Judas?” E eles teriam razão.
567.16Porque todo homem nasce com as mesmas coisas naturais e sobrenaturais: um corpo e uma alma. E enquanto o corpo, sendo gerado pelos homens, pode ser mais ou menos robusto e são, desde o nascimento, a alma, criada por Deus, é para todos igualmente dotada das mesmas propriedades, dos mesmos dons por Deus. Entre as almas do João, falo do Batista, e a tua, não havia diferença, quando elas foram infundidas na carne. E, contudo, Eu te digo que, mesmo que a graça não a tivesse pré-santificado, para que o Arauto de Cristo fosse sem mancha como conviria que o fossem todos aqueles que me anunciam, pelo menos no que diz respeito aos pecados atuais, a alma deles teria sido, teria se tornado bem diferente da tua. Ou melhor, a tua teria se tornado diferente da dele. Porque ele teria conservado sua alma no frescor dos que não têm culpa, e a teria até mais ornada de justiça, de acordo com a vontade de Deus, que vos deseja todos justos e fazendo que cresçam os dons gratuitos, recebidos com uma perfeição cada vez mais heroica. Tu, ao contrário, devastaste e destruíste a tua alma e os dons a ela dados por Deus. Que é que fizeste de tua liberdade de arbítrio? E de tua inteligência? Terás conservado em teu espírito a liberdade que ele tinha? Tens usado a inteligência de tua mente com inteligência? Não. Tu, tu que não queres obedecer a Mim, não digo a Mim-Homem, mas nem mesmo a Mim-Deus, pois tu obedeceste a Satanás. Tu usaste a inteligência de tua mente e a liberdade do teu espírito para compreender as Trevas. Porque assim quiseste. Diante de ti foram postos o Bem e o Mal. Depois foi colocado diante de ti somente o Bem: Eu. O teu Eterno Criador, que tem acompanhado o desenvolvimento de tua alma, pois que o Eterno Pensamento nada deixa de conhecer de tudo o que se move, desde quando o tempo existe, e pôs diante de ti o Bem, somente o Bem, porque Ele sabe que tu és mais fraco do que uma alga da fossa.
567.17Tu me gritaste, dizendo que eu te odeio. Mas, sendo Eu um só com o Pai e com o Amor, Um só aqui como no Céu — porque se em Mim há duas naturezas, e o Cristo por sua natureza humana enquanto a vitória não o livrar de suas limitações humanas está agora em Efraim, e não pode estar em outro lugar neste instante, como Deus, o Verbo de Deus, Eu estou no Céu e na Terra, estando sempre onipresente e onipotente a minha Divindade — sendo Eu agora um só com o Pai e o Espírito Santo, a acusação a Mim feita, tu a fizeste a Deus Uno e Trino. Àquele Deus Pai que te criou por amor, àquele Deus Filho que se encarnou para salvar-te por amor, àquele Deus Espírito, que te falou tantas vezes, a fim de dar-te desejos bons por amor. A este Deus Uno e Trino, que tanto te amou, que te trouxe para o meu caminho tornando-te cego para as coisas do mundo a fim de dar-te tempo para Me veres, surdo ao mundo para fazer-te Me ouvires. E tu!… E tu!…Depois de me teres visto e ouvido, depois de teres livremente vindo ao Bem, sentindo com tua inteligência que aquele era o único caminho para a verdadeira glória, rejeitaste o Bem e livremente te entregaste ao Mal. Mas se tu, com o teu livre arbítrio, quiseste isso, se sempre mais rudemente tens repelido a minha mão, que se te oferecia para trazer-te para fora do sorvedouro, se tu sempre mais te foste afastando do porto para te afundares no furioso mar das paixões, do Mal, podes dizer a Mim, Aquele do qual Eu procedo, Aquele que me formou homem para procurar a tua salvação, podes tu dizer que te temos odiado?
Tu me tens censurado por ter querido o teu mal… Também o menino mau reprova o médico e sua mãe pelos remédios amargos que o fazem beber e pelas coisas desejadas que lhe são negadas para o seu bem. Até este ponto Satanás tornou-te cego e doido, para que tu não entendas mais a verdadeira natureza das medidas que Eu tenho tomado para contigo, e para que tu possas chegar a dizer que é aversão, desejo de arruinar-te, isso que é o providente cuidado do teu Mestre, do teu Salvador, do teu Amigo para curar-te? Eu te procurei ter sempre perto de Mim… Tirei de tuas mãos o dinheiro… Mas tu não sabes, não percebes que ele é como certas beberagens mágicas, que despertam em quem as tomou uma sede insaciável e colocam dentro do sangue um ardor, um furor cujo fim é a morte? Tu, estou lendo em teu pensamento, me censuras pensando assim: “E, então, por que é que durante tanto tempo me deixaste ser o administrador do dinheiro?” Por que assim foi? Porque se Eu te tivesse proibido antes de tocar nas moedas, tu já te terias vendido antes e terias roubado antes. Mas te vendeste assim mesmo porque pouco podias roubar…Mas Eu devia procurar impedir que isso acontecesse sem violentar a tua liberdade. 567.18O ouro é a tua ruína. Pelo ouro tu te tornaste um luxurioso e um traidor…
– Eis! Tu acreditaste nas palavras de Samuel! Eu não sou…
Jesus, que vinha se tornando cada vez mais claro em suas palavras e, contudo, sem assumir tons violentos nem ameaçar com castigo, de repente dá um grito e uma ordem, que eu diria cheia de furor. Ele dardeja seus olhares sobre o rosto que Judas levantou para dizer aquela palavra, e lhe impõe um “Silêncio!”, que mais se parece com o estampido de um raio.
Judas se agacha sobre os calcanhares e não abre mais a boca.
Faz-se um silêncio no qual Jesus, com um visível esforço, recompõe sua humanidade em uma compostura e sob um domínio tão poderoso, que só isso já dá testemunho do que nele há de divino. Recomeça a falar, com sua voz de costume, calorosa, doce até quando é severa, persuasiva, conquistadora. Só os demônios é que resistem àquela voz.
– Eu não preciso de que me fale Samuel nem ninguém para ficar sabendo de tuas ações. Mas, ó, desgraçado! Tu sabes diante de Quem estás? É verdade. Tu dizes que não entendes mais as minhas palavras. Pobre infeliz! Não entendes mais nem a ti mesmo. Não entendes mais nem o bem nem o mal. Satanás, ao qual seguiste em todas as tentações que ele te apresentava, te fez de bobo. Mas já houve um tempo em que tu me entendias. E acreditavas que Eu sou Quem sou! E esta lembrança não se extinguiu em ti. E como é que podes crer que o Filho de Deus, que é Deus, tenha necessidade das palavras de um homem para conhecer os pensamentos e as ações de um outro homem? Tu ainda não estás tão pervertido a ponto de não creres que Eu seja Deus, e nisto está a tua maior culpa. Porque, que tu me creias ser Deus, isso fica demonstrado pelo medo que tens de minha ira. Tu percebes que não estás lutando contra um homem, mas contra o próprio Deus, e tremes. Tremes, porque, como Caim, tu não podes ver e pensar em um Deus diferente que não seja um vingador de Si mesmo e dos inocentes. Tu tens medo que aconteça como aconteceu a Coré, Datã e Abiron1 e aos sequazes deles. E assim mesmo, sabendo quem Eu sou, tu lutas ainda contra Mim. Eu deveria dizer-te: “Maldito!” Mas Eu não seria mais o Salvador…
567.19Tu quererias que eu te expulsasse. Tu fazes de tudo, e ainda o dizes, para chegar a isso. Esta razão não justifica as tuas ações. Porque para separar-se de Mim, basta pecar. E tu o podes fazer, Eu te digo. Eu o venho dizendo desde Nobe, quando voltaste a Mim em uma linda manhã, todo sujo com tuas mentiras e libidinagens, como se tivesses saído do Inferno para ires cair na lama dos porcos ou na cama das macacas libidinosas, e Eu tive que fazer um esforço contra Mim mesmo para não te repelir com a ponta da sandália como um farrapo nojento e para vencer a náusea que me incomodava, não somente em meu espírito, mas até em minhas vísceras. Eu sempre te disse isso. Mesmo antes de aceitar-te. Mesmo antes de vir para cá. Portanto, foi para ti mesmo, para ti somente, que Eu fiz aquele sermão. Mas tu sempre quiseste ficar… Para tua ruína. Tu! A minha maior dor!
Mas já pensas, e o dizes, ó herético chefe de muitos que virão, que Eu sou superior à dor. Não. Somente ao pecado Eu sou superior. Somente à ignorância é que Eu sou superior. Ao pecado, porque sou Deus. E à ignorância, porque não pode haver ignorância na alma que não é lesada pela Culpa Original. Mas Eu te falo como Homem, como o Homem, como o Adão redentor que veio reparar a culpa do Adão pecador, a fim de mostrar como teria ficado o homem se tivesse permanecido como foi criado: inocente. Entre os dons de Deus dados a Adão, porventura não estava uma inteligência sem enganos e uma ciência grande, visto que a união com Deus infundia no filho abençoado as luzes do Pai Onipotente? Eu, o novo Adão, estou acima do pecado por minha própria vontade…
567.20Um dia, em um tempo que já vai longe, tu ficaste surpreso que Eu tivesse sido tentato e me perguntaste se Eu nunca havia caído. Tu te lembras? E Eu te respondi. Sim. Como podia responder-te… Porque tu, até então, eras assim… um homem decaído a tal ponto que era inútil pôr diante de teus olhos as pérolas preciosas das virtudes de Cristo. Não terias compreendido o valor delas… e as terias trocado por… pedras, tal era a grandeza excepcional delas! Também no deserto Eu te respondi2 repetindo as palavras que te havia dito naquela tarde, indo para o Getsêmani.
Se tivesse sido João, ou Simão o Zelotes que me repetisse aquele pedido, Eu teria respondido de outra maneira, porque João é um puro e não a teria feito com a malícia com que tu a fazias, pois tu estavas cheio de malícia… E porque Simão é um velho sábio e, mesmo sem deixar de conhecer a vida, como a ignora João, ele chegou àquela sabedoria que sabe contemplar cada episódio sem receber dele alguma perturbação em seu eu. Mas eles não Me perguntaram se Eu nunca havia cedido às tentações, às tentações mais comuns, àquela tentação. Porque na pureza intemerata do primeiro não há lembrança de luxúria, e na mente meditativa do segundo há muita luz para ver a pureza que resplende em Mim.
Tu me perguntaste… e Eu te respondi. Como podia. Com aquela prudência que não deve nunca separar-se da sinceridade, tanto uma como a outra santas aos olhos de Deus. Aquela prudência que é como o tríplice véu estendido entre o Santo e o povo, estendido para guardar o segredo do Rei3, e aquela prudência que regula as palavras de acordo com aquele que as escuta, com sua capacidade intelectual para entender, com sua pureza espiritual e com sua justiça. Porque certas verdades, ditas aos sujos, tornam-se motivo de riso e não de veneração…
567.21Não sei se te lembras de todas aquelas palavras. Eu me lembro delas. E as repito aqui, nesta hora em que Eu e tu estamos ambos à beira do Abismo. Porque… mas não é preciso dizer isso. Eu falei no deserto em resposta ao “porquê” aos quais minha primeira explicação não havia satisfeito: “O Mestre nunca se sentiu superior ao homem para ser ‘O Messias’. Pelo contrário, sabendo que era o Homem, quis sê-lo em tudo, menos no pecado. Para sermos mestres precisamos ter sido alunos. Como Deus, Eu sabia tudo. A minha inteligência divina podia fazer-me compreender até as lutas do homem, por um poder intelectivo e intelectualmente. Mas algum dia, algum pobre amigo meu teria podido me dizer: ‘Tu não sabes o que quer dizer ser homem e ter os sentidos e as paixões’. E teria sido uma repreensão justa. Eu vim aqui para preparar-me não somente para a minha missão, mas também para a tentação. Tentação satânica. Porque o homem não teria podido ter domínio sobre Mim. Satanás veio quando cessou a minha união solitária com Deus e Eu percebi que era o Homem, com uma verdadeira carne, sujeita às fraquezas da carne: a fome, o cansaço, a sede, o frio. Eu percebi o que é a matéria com as suas exigências, o moral com as suas paixões. E se por minha vontade dominei em seu nascimento todas as paixões não boas, deixei que crescessem as paixões santas.”
Lembras-te destas palavras? E Eu disse também a ti, na primeira vez, a ti somente: “A vida é um dom santo e por isso deve ser amada santamente. A vida é um meio para se atingir um fim, que é a eternidade.” Eu disse: “Vamos dar, então à vida o que lhe serve para durar e para ajudar o espírito em sua conquista: continência da carne em seus apetites, continência da mente em seus desejos, continência do coração em todas as paixões que têm um sabor humano e um arrojo sem limites para adquirir as paixões que são do Céu: o amor a Deus e ao próximo, a vontade de servir a Deus e ao próximo, a obediência à voz de Deus, o heroísmo no bem e na virtude.”
567.22E foi, então, que me disseste que Eu podia fazer isso porque Eu era santo, mas que tu não o podias porque eras um homem jovem e cheio de vitalidade. Como se o ser jovem e vigoroso fosse uma desculpa para entregar-se ao vício, como se somente os velhos e os doentes, uns pela idade e outros pela fraqueza, impotentes para aquilo que pensavas, ardendo como estás de luxúria, estivessem livres da tentação da sensualidade! Nesse caso, Eu teria podido replicar-te em muitas coisas. Mas tu não estavas em condições de entendê-las. Nem mesmo agora o estás, mas pelo menos agora não podes sorrir com aquele teu sorriso de incredulidade se Eu te disser que o homem sadio pode ser casto se por si mesmo ele não der acolhida às seduções do demônio e da sensualidade.
Castidade é um afeto espiritual, é um movimento que repercute sobre a carne e a invade toda, a eleva, a perfuma e a preserva. Quem está saturado de castidade não tem lugar para outros sentimentos não bons. Nele não entra a corrupção. Não há lugar nele para ela. Além disso, a corrupção não entra vindo de fora. Ela não é um movimento de penetração do exterior para o interior. Mas é um movimento que, do interior do coração, do pensamento, sai para penetrar e invadir o invólucro que é a carne. Por isso é que Eu disse4 que é do coração que saem as corrupções. Todo adultério, toda luxúria, todo pecado sensual, não é que tenha origem no exterior. Mas vêm das artimanhas do pensamento que, estando corrompido, veste com uma aparência pruriginosa tudo o que vê. Todos os homens têm olhos para verem. Mas como é que acontece, então, que uma mulher que deixa indiferentes dez homens, que olham para ela como para uma criatura semelhante a eles e a veem como uma bela obra da natureza, mas sem por isso sentirem que se levantam dentro deles estímulos e fantasmas obscenos, como é que ela perturba ao undécimo homem e o leva até a concupiscências indignas? É porque aquele undécimo homem já corrompeu o seu coração e seu pensamento e, onde os dez viram uma irmã, ele só vê a fêmea.
567.23E mesmo sem dizer-te isso, o que eu te disse é que Eu vim, não para os anjos, mas para os homens. Eu vim para restituir aos homens a sua realeza de filhos de Deus, ensinando-os a viverem como deuses. Deus é sem luxúria, ó Judas. Mas Eu vos quis mostrar que o homem também pode viver sem luxúria. Eu vos quis mostrar que se pode viver como Eu ensino. Para mostrar-vos isso, Eu tive que tomar uma carne verdadeira, para poder sofrer as tentações do homem e dizer ao homem, depois de tê-lo instruído: “Fazei como Eu.”
E tu me perguntaste se Eu pequei ao ser tentado. Tu te lembras? Eu te respondi, pois estava vendo que não podias entender que Eu tivesse sido tentado sem ter caído5, parecendo-te ser uma coisa inconveniente a tentação para o Verbo e impossível para o Homem não pecar, e Eu te respondi que todos podem ser tentados, mas que pecadores são somente aqueles que o querem ser. O teu espanto foi grande e ficaste tão incrédulo que insististe: “Pecaste alguma vez?” Naquele tempo ainda podias ser incrédulo. Nós nos conhecíamos havia pouco tempo. A Palestina está cheia de rabis, cuja doutrina é o contrário da vida que eles levam. Mas agora tu sabes que Eu não pequei, que Eu não peco. Tu sabes que a tentação, por forte que seja, torna o homem são, viril, um vivente entre os homens, rodeado por eles e por Satanás, mas não me perturba até o ponto de Eu pecar. Mas, ao contrário, toda tentação, ainda que tentar repeli-la aumentasse a virulência dela porque o demônio a fazia ficar sempre mais forte para vencer-me, era para Mim uma vitória maior. E isso não somente quanto à luxúria, turbilhão que me havia rodeado sem poder abalar nem arranhar a minha vontade.
Não há pecado lá onde não há consentimento na tentação, Judas. Mas já há pecado lá onde, mesmo sem consumar o ato, se acolhe e se fica contemplando a tentação. Será um pecado venial, mas já é caminho para o pecado mortal, que se prepara em vós. Porque acolher a tentação e demorar-se no pensamento, acompanhar mentalmente as fases de um pecado é enfraquecer-nos a nós mesmos. Satanás sabe disso e por isso lança diversas chamas, sempre esperando que uma delas penetre e trabalhe dentro de vós… Depois… seria fácil fazer com que o tentado se transforme em culpado.
Tu naquele tempo não compreendeste. Não podias entender. Agora podes. Agora és menos merecedor do que naquele tempo para entender. No entanto, Eu te repito aquelas palavras ditas a ti, para ti, porque tu, e não Eu, és aquele no qual a tentação repelida não dá descanso… Ela não te dá descanso porque tu não a repeles totalmente. Não completas o ato, mas guardas o pensamento dela. Hoje é assim, e amanhã… Amanhã tu cais no verdadeiro pecado. Por isso é que Eu te ensinei a pedir a ajuda do Pai contra a tentação. Eu, o Filho de Deus, Eu, já vencedor de Satanás, pedi ajuda ao Pai porque sou humilde. Tu, não. Tu não pediste a Deus a salvação, a preservação. Tu és soberbo. E por isso vais te precipitando no abismo…
567.24Lembras-te de tudo isso? E podes agora compreender o que vem a ser para Mim, verdadeiro Homem, com todas as reações do homem, o que é estar te vendo assim: luxurioso, mentiroso, ladrão, traidor e homicida? Sabes que esforço tu me impões para tolerar-te perto de mim? Sabes que cansaço me dás para dominar-me, como nesta hora, para cumprir até o fim a minha missão quanto a ti? Outro homem qualquer já te teria pegado pelo pescoço ao ver que és um ladrão a arrombar e a apanhar moedas, sabendo que tu és o traidor, e mais do que um traidor… Eu te falei. Ainda te falei com piedade. Olha. Agora não é verão, mas pela janela vem entrando a brisa fresca da tarde. E, no entanto, Eu estou suando como se tivesse ficado cansado pelo mais rude dos trabalhos. Mas não fazes ideia do que isso me custa? Nem do que és? Queres que Eu te expulse? Não. Nunca. Quando alguém se está afogando, será um assassino quem assim o vir e o deixar afogar-se. Tu estás entre duas forças que te puxam. Eu e Satanás. Mas se Eu te deixar, ficarás só com ele. E como te salvarás? Tu, porém, me deixarás… Com o teu espírito, tu já me deixaste… Pois bem, Eu ainda detenho junto a Mim a crisálida de Judas. O teu corpo já privado da vontade de me amar, esse teu corpo que é inerte para o Bem. Eu o detenho, enquanto tu não exigires também este nada, que são os teus despojos, para uni-los ao teu espírito a fim de poderes pecar com todo o teu ser…
567.25Judas!… Não me dizes nada, ó Judas!? Não tens nem uma palavra para o teu Mestre? Não tens algum pedido a fazer-me? Eu não exijo que tu me digas: “Perdão!” Eu já te perdoei muitas vezes sem resultado. Eu sei que esta palavra é apenas um som sobre os teus lábios. Não é um gesto de um espírito contrito. Eu queria um gesto do teu coração. Será que já estás tão morto que nem sentes mais um desejo? Fala! Tens medo de Mim? Oh! Se o tivesses! Pelo menos isso! Mas não me temes. Se tu me temesses, Eu te diria as palavras que te disse naquele dia longínquo no qual falávamos das tentações e dos pecados: “Eu te digo que, depois do Delito dos delitos, se o culpado corresse aos pés de Deus com verdadeiro arrependimento e, chorando, lhe pedisse o perdão, oferecendo-se para a expiação com confiança, sem desesperar, Deus o perdoaria; e, por meio da expiação, o culpado ainda salvaria o seu espírito.” Judas! Mas se tu não me temes, Eu te amo ainda. E a este meu amor infinito não tens nenhum pedido a fazer agora?
– Não. Ou, pelo menos, uma só coisa. Que proíbas João de falar. Como queres que eu dê uma reparação se eu serei o opróbrio entre vós?
E diz isso com altivez. E Jesus lhe responde:
– E é assim que falas? João não falará. Mas tu, sou Eu que te peço isso, procura agir de tal modo, que nada transpareça da tua ruína.
567.26Recolhe aquelas moedas e coloca-as na bolsa de Joana. Eu procurarei fechar o cofre com o ferro que usaste para abri-lo…
E enquanto Judas, de má vontade, vai recolhendo as moedas que rolaram para todos os lados, Jesus, como se estivesse cansado, se apoia no cofre aberto. A luz vai-se apagando no quarto, mas não a a ponto de não deixar ver que Jesus está chorando sem fazer barulho, enquanto Ele olha para o apóstolo que, inclinado, está apanhando as moedas espalhadas.
Judas terminou. Ele vai ao cofre. Pega a grande e pesada bolsa de Joana, põe nela as moedas e a fecha, dizendo:
– Eis.
E se afasta.
Jesus estende a mão para pegar a gazua rudimentar feita por Judas e, com a mão tremendo, faz funcionar o disparo e fecha o cofre. Depois, leva o ferro ao joelho, dobra-o em forma de V com os pés acaba de esmagá-lo, tornando-o imprestável, e o guarda, escondendo-o no peito. Ao fazer isso, duas lágrimas descem sobre o linho de sua veste.
Judas, finalmente, faz um movimento de arrependimento. Ele cobre o rosto com as mãos e tem um frouxo de choro, dizendo:
– Maldito seja eu. Eu sou o opróbrio da terra!
– Tu és o eterno desgraçado. E se pensasses que, se quisesses, poderias ainda ser feliz!
– Jura-me! Jura-me que ninguém saberá de nada… e eu te juro que me redimirei –grita Judas.
– Não digas: “e eu me redimirei.” Tu não o podes. Somente Eu posso redimir. Aquele que antes falava pelos teus lábios somente por Mim pode ser vencido. Dize-me estas palavras de humildade: “Senhor, salva-me”, e Eu te livrarei do teu dominador. Não entendes que Eu estou esperando estas tuas palavras mais do que o beijo de minha Mãe?
Judas chora, chora, mas não diz aquelas palavras.
– Vai. Sai daqui, sobe para o terraço. Vai para onde quiseres, mas não faças cenas clamorosas. Vai. Vai… Ninguém te descobrirá, porque Eu velarei. A partir de amanhã, terás o dinheiro. Tudo já é inútil.
Judas sai sem dizer nada. Jesus, que ficou sozinho, se assenta em uma cadeira perto da mesa e, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados sobre a mesa, chora angustiosamente.
567.27Alguns minutos depois, entra devagar João e fica por um momento junto à porta. Está pálido como um morto. Depois corre até Jesus e o abraça suplicando:
– Não chores, Mestre. Eu te amo por aquele infeliz…
E o põe de pé, o beija, bebe o pranto do seu Deus e chora por sua vez. Jesus o abraça, e as duas cabeças louras, perto uma da outra, trocam lágrimas e beijos.
Mas Jesus se domina rapidamente, e diz:
– João, por amor de Mim, esquece tudo isso. Eu quero.
– Sim, meu Senhor. Procurarei fazê-lo. Mas que Tu não fiques chorando mais… Ah! Que dor! E ela me fez pecar, meu Senhor. Eu menti. Tive que mentir, porque as discípulas voltaram. Não. Antes vieram aqueles da mulher. Eles te queriam para bendizer-te. Nasceu felizmente um menino. Eu disse que havias voltado para o monte… Depois vieram as mulheres e eu tornei a mentir, dizendo que Tu estavas fora e que talvez estivesses lá onde nasceu o filho… Não achei outra coisa para dizer. Eu estava atordoado! Tua Mãe viu que eu tinha chorado e me perguntou: “Que tens, João?” Ela estava agitada… Até parece que sabia. Eu menti pela terceira vez, dizendo: “Eu fiquei comovido com aquela mulher…” A tudo isso pode levar a proximidade com o pecador! À mentira… Absolve-me, ó meu Jesus.
– Fica em paz. Cancela todas as recordações desta hora. Nada. Não houve nada… Foi um sonho…
– Mas é a tua dor! Oh! Como estás mudado, Mestre. Dize-me isto, só isto: Judas pelo menos se arrependeu?
– E quem é que pode entender Judas, meu filho?
– Nenhum de nós. Mas tu, sim.
Jesus não responde, a não ser pelas novas lágrimas, silenciosas, sobre o rosto cansado.
– Ah! Ele não se arrependeu!…
João fica aterrorizado.
– Onde ele está agora? Tu o viste?
– Sim. Ele apareceu no terraço, olhou se havia alguém e, tendo-me visto sozinho, pois eu estava sentado, angustiado debaixo da figueira, desceu rapidamente e saiu pelo portãozinho da horta. E agora vim eu…
– Fizeste bem. Coloquemos em seus lugares as cadeiras, que foram movidas; e tu, apanha a ânfora, e que não fiquem sinais…
– Ele lutou contigo?
– Não, João. Não.
567.28– Estás muito perturbado, Mestre, para ficares aqui. Tua Mãe entenderia… e sofreria com isso.
– É verdade. Vamos sair… Darás a chave à vizinha. Eu irei à tua frente por sobre as margens da torrente, rumo ao monte…
Jesus sai e João fica para pôr tudo em ordem.
Depois, por sua vez, ele sai. Entrega a chave a uma mulher que mora perto dali e, sem demora, desaparece por entre as moitas da margem, para não ser visto.
A uns cem metros da casa está Jesus sentado sobre uma rocha. Ele se vira ao ouvir os passos do apóstolo. Seu rosto se mostra claro à luz da tarde. João se assenta no chão, perto dele, põe sua cabeça sobre o peito dele, levantando o rosto para olhá-lo. Ele vê que o pranto ainda está sobre as faces de Jesus.
– Oh! Não sofras mais. Não sofras mais, Mestre! Não posso ficar vendo-te sofrer!
– E posso Eu não sofrer com isto? É a minha maior dor! Lembra-te disso, João: esta será para todo o sempre a minha maior dor! Tu, por enquanto, não podes entender tudo… A minha maior dor…
Jesus está abatido. João o conserva junto a si, abraçando-o pela cintura, e angustiado por não poder consolá-lo.
Jesus levanta a cabeça, abre os olhos, que estavam fechados para conterem o pranto, e diz:
– Lembra-te de que somos três a saber: o culpado, Eu e tu. E que ninguém mais deve saber.
– Ninguém o saberá por minha boca. Mas como foi que ele pôde? O fato de ele apanhar dinheiro na bolsa comum… Mas chegar a este ponto!… Eu pensei estar doido quando vi. Um horror!
– Eu te disse que esquecesses.
– Eu me esforço, Mestre. Mas é horrível demais…
– É horrível. Sim, Oh! João! João!
E Jesus, abraçando o Predileto, inclina a cabeça sobre o ombro dele e chora toda a sua dor. As sombras que descem rápidas, no meio daquela densa vegetação com suas trevas, fazem desaparecer os dois abraçados.
1 Coré, Datã e Abiron, cuja rebelião e suas consequências estão narradas em Números 16 e lembradas em: Levítico 10,1-3; Salmo 106,16-18; Sirácida 45,18-20.
2 Eu te respondi (no capítulo 80) repetindo as palavras (do capítulo 69). A própria Maria Valtorta anota numa cópia datilografada: Ver no primeiro ano.
3 o segredo do Rei, como em: Tobias 12,7.
4 Eu disse, em 301.6.
5 tentado sem ter caído, expressão que Maria Valtorta explica com a seguinte nota numa cópia datilografada: Como Adão inocente e pleno de Graça foi tentado, também Jesus, segundo Adão, Inocente e, como Homem, pleno de Graça, foi igualmente tentado, e pelo mesmo Tentador. Mas o segundo Adão não cedeu à tentação. Nem seja dito que foi assim porque Ele “era Deus”. Embora fosse deus, portanto eterno e impassível, morreu na cruz! E morreu ali porque era verdadeiro Homem. Como verdadeiro Homem foi, portanto, tentado, mas, como não quis pecar, não pecou.
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