337. 337. O sábado em Corozaim. Parábola sobre os coraçõesincultos e a cura de uma mulher curvada.


21 de novembro de 1945.

337.1 Jesus está na sinagoga de Corozaim, que vai se enchendo lentamente de fiéis. Os maiorais do lugar devem ter insistido para que Jesus ensinasse lá dentro neste sábado. Eu depreendo isso das razões e respostas de Jesus.

– Nós não somos mais insolentes do que os judeus, nem como os da Decápole –dizem eles–, e, no entanto, Tu vais lá, e tornas a ir muitas e muitas vezes.

– Também aqui é a mesma coisa. Com as palavras e com as obras, com silêncio com ação, Eu vos tenho ensinado.

– Mas, se nós somos mais duros do que os outros, é uma razão a mais para insistir conosco…

– Está bem, está bem.

– É certo que sim, que está bem.

– É certo que sim, que está bem! Nós te permitimos que uses a nossa sinagoga como um lugar de ensinamento, justamente porque julgamos que fica bem fazer isso. Aceita, pois, o nosso convite, e fala.

337.2 Jesus abre os braços, sinal de silêncio para os presentes, e começa o discurso, dizendo, em tom de salmo, uma recitação lenta, cantada e solene:

– “Areúna responde ao rei: ‘O rei, meu Senhor, tome e ofereça o que lhe agradar. Aqui estão os bois para o holocausto, os carros e as cangas dos bois como lenha. Tudo, ó rei, doa Areúna ao rei’. E acrescenta: ‘Que o Senhor teu Deus aceite o teu voto’. Mas o rei respondeu, dizendo: ‘Não será como quererias tu. Não. Eu quero comprar, com dinheiro à vista, e não quero oferecer ao Senhor Deus holocaustos que eu tiver ganho de presente’.”

Jesus baixa o olhar, pois Ele estava falando com o rosto quase virado para o teto, e fixa profundamente os olhos no sinagogo e nos quatro maiorais que estavam com ele, e lhes pergunta:

– Compreendestes qual é o significado?

– Está no segundo livro dos Reis1, quando o rei comprou a área de Areúna. Mas não compreendemos porque é que no-lo disseste. Aqui não há pestilência, nem holocausto a ser oferecido. Tu não és rei… Queremos dizer: não o és ainda.

– Na verdade, o vosso pensamento é lerdo para compreender os símbolos e vossa fé é incerta. Se ela fosse certa, veríeis que Eu já sou Rei, como Eu o disse e, se tivésseis uma rápida intuição, compreenderíeis que aqui existe uma pestilência bem grave, mais do que aquela que atormentava a Davi. Vós tendes a da incredulidade, que vos faz perecer.

– Está bem! Se somos lerdos e incrédulos, dá-nos a inteligência e a fé, e explica-nos o que queres dizer.

– Eu vos digo: Não ofereço a Deus holocaustos forçados, os que são oferecidos por algum interesse grosseiro. Eu não aceito falar somente quando o permitem Àquele, que veio para falar. Este é um direito meu, e dele Eu me apodero. Exposto ao sol, ou por entre paredes fechadas, no alto dos montes ou no fundo dos vales, no mar ou sentado às margens do Jordão, por toda parte, Eu tenho o direito e o dever de ensinar e de comprar, ao preço do meu cansaço, os únicos holocaustos que são agradáveis a Deus: os corações convertidos, e que se tornaram fiéis à Palavra. Aqui, ó vós de Corozaim, concedestes ao Verbo a palavra, não por respeito e fé, mas porque tendes no coração uma voz que vos tortura, como um caruncho que rói a madeira: “Este castigo da geada é por causa da dureza de nosso coração.” E vós estais querendo fazer uma reparação. Por meio da bolsa, mas não com vossa alma. Oh! Corozaim pagã e cabeçuda! Mas não é toda a Corozaim que é assim. Para aqueles que não são assim, é que Eu irei falar, por meio de uma parábola.

337.3 Escutai. A um artífice foi levado por um rico tolo um grande bloco de uma substância, loura como o mel mais fino, e lhe foi dada a ordem de trabalhar o bloco, até reduzi-lo a um bonito vaso.

“Esta substância não é boa para o trabalho”, disse o artífice ao ricaço. “Estás vendo? Ela é um tanto mole, e elástica. Como vou poder esculpi-la e modelá-la?”

“Como? Então, não é boa? É uma resina muito procurada, e um meu amigo tem uma pequena ânfora, na qual ele põe um vinho que, dentro dela, adquire um sabor excelente. Eu a paguei a peso de ouro, para poder ter uma ânfora maior e humilhar assim ao meu amigo, que vive se gabando da dele. Faze-a para mim. Se não eu direi que és um artífice incapaz.”

“Mas a do teu amigo deverá ser de alabastro louro.”

“Não. É desta substância.”

“Será talvez de âmbar fino.”

“Não. É desta substância.”

“Poderá ser, admitamo-la, desta substância, mas tornada mais compacta, endurecida por séculos de antiguidade, ou pela mistura com outras substâncias solidificantes. Vai perguntar-lhe e volta para dizer-me como foi feita a dele.”

“Não. Ele próprio me vendeu, garantindo-me que é usada assim.”

“Então ele te enganou, para te punir pela inveja que tens de sua bela ânfora.”

“Presta atenção no que estás falando! Trabalha, ou eu te castigarei, tirando-te a oficina, porque, afinal, somando tudo o que tens, ainda não chega ao valor que me custou esta raríssima resina.”

O artífice, desolado, pôs mãos à obra. A resina se empastava… E aquela pasta se lhe ia grudando nas mãos. Ele procurou fazer endurecer um pedacinho, misturando-o com mastigue e outros pós… Mas a resina perdia a sua transparência. Ele a levava para perto do seu forno de fundição, esperando que o calor a endurecesse e, com as mãos nos cabelos, ele tratava de tirá-la logo de lá, porque ela estava derretendo-se. Mandou alguém ao alto do Hermon buscar neve gelada, e mergulhou-a nela… E ela endurecia, e ficava bonita, mas não podia mais ser modelada. “Vou modelá-la com o cinzel”, disse ele. Ao primeiro golpe do cinzel, a resina se partiu em pedaços.

Completamente desesperado, o artífice, já convencido de que nada havia que tornasse possível trabalhar aquela substância, tentou uma última experiência. Reuniu todos os pedaços, derreteu-os de novo, ao calor do forno, depois os tornou a congelar, mas não muito, usando a neve e, naquela massa meio mole experimentou trabalhar com o cinzel e a espátula. Ela se modelava, sim, mas, mal ele tirava o cinzel ou a espátula, ela voltava à forma que tinha antes, como se fosse massa de pão que incha na masseira.

O homem se deu por vencido. E, para escapar das represálias do rico e de sua ruína, naquela noite fez sua mulher subir a um carro, depois também os filhos, os móveis e as ferramentas de trabalho, deixando no centro da sala da oficina, completamente vazia de tudo mais, aquela massa loura da resina, com um cartaz por cima dela, onde se podia ler: “Impossível de ser trabalhada”, e fugiu para o outro lado da fronteira.

337.4 Eu fui mandado trabalhar os corações para a Verdade e a Salvação. Vieram às minhas mãos corações de ferro, de chumbo, de estanho, de alabastro, de mármore, de prata, de ouro, de jaspe, de pedras preciosas. Corações duros, corações selvagens, corações ternos demais, corações volúveis, corações endurecidos pelas dores, corações preciosos, corações de toda sorte. Eu os trabalhei todos. E muitos deles Eu modelei, segundo o desejo de Quem me enviou. Alguns me feriram, enquanto Eu os trabalhava, outros preferiram arrebentar-se a deixarem-se trabalhar até o fim. Mas, talvez com ódio, ainda irão conservar para sempre uma lembrança de Mim.

Vós sois impossíveis de serdes trabalhados. Calor de amor, paciência nas instruções, frio nas censuras, cansaço pelo cinzel, convosco nada serve. Logo que Eu tiro as mãos de vós, voltais ao que éreis antes. Deveríeis fazer somente uma coisa para ficardes mudados: abandonar-vos completamente a Mim. Vós não o fazeis. Nem o fareis nunca. O Trabalhador, desolado, vos abandona ao vosso destino. Mas, visto que assim é justo, não vos abandona a todos do mesmo modo. Em sua desolação, Ele ainda escolhe os que merecem o seu amor e os conforta e abençoa.

337.5 Ó mulher, vem cá! –diz Ele, fazendo sinal a uma mulher que está ao lado da parede, tão encurvada, que parece um ponto de interrogação.

As pessoas viram para que lado foi que Jesus fez o sinal, enquanto que a mulher, por causa de sua posição, não pode ver a Jesus, nem a mão dele.

– Vai, então, Marta. Ele está te chamando –dizem-lhe muitos.

E a pobrezinha lá se vai, mancando, com o seu bastão, e, à altura do bastão está a cabeça dela.

A mulher já está diante de Jesus, que lhe diz:

– Mulher, toma uma lembrança da minha passagem e um prêmio pela tua fé silenciosa e humilde. Fica livre da tua enfermidade –grita Ele finalmente, pousando suas mãos sobre as costas dela.

E, de repente, a mulher se ergue e, reta como uma palmeira, levanta os braços, e grita:

– Hosana! Ele me curou! Ele viu sua serva fiel, e lhe fez este benefício, Seja dado louvor ao Salvador e Rei de Israel! Hosana ao Filho de Davi!

As pessoas respondem com seus hosanas aos “hosanas” da mulher, que agora está de joelhos aos pés de Jesus, e lhe beija a fímbria da veste, enquanto Ele diz:

– Vai em paz, e persevera na Fé.

337.6 O sinagogo, ao qual devem ainda estar queimando as palavras ditas por Jesus antes da parábola, quer lançar seu veneno em forma de censura, e grita indignado, enquanto a multidão se abre para deixar passar à mulher que foi curada:

– Tendes seis dias para trabalhar, seis dias para pedir e para dar. Vinde naqueles dias para curar-vos, sem ficardes violando o sábado, ó pecadores e descrentes, corruptos e corruptores da Lei!

E ele procura expulsar para fora da sinagoga a todos, como para afastar a profanação do lugar de oração.

Mas Jesus, que o vê sendo ajudado pelos quatro maiorais de antes e por outros espalhados pelo meio da multidão, os quais dão sinais mais claros de que estão escandalizados e torturados… pelo delito de Jesus, agora é Ele, Jesus, quem grita por sua vez, enquanto, com os braços cruzados sobre o peito, com severidade e imponência, olha para ele:

– Hipócritas! Quem é de vós que neste dia não vai soltar o boi ou o asno da manjedoura, e não vai levá-lo a beber? E quem não foi levar os feixes de ervas para as ovelhas do rebanho e tirar o leite das maminhas cheias? E, não devia Eu soltar esta mulher de suas correntes, depois de Satanás tê-la tido presa durante dezoito anos, só porque hoje é sábado? Ide. Eu pude soltar esta mulher de uma desventura que ela não procurou. Mas não poderei nunca soltar-vos das vossas desventuras, que são voluntariamente procuradas, ó inimigos da Sabedoria e da Verdade!

As pessoas boas, entre as muitas não boas de Corozaim, aprovam e louvam, enquanto a outra parte, lívida pelo ódio, vai-se embora, deixando no ar o indignado sinagogo.

Também Jesus o deixa no ar, e sai da sinagoga rodeado pelos bons, que o continuam a circundar, até Ele chegar à campina, onde os abençoa pela última vez, tomando depois a estrada mestra, junto com os seus primos, Pedro e Tomé.

1 no segundo livro dos Reis, mas a cotação está na neo-Vulgata, em 2 Samuel 24,22-24; 1 Crônicas 21,23-24.


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