93. 93. Lição aos discípulos com Maria SS. na hortada casa de Nazaré. Um conforto a Judas de Alfeu.


31 de janeiro de 1945.

93.1 Jesus sai para a horta, que aparece toda lavada pelo temporal da tarde anterior. E vê sua Mãe inclinada sobre as plantinhas, e a saúda, alcançando-a. Como é doce o beijo deles! Jesus a abraça pelos ombros com seu braço esquerdo, e a atrai para si, beijando-lhe a fronte, no limite dos cabelos, depois se inclina para ser beijado na face por sua Mãe. Mas o que completa a suavidade do ato é o olhar que acompanha o beijo. O de Jesus é todo amor, mesmo com o seu ar majestoso e protetor; o de Maria é todo veneração, mas também é todo amor. Quando assim se beijam, parece que o mais adulto seja Jesus e Ela uma filha jovenzinha, que recebe do pai, ou do irmão bem mais velho, o beijo da manhã.

93.2 – O granizo da tarde de ontem e o vento da noite estragaram as tuas flores? –pergunta Jesus.

– Não estragaram nada, Mestre. Só fizeram uma grande desordem nas frondes –responde, antes de Maria, a voz um pouco rouca de Pedro.

Jesus levanta a cabeça e vê Simão Pedro que, vestido só com a túnica mais curta, trabalha para endireitar uns ramos curvados no alto da figueira:

– Já estás trabalhando?

– Ah! Nós pescadores dormimos como os peixes: a qualquer hora, em qualquer lugar, mas só aquele tanto que nos deixam ficar descansando. E para nós isso se torna um costume. Esta manhã eu ouvi ranger a porta ainda cedo, e disse a mim mesmo: “Simão, Ela já se levantou. Levanta-te depressa! Vai com tuas grossas mãos ajudá-la.” Eu achava que Ela estivesse pensando em suas flores, nesta noite cheia de vento. E não me enganei. Ah! Eu conheço as mulheres!… Minha mulher também fica virando-se na cama, como um peixe na rede quando há tempestade, e pensa em suas plantas… Coitada! Algumas vezes lhe digo: “Aposto que tu te fiques virando menos, quando o teu Simão está sendo sacudido como uma palhinha sobre as águas do lago.” Mas sou injusto, porque ela é uma boa mulher. Nem parece verdade que ela tenha por mãe… Bem: cala-te, Pedro. Este assunto está fora de propósito. Não fica bem murmurar e imprudentemente fazer saber o que é bondade silenciar. Estás vendo, Mestre, como até em minha cabeça de burro entrou a tua palavra?

Jesus responde sorrindo:

– Tu mesmo é que o estás dizendo. A Mim não resta senão aprovar e admirar a tua sabedoria de agricultor.

– Ele já amarrou todos os sarmentos que tinham se desprendido, escorou aquela pereira que está muito carregada, e passou aquelas cordas sob aquela romãzeira, que cresceu só para um lado –observa Maria.

– Olha só! Parece um velho fariseu. Ela pende para o lado que lhe for mais cômodo. E eu trabalhei-a como uma vela e lhe disse: “Não sabes que o certo está no meio? Vem cá, teimosa, senão te arrebentas, levando peso demais.” Agora estou cuidando desta figueira. Mas por egoísmo. Penso na fome de todos: figos frescos e pão quente! Ah! Nem o Antipas tem uma refeição tão boa! Mas é preciso ir devagar, porque a figueira tem uns ramos novinhos como o coração de uma mocinha, quando diz a sua primeira palavra de amor, e eu sou pesado, e os figos melhores estão lá no alto. Já estão secos com este primeiro sol. Devem estar uma delícia. 93.3 Ei! Tu, rapaz! Não fiques só me olhando. Acorda! Dá-me este cesto.

João, que aparece vindo da oficina, obedece, subindo ele também pela grossa figueira. Quando os dois pescadores descem, saíram da oficina também Simão Zelote, José e Judas Iscariotes. Não vejo os outros.

Maria traz pão fresco, pequenos pães escuros e redondos, e Pedro, com seu canivete, os parte e sobre eles parte os figos, e oferece primeiro a Jesus, e depois a Maria e aos outros. Comem com gosto, ao ar fresco da horta, toda bonita, ao sol de uma manhã serena, também pela recente chuva, que limpou o ar.

Pedro diz:

– É sexta-feira… Mestre, amanhã é sábado…

– Não fizeste nenhuma descoberta –observa Iscariotes.

– Não. Mas o Mestre sabe o que eu quero dizer….

– Eu sei. Esta tarde iremos ao lago, onde deixaste o barco, e velejaremos para Cafarnaum. Amanhã falarei lá.

Pedro exulta.

Entram em grupo Tomé, André, Tiago, Filipe, Bartolomeu e Judas Tadeu, que certamente dormem em outro lugar. Saúdam-se.

93.4Jesus diz:– Vamos permanecer aqui unidos. Assim estará aqui também um novo discípulo. Vem, Mãe.

Assentam-se, uns sobre umas pedras, outros sobre cadeiras, fazendo um círculo ao redor de Jesus, que está sentado sobre um banco de pedra junto à casa, tendo a seu lado sua Mãe e aos pés João, que escolheu ficar no chão, contanto que possa estar perto.

Jesus fala devagar e com majestade como sempre:

– A que compararei a formação apostólica? À natureza que nos circunda. Vós a estais vendo. No inverno, a terra parece morta. Mas dentro dela as sementes trabalham e as linfas se nutrem de umidade, depositando-a nas frondes subterrâneas — assim poderia chamar as raízes — para depois receber delas grande abundância para as frondes superiores, quando chegar o tempo de florir. Vós também sois comparáveis a esta terra invernal: nua, despojada, feia. Mas sobre vós passou o Semeador, e jogou uma semente. Junto à vós passou o Cultivador, e fez o serviço de colocar fertilizante no solo ao redor de vosso tronco plantado na terra dura, e duro e áspero como ela, a fim de que pudessem chegar às raízes os nutrimentos da umidade das nuvens e do ar, e o fortificasse para produzir o futuro fruto. E vós acolhestes tanto a semente, como a escavação, porque em vós há boa vontade de frutificar no serviço de Deus.

Compararei ainda a formação apostólica àquele temporal que golpeou e envergou as árvores, e que parecia uma violência inútil. Mas olhai quanto bem ele fez. Hoje o ar está mais puro, novo, sem poeira e sem mormaço. O sol é o mesmo sol de ontem. Mas não tem mais aquele ardor que parecia febre, porque chega à nós através de camadas purificadas e frescas. As ervas e as plantas se sentem aliviadas como os homens, porque a limpeza e a serenidade são coisas que alegram. Até os contrastes servem-nos para chegarmos a um mais exato conhecimento e a um esclarecimento. De outro modo, seriam somente ruindade. E que são os contrastes, senão os temporais que provocam as nuvens de diferentes espécies? E essas nuvens não se acumulam pouco a pouco nos corações, com os seus maus humores inúteis, com os pequenos ciúmes, com as vaidosas soberbas? Depois vem o vento da graça e as une, para que descarreguem todos os seus maus humores, e volte a serenidade.

A formação apostólica é ainda semelhante ao trabalho que Pedro fazia esta manhã para dar alegria à minha Mãe: endireitar, amarrar, sustentar ou desatar, conforme as tendências e as necessidades, para fazer de vós uns “fortes” a serviço de Deus. Endireitar as ideias erradas, amarrar as prepotências carnais, sustentar as fraquezas, cortar, se for necessário, as tendências, desatar as escravidões e a timidez. Vós havereis de ser livres e fortes, como águias que, deixando o pico onde nasceram, vão elevando cada vez mais o seu voo. O serviço de Deus é o voo. O pico são as afeições.

93.5 Um de vós hoje está triste, porque seu pai está à morte. E está à morte com o coração fechado à Verdade e ao filho que a segue. Mais que fechado, hostil. Ainda não lhe disse a palavra injusta: “Vai-te embora”, da qual vos falava ontem, se auto-proclamando mais do que Deus. Mas o seu coração fechado e os lábios selados não são ainda capazes de dizer tampouco: “Segue a voz que te chama.” Não pretenderiam, nem o filho, nem Eu que vos falo, ouvir dizer daqueles lábios: “Vem, e contigo venha o Mestre. E bendito seja Deus por ter escolhido um dos seus servos em minha casa, criando assim um parentesco, mais excelso do que o do sangue com o Verbo do Senhor.” Mas ao menos Eu, para o seu bem, e o filho, por motivos ainda mais complexos, queríamos ouvir de sua boca palavras amistosas.

Mas, que não chore este filho. Saiba que em Mim não há rancor nem desdém para com o seu pai. Mas somente compaixão. Eu vim e parei, mesmo sabendo da inutilidade da parada, para que um dia este filho não me dissesse: “Oh! Por que não vieste?!” Vim para dar-lhe a persuasão de que tudo é inútil, quando o coração se fecha no ódio. Vim também para confortar uma boa mulher que, por causa desta desavença na família, sofre como se uma faca lhe estivesse cortando feixes de fibras. Mas, tanto este filho, como esta boa mulher, estejam cientes de que Eu não respondo a ódio com ódio.

93.6 Eu respeito a honestidade do velho que crê e é fiel, ainda que tenha uma fé desviada para aquilo que tem sido a sua religião até agora.

Há tantos desses em Israel… Por isso vos digo: Eu serei mais aceito pelos pagãos do que pelos filhos de Abraão. A humanidade corrompeu a ideia do Salvador e rebaixou sua realeza sobrenatural a uma pobre ideia de soberania humana. Eu devo quebrar a dura casca do hebraísmo, penetrar, ferir para chegar ao fundo, e levar até o ponto onde está a alma desse hebraísmo, a fecundação da nova Lei. Oh! Como é verdade que Israel, tendo crescido ao redor do núcleo vital da Lei do Sinai, tornou-se semelhante a um fruto monstruoso, com uma polpa formada por camadas cada vez mais fibrosas e duras, protegidas em seu exterior por uma casca resistente a qualquer penetração, até à expulsão do germe, quando o Eterno julgar ter chegado o momento para criar a nova árvore da fé no Deus uno e trino. Eu, a fim de permitir que a vontade de Deus se cumpra, e o hebraísmo se transforme em cristianismo, preciso cortar, perfurar, penetrar, abrir caminho até o núcleo e aquecê-lo com o meu amor para que desperte, se inche, germine, cresça, torne-se a árvore poderosa do cristianismo, a religião perfeita, eterna, divina. E em verdade vos digo que o hebraísmo somente será perfurável por uma em cem partes.

Por isso não julgo condenado este israelita que não me quer e que não gostaria de dar-me o seu filho. Por isso Eu digo ao filho: não chores pela carne e o sangue que sofrem por se sentirem rejeitados pela carne e pelo sangue que os geraram. Por isso digo: não chores nem mesmo pelo espírito. O teu sofrimento trabalha, mais do que outra coisa, a favor do teu e do seu espírito, deste teu pai que não compreende e não vê.

93.7 E digo também: não fiques inventando remorsos por seres mais de Deus que do pai.

A todos vós Eu digo: mais que o pai, que a mãe, que os irmãos, é Deus. Eu vim para unir, não segundo a terra, a carne e o sangue, mas segundo o espírito e o Céu. Por isso devo desunir as carnes e os sangues, para tomar Comigo os espíritos aptos para o Céu desde esta terra e torná-los servos do Céu. Por isso vim para chamar os “fortes”, para fazê-los ainda mais fortes, porque de “fortes” é feito o meu exército de mansos. Mansos para com os irmãos, fortes contra o próprio eu e o eu do sangue familiar.

Não chores, primo. A tua dor, Eu te garanto, opera junto a Deus a favor do teu pai e dos teus irmãos mais do que toda a palavra, não só tua, mas também minha. A palavra não entra onde o preconceito lhe opõe barreira, acredita nisso. Mas a Graça entra. E o sacrifício é um ímã que atrai a graça.

Em verdade vos digo que, quando Eu chamo para Deus, não existe outra obediência mais alta do que esta. E é preciso pô-la em prática, sem nada de ficar parado, fazendo cálculos de quanto e como irão reagir os outros ao vosso andar em direção a Deus. Tampouco deve parar para sepultar o pai. E tereis um prêmio por esse ato de heroísmo, um prêmio não somente para vós, mas também para aqueles dos quais vos arranquei com um bramido do vosso coração, e cuja palavra muitas vezes vos fere mais do que uma bofetada, porque vos acusa de serem filhos ingratos e vos amaldiçoa, em seu egoísmo, como se fôsseis rebeldes. Não. Não rebeldes. Santos. Os primeiros inimigos dos que foram chamados são os familiares. Mas, entre um e outro amor, é preciso saber distinguir e amar sobrenaturalmente. Ou seja, amar mais o Senhor do sobrenatural do que os servos desse Senhor. Amar os parentes em Deus. E não mais do que Deus.

93.8 Jesus se cala e se levanta, indo para perto do seu primo que, de cabeça baixa, a muito custo está contendo o pranto. Jesus o acaricia.

– Judas… Eu deixei a minha Mãe para seguir a minha missão. Que isto tire de ti toda dúvida sobre a honestidade do teu modo de agir. Se não tivesse sido um ato bom, Eu o teria feito para com minha Mãe, que não tem, ninguém além de Mim?

Judas passa a mão de Jesus sobre o seu próprio rosto, e anui com a cabeça. Mas não pode dizer mais nada.

– Vamos nós dois sozinhos, como quando éramos meninos, e Alfeu achava que Eu era o mais ajuizado dos meninos de Nazaré. Vamos levar ao velho estes belos cachos de uva dourada. Que não fique pensando que me esqueci dele e que sou seu inimigo. Também tua mãe e Tiago se alegrarão com isto. Eu lhes direi que amanhã estarei em Cafarnaum e que seu filho é todo para ele. Sabes, os velhos são como os meninos: ciumentos. E sempre desconfiados de estarem sendo esquecidos. É preciso compadecer-nos deles….

Jesus desapareceu, deixando na horta os discípulos emudecidos diante da revelação de uma dor e de uma incompatibilidade entre um pai e um filho por causa de Jesus. Maria acompanhou Jesus até à porta, e agora torna a entrar, suspirando.

E tudo termina.