479. 479. Com João junto à torre de Jesraelà espera dos camponeses de Jocanã.
24 de agosto de 1946.
479.1 – Estás muito cansado, João. E apesar disso, seria necessário chegarmos a Enganim antes do pôr do sol de amanhã.
– Lá chegaremos, Senhor –diz João.
Sorri, ainda que esteja pálido de cansaço, pois ele que caminhou mais do que todos os outros. Procura até dar seus passos mais rápidos, a fim de persuadir ao Mestre de que não está muito cansado. Mas logo começa de novo a dar uns passos de quem não pode mais andar, com as costas encurvadas, a cabeça inclinada para a frente, como se estivesse oprimido por um jugo, com os pés se arrastando, tropeçando muito.
– Dá-me pelo menos os sacos. O meu pesa muito.
– Não, Mestre. Tu não estás menos cansado do que eu.
– Tu é que o estás, porque de Nazaré vieste até o bosque de Matatias, depois voltaste a Nazaré.
– Mas eu dormi numa cama. E Tu, não. Ficaste velando no bosque, e em seguida partiste.
– Tu também, José o disse. Vós partistes ao começarem a brilhar as estrelas.
– Oh! Mas as estrelas brilham até o romper do dia!… –e João sorri.
479.2 Depois acrescenta, tornando-se sério:
– E não é o pouco sono que nos faz sofrer…
– Que é, então, João? Que foi que te fez sofrer? Talvez os meus irmãos…
– Oh! Não, Senhor. Também eles… Mas o de que sinto pesar… não, pesar! não… o que me faz ficar velho é que vi tua Mãe chorando… Ela não me disse por que estava chorando, e eu não lho perguntei, ainda que estivesse com vontade de fazê-lo. Mas eu fiquei somente olhando para ela, e ela me disse: “Lá em casa eu te contarei. Agora, não, porque eu iria chorar mais fortemente.” Em casa ela me falou de um modo tão suave e tão triste, que eu também me pus a chorar.
– Que foi que ela te disse?
– Ela me disse que te queira muito bem, que eu não te dê nenhum aborrecimento, senão depois eu teria muito remorso. E me disse: “Cumpramos todo o nosso nos meses que ainda faltam, até mais do que o nosso dever.” Porque só cumprir o dever é pouco para Ti, que és Deus. E me disse ainda — isso me faz sofrer muito e, se ela não mo houvesse dito, eu nem poderia acreditar —, me disse: “É muito pouca coisa cumprir somente o dever para com alguém que vai-se embora e a quem depois não poderemos servir mais… Para podermos ficar conformados depois, quando Ele não estiver mais entre nós, é necessário ter feito mais do que e nosso dever. É necessário ter dado tudo, todo o amor, todos os cuidados, a obediência, tudo, tudo. Então, na angústia da separação, poderemos dizer: ‘oh! Eu posso dizer que, enquanto foi vontade de Deus que eu o tivesse, eu não me descuidei nem um pouco de amá-lo e servi-lo’.” E eu lhe disse: “Mas o Mestre vai-se embora mesmo? Ele ainda tem tanto que fazer. Ainda temos tempo…” Ela sacudiu a cabeça, dizendo, enquanto duas grandes lágrimas lhe desciam dos olhos: “O Maná verdadeiro, o Pão vivo voltará ao Pai, quando o homem se alegra por estar saboreando o pão feito do trigo novo… E então, nós ficaremos sozinhos, João.” Eu, para confortá-la, lhe disse: “É uma grande dor. Mas, se Ele volta para o Pai, devemos regozijar-nos com isso. Ninguém mais lhe poderá fazer mal.” E ela gemeu: “Oh! Mas, antes disso!”, e eu acho quecompreendi. 479.3Mas, será assim mesmo, Senhor? Será assim? Olha, não é que não creiamos em tuas palavras. Mas é que nós te amamos e… Eu não te direi como Simão1 disse um dia: “isto não te pode acontecer”. Eu creio. Todos nós cremos… Mas nós te amamos e… Oh! Senhor meu! os pecados do amor, são pecados mesmo?
– O amor não peca nunca, João.
– Então, nós, que te amamos, estamos prontos a combater e a matar para te defender. Os galileus não são amados pelos outros, porque eles dizem que somos uns rixentos. Pois bem. Nós justificaremos a fama que temos, defendendo-te. Estamos passando agora pelos lugares2 onde, no tempo de Débora, Baraque destruiu o exército de Sísara, com os seus dez mil homens. Aqueles dez mil eram de Neftali e Zabulon. E nós viemos deles. O nome agora é diferente, mas o coração é igual.
– Eram dez mil… Mas hoje, ainda que fôsseis dez vezes dez mil, que poderíeis fazer?
– Por quê? Tens medo das coortes? Elas não são tantas assim, além disso, eles não te odeiam. Não lhes dás aborrecimentos. Não estás pensando no reino, em um reino que arranque alguma presa das garras das águias romanas. Não intervirão entre nós e os teus inimigos, estes serão logo vencidos.
– Mil, dez mil, cem mil que vós fôsseis, que seria isso contra a vontade do Pai? Eu a devo cumprir…
João, vencido, não fala mais. É estranha esta incapacidade mental, também nos melhores seguidores de Jesus, para compreender a sua maior missão! Aceitaram-no como Mestre, como Messias. Creem em sua capacidade de salvar e redimir. Mas, quando se encontram frente a frente com o modo de redimir, então a inteligência deles se fecha. Fica até parecendo que para eles as profecias tenham perdido o seu valor. E é dizer tudo, se se disser que isso acontece com os israelitas, que respiram e caminham, se nutrem e vivem por meio das profecias! Tudo o que os livros sagrados trazem escrito é verdade, menos isto: que o Messias deva padecer e morrer, ser vencido pelos homens. Isto eles nãopodem aceitar. Parecem-me uns cegos e uns surdos aos quais Jesus se empenha em mostrar as passagens de sua futura Paixão, a fim de que eles possam ler o que ela vai ser. Mas eles fecham os olhos. Não veem por isso, e não entendem.
479.4 A tarde, um pouco sombria, vai chegando, e, ao mesmo tempo, eles já começam a ver Jezrael.
Jesus conforta João, que não falou mais nada, e vai andando como um sonâmbulo, de tão cansado que está, e lhe diz:
– Logo chegaremos lá. Tu entrarás lá e irás procurar um abrigo para ti.
– E para Ti.
– Não, João. Eu ficarei do lado da estrada que vem da planície. Penso que eles virão à noite, e quero consolá-los e despedi-los antes da aurora.
– Estás cansado… e talvez vá chover como na noite passada. Vem, pelo menos, até lá pela metade da vigília do galicínio.
– Não, João.
– Então, eu fico contigo. Já estamos perto da terra dos fariseus e… depois, eu o prometi à tua Mãe e a mim mesmo. Não quero ter que fazer censuras a mim mesmo.
Umas torres, empregadas não sei para qual uso, estão nos quatro cantos de Jezrael. Pelo que as estou vendo, já devem ser antigas. Parecem quatro gigantes mal-humorados, ali postados como carcereiros da pequena cidade, edificada em uma elevação que domina a planície, e que vai desaparecendo na sombra precoce de uma tarde nevoenta.
– Vamos subir por aquela encosta, perto da torre. De lá veremos a encosta toda, sem sermos vistos. Lá existe grama para nos deitarmos e algum degrau diante de alguma porta nos acolherá, se começar a chover –diz Jesus.
Eles sobem. Assentam-se sobre um muro muito baixo, já meio em ruínas e que fica a alguns metros da torre. Dir-se-ia que é um abrigo, que antigamente tenha sido colocado ao redor do torreão. Agora está quase todo desmoronado, as ervas viçosas recobrem os seus escombros com uma grande cascata de convólvulos selvagens e outras ervas de folhas largas e peludas, cujos nomes eu não sei.
Eles petiscam, no fim do dia, algumas migalhas de pão. E não têm mais do que isso. João, ainda que muito cansado, está olhando por entre os ramos de uma figueira, que nasceu no meio das pedras, toda torta e desgrenhada. Descobre, por entre as folhas, que já estão amarelando, um ou outro figo, que foi poupado pelos passarinhos e pelos meninos. Eles os comem e assim completam sua refeição. Água eles têm em frasquinhos. E logo a refeição termina.
479.5 – Morará gente na torre? –pergunta João, cheio de sono.
– Eu acho que não. Dela não se vê sair nem luz, nem voz nenhuma. Queres pedir abrigo? Já não podes mais fazê-lo…
– Oh! Não. Eu disse por dizer… Mas aqui se está bem…
– Espicha-te, pelo menos, João. A erva é macia, por aqui ainda não deve ter chovido. O chão está enxuto.
– … Não… Não… Senhor. Não estou com sono… Vamos conversar. Dize-me alguma coisa… uma parábola… Eu vou sentar-me aqui aos teus pés. Basta-me colocar minha cabeça sobre os teus joelhos…
E ele se assenta, apoiando a cabeça sobre os joelhos de Jesus.
Faz esforços heroicos para não dormir. Procura falar para vencer o sono… Procura interessar-se por aquilo que vê… as estrelas no céu, as luzes na estrada. São sempre mais numerosas as primeiras, porque o vento soprou durante a noite, levando embora as nuvens. As segundas vão ficando sempre mais raras, porque de noite os peregrinos pararam de caminhar. Somente um ou outro teimoso persiste em andar com seu carro equipado com uma lanterna, que fica balançando, pendurada no teto de esteira ou de cobertas estendidas sobre os arcos do carro. Mas o próprio silêncio, cada vez mais completo, faz que eles comecem a dormir.
João, com uma voz já bem mais fraca, diz:
– Quantas luzes no céu! E ficar olhando, parece que alguma delas tenha descido à terra, treme e pisca como lá em cima… Mas agora são menores e mais feias… Nós não podemos fazer estrelas… Em nossas estrelas há fumaça, há cheiro de mecha de candeeiro… e qualquer coisa as pode apagar… Assim disseste3, Tu, uma vez que para apagar a luz em nós, basta uma mariposa, e Tu comparavas as mariposas às seduções do mundo… Depois dizias que… enquanto as mariposas podem apagar uma luz, as asas dos anjos — e davas o nome de anjos às coisas espirituais — podem tornar mais viva a luz que há em nós… Eu… o anjo… a luz…
E João vai caindo pouco a pouco no sono e, finalmente, sem querer entrar no sono, se estende, obrigado pelo cansaço.
Jesus espera que ele fique completamente adormecido e depois lhe enfia por debaixo da cabeça um saco, põe-lhe por cima o manto, com cuidados maternais. Num último momento de lucidez, João ainda murmura:
– Eu não estou dormindo, sabes, Mestre? É que assim, estou vendo mais estrelas e te vejo melhor…
E passa a ver melhor a Jesus e o céu estrelado, vendo-os em sonho num sono profundo.
Jesus torna a sentar-se em sua cadeira verde. Apóia o cotovelo direito sobre o joelho, apóia-a face sobre a palma da mão, fica pensando e rezando. Ao olhar para a estrada, que já está vazia, enquanto a seus pés o Predileto com o braço dobrado por baixo da cabeça, dorme com a placidez de uma criança.
1 como Simão, em 346.6.
2 lugares, onde aconteceram os fatos narrados em Juízes 4,1-16.
3 Assim diceste, algo similar em 281.6 e 411.3.
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