424. 424. Pensamentos de glória e de martírioà vista da costa do Mediterrâneo.


27 de abril de 1946.

424.1 Da crista das últimas elevações, que já não fica bem chamar de colinas, pois é muito relativa a sua altura, a costa do Mediterrâneo aparece por uma larga faixa, limitada ao norte pelo promontório do Carmelo e livre ao sul, até às maiores distancias que a vista humana possa alcançar. É uma costa plácida, quase reta, tendo atrás de si a planície fértil, apenas interrompida por umas fracas ondulações do terreno. As cidades marítimas são visíveis por causa da brancura de suas casas. colocada entre o verde do interior e o azul tranquilo do mar sereno, e de uma cor azul esplêndida, que reflete o azul puro do céu.

Cesareia fica um pouco ao norte do lugar onde estão os apóstolos com Jesus e com alguns dos discípulos com quem talvez tenham-se ido encontrando pelos lugares por onde passaram ontem à tarde, ou ao romper do dia de hoje. Porque agora o romper do dia já se foi, passada já está a aurora, ainda que o dia esteja em suas primeiras luzes. Naquelas horas tão belas das manhãs de verão, nas quais o céu, da cor rosada da aurora passa para o azul, o ar se torna claro e fresco, frescas as campinas, sem velas o mar, nessas horas virginais do dia, nas quais desabrocham as novas flores e as orvalhadas, que se enxugam aos primeiros raios do sol, fazendo subir ao ar os aromas das ervas, comunicando frescor e perfume ao sopro suave da brisa matutina, que mal, mal move as folhas sobre os pedúnculos, e levemente encrespa a superfície plana do mar.

A cidade aparece estendida sobre as margens, bonita como todos os lugares onde o refinamento romano tem suas sedes. As termas e os palácios de mármore ostentam sua brancura, como uns blocos de neve solidificada nos quarteirões mais próximos do mar, vigiados por uma torre também branca, alta, quadrada, ao lado do porto. Talvez seja um castelo, ou um lugar de vigilância Depois veem-se as casinhas mais modestas, periféricas, em estilo hebraico, e por todo lado um verdejar de pérgolas, de jardins suspensos, elevados com maior ou menor fausto por cima dos terraços, com as copas das árvores despontando sobre as casas.

Os apóstolos ficam admirados, e param à sombra de um capão de plátanos, que fica quase no topo da colina.

– Como se alarga nosso respiro, ao vermos uma grandiosidade assim –exclama Filipe.

– E parece estarmos já sentindo todo o frescor daquelas águas azuis –diz Pedro.

– É mesmo! Depois de tanta poeira, pedras, abrunheiros bravos… olha como tudo brilha! Que frescor! Que paz! –comenta Tiago de Alfeu.

– Hum! Menos quando… ele te pega a sopapos, e faz que gires tu e o navio, como uns brinquedos nas mãos dos meninos… –responde-lhe Mateus que provavelmente está se lembrando daquilo por que passou no mar.

424.2 – Mestre… eu penso… Penso em todas as palavras dos nossos salmistas, no livro de Jó, nas palavras dos livros sapienciais, nas quais se celebra o poder de Deus. E não sei por que este pensamento que me vem sobre aquilo que eu vejo me faz surgir outro pensamento que é, se tendo sido elevados a uma beleza perfeita, sobre uma pureza azul e luminosa, se formos justos até o fim, até o dia da grande contagem, no dia do teu Triunfo Eterno, no dia que Tu nos descreves e que será o fim do Mal… E me fica parecendo estar vendo povoada esta imensidão do céu pelos corpos luminosos ressuscitados por Ti, que estarás brilhando mais do que mil sóis, no meio dos bem-aventurados, sem que haja mais dores, nem lágrimas, nem insultos, nem difamações, como aquelas de ontem à tarde… mas paz, paz, paz… Mas, quando é que o Mal deixará de ser nocivo? Será que ele quebrará as suas flechas contra o teu Sacrifício? Persuadir-se-á ele de ter sido vencido? –diz João, que a princípio estava sorrindo, mas agora está angustiado.

– Nunca. Ele sempre julgará ser um triunfador, mesmo com todos os desmentidos que os justos lhe darão. E o meu Sacrifício não quebrará suas flechas. Mas a hora virá, a hora final, na qual o Mal será vencido, e uma beleza, ainda mais infinita do que a que o teu espírito prevê, os eleitos serão o único Povo, eterno, santo, o Povo verdadeiro do Deus verdadeiro.

– E nós estaremos lá todos? –perguntam os apóstolos.

– Todos1.

– E nós? –pergunta um grupo de discípulos.

– Vós também lá estareis todos.

– Todos os aqui presentes, ou todos os que somos discípulos? Nós que já somos muitos, apesar dos que se separaram.

– E sempre mais vós sereis. Mas nem todos sereis fiéis até o fim. Contudo, muitos estarão comigo no Paraíso. Alguns terão o prêmio depois da expiação. Outros, desde o primeiro momento depois da morte, mas o prêmio será tão grande, que, assim como vos esquecereis da Terra e de suas dores, assim vos esquecereis do Purgatório com suas nostalgias espirituais de amor.

424.3 – Mestre, Tu nos disseste que sofreremos perseguições e martírios. Poderemos, então, ser presos e mortos, sem termos tempo de arrepender-nos, ou então a nossa fraqueza nos fará ter falta de resignação, diante da morte cruenta… E, então? –pergunta Nicolau de Antioquia, que está entre os discípulos.

– Não fiques pensando nisso. Pela vossa fraqueza de homens, não só poderíeis, de fato, sofrer, resignados, o martírio. Mas, aos grandes espíritos, que devem dar testemunho do Senhor, ser-lhes-á infundida pelo Senhor uma ajuda sobrenatural…

– Qual será? Talvez a insensibilidade?

– Não, Nicolau. O amor perfeito. Eles alcançarão um amor tão completo, que a dilaceração pela tortura, pelas acusações, pela separação de seus pais, da vida, de tudo, deixarão de ser coisas que deprimam, mas, antes de tudo mais, se transformará numa base para elevar-se ao céu, para recebê-lo, vê-lo e, com tudo isso, também para estender os braços e o coração para as torturas, a fim de irem para lá, onde já está o coração: no Céu.

– Um que morrer assim, será muito perdoado, diz um velho discípulo, cujo nome eu não sei.

– Não somente muito, mas será perdoado de tudo, Papai. Porque o amor é uma absolvição, e o sacrifício é uma absolvição, e a confissão heroica da fé é uma absolvição. Vê, portanto, como um tríplice banho será dado aos mártires.

– Oh! então… Eu pequei muito, Mestre, e acompanhei a estes para ter o perdão, e Tu ontem me deste, e por isso foste insultado por quem não perdoa e é culpado. Eu creio que o teu perdão é válido. Mas, pelos meus longos anos de culpa, dá-me o martírio, que absolve.

– Estás pedindo muito, homem!

– Não quanto devo dar para ter a bem-aventurança que João de Zebedeu descreveu e Tu as confirmado. Te suplico, Senhor. Faz que eu morra para vocé, para a tua doutrina…

– Estás pedindo muito, homem! A vida do homem está na mão do meu Pai…

– Mas toda oração tua é acolhida, como é acolhido todo teu juramento. Pede ao Eterno este perdão para mim…

O homem está de joelhos aos pés de Jesus, que olha para ele nos olhos, e depois diz:

– E não te parece um martírio viver quando o mundo perdeu todo atrativo, e o coração anela pelo Céu, e viver para ensinar aos outros o Amor, e a conhecer as desilusões do Mestre, e perseverar sem descanso, para dar almas ao Mestre? Faze sempre a vontade de Deus, mesmo quando a tua te parecer mais heroica, e tu serás santo… 424.4Mas, eis que os companheiros estão chegando com as provisões. Preparemo-nos para chegarmos à cidade, antes das horas tórridas.

E se dirige, em primeiro lugar, para a suave descida, que logo atinge a planície atravessada pela fita branca da estrada, que conduz a Cesareia Marítima.

1 Todos. Pode-se dizer “todos” — assim anota MV em uma cópia datilografada — porque Iscariotes não está presente, e dos apóstolos somente o homem de Keriot se condenou.


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