135. 135. Chegada a Betânia e o discursode Jesus ouvido por Madalena.
21 de março de 1945.
135.1 Quando Jesus, tendo transposto a última subida, chega ao planalto, vê Betânia, toda risonha, sob os raios de um sol de dezembro, que torna menos triste o campo, agora sem plantações e menos escuro o verde dos ciprestes e dos carvalhos e das alfarrobas que surgem aqui e ali, e parecem cortesãos, prontos a se inclinarem diante de alguma palmeira de grande altura, verdadeiramente real e que se ergue solitária nos mais belos jardins.
Porque Betânia não tem somente a bela casa de Lázaro. Tem também outras moradas de ricos, talvez cidadãos de Jerusalém, que preferem morar aqui, perto de suas propriedades e que, acima das casinhas dos camponeses, fazem ressaltar as suas casas de campo, de amplas e belas construções, com jardins bem cuidados. Causa estranheza ver, num lugar cheio de colinas, ainda alguma palmeira, para fazer-nos lembrar do Oriente, com o seu tronco delgado e o seu topete duro e sussurrante das folhas, atrás de cujo verde jade, procura-se instintivamente o amarelo sem fim do deserto. Aqui, ao invés, veem-se oliveiras verde-prateadas e campos arados, por ora desprovidos até do menor sinal de trigo, e esqueléticos pomares com os troncos escuros e as ramagens emaranhadas, como se fossem almas que se contorcem em uma tortura infernal.
Ele vê logo também um servo de Lázaro colocado de sentinela. O servo o saúda profundamente e pede licença para ir levar a notícia de sua chegada ao patrão, e, tendo recebido a licença, vai sem demora.
Entrementes, camponeses e cidadãos acorrem para saudar o Rabi, e, de uma sebe de loureiros, que circunda com seu verde perfumado uma bela casa, aparece uma jovem mulher, que certamente não é israelita. O seu peplo ou, se é que estou bem lembrada dos nomes, a sua estola (longa até chegar a fazer uma pequena cauda, ampla, de uma lã macia e muito branca, reavivada por uma orla bordada com galões de cores vivas, nas quais brilham fios de ouro, apertada na cintura por um cinto igual a orla) e também os arranjos de sua cabeça (uma pequena rede de ouro, que conserva em seu lugar um complicado penteado, todo com cachinhos na frente e atrás liso, terminando em uma grande madeixa acima da nuca) me faz pensar que ela seja grega ou romana. Olha curiosamente, porque levam-na a olhar os gritos estridentes das mulheres e os hosanas dos homens. Depois, dá um sorriso desdenhoso, vendo que vão diretamente a um pobre homem, que não tem nem um burrinho para andar e que caminha no meio de um grupo de homens semelhantes a ele, todos ainda menos atraentes do que ele. Encolheu os ombros e, com um gesto de aborrecimento, afasta-se dali, seguida, como por uns cães, por um grupo de pernaltas multicores, entre as quais há umas íbis muito alvas e flamingos multicores, sem faltarem duas pernaltas, cor de fogo, com uma coroazinha tremulante sobre a cabeça que parece de prata, único ponto branco de sua esplêndida plumagem, que é toda como uma chama dourada.
Jesus a olha por um momento, depois volta a escutar a um pobre velho que… gostaria de não ter aquela fraqueza que tem nas pernas. Jesus o acaricia e o exorta a… ter paciência, pois daqui a pouco, vem a primavera e com o belo sol de abril, ele se sentirá mais forte.
135.2 Chega inesperadamente Maximino, que vem alguns metros à frente de Lázaro.
– Mestre… Simão me disse que… que Tu vais à casa dele… é um desgosto para Lázaro… mas se compreende…
– Falaremos nisso depois. Oh! Meu amigo!
Jesus se apressa, em direção a Lázaro, que parece estar meio acanhado e o beija na face. Chegaram a uma vereda, que conduz a uma casinha, situada entre outros pomares e o de Lázaro.
– Então, queres mesmo ir para a casa de Simão?
– Sim, meu amigo. Tenho Comigo todos os meus discípulos e prefiro assim…
Lázaro não gosta daquela decisão, mas não rebate. Somente se vira para a pequena multidão, que o segue e diz:
– Ide. O Mestre precisa descansar.
Aqui eu vejo quanto Lázaro é poderoso. Todos se inclinam às suas palavras e se retiram, enquanto Jesus os saúda com seu doce:
– Paz a vós. Eu vos mandarei avisar quando pregarei.
– Mestre –diz Lázaro agora que estão sozinhos, na frente dos discípulos que falam com Maximino alguns metros atrás–. Mestre… Marta está desmanchando-se em lágrimas. Por isso é que ela não veio. Mas virá depois. Eu choro só no coração. Mas vamos dizer: é justo. Se tivéssemos pensado que ela vinha… Mas ela não vem nunca para as festas… Sim… e quando ela vem?? Eu digo: logo hoje é que o demônio a foi trazer aqui.
– O demônio? E por que não o seu anjo, por ordem de Deus? Mas deves crer-me, mesmo que ela aqui não tivesse estado, Eu teria ido para a casa de Simão.
– Por que, meu Senhor? Minha casa não te ofereceu paz?
– Tanta paz que, depois de Nazaré, é o lugar de que Eu mais gosto. Mas, responde-me, por que é que me disseste: “Vai-te embora de Águas Belas”? Por causa das ciladas que se aproximam, não é verdade? E, por isso, Eu vou entrar nas terras de Lázaro, mas não coloco Lázaro na condição de receber insultos em sua casa. Achas que te respeitariam? Para pisar-me passariam até sobre a Arca santa… Deixa-me agir. Pelo menos, por enquanto. Depois virei. Afinal, ninguém me proíbe de ir fazer refeições em tua casa, nem que tu venhas à minha. Mas faz por onde possam dizer: “Ele está na casa de um dos seus discípulos.”
– E eu não sou um deles?
– Tu és o amigo. Para o coração, isto é mais do que discípulo. Para a malícia é coisa diferente. Deixa-me agir. Lázaro, esta casa é tua… mas não é a tua casa. A bela e rica casa do filho de Teófilo. E, para os pedantes, isso tem muito valor.
– Tu dizes assim… mas é por que… é por causa dela, é isso. Eu estava querendo persuadir-me a perdoar… mas, se ela te afasta daqui, por Deus, eu a odiarei…
– E me perderás totalmente. Deixa de lado este pensamento, já, ou já ficarás sem Mim… 135.3Eis Marta. Paz a ti, minha doce hospedeira.
– Oh! Senhor!
Marta, de joelhos, chora. Abaixou o véu que está pousado sobre o arranjo da cabeça, feito em forma de diadema, a fim de não deixar que os estranhos vejam o seu pranto. Mas a Jesus não pensa em escondê-lo.
– Por que este choro? Em verdade, estás desperdiçando estas lágrimas! Há muitos motivos para se chorar e para se fazer das lágrimas um objeto precioso. Mas chorar por este motivo! Oh! Marta! Parece que tu não sabes mais quem Eu sou! Do homem, tu o sabes. Eu não tenho mais que a veste. O coração é divino e como divino palpita. Vamos! Levanta-te e vem para casa… e ela… deixai-a em paz. Ainda que ela chegasse a zombar de Mim, deixai-a em paz, Eu vos digo. Não é ela. É aquele que a possui que a faz instrumento de perturbação. Mas aqui há Um que é mais forte que o patrão dela. Agora a luta vai ser entre Eu e ele diretamente. Vós, rezai, perdoai, tende paciência e fé. E nada mais.
Entram na casinha, que é quadrada e rodeada por um pórtico, que a alarga. Dentro, há quatro quartos, separados por um corredor em forma de cruz. Uma escada, externa como sempre, conduz ao alto do pequeno pórtico, que se transforma em um terraço e dá acesso a um grande quarto, da largura da casa, que, em certas épocas é usado para guardar as provisões, mas agora está todo desocupado e limpo, completamente vazio.
Simão, que está ao lado do velho servo, que eu ouço ser chamado pelo nome de José, está fazendo as honras da casa e diz:
– Aqui se poderia falar ao povo, ou fazer as refeições… como Tu quiseres.
– Agora vamos pensar nisso. Por enquanto, vai dizer aos outros que, depois da refeição o povo pode vir. Não decepcionarei a gente boa daqui.
– Onde eu digo que eles devem ir?
– Aqui. O dia está agradável. O lugar está protegido contra os ventos. O pomar, que agora está sem frutas, não ficará prejudicado, pelo povo que vier. Daqui do terraço, Eu falarei. Então, vai.
Ficam sozinhos Lázaro com Jesus. Marta, na necessidade de prover o que é preciso para tantas pessoas, voltou a ser a “boa hospedeira” e, com os servos e os próprios apóstolos, trabalha lá embaixo, preparando as mesas e o necessário para o descanso.
135.4 Jesus passa um braço em torno aos ombros de Lázaro e o conduz para fora do quarto grande, indo dar uns passos com ele no terraço, que fica ao redor da casa, ao belo sol, que torna morno este dia, e, lá do alto, observa o trabalho dos servos e dos discípulos, e sorri para Marta, que vai e vem e levanta o rosto sério, mas já mais sereno. Olha também para o belo panorama que circunda o lugar e vai repetindo com Lázaro os nomes das diversas localidades e pessoas, e, por fim, pergunta à queima-roupa:
– Então a morte de Doras foi um bastão agitado no ninho das serpentes?
– Oh! Mestre! Disse-me o Nicodemos que a reunião do Sinédrio foi de uma violência nunca vista!
– O que Eu fiz ao Sinédrio, para ele se inquietar? Doras morreu por si mesmo, à vista de todo o povo, morreu pela ira. Não permiti que se faltasse com o respeito para com o morto. Portanto…
– Tens razão. Mas eles… Estão loucos de medo. E… estás sabendo que eles disseram ser preciso apanhar-te em pecado, para poderem matar-te?
– Oh! Então, fica tranquilo! Terão que esperar até a hora de Deus!
– Mas, Jesus! Sabes de quem estamos falando? Sabes de que são capazes os fariseus e os escribas? Sabes que alma tem o Anás? Sabes quem é que o manda, depois dele? Sabes… mas, que é que estou dizendo? Tu sabes! E, por isso, é inútil que eu te diga que pecado eles inventarão, para poderem acusar-te.
– Eles já o encontraram. Fiz mais do que é preciso. Eu falei aos romanos, falei a pecadoras… Sim, a pecadoras, Lázaro. Uma delas, e não me fiques olhando assim espantado, uma delas vem sempre ouvir-me e está hospedada em uma estrebaria do teu feitor, a pedido meu, porque, para ficar perto de Mim, ela tinha ido ficar num chiqueiro de porcos…
Lázaro está como uma estátua, pasmado. Nem se move mais. Olha para Jesus, como se estivesse vendo alguém que, por sua estranheza, causa espanto.
Jesus o sacode sorrindo.
– Terás visto o Mamon? –lhe pergunta.
– Não. Eu vi a Misericórdia. Mas… mas eu o entendo. Eles, os do Conselho, não. Eles dizem que é pecado. Então é verdade! Eu pensava… Oh! que fizeste?
– O meu dever, o meu direito e o meu desejo: procurar redimir um espírito caído. Estás vendo, portanto, que tua irmã não será a primeira lama de que Eu me aproximo e sobre a qual me inclino. E não será a última. Sobre a lama, quero semear flores e fazer que nasçam as flores do bem.
– Oh! Deus! Meu Deus!! Mas… Oh! Meu Mestre, Tu tens razão. É o teu direito e o teu dever e é o teu desejo. Mas as hienas não compreendem isso. Elas são umas carniças tão fétidas, que não sentem, não podem sentir o odor dos lírios. E mesmo onde eles florescem, esses poderosos covardes sentem cheiro de pecado; não compreendem que do fedor deles é que ele sai… 135.5Eu te peço. Não pares por muito tempo em um lugar. Vai, gira, sem dar-lhes o modo de alcançar-te. Sê como um fogo-fátuo, dançante sobre os caules das flores, rápido, que não se pode pegar, desconcertante no seu andar. Faz assim. Não por covardia, mas por amor do mundo, que precisa que Tu vivas, para ser santificado. A corrupção aumenta. É preciso que lhe contraponhas a santificação… A corrupção!! Viste a nova cidadã de Betânia? É uma romana casada com um judeu. Ele até que é observante. Mas ela é idólatra e, não podendo viver bem em Jerusalém, porque surgiram discussões com os vizinhos, por causa dos animais dela, veio aqui. A casa dela está cheia de animais, que para nós são imundos e… a mais imunda é ela, porque vive zombando de nós e com certas liberdades que… Eu não posso criticar porque… Mas eu digo que, enquanto não se põe o pé em minha casa por estar nela Maria que, com o seu pecado pesa sobre a família toda, à casa daquela mulher, eles vão. Ela caiu nas graças de Pôncio Pilatos e vive sem o marido. Ele está em Jerusalém. Ela aqui. E assim fingem ele e eles, não profanar-se quando vêm e não constatar que se estão profanando. Hipocrisia! Atolados na hipocrisia até o pescoço! Dentro em pouco, nos afogaremos. Sábado é o dia do banquete… E eles até fazem parte do Conselho! O mais assíduo é um filho de Anás.
– Eu a vi. Sim. E deixa fazer. E deixa que façam. Quando um médico prepara um remédio, mistura as substâncias e a água parece ficar suja, porque ele os agita e a água fica turva. Mas depois, as partes mortas se depositam no fundo e a água se torna límpida, ainda que esteja saturada dos sucos daquelas substâncias salutares. Assim é agora. Tudo se mistura e Eu trabalho com todos. Depois, as partes mortas se depositarão e serão jogadas fora, mas as outras vivas permanecerão ativas no grande mar do povo de Jesus Cristo. Vamos descer. Estão nos chamando…
135.6 … E a visão recomeça, enquanto Jesus torna a subir no terraço para falar às pessoas de Betânia e dos lugares vizinhos, que chegaram para ouvir.
– A paz esteja convosco.
Ainda que Eu me calasse, os ventos de Deus levariam a vós as palavras do meu amor e do ódio de outros. Sei que estais agitados, porque não ignorais o porquê Eu estou entre vós. Mas vós não façais disso mais que uma agitação de alegria e Comigo bendizei o Senhor, que usa do mal para dar uma alegria aos seus filhos, reconduzindo sob o aguilhão do mal o seu Cordeiro, por entre os cordeiros, a fim de colocá-lo a salvo dos lobos.
Vede como é bom o Senhor. Ao lugar onde Eu estava chegaram, como águas a um mar, um rio e um regato. Um rio de amorosa doçura, um regato de ardente amargor. O primeiro era o amor de vós, de Lázaro e Marta ao último da cidade; o regato era a injusta raiva de quem, não podendo ir para o Bem, que o convida, acusa o Bem de ser um Delito. E o rio dizia: “Volta, volta entre nós. Que as nossas ondas te rodeiem, te isolem, te defendam. E te deem tudo aquilo que o mundo te nega”. O regato malvado assobiava ameaças e queria matar com o seu tóxico. Mas, que é um regato, em comparação a um rio, e ainda mais, em comparação a um mar? Nada. E em nada se transformou o tóxico do regato, porque o rio do vosso amor o superou, e no mar do meu amor não entrou senão a doçura do vosso amor. Aliás, fez bem. Trouxe-me de volta a vós. Bendigamos por isso ao Senhor Altíssimo.
A voz de Jesus se expande poderosa pelo ar calmo e silencioso. Jesus, tão belo ao sol, gesticula e sorri serenamente do alto do terraço. Embaixo, o povo o escuta feliz: uma florada de rostos levantados, que sorriem com a harmonia de sua voz. Lázaro está perto de Jesus, como também Simão e João. Os outros estão espalhados pelo meio do povo. Sobe também Marta e vai sentar-se no chão, aos pés de Jesus, virada para o lado de sua casa, que aparece para lá do pomar.
– O mundo é dos maus. O Paraíso é dos bons. Esta é a verdade e a promessa. E sobre essa se apoie a vossa força com firmeza. O mundo passa. O Paraíso não passa. Se, sendo bom, alguém o conquista, gozará dele para sempre. E então? Por que turbar-se pelo que fazem os maus? Lembrai-vos dos lamentos de Jó? São os eternos lamentos de quem é bom e oprimido; porque a carne geme, mas não deveria gemer, e, quanto mais espezinhada, mais deveria alçar as asas da alma, no júbilo do Senhor.
Credes vós que sejam felizes aqueles que parecem felizes porque, de modo lícito e, ainda mais, de modo ilícito, estão com seus celeiros repletos, cheias as suas dornas e com seus odres transbordantes de óleo? Não. Eles sentem o sabor do sangue e das lágrimas alheias em todos os seus alimentos, e sua cama lhes parece cheia de espinhos, tanto sentem nela os remorsos gritantes. Depredam os pobres, despojam os órfãos, roubam o próximo para amontoarem, oprimem os que são menores do que eles em poder e perversidade. Não importa. Deixai-os. O reino deles é deste mundo. E, quando eles morrerem, que sobrará? Nada, se não se quer chamar de tesouro ao monte de culpas que eles levarão consigo e com o qual se apresentarão a Deus. Deixai-os. São os filhos das trevas, os rebeldes à Luz, e não podem seguir os luminosos caminhos desta. Quando Deus faz brilhar a estrela da manhã, eles a chamam de sombra da morte, e, como tal, julgam-na contaminada, e preferem caminhar ao brilho sujo do ouro e de seu ódio, que reluz, somente porque as coisas de inferno brilham, com o fósforo dos lagos eternos da perdição….
135.7 – Minha irmã, Jesus… oh!
Lázaro avista ao longe Maria, que vai deslizando por trás de uma sebe do pomar de Lázaro, para chegar o mais perto possível. Vai encurvada. Mas sua cabeça loira brilha como ouro, contra o buxo escuro.
Marta procura levantar-se. Mas Jesus preme-lhe a mão sobre a cabeça e ela tem que ficar onde está. Jesus eleva ainda mais o tom de sua voz.
– Que diremos desses infelizes? Deus lhes deu tempo de fazer penitência e eles abusam dele para pecar. Mas Deus não os perde de vista, ainda que pareça que sim. Chegará o momento no qual, ou porque, como um raio que penetra até no rochedo, o amor de Deus rasga o duro coração deles, ou porque a soma dos delitos leva a onda de lama até às suas faces e a seus narizes — e eles sentem, oh! finalmente eles sentem! o nojo daquele sabor e daquele fedor, que para os outros é repugnante e que enche o coração deles — e chega um momento em que ficam com nojo daquilo e surge neles um movimento de desejo do bem.
A alma então grita1: “E quem me dera poder voltar aos tempos de antes, quando eu estava na amizade com Deus! Quando a sua luz brilhava em meu coração e, ao brilho dela, eu caminhava! Quando, diante da minha justiça, o mundo calava admirado, e quem me via me dizia feliz! O mundo bebia o meu sorriso e minhas palavras eram acolhidas como palavras de um anjo e pulava de orgulho o coração no peito dos meus familiares. E agora, que sou eu? Zombaria para os jovens, horror para os anciãos, sou o sujeito de suas canções e o cuspe do desprezo deles atinge o meu rosto.” Sim, assim fala em certas horas a alma dos pecadores, dos verdadeiros Jós, porque não há miséria maior do que esta, de alguém que perdeu para sempre a amizade de Deus e o seu Reino. E devem causar pena. Somente pena.
São pobres almas que, por ociosidade ou leviandade, perderam o Esposo eterno. “De noite, em meu leito procurei o amor de minha alma e não o encontrei.” De fato, nas trevas não se pode distinguir o esposo, e a alma, estimulada pelo amor, sem pensar, porque cercada pela noite espiritual, procura e quer encontrar um refrigério para o seu tormento. Pensa encontrá-lo em um amor qualquer. Não. Só um é o amor da alma: Deus. Vão buscando o amor, estas almas, que o amor de Deus aguilhoa. Bastaria que quisessem em si a luz, e teriam amor ao seu consorte. Vão como doentes, procurando, às cegas, o amor, e encontram todos os amores, todas as coisas sujas às quais o homem deu esse nome, mas não encontram o amor; porque o amor é Deus e não o ouro, a sensualidade, o poder.
Pobres, pobres almas! Se elas, menos ociosas, se tivessem levantado, ao primeiro convite do Esposo eterno, para Deus que diz “Segue-me”, para Deus que diz “Abre-me”, não teriam chegado a abrir a porta, com o ímpeto do amor nelas despertado, quando o Esposo decepcionado já ia longe. Desaparecido… E não teriam profanado aquele ímpeto santo, de uma necessidade de amor, em algum lamaçal, que causa nojo até ao animal imundo, de tão inútil que é, e espalhado de abrolhos triturados, que não eram flores, mas somente acúleos, que rasgam, mas não servem para coroas. E não teriam conhecido as zombarias dos guardas da ronda, de todo o mundo que, como Deus, mas por motivos opostos, não perdem de vista o pecador e o espreitam, para zombarem dele e criticá-lo. Pobres almas, surradas, despojadas, feridas por todo mundo! Só Deus é que não se une a este apedrejamento feito por um escárnio impiedoso. Mas faz que caiam suas lágrimas, para curar as feridas e revestir com uma veste diamantina a sua criatura. Sempre sua criatura… Só Deus… e os filhos de Deus com o Pai.
Bendigamos ao Senhor. Ele quis que pelos pecadores Eu aqui tivesse que voltar, para dizer-vos “Perdoai. Perdoai sempre. Fazei de todo mal um bem. Fazei de toda ofensa uma graça.” Não vos digo “Fazei” somente. Eu vos digo: Repeti o meu gesto. Eu amo e bendigo os inimigos porque, por causa deles, Eu pude voltar a vós, meus amigos.
A paz esteja com todos vós.
O povo agita véus e ramos para Jesus e depois se afasta lentamente.
135.8 – Terão visto aquela impudente?
– Não, Lázaro. Ela estava atrás da sebe e bem escondida. Nós podíamos vê-la, porque estamos aqui no alto. Os outros não.
– Ela nos tinha prometido que…
– Por que não haveria de vir? Não é ela também uma filha de Abraão? Quero de vós, irmãos, e de vós, discípulos, a promessa solene de não levar nada ao conhecimento dela. Deixai-a agir. Zombará de Mim? Deixai que zombe. Chorará? Deixai que chore. Quererá ficar? Deixai-a ficar. Quererá fugir? Deixai que fuja. É o segredo do Redentor e dos redentores: ter paciência, bondade, constância e oração. Nada mais. Qualquer movimento é demais junto a certas doenças… Adeus, meus amigos. Eu vou ficar aqui e rezar. Vós, ide cada um para a sua tarefa. E que Deus vos acompanhe.
E tudo termina.
1 grita, como em:Job 29; 30,1-10. A citação sucessiva é de: Cântico dos cânticos 3,1.