394. 394. Parábola das duas vontadese despedida dos cidadãos de Keriot.


27 de fevereiro de 1946.

394.1 Jesus está falando no interior da sinagoga de Keriot, que está extraordinariamente cheia. Ele está respondendo a uns e a outros que lhe fazem perguntas, ou pedem conselhos particulares, em separado. Depois, tendo contentado a todos, começa a falar em voz alta.

– Pessoas de Keriot, ouvi a minha parábola de despedida. Daremos a ela o nome de “Parábola das duas vontades.”

Um pai cuidadoso tinha dois filhos, ambos por ele amados, com um amor igual e cheio de sabedoria. Ambos iam sendo encaminhados por bons caminhos. Não havia nenhuma diferença no modo de amá-los, nem no trato dado a eles. Mas havia uma sensível diferença entre os dois filhos. Um, o primogênito, era humilde, obediente, e, sem discutir, ia fazer a vontade do pai, sempre alegre e contente com o seu trabalho. O outro, ainda que menor, estava quase sempre descontente, e discutia com o pai e consigo mesmo. Sempre ficava pensando, com raciocínios muito humanos, sobre os conselhos e as ordens que recebia. E, em vez de ir cumpri-las, como haviam sido dadas, prometia a si mesmo modificá-las todas, ou em parte, como se aquele que lhe dera as ordens fosse algum tolo. O mais velho lhe dizia: “Não faças assim. Estás fazendo nosso pai sofrer!”

Mas o outro respondia: “Tu és um bobo. Grandalhão e gordo como és, e, além disso, o primogênito, e já adulto, oh! eu não gostaria de ficar nessas condições em que o pai te colocou. Eu gostaria de fazer outras coisas. Por exemplo, eu me imporia aos servos. Para que eles compreendessem que eu sou o patrão. Tu ficas parecendo ser um servo também, com essa tua mansidão sem limites. Será que não estás vendo como resultado teres que passar como sem ser visto em todos os teus direitos pela primogenitura? Vendo isso, qualquer pessoa até zomba de ti…”

O segundo filho estava sendo tentado e mais do que tentado: ele era um aluno de Satanás, cujas insinuações ele com atenção punha em prática, ao procurar tentar o primogênito. Mas este fiel ao Senhor no respeito à Lei, conservava-se fiel ao seu pai, ao qual ele honrava com um procedimento correto.

Passaram os anos, e o segundo filho, aborrecido porque não podia reinar como queria, depois de ter feito muitas vezes ao pai este pedido: “Dá-me a ordem de agir em teu nome, para tua honra, em vez de ficar sustentando aquele bobalhão, que é mais manso do que uma ovelhinha”, e depois de ter tentado forçar o irmão a fazer coisas sem ordem do pai, para assim impor-se aos servos, aos cidadãos e aos confinantes, disse a si mesmo: “Oh! Já basta! Do modo como vão as coisas, está em jogo até o nosso bom nome! E, como ninguém quer fazer nada, eu vou fazer”. E começou a fazer coisas por sua cabeça, entregando-se à soberba e à mentira, e desobedecendo sem escrúpulos. O pai lhe dizia: “Meu filho, obedece ao primogênito. Ele sabe o que faz.” E lhe dizia: “Disseram-me que fizeste tal coisa. É verdade?” E o segundo filho respondia com um encolher de ombros a cada uma das observações paternas: “Sabe, ele é tímido demais e hesitante. Ele perde as ocasiões de ganhar.” E dizia: “Eu não fiz assim.” O pai lhe dizia: “Não fiques indo à procura de ajuda deste ou daquele. Quem queres tu que te ajude melhor do que nós, para tornar ilustre o teu nome? São os amigos falsos que te estão incitando, para depois se rirem às tuas custas.” E o segundo filho lhe respondia: “Estás com ciúme de ser eu quem toma as iniciativas? Afinal, eu tenho certeza de que farei tudo bem.”

Passou mais algum tempo. O primeiro ia sempre crescendo em justiça, e o outro continuava a nutrir as paixões más. Por fim, o pai lhe disse: “É tempo de acabar com isso. Ou aceitas o que te foi dito, ou perdes o meu amor.” O filho rebelde foi dizer isso aos seus falsos amigos. “E tu ficas atado só por isso? Nada disso! Há um modo de pôr o teu pai na impossibilidade de preferir um filho ao outro. Deixa o assunto conosco, e nós vamos pensar nele. Tu ficarás sem culpa material, e a posse dos bens se tornará florescente, porque, posto para fora o teu irmão que é bom demais, tu poderás dar a ela um grande crescimento. Não sabes tu que é melhor tomar uma atitude forte, ainda que dolorosa, do que ficar na inércia, que faz que se perca o que já se possui?”, foi o que lhe responderam. E o segundo filho, já saturado de má vontade, aderiu, sem mais, àquela indigna tramoia.

Agora dizei-me. Por acaso, pode-se culpar o pai por ter dado dois sistemas de educação aos dois filhos? Poder-se-á dizer que ele foi cúmplice? A vontade do homem, por acaso, lhe foi dada antecipadamente de dois modos? Não. Ela lhe foi dada de um só modo. Mas o homem por sua conta a muda, e quem é bom faz a sua vontade boa, ao passo que o mal faz a sua vontade má.

394.2 Eu vos exorto, a vós de Keriot — e será esta a última vez que Eu vos exorto a seguir caminhos de sabedoria — a seguir somente a vontade boa. Já quase no fim do meu ministério, Eu vos digo as palavras que foram cantadas, quando Eu nasci: “A paz é para os homens de boa vontade.” Paz! Seja o êxito feliz, seja a vitória na Terra e no Céu, porque Deus está com quem tem boa vontade em obedecer-lhe. Deus não olha tanto as obras altissonantes, que o homem faz por sua iniciativa, mas a humilde obediência, pronta, fiel, às obras que Ele propõe.

Eu vos lembro dois episódios1 da história de Israel. Duas demonstrações de que Deus não está onde o homem quer agir por si mesmo, ao contrário da ordem recebida.

Vejamos os livros dos Macabeus. Neles está dito que, enquanto Judas Macabeu, com Jônatas, ia combater em Galaad, ao passo que Simão ia livrar os outros da Galileia, uma ordem havia sido dada a José de Zacarias e a Azarias, chefes do povo, para que permanecessem na Judeia para defendê-la. E Judas lhes disse: “Tomai cuidado deste povo, e não traveis batalha com as nações, até a nossa volta.” Mas José e Azarias, ouvindo as grandes vitórias dos Macabeus, quiseram fazer eles tambem, dizendo: “Façamos nós tambem um nome para nós e vamos combater contra as nações que estão ao nosso redor.” E foram feridos e vencidos, e “grande foi a fuga do povo, porque não haviam prestado atenção a Judas e aos seus irmãos, pensando ainda que estavam agindo como uns heróis.” Mas era apenas soberba e desobediência.

E que se lê no livro dos Reis? Lê-se que Saul foi reprovado uma e outra vez, e na segunda, foi tão reprovado por ter desobedecido, que Davi foi escolhido para o seu lugar. Por haver desobedecido. Lembrai-vos! Lembrai-vos! “Por acaso, o Senhor quer holocaustos ou vítimas, ou quer que se obedeça à voz do Senhor? A obediência vale mais do que os sacrifícios e a gordura dos carneiros. Porque a rebelião é como um delito de magia, e não querer sujeitar-se é como um pecado de idolatria. Agora, visto que rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou para que não sejas mais rei.”

Lembrai-vos! Lembrai-vos! Quando Samuel, obediente, encheu de novo o chifre de óleo e foi à casa de Isaí, o Belemita, visto que o Senhor havia escolhido para Si um outro rei, e, quando Isaí entrou com os filhos para a refeição, depois do sacrifício, foram apresentados a Samuel os seus filhos. Em primeiro lugar, Eliab, belo de rosto, pela idade e pela estatura. Mas o Senhor disse a Samuel: “Não fiques olhando para o rosto dele, nem para a altura de sua estatura, porque Eu o rejeito. Eu não julgo conforme os modos de ver dos homens. Porque o homem olha para as coisas que seus olhos veem, mas o Senhor vê o coração.” E Samuel não quis mais tomar Eliab para rei. Foi-lhe então apresentado Aminadab. Mas Samuel disse: “Não é este também o que o Senhor escolheu.” E Isaí lhe apresentou Sama. Mas Samuel disse: “Nem este é o eleito do Senhor.” E assim aconteceu com os sete filhos de Isaí, que estavam presentes à refeição. Então Samuel disse: “Estão aqui presentes todos os teus filhos?” “Não”, respondeu Isaí. “Ainda há um, mas ainda é menino. Ele está apascentando as ovelhas.” “Manda, então, chamá-lo, porque não iremos para a mesa, a não ser depois de ter ele chegado.” E Davi chegou. Era louro e bonito, um menino. E o Senhor disse: “Unge-o. Ele é o rei.” Porque, ficai sabendo disso para sempre; Deus escolhe a quem quer, e outros perdem o merecimento, por ter corrompido a sua própria vontade com a soberba e a desobediência.

394.3 Eu não voltarei mais ao meio de vós, depois desta vinda. O Mestre está para cumprir o seu ministério. Depois Ele será mais do que Mestre. Preparai a alma para aquela hora, porque, recordai-vos bem de que, assim como o meu nascimento foi salvação para os que tiveram boa vontade, assim também a minha assunção será salvação para aqueles que tiverem sido de boa vontade em acompanhar-me como a seu Mestre, em minha doutrina, e aos que me seguirem nela depois, mesmo depois da minha assunção.

Adeus, homens, mulheres, crianças de Keriot. Adeus. Olhemo-nos bem nos olhos! Façamos que os corações, o meu e os vossos, se unam em um abraço de amor e de despedida, e que o amor permaneça sempre vivo, mesmo quando Eu não estiver mais aqui, nunca mais entre vós… Aqui, na primeira vez que aqui vim, um justo expirou2 no beijo do seu Salvador, em uma visão de glória… Aqui, nesta última vez que Eu venho, Eu vos abençoo com amor…

Adeus!… Que o Senhor vos dê fé, esperança e caridade na medida perfeita. E vos dê amor, amor, amor. Para com Ele, para comigo e para com os bons, para com os infelizes, para com os culpados, para com aqueles que levam em si o peso de uma culpa…

Recordai-vos. Sede bons. Não sejais injustos. Lembrai-vos de que Eu sempre perdoei, não somente aos culpados, mas envolvi todo Israel em meu amor. Todo Israel, que é composto de bons, e de não bons, como uma família em que há bons e não bons, e seria injustiça dizer que toda uma família é má, porque um dela é.

394.4 Eu me vou… Se algum de vós ainda precisa falar-me, venha, dentro desta tarde, à casa de campo da Maria do Simão.

Jesus levanta a mão e abençoa, depois sai logo pela portinha secundária, acompanhado pelos seus.

O povo murmura:

– Ele não volta mais!

– Que é que Ele quis dizer?

– Na despedida, Ele tinha lágrimas nos olhos…

– Vós ouvistes? Ele diz que vai ser levado!

– Então, tem mesmo razão o Judas! E, certamente depois, como rei, Ele não estará mais entre nós, como agora…

– Mas eu falei com os seus irmãos Eles dizem que não será rei como nós pensamos. Mas Rei de redenção, como dizem os profetas. Será o Messias, eis!

– É o Rei Messias, com certeza!

– Mas, não. É o Rei Redentor. O homem das dores.

– Sim.

– Não.

Enquanto isso, Jesus, em passos rápidos, vai indo rumo à campina.

1 dois episódios, aquele de 1 Macabeu 5,9-62 e o outro de 1 Samuel 13,1-14; 15; 16,1-13.
2 um justo expirou... em 78.8.


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