488. 488. No Templo, para a festa dos Tabernáculos.Partida secreta para Nob depois da oração.


5 de setembro de 1946.

488.1 Sem preocupar-se nada com a má vontade dos outros, Jesus volta ao Templo, para o terceiro dia. Mas Ele não deve ter dormido em Jerusalém, pois suas sandálias se mostram muito empoeiradas. Talvez tenha passado a noite sobre as colinas, que ficam ao redor da cidade. Com Ele devem ter estado os seus irmãos Tiago e Judas, junto com José (o pastor) e Salomão. Ele se encontra com os outros apóstolos e discípulos perto da muralha ocidental do Templo.

– Eles vieram, sabes? Tanto a nós, como aos discípulos mais conhecidos. Foi bom que Tu não estivesses aqui.

– Devemos fazer sempre assim.

– Está bem. Mas falaremos disso depois. Vamos…

– Uma grande multidão veio à tua frente, e à nossa, exaltando os teus milagres. Quantos se persuadiram, e creem em Ti! Tinham razão os teus irmãos nisto –diz João, o apóstolo.

– Eles foram procurar-te até em Anália, sabes?

– E no palácio da Joana. Mas encontraram somente Cusa… e com muito mau humor! Ele os expulsou como a uns cães, dizendo que em sua casa não quer espiões, e que já os teve, mas que deles basta. Quem no-lo disse foi Jônatas, que está aqui com seu patrão –diz Daniel, um pastor.

– Sabes? Os escribas queriam dispersar aqueles que te estavam esperando, querendo persuadi-los de que Tu não és o Cristo. Mas eles lhes responderam: “Não é o Cristo? E quem quereis que Ele seja? Poderá, por acaso, algum outro homem fazer os milagres que Ele faz? Por acaso os fizeram os outros que diziam serem o Cristo? Mas, não. Poderão surgir cem ou mil impostores, talvez até criados por vós, e que digam que são o Cristo. Mas nenhum dos que possam aparecer nunca fará mais milagres como os que Ele faz, nem tantos como Ele faz.” E, posto que os escribas e fariseus afirmavam que Tu os fazes porque és um Belzebu, eles responderam: “Oh! Então vós deveríeis fazer uma arruaça, porque é certo que sois do Belzebu, ao tratardes mal ao Santo” –conta Pedro, e se ri, e todos se riem, lembrando-se da saída da multidão e do escândalo dos escribas e fariseus, que tinham ido embora, indignados.

488.2 Já estão dentro do Templo, e logo ficam rodeados por uma multidão ainda mais numerosa do que a que aí esteve nos dias passados.

– Paz a Ti, Senhor! Paz! Paz! –gritam os Israelitas.

– Salve,Mestre! –saúdam os gentios.

– A paz e a luz venham a vós –responde Jesus, com uma única saudação.

– Nós estávamos com medo de que te houvessem capturado, ou que não viesses, por prudência, ou por desgosto. Aqui estaríamos a procurar-te por toda parte –dizem muitos.

Jesus tem um sorriso pálido, e pergunta:

– Então, não me quereis perder?

– Se nós te perdermos, Mestre, quem é que nos dará as lições e graças que Tu nos dás?

– As minhas lições ficarão em vós, e cada vez melhor as compreendereis, quando Eu me tiver ido embora… Por causa da minha ausência entre os homens não cessarão de descer as graças sobre os que rezarem com fé.

– Oh! Mestre! Mas queres mesmo ir-te embora? Por onde fores, nós iremos atrás de Ti. Temos muita necessidade de Ti.

– O Mestre assim diz para saber se o amamos. Mas, para onde quereis que vá o Rabi de Israel, a não ser aqui para Israel?

– Em verdade Eu vos digo que ainda por pouco tempo Eu estarei convosco e irei àqueles aos quais meu Pai me mandou. Depois me procurareis e não me achareis. Para onde Eu vou, vós não podereis ir. 488.3Mas agora deixai-me andar. Hoje Eu não falarei aqui dentro. Tenho pobres que estão à minha espera em outros lugares, e que não podem vir, porque estão muito doentes. Depois da oração, Eu irei a eles.

Com a ajuda de seus discípulos, Ele abre caminho indo para o Pátio dos Israelitas. Os que ficaram olham-se uns aos outros.

– Mas, para onde é que vais?

– Ele vai para a casa do seu amigo Lázaro, com certeza. Lázaro está muito doente.

– Eu queria dizer “para onde irá”, não hoje, mas quando nos deixar para sempre. Não ouvistes o que Ele disse, que nós não poderemos encontrá-lo?

– Talvez irá reunir todo Israel, evangelizando os nossos que estão dispersos por entre as nações. A Diáspora também espera, como nós, o Messias.

– Ou, então, irá ensinar aos pagãos, para trazê-los ao seu Reino.

– Não. Não deve ser assim. Sempre poderemos encontrá-lo, ainda que estivesse na longínqua Ásia, ou no centro da África, ou em Roma, nas Gálias, na Ibéria, ou na Trácia, ou entre os Sármatas. Se Ele diz que não o acharemos, ainda que o procuremos, é sinal de que não estará em nenhum desses lugares.

– Mas, e então? Que quererá dizer aquilo que Ele disse: “Procurar-me-eis e não me encontrareis, e aonde Eu estou, vós não podereis ir”? “Eu estou…” Não: “Eu estarei…” Onde é, então? Não está Ele aqui entre nós?

– Eu to direi, Judas. Ele parece um homem, mas é um espírito!

– Mas, não! Entre os discípulos, há alguns que o viram, quando Ele nasceu. Até mais do que isso. Viram sua Mãe grávida dele, poucas horas antes de Ele nascer.

– Mas depois será mesmo aquele menininho, que agora se tornou homem? Quem nos garante que Ele não é outro ser?

– Ah! Não. Ele poderia ser um outro, e os pastores podiam enganar-se. Mas, e a Mãe? E os seus irmãos. E todo o povoado!

– Os pastores reconheceram a Mãe?

– Certamente que sim…

– Então… então, por que será que Ele diz: “Para onde Eu estou, vós não podereis ir.” Para nós é o futuro: podereis. Para Ele fica o presente: estou. Então não terá futuro este Homem?

– Não sei o que te dizer. Assim é.

– Eu vo-lo digo. É um louco.

– Isso, tu é que o serás, ó espião do Sinédrio.

– Eu, espião? Eu sou um judeu que o admira. Dissestes que procure Lázaro?

– Nós não dissemos nada, velho espião. Nós não sabemos nada. E, se o soubéssemos, não te diríamos, Vai dizer aos que te mandam que o procurem, eles. Espião! Espião! Espião pago!

O homem se vê em maus lençóis, e trata de desaparecer logo.

– Mas nós estamos aqui. Se tivéssemos saído, o teríamos visto. Corre daqui! Corre dali! Dizei-nos que caminho Ele tomou. Dizei-lhe que não vá à casa de Lázaro.

Os que são de pernas leves vão galopando… E voltam…

– Ele não está mais… Mas misturou-se com a multidão, e ninguém sabe dizer…

Decepcionada, a multidão lentamente vai se desfazendo…

488.4 … Mas Jesus está muito mais perto do que eles possam achar. Tendo saído por alguma porta, fez uma volta ao redor da Fortaleza Antônia, e saiu da cidade pela Porta do Rebanho, descendo para o Vale do Cedron, que tem muito pouca água, e toma o caminho para o Monte das Oliveiras, que naquele ponto são viçosas e misturadas ainda com o matagal, que faz ficar sombria, eu diria fúnebre, esta parte de Jerusalém apertada entre as escuras muralhas do Templo, o qual domina daquele lado com todo o seu Monte e com o Monte das Oliveiras do outro. Mais ao sul, o vale se torna mais claro e se alarga, mas aqui é bem estreito, como se fosse uma unhada dada por alguma garra gigantesca, que fez um sulco profundo entre os Montes Mória e o das Oliveiras.

Jesus não vai para o Getsêmani, mas certamente para o rumo oposto, para o norte, sempre indo por sobre o monte, que depois se alarga em um vale selvagem, onde, mais encostado a uma série de colinas baixas, selvagens e pedregosas, forma uma torrente, que faz um arco ao norte da cidade. Às oliveiras sucedem nesse ponto umas arvorezinhas estéreis, espinhosas, contorcidas, desfolhadas, misturadas com umas sarças, que lançam tentáculos para todos os lados. Este é um lugar muito triste, muito solitário. Tem até mesmo uns ares de lugar infernal e apocalíptico. Há por aqui um ou outro sepulcro, nada mais. Não há nem leprosos, e é de estranhar-se esta solidão, que contrasta com a multidão, que se vê na cidade e que está tão perto daqui, tão cheia de gente e de barulho. Aqui, tirando o barulho que faz a água sobre os seixos e o frufru do vento sobre as árvores nascidas por entre as pedras, não se ouve nenhum outro rumor. Faz falta aqui até a nota alegre dos passarinhos, tão numerosos por entre as oliveiras do Getsêmani e do Olivete. O vento, um tanto forte, que vem do nordeste, levantando pequenos redemoinhos de poeira, afasta o rumor da cidade, e o silêncio, um silêncio de lugar morto, reina por ali, opressivo, quase amedrontador.

488.5 – Mas será por aqui mesmo que se vai? –pergunta Pedro a Isaque.

– Sim, sim. Vai-se também por outras estradas, saindo-se pela Porta de Herodes ou, melhor ainda, pela de Damasco. Mas é bom que conheçais as sendas menos conhecidas. Nós temos andado por todos os arredores, a fim de conhecê-las, e vo-las ensinar. Assim podereis ir aonde quiserdes, pelas vizinhanças, sem passardes pelas ruas de costume.

– Pode-se confiar naqueles de Nobe? –diz ainda Pedro.

– Como nos de tua casa… Tomé, no inverno passado, Nicodemos sempre, o sacerdote João, seu discípulo, e outros, têm feito daquele lugar um lugar para eles.

– E tu o fizeste mais do que todos –diz Benjamim (pastor).

– Oh! Eu! Então, todos o fizeram, porque eu fiz. Mas, podes crer, Mestre, que agora na cidade tudo tem lugares seguros…

– Até Ramá… –diz Tomé, que torce por sua cidade–. Meu pai e meu cunhado pensaram em Ti com Nicodemos.

– Então, também Emaús –diz um homem, que para mim não é novo, mas não sei dizer precisamente quem seja, ainda mais porque já tenho encontrado mais de uma Emaús na Judeia, sem falar daquele lugar perto de Tariqueia.

– Lá é longe para se ir e voltar, como estou fazendo agora. Mas não deixarei de ir lá alguma vez.

– E à minha casa? –diz Salomão.

– Lá, com certeza, pelo menos uma vez para saudar a velha.

– Há Beter também.

– E Betsur.

– Eu não irei à casa das discípulas, mas, quando for necessário, as chamarei a mim.

– Eu tenho um amigo sincero, perto de En Rogel. A casa dele te está aberta. Ninguém ficará pensando, entre os que te odeiam, que Tu estás perto deles –diz Estêvão.

– O jardineiro dos jardins reais pode hospedar-te. Ele forma uma só pessoa com Manaém, que foi quem lhe arranjou aquele posto… e depois… Foste Tu que o curaste um dia…

– Eu? Não o conheço…

– Foi naquela Páscoa dos pobres, que Tu curaste na casa de Cusa1.

Um golpe com uma foice suja de estrume fez que uma perna dele apodrecesse, e o seu primeiro patrão o havia mandado embora por isso. Ele pedia esmola para tratar de seus filhos. E Tu o curaste. Depois Manaém o colocou nos jardins, obtendo para ele esse posto, em um dos momentos bons de Antipas. Agora o homem faz tudo o que Manaém manda. E para Ti, então… –diz Matias, o pastor.

488.6 – Eu nunca vi Manaém convosco –diz Jesus, fitando muito Matias, que mudou de cor, e ficou perturbado–. Vem, mais à frente, comigo.

O discípulo o acompanha.

– Fala!

– Senhor, Manaém errou… e está sofrendo muito, com ele Timoneu e alguns outros também. Eles não têm paz, porque Tu…

– Não estarão pensando que Eu tenha ódio deles.

– Não. Mas Eles estão com medo das tuas palavras e do teu rosto.

– Oh! Mas que erro! Justamente porque eles erraram, é que têm que procurar o Remédio. Sabes onde eles estão?

– Sim, Mestre.

– Então, vai à casa deles, e dize-lhes que Eu os estou esperando em Nobe!

Matias lá se vai, sem perder tempo.

A senda que vai para o monte sobe tão depressa, que de lá já se pode ver toda Jerusalém, olhada do norte… Jesus, com os seus, vira-lhes as costas, põe-se a andar justamente no rumo oposto ao da cidade.

1 de Cusa, em 370.24.


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