286. 286. Em Ramot, com o mercador Alexandre Misaque.Lição a Síntique sobre a recordação das almas.


25 de setembro de 1945.

286.1Tendo deixado para trás uma fértil planície, e continuando por uma boa distância de terreno do outro lado do Jordão, é agradável ir andando, numa estação serena e deliciosa, como é a deste fim de outubro e, depois de uma parada em uma vilazinha, encolhida aos pés das primeiras encostas de uma cadeia de montanhas não muito pequena, — pois qualquer um dos cumes já pode ser considerado uma verdadeira montanha — Jesus se põe a caminho de novo, indo postar-se atrás de uma caravana, composta de muitos animais e de homens armados, com os quais Ele esteve conversando antes, enquanto eles estavam levando os animais a beber nos tanques da praça.

São homens quase todos altos e bem morenos, de aparência asiática. Montado em um burro muito forte, está o chefe da caravana, armado até os dentes, e com outras armas que estão pendentes da sela. Mas com Jesus ele tem sido muito respeitoso.

Os apóstolos perguntam a Jesus:

 Quem é ele?

 É um rico mercador do Além-Eufrates. Eu lhe perguntei para onde ia, e ele foi cortês. Ele passa pelas cidades por onde Eu quero ir. Isto é providencial nestes montes, pois levamos mulheres conosco.

 Temes alguma coisa?

 Que furtem de nós, não, porque nada temos. Mas, seria preocupante, se assustassem as mulheres. Um pequeno número de ladrões nunca assalta uma caravana forte como esta, que poderá também ser-nos útil, para conhecermos os melhores lugares de passagem, e como passar pelos lugares difíceis. Ele me perguntou: “És Tu o Messias?”, e, tendo ficado sabendo que sim, ele disse: “Eu estava no Pátio dos Pagãos, há dias, e te ouvi, mais do que vi, pois eu sou de baixa estatura. Bem, eu protegerei a Ti, e Tu me protegerás. Eu vou levando uma carga de grande valor.”

 É prosélito?

 Acho que não. Mas talvez ainda seja descendente do nosso povo.

A caravana vai indo devagar, como se não quisesse esgotar as forças dos quadrúpedes, e querendo adiantar bastante a viagem. Por isso, é fácil acompanhá-la a passo, e até muitas vezes é preciso fazer alguma parada, porque os condutores fazem que os animais carregados vão passando, um por um, segurando-os pelo cabresto, nos pontos difíceis.

Por mais que se trate de uma montanha, a terra é muito fértil e bem cultivada. Talvez os montes, cada vez mais altos, que vão aparecendo a nordeste, sirvam de abrigo contra as frentes frias do norte ou contra as insalubres do leste, e isso é muito bom para as culturas. A caravana vai beirando uma torrente, que certamente vai lançar-se no Jordão, levando-lhe uma boa quantidade de águas, que descem de alguns daqueles cumes. A vista que se tem é bela, sempre mais bela, à medida que se vai subindo e, então, vai-se espraiando para o lado do oeste sobre a planície do Jordão, tendo, além desta, os encantadores aspectos das colinas e montes da Judeia do norte, enquanto, a leste e ao norte, há uma contínua mudança de panoramas, abertos para grandes distâncias e amplidões, outros oferecendo aos olhares um amontoado de dorsos e de cumes verdes, ou rochosos, que parecem surgir de repente, como obstáculos à passagem pelo caminho, surgindo à frente como a parede de um labirinto.

286.2O sol está para sumir atrás dos montes da Judeia, avermelhando vivamente o céu e o litoral, enquanto o rico mercador, que parou, deixando passar a caravana para a frente, dirige a palavra a Jesus:

 É preciso chegar ao povoado antes da noite. Mas muitos dos que estão contigo parecem cansados. Esta é uma marcha dura. Faze-os montar nos burrinhos da escolta. São animais mansos. Eles terão a noite toda para descansar, e para eles não é grande o peso de uma mulher.

Jesus concorda, e o homem manda parar, a fim de fazer que as mulheres montem nos animais. Jesus faz montar também João de Endor. E os que vão a pé, inclusive Jesus, pegam as rédeas para tornar mais segura a marcha para as mulheres. Marziam quer… bancar o homem, e, ainda que esteja caindo de cansaço, não quer, de modo nenhum, ir para a sela com ninguém, mas pega, ele também, as rédeas do burrinho da Virgem Maria, que fica assim entre Jesus e o menino, que vai caminhando muito bem.

O mercador ficou perto de Jesus, e diz a Maria:

 Estás vendo, mulher, aquele povoado? É Ramot. Lá faremos nossa parada. Sou conhecido no albergue, porque faço esta viagem duas vezes cada ano, enquanto que as outras duas as faço pelo litoral, para comprar ou vender. É a minha vida, uma vida dura. Mas eu tenho doze filhos, e ainda pequeninos. Eu me casei tarde. Em casa deixei um com nove dias. E, ao voltar, o encontrarei com os primeiros dentes.

 Uma bela família… –comenta Maria.

E termina:

 Que o Céu a conserve.

 De fato, eu não me queixo de não ter sido ajudado por ele, ainda que eu o mereça muito pouco!

286.3Jesus lhe pergunta:

 Nem prosélito és?

 Eu deveria sê-lo… Os meus antepassados eram verdadeiros israelitas. Depois… nós nos acomodamos por lá…

 A alma só se acomoda bem no clima do Céu.

 Tens razão. Mas Tu sabes… Meu bisavô desposou uma não israelita. Os filhos já foram menos fiéis… Os filhos dos filhos se casaram com novas mulheres, também elas não de Israel, dando-lhes filhos, que apenas respeitavam o nome judeu, porque, de origem, somos judeus. Agora, eu, neto dos netos… não sou nada. Estando em contato com todos, eu peguei alguma coisa de todos, e acabei não sendo mais de ninguém.

 Essa tua razão não é boa, e Eu vou te provar isso. Se tu, andando por esta estrada, que sabes que é boa, encontrasses cinco ou seis pessoas, que te dissessem “Por aí, não!”, “Vem por aqui!”, “Volta para trás!”, “Para!”, “Vai para o lado do Oriente”, “Dá a volta pelo lado do Ocidente”, que é que tu lhes dirias?

 Eu lhes diria: “Eu sei que este é o caminho mais breve e certo, e não o vou deixar.”

 Outra coisa: tu, se tivesses que fazer um negócio, e sabendo bem o modo como fazê-lo, irias ouvir aqueles que, só para se mostrarem, ou por uma calculada malícia, te aconselhassem a fazê-lo de modo diferente?

 Não. Eu faria o que a minha experiência me diz que é melhor.

 Muito bem. Milhares de anos estão atrás de ti, que és descendente de Israel. Tu não és tolo, nem analfabeto. Por que, então, vais aceitando todas as opiniões em matéria de fé, quando tu és capaz de refutá-las em matéria de dinheiro, ou quando se trata de qual o caminho mais certo e seguro? Não te parece que esse modo de agir, mesmo só humanamente falando, não é honroso para ti? Pões o dinheiro e a segurança do caminho em primeiro lugar, antes de Deus…

 Não. Eu não ponho a Deus para trás. Eu o perdi de vista.

 É porque tens como deuses o comércio, o dinheiro, a vida. Mas é Deus quem te permite ter tudo isso… 286.4Por que entraste no Templo?

 Por curiosidade. Na estrada, enquanto eu ia saindo de uma casa, onde havia feito um contrato de mercadorias, vi um grupo de homens que estavam te saudando respeitosamente, e voltaram-me à memória as palavras que eu ouvi em Ascalon, de um fabricante de tapetes. Eu lhe perguntei quem eras Tu, porque veio-me a suspeita de que fosses Tu a pessoa de quem aquela mulher estava falando. E, tendo ficado sabendo que eras Tu mesmo, vim atrás de Ti. Eu tinha acabado, por aqueles dias, os meus negócios… Depois, eu te perdi de vista. Em Jericó tornei a ver-te. Mas só por um momento. Agora, te encontrei outra vez… É isso…

 Portanto, vê-se que Deus está fazendo que convirjam e se cruzem os nossos caminhos. Mas, antes de deixar-te, Eu espero poder dar-te um presente, contanto que tu não me abandones depois.

 Não, eu não o farei! Alexandre Misaque não abandona, quando prometeu não fazê-lo. Olhai lá! Depois daquela curva, começa o povoado. Eu vou à frente. Nós nos veremos de novo no albergue.

E espora o animal, partindo quase a galope, pela beira do caminho.

 É um homem honesto e um infeliz, meu Filho –diz Maria.

 E tu o quererias ver feliz, quanto à Sabedoria, não é mesmo?

Os dois sorriem um para o outro, enquanto já vão chegando as primeiras sombras da tarde.

286.5… Naquela longa tarde de outubro, reunidos todos num amplo salão do albergue, os peregrinos esperam deitar-se. A um canto, sozinho, está o mercador, atento em fazer as suas contas. No canto oposto, está Jesus, com todos os seus. Não há outros hóspedes. Nas estrebarias chegam até aqui os zurros, os relinchos e os balidos, o que faz supor que no albergue haja mais pessoas. Mas é possível que já tenham ido deitar-se.

Marziam adormeceu nos braços da Senhora, esquecendo-se de repente de que ele era “muito homem.” Pedro está cochilando, e não é só ele que está assim. Até as mulheres anciãs, cochichadeiras, adormeceram e se calaram. Bem acordados estão Jesus, Maria e as irmãs de Lázaro, Síntique, Simão Zelotes, João e Judas. Síntique está rebuscando na sacola de João de Endor, como quem está procurando alguma coisa. Mas depois ela resolve ir para perto dos outros, e ficar ouvindo Judas de Alfeu, que está falando das consequências do exílio na Babilônia1, e termina, dizendo:

 … e talvez aquele homem seja ainda uma consequência daquilo. Todo exílio é uma ruína…

Síntique faz um sinal involuntário com a cabeça, mas nada diz, e Judas de Alfeu termina:

 Mas é estranho que, com tanta facilidade, alguém possa ficar despojado daquilo que é um tesouro de séculos, para tornar-se completamente novo, especialmente em coisas de religião, e de uma religião como é a nossa…

Jesus responde:

 Não deves ficar admirado, quando, no seio de Israel, contemplas Samaria.

286.6Fazem silêncio. Os olhos escuros de Síntique olham fixamente para o perfil sereno de Jesus. Ela o olha com intensidade. Mas sem falar nada. Jesus percebe aquele olhar, e se vira, a fim de olhar também para ela.

 Não encontraste nada a teu gosto?

 Não, Senhor. Eu cheguei a um ponto em que não posso mais conciliar o passado com o presente, as ideias de antes com as de agora. E me parece como que uma defecção, porque as ideias de antes me ajudaram a ter as de agora. Bem que dizia o teu apóstolo… Mas a minha é uma ruína feliz.

 Que foi que se arruinou em ti?

 Toda a fé no Olimpo pagão, Senhor. E, contudo, estou um pouco perturbada, porque, lendo a vossa Escritura, — quem a deu foi João, e eu a leio, porque sem conhecimento não há posse — descobri que também na vossa história dos inícios, eu direi assim, há fatos não muito diferentes dos nossos. Agora eu gostaria de saber…

 Eu já te disse: pergunta, que Eu te responderei.

 Tudo é erro na religião dos deuses?

 Sim, mulher. Não existe mais do que um Deus, o qual não é gerado por outros, não está sujeito ao que são as paixões e necessidades humanas, um Deus único, eterno, Perfeito, Criador.

 Eu o creio. Mas quero poder responder, não de uma forma que não aceita discussão, mas com uma forma que se pode discutir para convencer, para responder às perguntas que outros pagãos poderiam fazer-me. Eu, por mim mesma, pela virtude desse Deus benéfico e paterno, procurei dar a mim mesma respostas, não bem formuladas, mas suficientes para dar paz ao meu espírito. Não obstante, continuava em mim a vontade de atingir a Verdade. Outros serão menos desejosos por ela do que eu. No entanto, essa busca deveria ser feita por todos. Eu não penso em ficar inerte junto às almas. Aquilo que eu ganhei gostaria de dar. Mas, para dar, devo saber. Dá-me o saber, e eu te servirei em nome do amor. Hoje, enquanto vínhamos pelo caminho, e enquanto eu vinha observando as montanhas e certos aspectos nelas, que me traziam vivas à memória as cordilheiras da Hélade e as histórias da Pátria, por uma associação de ideias, apresentou-me o mito do Prometeu, aquele de Deucalião… Vós tendes alguma coisa semelhante na fulminação de Lúcifer, na infusão da vida na argila e no Dilúvio de Noé. São circunstâncias leves, mas sempre fazem lembrar… Pois bem, dize-me: como pudemos nós conhecê-las, se nenhum contato houve entre nós e vós, e nós as tivemos, mas não há explicações de como as tivemos? Neste assunto ignoramos ainda muitas coisas. Como, então, milênios atrás, nós tivemos lendas, que recordam as vossas verdades?

 Mulher, tu me deverias perguntar isso menos do que os outros. Porque tu já leste obras, que por si mesmas poderiam dar resposta a este teu porquê. 286.7Hoje tu, por uma associação de ideias, da lembrança dos montes de tua terra natal, passaste para a lembrança dos mitos e dos confrontos. Não é verdade? Por que isso?

 Porque meu pensamento, despertado, se lembrou.

 Muito bem. Também as almas de povos antiquíssimos, que deram uma religião à tua terra, se lembraram. De um modo confuso e imperfeito, como podia fazê-lo alguém separado da religião revelada. Mas sempre se lembraram. No mundo há muitas religiões. Pois bem. Se nós tivéssemos aqui, em um quadro claro, todos os pormenores delas, veríamos que há como que um fio de ouro, perdido no meio de muita lama, um fio cheio de nós, nos quais estão encerrados pedacinhos da Verdade verdadeira.

 Mas, não procedemos todos de um tronco? Tu assim o dizes. Então, por que os antigos mais antigos, que vieram do primeiro tronco de origem, por que eles não souberam trazer consigo a Verdade? Não é uma injustiça havê-los privado dela?

 Tu leste o Gênesis, não é mesmo? Que encontraste2? Um pecado complexo em seu começo. Um pecado abrangendo os três estados do homem: a matéria, o pensamento e o espírito. Depois um fratricídio. Depois um homicídio; para contrabalançar a obra de Enoque de conservar luz nos corações, depois corrupção, unindo por libidinagem dos sentidos os filhos de Deus com as filhas do sangue. E, não obstante a purificação do Dilúvio e a restauração da raça por uma boa semente, não nascendo das pedras, como se diz nos vossos mitos, bem como também, não por rapto do fogo vital por obra do homem, eis que de novo aparece o fermento da soberba, o ultraje feito a Deus: “Vamos tocar no Céu”, e a maldição divina: “Sejam dispersos, e não se entendam um ao outro”… E o único tronco, como a água que se choca contra uma pedra e se espalha em pequenos rios, e não se reúne mais, assim se dividiu a raça, e se repartiu em várias raças. A humanidade, posta em fuga pelo seu pecado e pela punição divina, eis que se espalha e não se reúne mais, levando consigo a confusão, que a soberba havia criado. As almas se lembram. Alguma coisa sempre permanece nelas. E as mais virtuosas e sábias entreveem uma luz, ainda que fraca, nas trevas dos mitos: a luz da Verdade. E essa lembrança da Luz antes da Vida é o que agita nelas as verdades nas quais estão os pedacinhos das Verdades reveladas. Compreendeste-me?

 Em parte. Mas vou pensar nisso. A noite é amiga de quem pensa e se concentra em si.

 Então, vamos concentrar-nos cada um em si mesmo. Vamos, amigos. A paz a vós, mulheres, a paz a vós, meus discípulos. A paz a ti, Alexandre Misaque.

 Adeus, Senhor. Deus esteja contigo, responde o mercador, inclinando-se.

1 exílio da Babilônia, narrado em 2 Reis 24-25; 2 Crônicas 36.
2 encontraste, em Gênesis 3-11.


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