110. 110. Na casa de Jacó junto ao lago Meron.
17 de fevereiro de 1945.
110.1 Eu diria que, além do lago da Galileia e do Mar Morto, a Palestina tem um outro lago pequeno, ou lagoa, um espelho d’água em suma, cujo nome eu ignoro. Nesse assunto de medidas, eu não valho nada, mas, assim a olho, eu diria que esta pequena bacia pode ter uns três quilômetros, por dois, mais ou menos. Pouca, bem pouca coisa, como se vê. Mas é gracioso no seu contorno verde e no seu espelho tão azul e plácido, a ponto de parecer uma grande escama de esmalte da cor do céu, tendo ao centro listras mais claras e ligeiramente mais agitadas, talvez por causa da corrente do rio que nele penetra no lado norte, para sair no lado sul, e que, apesar da leveza desse espelho d’água, pois creio que a lagoa tem pouca profundidade, não perde a sua correnteza, mas, como uma veia viva no meio de uma água parada, mostra essa sua vitalidade e presença com uma cor diferente e um leve enrugamento das águas.
Não há barcos a vela no pequeno lago, somente pequenos barcos a remo, dos quais algum pescador solitário lança e puxa suas cestas de pesca, ou com eles transporta algum viajante que quer encurtar seu caminho. E rebanhos e mais rebanhos, que certamente estão descendo das pastagens das montanhas, por causa do outono que já vem chegando, e vêm pastar nestas margens de prados verdes e viçosos.
110.2 Na extremidade sul do lago, visto que é de forma oval, passa uma estrada mestra, que se estende de leste para oeste, ou melhor, de nordeste para sudoeste. É uma estrada bem conservada e muito batida pelos passantes, que se dirigem aos povoados esparsos pela região. Por essa estrada prossegue Jesus com os seus.
O dia está um pouco escuro e Pedro observa:
– Era melhor não ter ido à casa daquela mulher. Os dias vão ficando cada vez mais curtos e feios… e Jerusalém ainda está muito longe.
– Chegaremos a tempo. E, acredita-me, Pedro, vale mais obedecer a Deus para fazer o bem, do que ir fazer uma cerimônia externa. Aquela mulher agora bendiz a Deus com todos os seus filhos, ao redor do dono da casa, que já está tão curado, que vai até poder estar em Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos, enquanto teria devido, por aquele tempo, já estar dormindo sob as faixas e os aromas de um sepulcro. Não deteriores nunca a fé com a exterioridade dos atos. Não se deve criticar nunca. Mas como podes estranhar os fariseus, se tu também cais assim num erro de piedade e fechas teu coração ao próximo, dizendo: “Eu sirvo a Deus e basta”?
– Tens razão, Mestre. Eu sou mais ignorante do que um burrinho.
– E Eu te tenho Comigo para fazer de ti um sábio. Não tenhas medo. Cusa me ofereceu o carro, quase até o Jaboque. Dali até o vale, o caminho é pouco. Ele insistiu tanto, e com razões tão justas, que Eu cedi, por mais que Eu creia que o Rei dos pobres deve servir-se dos meios que os pobres usam. Mas a morte de Jonas nos atrasou, e Eu preciso adaptar os meus propósitos a este imprevisto.
110.3 Os discípulos falam de Jonas, compadecendo-se de sua mísera vida e invejando a sua feliz morte.
Simão Zelote murmura:
– Não pude fazê-lo feliz, e dar ao Mestre um verdadeiro discípulo, amadurecido em um longo martírio, e numa fé inabalável… e sinto pesar por isso. O mundo tem tanta necessidade de almas fiéis, que adoram firmemente a Jesus, para equilibrar os tantos que se recusam ou se recusarão a fazê-lo!
– Não importa, Simão! –responde Jesus–. Ele está mais feliz agora. E mais ativo. Tu fizeste mais do que teria feito qualquer outro por ele e por Mim. Também em nome dele Eu te agradeço. Agora ele sabe quem foi o seu libertador. E te bendiz.
– Então, ele amaldiçoa a Doras também –exclama Pedro.
Jesus o olha e lhe pergunta:
– Assim achas? Estás errado. Jonas era um justo. Agora é um santo. Em vida não odiou, nem amaldiçoou. Não será agora que irá odiar e amaldiçoar. Ele, lá do seu lugar de repouso, está olhando para o Paraíso, e, como ele já sabe que logo, o Limbo deixará sair os que lá estão esperando, ele está jubilante. E não faz nada mais.
– E tua maldição, não cairá sobre o Doras?
– Em que sentido, Pedro?
– Ora… fazendo-o meditar e mudar… ou… ferindo-o com um castigo.
– Eu o entreguei à Justiça de Deus1. Eu, o Amor, o abandonei.
– Misericórdia! Eu não queria estar no lugar dele!
– Nem eu!
– Tampouco eu!
– Ninguém quereria, porque como será a Justiça do Perfeito? –dizem os discípulos.
– Para os bons será um êxtase, para os satanases será um raio, amigos. Em verdade, Eu vos digo: ser escravo a vida inteira, ou leproso, ou mendigo, é uma felicidade de rei, em comparação a uma, uma hora só, de castigo divino.
110.4 – Mestre, está chovendo. Que vamos fazer? Para onde iremos?
De fato, sobre o lago, que se escureceu, refletindo o céu, agora todo coberto de nuvens plúmbeas, começam a cair e a ricochetear as primeiras grandes gotas de uma chuva que promete intensificar-se.
– Para alguma casa. Pediremos abrigo em nome de Deus.
– E vamos esperar que encontremos alguém que seja bom, como aquele romano. Não imaginava que fossem assim… Sempre os tinha evitado, como a uns imundos e vejo que… sim, se fizer bem as contas, são melhores do que muitos de nós –diz Pedro.
– Gostas dos romanos? –pergunta Jesus.
– Ah!! Acho que eles não são piores do que nós. Só que são uns samaritanos…
Jesus sorri e não diz nada.
São alcançados por uma mulherzinha que impele oito ovelhas para a frente.
– Mulher, sabes dizer-nos onde poderemos encontrar um abrigo?… –pergunta Pedro.
– Eu sou serva de um homem pobre e sozinho. Mas, se quiserdes ir… penso que meu patrão vos acolherá com bondade.
– Vamos.
Vão sob o aguaceiro, rápidos em meio às ovelhas que trotam com seus corpos pesados, para fugirem do pé d’água. Deixam a estrada mestra, para pegarem uma estradinha, que conduz a uma casinha baixa. Reconheço a casa do camponês Jacó, aquele do Matias e da Maria, os dois órfãos da visão2 de agosto, me parece.
– Eis, é lá! Correi na frente, enquanto eu levo as ovelhas para o ovil. Além do murinho, há um pátio, e dele se vai para a casa. O patrão deve estar na cozinha. Não repareis se é de poucas palavras… Tem muitas preocupações.
A mulher se dirige a um pequeno quarto escuro à direita. 110.5Jesus com os seus viram à esquerda.
Eis a eira com o poço e o forno ao fundo, e uma macieira ao lado e eis a porta escancarada da cozinha na qual vê-se aceso um fogo de gravetos e um homem consertando um utensílio agrícola quebrado.
– Paz a esta casa. Venho te pedir abrigo, por esta noite, para Mim e para os meus companheiros –diz Jesus sobre a soleira da porta.
O homem levanta a cabeça.
– Entra –diz ele–, e que Deus te dê a paz que me ofereces. Mas… paz aqui! A paz é inimiga de Jacó, já de algum tempo. Entra, entra!! Entrai todos. O fogo é a única coisa que posso dar-vos com abundância… porque… Oh! mas… mas Tu, agora que tiraste o capuz (Jesus tinha coberto a cabeça com a orla do manto, conservando-o seguro com a mão sob o pescoço) e te vejo bem… Tu és, sim, és o Rabi Galileu, o que dizem que é o Messias e que faz milagres… És Tu? Diz em nome de Deus.
– Sou Jesus de Nazaré, o Messias. Tu me conheces?
– Eu te ouvi falar na casa de Judas e Ana, na lua passada… eu estava entre os vindimadores porque… eu sou pobre… Uma série de infortúnios: granizo, as lagartas, doenças nas plantas e nas ovelhas… Para mim, só com uma serva, bastava o que eu tinha. Mas agora eu contraí dívidas, porque estou sendo perseguido pela má sorte… Para não ter que vender todas as ovelhas, trabalhei nas propriedades dos outros… Os meus campos!! Parecia até que a guerra houvesse passado por eles, de tão queimados que estavam, com suas videiras e oliveiras improdutivas. Desde que minha mulher morreu, e já são seis anos, parece que Mamon está divertindo-se comigo. Estás vendo? Eu estou trabalhando com este arado. Mas a madeira está toda quebrada. Como é que eu faço? Não sou carpinteiro, e amarro, amarro. Mas não adianta. E preciso também poupar o dinheiro, agora… Venderei mais uma ovelha para poder consertar os utensílios. O telhado tem goteiras… mas estou mais preocupado com o campo do que com a casa. É uma pena! As ovelhas estão todas prenhes… eu esperava refazer o rebanho… mas…
– Vejo que vim dar incômodo, onde já há tanto incômodo.
– Incômodo, Tu? Não. Eu te ouvi falar e… em meu coração ficou aquilo que disseste. É verdade que tenho trabalhado honestamente, contudo… Mas acho que não era ainda bom o bastante. Acho que talvez boa era a mulher, que tinha pena de todos, pobre Lia, morta tão cedo, muito cedo para o seu marido… Acho que o bem-estar daqueles tempos vinha do Céu por meio dela. E quero tornar-me melhor por causa daquilo que Tu dizes, e para imitar a minha esposa. E não peço muito… só de permanecer nesta casa, onde ela morreu, onde eu nasci… e ter um pão para mim e para a serva, que para mim é mulher e pastora, e me ajuda como pode. Não tenho mais servos. Tinha dois, e me bastavam, trabalhando eu também, nos campos e no olival… Mas tenho pão só para mim, e ainda é escasso…
– Não te prives dele por causa de nós…
– Não, Mestre. Ainda que tivesse só um pedaço, eu o daria a Ti. Para mim é uma honra ter-te em minha casa… Nunca o teria esperado. Mas, se te conto as minhas misérias, é porque Tu és bom e compreendes.
– Sim, Eu compreendo. 110.6Dá-me aquele martelo. Não é assim que se faz. Desse jeito despedaças a madeira. Dá-me também aquele punção, mas depois de tê-lo abrasado. Furar-se-á a madeira melhor e passaremos com mais facilidade a cunha de ferro. Deixa-me fazer. Eu era carpinteiro…
– Tu trabalhar para mim? Não!
– Deixa-me fazer. Tu me estás hospedando. Eu te ajudo. É preciso que os homens se amem, dando cada um o que pode.
– Tu dás a paz, dás a sabedoria, e dás o milagre. Já dás muito, muito!
– Dou também o trabalho. Vamos, obedece…
E Jesus, que está vestido apenas com a túnica, trabalha rápido e com experiência sobre o timão quebrado, fura, amarra, encavilha, experimenta até ver que está firme.
– Poderás trabalhar com ele por muito tempo ainda. Até o ano que vem. E então poderás fazer um novo.
– Eu também acho. Aquela relha esteve em tuas mãos e me abençoará a terra.
– Não é por isso, Jacó, que ela te abençoará.
– Por que então, meu Senhor?
– Porque tu usas de Misericórdia. Não te fechas no rancor do egoísmo e da inveja, mas aceitas a minha doutrina, e a pões em prática. Bem-aventurados os misericordiosos. Eles alcançarão Misericórdia.
– Em que eu a estou usando para Contigo, meu Senhor? Quase não tenho lugar nem alimento para a tua necessidade. Não tenho mais que boa vontade, e nunca como agora me pesou a indigência, por não ter com que prestar minhas honras a Ti e aos teus amigos.
– Basta-me o teu desejo. Em verdade, Eu te digo que ainda que seja um só copo d’água dado em meu nome já é uma grande coisa, aos olhos de Deus. Eu era um viajante cansado, debaixo da tempestade, tu me hospedaste. Chegou a hora da refeição e tu me dizes: “Ofereço-te tudo o que tenho.” A noite desce, e tu me ofereces um teto amigo. E que mais queres fazer? Confia, Jacó. O Filho do homem não olha para a pompa da recepção e do alimento, olha para o sentimento do coração. O Filho de Deus diz ao Pai: “Pai, abençoa os meus benfeitores e todos aqueles que em meu nome são misericordiosos com os irmãos.” Isto Eu digo para ti.
110.7 A serva que, enquanto Jesus estava trabalhando no arado, tinha falado com o patrão, vem voltando com pão, leite tirado na hora, algumas maçãs murchas e uma bandeja com azeitonas.
– Não tenho outras coisas –desculpa-se o homem.
– Oh! Que Eu vejo entre o teu alimento, um alimento que tu não estás vendo! E daquele é que me alimento, porque tem um sabor celeste.
– Talvez Tu te nutres, Tu, Filho de Deus, de algum alimento que te é trazido pelos anjos? Talvez vivas do pão do espírito.
– Sim. Mais que o corpo, o que tem valor é o espírito, e não em Mim somente. Mas não me alimento de pão dos anjos, e, sim, do amor do Pai e dos homens. Este, Eu o encontro também em tua mesa, e por ele bendigo ao Pai, que me conduziu com amor até ti, e abençoo a ti que com amor me acolhes, e amor me dás. Eis o meu alimento unido ao do fazer a vontade de meu Pai.
– Abençoa então, e oferece Tu por mim o alimento a Deus. Hoje Tu és o Chefe da minha família, e sempre serás o meu Mestre e Amigo.
Jesus pega e oferece o pão, tendo-o nas palmas das mãos, levantadas, e reza com um salmo, ao que me parece. Depois Ele se assenta, parte e distribui…
Assim tudo chega ao fim.
1 Eu o entreguei à Justiça de Deus: o sentido desta afirmação, que é análoga à de 109.12 (“Eu te entrego ao Deus do Sinai”) e a uma outra que encontraremos em 476.6 (“Eu sou o Amor. É verdade. Mas sobre Mim está o Pai. E Ele é a Justiça”), será esclarecido no texto 191.8 e de 216.2.
2 visão de 20 de Agosto de 1944, que será inserida no capítulo 298.