261. 261. Exortação aos camponeses de Doras,passados à dependência de Jocanã.
23 de agosto de 1945
261.1Ainda não surgiu completamente a aurora. Jesus está de pé no meio do pomar arruinado de Doras. Uma sucessão de árvores mortas, ou morrendo, das quais muitas já foram derrubadas, ou arrancadas do solo. Ao redor de Jesus, os camponeses de Doras e de Jocanã, e os apóstolos, estão uma parte em pé, e os outros sentados sobre os troncos derrubados.
Jesus começa a falar:
– Um novo dia, e uma nova partida. E não sou Eu somente que vou partir. Vós também partis, se não materialmente, mas moralmente, passando a ter um outro patrão. Estareis, pois, unidos a outros camponeses bons e piedosos, e formareis uma família, na qual podereis falar de Deus e do seu Verbo, sem precisardes recorrer a subterfúgios para fazer isso. Sustentai-vos um ao outro na fé, ajudai-vos mutuamente, suportai os defeitos de cada um de vós, e servi de edificação uns para os outros.
Isto é amor. E, ainda que de modo diferente, que no amor haja salvação, como ouvistes ontem à tarde da boca dos meus apóstolos. Simão Pedro, com uma palavra simples e boa, vos fez refletir como o amor muda a natureza pesada em uma natureza sobrenatural, e como um indivíduo, que é sem amor, pode tornar-se corrupto ou corruptor, como animal abatido, mas não assado ou, pior ainda, ser inútil como lenha que fica apodrecendo dentro d’água, sem prestar para acender o fogo e fazer que um homem passe a viver na atmosfera de Deus, isto é, um ser que sai da corrupção e se torna útil ao próximo.
Porque, podeis crer, meus filhos, a grande força do Universo é o amor. Eu não me cansarei jamais de dizer. Todas as dores da terra vem do desamor. A começar pela morte e pelas doenças, que nasceram da falta de amor de Adão e Eva ao Senhor Altíssimo. Porque o amor é obediência. Quem não obedece, é um rebelde. Quem é um rebelde, não ama aquele contra o qual ele se rebela. Mas, também as outras desventuras, gerais ou particulares, como as guerras ou as ruínas em que caem duas famílias, que estão brigando uma com a outra, de onde é que nascem? Nascem do egoísmo, que é um desamor. E, com a ruína das famílias, vêm também as ruínas dos bens, por castigo de Deus. Porque Deus, mais cedo ou mais tarde, pune àquele que vive sem amor. Eu sei que por aqui se conta uma história — e por causa dela Eu sou odiado por alguns, olhado por outros com os corações cheios de medo, ou sou invocado como um novo castigo, ou suportado por medo de alguma punição.
261.2Eu sei que circula a história de que tenha sido o meu olhar que tornou malditos estes campos. Não foi o meu olhar, mas o egoísmo castigado de alguém que era injusto e cruel. Se meus olhos tivessem que ir às terras de todos os que me odeiam, na verdade poucas áreas verdes ficariam na Palestina!
Eu não me vingo nunca das ofensas que fazem a Mim mesmo, mas entrego ao Pai aqueles que obstinadamente persistem em seus pecados de egoísmo contra o seu próximo e, sacrílegamente, zombam do preceito e, quanto mais eles ouvem palavras para persuadi-los, e com as palavras também se fazem atos para convencê-los a amar, tanto mais cruéis se tornam. Eu estou sempre pronto para levantar a mão e dizer a quem se arrepende: “Eu te absolvo. Vai em paz.” Mas Eu não ofendo o Amor, a ponto de transformá-lo em irreversíveis durezas. Tende sempre isto em mente, para que vejais as coisas à luz justa, e para desmentir essas histórias que, tenham ou não sido criadas por veneração ou por um medo cheio de ira, estão sempre bem longe da verdade.
261.3Vós passais a ficar sujeitos a um outro patrão, mas não abandoneis estas terras que, no estado em que estão, parece loucura querer tratar delas. No entanto, Eu vos digo: cumpri nelas também o vosso dever. Vós o cumpristes até agora por medo das punições humanas. Cumpri-o também agora, mesmo sabendo que não sereis tratados como o fostes. Eu até vos digo: quanto mais fordes tratados com humanidade, tanto mais trabalhai com alegre diligência, para pagardes, com o vosso trabalho, a humanidade que deveis a quem vos trata com humanidade. Porque, se é verdade que os patrões têm o dever de ser humanos com os seus empregados — lembrando-se de que somos todos de um mesmo tronco e de que em verdade todos os homens nascem nus da mesma maneira, e morrem, tornando-se depois podridão, da mesma maneira, tanto o pobre como o rico, e de que as riquezas não são de quem as têm, mas daqueles para quem foram acumuladas, com honestidade ou com desonestidade, e de que não há necessidade de gloriar-se delas ou de por causa delas oprimir os outros, mas fazer com elas boas obras também em favor dos outros, usando delas com amor, discrição e justiça, a fim de sermos tratados sem severidade por parte do verdadeiro patrão que é Deus, o qual ninguém compra nem seduz com joias nem talentos de ouro, mas o fazemos amigo com nossas boas ações — porque, se isso é verdade, também é verdade que os servos têm o dever de ser bons para com os seus patrões.
261.4Fazei com simplicidade e com boa vontade a vontade de Deus, que vos quer nessa humilde condição. Vós sabeis a parábola1 do rico Epulão. Vede que no Céu não é o ouro, mas a virtude é que recebe prêmio. A virtude e a submissão à vontade de Deus tornam Deus amigo do homem. Eu sei que é muito difícil ser sempre capazes de ver a Deus através das obras dos homens. Quando tudo corre bem, é fácil. Quando corre mal, é difícil, porque pode levar nosso espírito a pensar que Deus não é bom. Mas vós, superai o mal que vos é feito pelo homem tentado por satanás, e, do lado de lá dessa barreira, que custa lágrimas, vede a verdade da dor e a sua beleza. A dor vem do mal. Mas Deus, não podendo aboli-la, porque essa força existe, e é a prova do ouro espiritual dos filhos de Deus, e o constrange a extrair do veneno dela o suco de um remédio que dá a vida eterna. Porque a dor, com sua mordida, inocula nos bons reações tais, que os espiritualizam, fazendo-os sempre mais santos.
261.5Vós, pois, sede bons, respeitosos, obedientes. Não fiqueis julgando vossos patrões. Já há quem os julgue. Eu gostaria que quem vos dá ordens se tornasse justo, a fim de tornar mais fácil o vosso caminho e alcançar para ele a vida eterna. Mas lembrai-vos de que, quanto mais penoso for o dever a cumprir, maior será o mérito aos olhos de Deus. Não procureis fraudar o patrão. O dinheiro ou as mercadorias apanhadas com fraude não enriquecem a ninguém, nem matam a fome. Tende puras as vossas mãos, os vossos lábios e o vosso coração. E, então, celebrareis os vossos sábados, as vossas festas de preceito, em graça aos olho-s do Senhor, mesmo quando sejais obrigados a trabalhar na gleba. Na verdade, que valor maior teria o vosso trabalho do que o da oração hipócrita dos que vão cumprir o preceito, só para receberem louvor do mundo, transgredindo, na verdade, o preceito, com a desobediência à Lei que manda obedecer, por si mesmo e por todos os de casa, ao preceito do sábado e das solenidades de Israel. Porque a oração não está no ato, mas no sentimento. E, se o vosso coração ama a Deus com santidade, em qualquer eventualidade, ele cumprirá os ritos do sábado e das festas, melhor do que os que vos impedem de cumprir.
Eu vos abençôo, e aqui vos deixo, porque o sol já vai alto, e Eu pretendo chegar às colinas, antes que o calor fique forte demais. Rever-nos-emos logo, porque o outono não está mais muito longe. A paz esteja com todos vós, com os novos e os antigos servos de Jocanã, e tranquilize os vossos corações.
E Jesus vai-se encaminhando, passando pelo meio dos camponeses, e abençoando-os, um por um.
261.6Atrás de uma grande macieira seca, está um homem meio escondido. Mas, quando Jesus está para passar por ele, como se não o estivesse vendo, ele pula para fora, e diz:
– Eu sou servo do intendente Jocanã. Ele me disse: “Se o Rabi de Israel vier, deixa-o parar nas minhas terras, e deixa que ele fale aos meus servos. Não precisamos ter maiores preocupações com isso, porque Ele só ensina coisas boas.” E ontem, com a notícia de que, a partir de hoje, eles (e mostra os de Doras) estão comigo, e como estas terras são de Jocanã, ele me escreveu: “Se o Rabi chegar até aí, escuta o que Ele diz, e comporta-te bem com Ele. Que não venham desgraças sobre nós. Cobre-o de honras, mas procura que Ele revogue a maldição das terras.” Porque sabes que Jocanã as adquiriu por capricho. Mas eu creio que ele já se arrependeu do que fez. Ainda bem se, com estas terras, pudermos fazer pastagens…
– Já me ouviste falar?
– Sim, Mestre.
– Então sabereis como comportar-vos, tu e o teu patrão, para terdes a bênção de Deus. Dize isto ao teu patrão. E, por tua conta, procura que as ordens dele sejam suaves, tu que conheces na prática quais são as canseiras do homem do campo e és estimado por teu patrão. Mais vale que tu percas a benevolência dele e o posto, do que perderes a tua alma. Adeus.
– Mas eu preciso prestar-te honras.
– Eu não sou um ídolo. Não preciso de honras interesseiras para conceder graças. Honra-me com a tua alma, pondo em prática tudo o que ouviste, e terás servido a Deus e, ao mesmo tempo, ao teu patrão.
E Jesus, acompanhado pelos discípulos e pelas mulheres, e depois por todos os camponeses, vai atravessando os campos, entra depois pelo caminho que vai para as colinas, tendo sido antes saudado por todos.
1 parábola, narrada exatamente para eles em 191.5/7.
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