87. 87. Com pastores e discípulos perto de Doco.Isaque fica na Judeia.
25 de janeiro de 1945.
87.1 – Eu te digo, Mestre, que os humildes são os melhores. Esses, a quem eu me dirigi, receberam-me com escárnio e menosprezo. Oh! Os pequenos de Juta!
Isaque fala a Jesus. Todos estão em roda, sobre a erva da beira do rio. Isaque parece estar prestando conta dos seus trabalhos.
Judas intervém e, caso raro, chama o pastor pelo nome:
– Isaque, eu penso como tu. Nós perdemos tempo e fé, lidando com esta gente. Eu desisto.
– Eu não. Mas sofro com isso. Renunciarei só se o Mestre assim mandar. Estou acostumado, há anos, a sofrer por fidelidade à verdade. Não poderia mentir só para cair nas graças dos poderosos. Sabes quantas vezes vieram, para zombarem de mim, em meu quarto de doente, prometendo-me (oh! certamente falsas promessas) ajudar-me, se eu dissesse que tinha mentido, e que Tu, Jesus, não eras Tu, o Salvador recém-nascido? Mas eu não podia mentir. Mentir teria sido renegar a minha alegria, teria sido matar minha única esperança, teria sido rejeitar-te, ó meu Senhor! Rejeitar-te! Na escuridão da minha miséria, na esqualidez de minha doença, eu tinha sempre um céu cheio de estrelas: o rosto de minha mãe, única alegria da minha vida de órfão, o rosto de uma esposa que nunca foi minha, e à qual eu devotei amor, até além da morte. Estas são as duas estrelas menores. Depois, duas estrelas maiores, iguais a puríssimas luas: José e Maria, que sorriam para o Recém-Nascido e para nós, pobres pastores, e fulgente, no centro do céu, que era o meu coração, o teu rosto inocente, suave, santo, santo, santo. Não podia rejeitar este meu céu! Não queria privar-me de sua luz, que outra mais pura não há. Eu teria rejeitado a vida, mesmo que fôsse entre tormentos, rejeitando-Te, minha bendita lembrança, meu Jesus Recém-Nascido!
Jesus pousa sua mão sobre o ombro de Isaque, e sorri.
Judas fala ainda:
– E, então, tu insistes?
– Eu insisto. Hoje, amanhã e depois de amanhã. Alguém virá.
– Quanto tempo durará este trabalho?
– Não sei. Mas podes crer. Basta não olhar para a frente, nem para trás. Construir dia após dia. Se, ao chegar a tarde, tivermos conseguido algum resultado, dizer: “Obrigado, meu Deus”; e se não tivermos conseguido resultado, dizer: “Espero na tua ajuda para amanhã.”
– És sábio.
– Nem sei o que quer dizer isso. Mas em minha missão faço o que fiz em minha doença. Quase trinta anos de enfermidade não são um dia!
– É. Acredito! Eu não tinha ainda nascido, e tu já estavas enfermo.
– Estava enfermo. Mas nunca contei aqueles anos. Nunca disse: “Eis que volta Nisam, e eu não refloresço com as roseiras. Eis que volta Tisri, e eu ainda aqui nesta languidez.” Prosseguia só falando Dele à mim mesmo e às pessoas boas. Percebia que os anos iam passando, porque os que eram antes pequeninos vinham trazer-me os seus doces de casamento ou do nascimento de seus filhos. Agora, se olho para trás, agora que me tornei jovem de novo, o que vejo do passado? Nada.Tudo passou.
– Nada vês aqui. Mas no céu tudo permanece para ti, Isaque, e aquele tudo te espera –diz Jesus.
87.2 Depois, falando a todos:
– É preciso fazer assim. Eu também faço assim. Ir avante. Sem canseiras. A canseira é ainda uma raiz da soberba humana. Assim também é a pressa. Por que é que nos aborrecem as derrotas, por que nos inquietam, quando as coisas vão devagar? Porque o orgulho diz: “Dizer ‘não’ a mim? Fazer-me esperar tanto? Isto é uma falta de respeito para com o apóstolo de Deus.” Não, meus amigos. Olhai para todas as criaturas e pensai em Quem as fez. Meditai nos progressos do homem, e pensai em sua origem. Pensai na chegada desta hora, e calculai quantos séculos a precederam. A criatura é obra de uma serena criação. O Pai não fez nada desordenadamente, mas criou sucessivamente as criaturas. O homem (o atual) é obra de um paciente progredir e sempre mais progredirá no saber e no poder. O homem será santo ou não, segundo o seu querer. Ele não se tornou sábio de repente. Os primeiros homens, tendo sido expulsos do Jardim, tiveram que aprender tudo, lentamente, continuamente. Aprender até as coisas mais simples: o grão de trigo é melhor se esfarinhado, depois amassado e, por fim, assado. Aprender como esfarinhá-lo e como assá-lo. Aprender como acender o fogo. Aprender como se faz uma veste, olhando a pelagem dos animais. Como se vive em uma caverna, observando as feras. Como se faz uma enxerga, observando os ninhos. Aprender a curar-se com as ervas e as águas, observando os animais que com elas se curam por instinto. Aprender a viajar pelos desertos e pelos mares, estudando as estrelas, domando os cavalos, aprendendo o equilíbrio nas águas, o que lhe foi ensinado por uma casca de noz, flutuante sobre as águas de um rio. Quantas derrotas, antes de conseguir! Mas conseguiu. E irá além, embora não será mais feliz por isso, pois se tornará mais conhecedor do mal que do bem. Contudo, progredirá. A Redenção, não é uma obra de paciência? Ela foi decidida há séculos e séculos, e, mais do que decidida, eis chegou a hora que os séculos prepararam. Tudo é paciência. Para que então, ser impacientes? Não podia Deus fazer tudo num instante? Não podia o homem, dotado de razão, saído das mãos de Deus, saber tudo num instante? Não podia Eu ter vindo no começo dos séculos? Tudo isso podia ser. Mas nada há de ser feito com violência. Nada. A violência é sempre contrária à ordem; e Deus, e o que vem de Deus, é ordem. Não queirais ser mais do que Deus.
87.3 – Mas, então, quando é que serás conhecido?
– Por quem, Judas?
– Ora, pelo mundo.
– Nunca.
– Nunca? Tu não és o Salvador?
– Sou eu. Mas o mundo não quer ser salvo. Somente na proporção de um em mil há os que querem me conhecer; e de um em dez mil os que me seguirão realmente. Isto, considerando uma proporção ainda muito alta. Não serei conhecido nem mesmo pelos meus mais íntimos.
– Mas, se eles são teus íntimos, te conhecerão!
– Sim, Judas. Eles me conhecerão como Jesus, o israelita Jesus, mas não me conhecerão como Aquele que sou. Em verdade, vos digo que não serei conhecido por todos os meus íntimos. Conhecer quer dizer amar com fidelidade e virtude… e haverá quem não me conhecerá.
Jesus está fazendo aquele seu gesto de um resignado desânimo, que sempre faz, quando anuncia a futura traição: abre as mãos e as conserva assim viradas para fora, com o rosto amargurado, que não olha nem os homens, nem o céu, mas somente o seu futuro destino de Traído.
– Não digas isto, Mestre –suplica-lhe João.
– Nós te seguiremos para conhecer-te sempre mais –diz Simão, e com ele fazem coro os pastores.
– Seguimos a ti. como uma esposa, e és mais caro para nós do que ela: temos mais ciúmes de Ti do que da nossa mulher. Oh! Não. Nós já te conhecemos tanto, que não podemos mais deixar de continuar a conhecer-te. Ele (Judas indica Isaque) diz que renegar a tua lembrança de Recém-Nascido teria sido uma dor mais atroz do que de perder a vida. E não passavas de um recém-nascido. Nós temos a Ti, Homem e Mestre. Nós te ouvimos e vemos as tuas obras. O teu contato, o teu hálito, o teu beijo são a nossa contínua consagração e a nossa contínua purificação. Só um satanás poderia renegar-te, depois de ter sido um dos teus íntimos!
– É verdade, Judas. Mas haverá alguém assim.
– Ai dele! Eu serei o seu carrasco –exclama João de Zebedeu.
– Não. Deixa a justiça para o Pai. Torna-te o seu redentor. O redentor desta alma que tende para satanás. 87.4 Saudemos Isaque agora. A tarde chegou. Eu te abençoo, servo fiel. Sabes agora que Lázaro de Betânia é nosso amigo, e quer ajudar os meus amigos. Eu me vou. Tu ficas. Ara o terreno árido de Judá para Mim. Depois Eu virei. Tu sabes, em caso de necessidade, onde poderás encontrar-me. A minha paz esteja contigo.
E Jesus abençoa, beijando o seu discípulo.