631. 631. Os apóstolos sãoenviados ao Gólgota e o retorno deles ao Cenáculo.


14 de abril de 1945.

631.1Jerusalém já está sob os raios do sol do meio-dia. A sombra de uma arcada é refrigério para a vista, ofuscada pelo sol que reflete nos muros brancos das casas e abrasa o chão das ruas. O branco incandescente dos muros e o escuro das arcadas fazem de Jerusalém uma bizarra pintura em branco e preto, um jogo entre luzes violentas e a penumbra — que, em contraste com a luz violenta, parece treva — jogo tormentoso como uma obcessão, porque tira a capacidade de ver, ou por causa do luz excessiva ou por causa da penumbra excessiva. É preciso prosseguir com os olhos semicerrados, procurando caminhar depressa nas regiões de luz e calor, caminhando mais devagar debaixo das arcadas, onde é necessário ir devagar, porque o contraste entre a luz e as trevas faz com que não se veja nada, nem de olhos abertos.

Assim prosseguem os apóstolos numa cidade que está deserta nessa hora de sol do meio-dia. Eles estão suando e enxugando o rosto e o pescoço com o capuz, e estão ofegantes…

Mas, quando eles precisam sair da cidade, cessa para eles o abrigo das arcadas. A estrada, que vai beirando os muros e que desaparece, tanto indo para o norte como para o sul, como uma fita ofuscante de poeira incandescente, dá a impressão de uma terra que está em chamas, como um forno. E o calor de forno se levanta, um calor que seca os pulmões. A pequena torrente, que passa do outro lado do muro, tem um fio de água pelo meio de umas pedras, que a luz do sol faz que brilhem e fiquem brancas como uns crânios caiados. Os apóstolos se precipitam sobre aquele fio de água, e bebem dele. Depois eles embebem na água o pano que lhes cobre a cabeça, e o colocam pingando na cabeça, depois de terem lavado o rosto. Em seguida, tirando suas sandálias, imergem os pés naquele fio de água. Mas, sim! É um modo de refrescar-se que deixa muito a desejar. A água está quente, como se fosse derramada de algum caldeirão pendurado sobre labaredas. E eles mesmos o dizem:

– Está quente a água, e é pouca. E tem um cheiro de lama e da erva borit. Quando ela fica tão pouca assim, conserva o gosto do sabão da roupa lavada ao amanhecer.

631.2Eles empreendem a subida ao Gólgota. Ao tórrido Gólgota sobre o qual o sol ardente secou a pouca erva que, uns quinze dias atrás, mais parecia uma penugem rara sobre o monte amarelado. Agora só aparecem os rígidos e raros tufos de plantas espinhosas, cheias de acúleos e sem folhas, despontando aqui e ali com seus dedos, como os de esqueletos desenterrados, de um verde que ficou amarelado por causa da poeira do monte, muito semelhantes a ossos recém tirados da terra. Sim. Parecem mesmo uns montinhos de ossos caiados plantados no chão. Entre eles, há um que, dois palmos acima desse bastão ereto, tem a forma de um cotovelo que termina em cinco gravetos, depois de uma espécie de pazinha. Parecem realmente uma mão esquelética, estendida para agarrar quem passa e segurá-lo nesse lugar de pesadelos.

– Quereis ir pelo caminho longo ou pelo curto? –pergunta João, que é o único que já subiu por aquele monte.

– Pelo mais curto! O mais curto! Vamos depressa! Aqui estamos morrendo de calor! –dizem todos, menos Zelotes e Tiago de Alfeu.

– Então, vamos!

As pedras da estrada calçada estão quentes como chapas tiradas do fogo.

– Mas por aqui não se pode ir adiante! Não se pode! –dizem eles depois de terem andado uns poucos metros.

– No entanto, o Senhor subiu até lá, onde está aquela touceira de espinheiros, e Ele já estava ferido e tinha a cruz nas costas –observa João, que está chorando desde a hora em que chegou ao Calvário.

Eles prosseguem. Mas depois deitam-se no chão, esgotados, arquejantes. Os capuzes, que haviam sido molhados no rio, já se enxugaram com o sol, mas, em compensação, as vestes estão ensopadas pelo suor.

– É íngreme e quente demais! –fala em voz baixa Bartolomeu.

– Sim. É demais! –confirma Mateus, que está vermelho.

– Pelo sol é tudo a mesma coisa. Mas, para a subida, vamos tomar aquele caminho. É mais comprido, mas é menos cansativo. Até Longino foi por ali, para que o Senhor pudesse subir por ele. Estais vendo ali, onde está aquela pedra meio escura? Foi ali que o Senhor caiu, e nós ficamos pensando que Ele estivesse morto, nós que o olhávamos, de lá, da parte do Norte, de lá, estais vendo? É lá onde está aquela depressão do terreno, antes que a encosta se torne escarpada. Ele não se movia mais. Oh! O grito da Mãe! Ainda me parece ouvi-lo. Nunca mais me esquecerei daquele grito! Não me esquecerei de nenhum dos seus gemidos… Ah! Certas coisas nos fazem ficar velhos antes do tempo e nos dão a medida da dor do mundo… Eia! Vinde! O nosso Mártir e Senhor parou menos do que vós! –encoraja-os João.

631.3Eles se levantam perplexos e seguem-no até o cruzamento da estrada calçada com o caminho em espiral, e prosseguem por ele. Sim. É menos íngreme. Mas que sol! E o calor está ainda mais forte nessa encosta por onde o caminho passa, reverberando seu fogo sobre os viandantes, que já estão queimados pelo sol.

– Mas por que fazer-nos subir a esta hora?! Não podia fazer-nos vir de manhã cedo, logo que o céu clareasse, a fim de vermos onde estávamos pondo os pés? Só isso! Estaríamos fora dos muros e poderíamos ir para diante sem ficarmos esperando que abrissem as portas.

Assim eles se lamentam e resmungam entre si.

São homens, ainda e sempre homens, agora, depois da tragédia de Sexta-feira Santa, que é tragédia de sua natureza humana, orgulhosa e vil, mais ainda que a tragédia de Cristo, sempre herói e vitorioso até a morte. Eles são homens como antes, que se entusiasmavam com os gritos de hosana das multidões e se regozijavam, pensando nas festas e nos banquetes suntuosos na casa de Lázaro… Surdos, cegos, obtusos em todos os sinais e advertências sobre a próxima tempestade.

Tiago de Alfeu e Zelotes ficam calados, chorando. Também André não se queixa mais, depois das últimas palavras de João. E mesmo agora João continua a falar, lembrando, e nessa lembrança há uma advertência fraterna, uma exortação para que não fiquem se queixando… Ele diz:

– Esta é a hora em que Ele subiu por aqui. E já vinha caminhando há muito tempo. Oh! Eu poderia dizer que desde a hora em que saí do Cenáculo, Ele não teve mais nem um momento de descanso! E estava bem quente aquele dia! Era o sinal de um temporal próximo… E Ele ardia de febre. Nique diz que teve a impressão de estar tocando em fogo, quando pôs o linho em seu rosto! Deve ter sido por aqui que ele se encontrou com as mulheres… Nós estávamos do lado oposto e não vimos o encontro. Mas como me disseram Nique e as outras… Eia! Vamos! Pensai só como as romanas, acostumadas com a liteira, percorreram a pé esta estrada ao sol da manhã, desde a hora terça, quando Ele foi condenado. Oh! Elas precederam a todos, logo elas, as pagãs, mandando seus escravos para avisar as outras, que se haviam afastado por algum motivo…

631.4Prosseguem… Aquela estrada é um martírio de fogo! Estão até cambaleando.

Pedro diz:

– Se Ele não fizer um milagre, vamos desmoronar por insolação.

– Sim. Já estou com o coração querendo sair pela garganta –confirma Mateus.

Bartolomeu já nem fala mais. Parece um embriagado. João o segura por um dos cotovelos e o ajuda a andar, como ele fazia com a Mãe na Sexta-feira sangrenta. E o conforta, dizendo:

– Daqui a pouco chegaremos a um pouco de sombra. Foi para lá que eu levei a Mãe. Lá nós descansaremos.

Vão indo. Cada vez mais devagar…

Ei-los agora à frente da pedra onde esteve Maria. E João o diz. De fato, aí há um pouco de sombra. Mas o ar está parado e tórrido.

– Se houvesse pelo menos um raminho de anis, uma folha de hortelã, um folhinha de capim! Estou com a boca parecendo um pergaminho colocado perto de uma chama. Mas nada! Nada! –geme Tomé, que já está com as veias do pescoço e da fronte inchadas.

– Eu daria tudo o que me resta de vida por uma gota d’água –diz Tiago de Zebedeu.

Judas Tadeu tem um rumorosa crise de choro, e grita:

– Pobre do meu irmão! Ele disse… disse, vós estais lembrados? Disse que estava morrendo de sede! Oh! Agora eu compreendo! Eu não havia compreendido a extensão daquelas palavras! Ele estava morrendo de sede! E não houve quem lhe desse nem um sorvo d’água, enquanto Ele ainda podia beber. E, além do sol, Ele tinha também febre!

– Joana lhe havia levado um refrigério… –diz André.

– Mas Ele já não podia mais beber! Nem podia mais falar… E quando se encontrou lá com sua mãe, a dez passos de nós, não pôde dizer mais do que estas palavras: “Mãe!”, e não pôde dar-lhe um beijo, nem mesmo de longe, ainda que Simão Cireneu o livrasse um pouco da cruz. Ele tinha os lábios ressecados por causa das feridas, queimados pelo sol… Oh! Eu estava vendo bem, do lado oposto ao da fila dos legionários! Porque eu não passei por aqui. Se tivesse passado, eu teria tomado a sua cruz, se me tivessem deixado passar! Mas eles temiam por mim… e temiam também a multidão, que nos queria apedrejar… Jesus não podia falar… nem beber… nem beijar. Quase que não podia mais olhar, com seus olhos que doíam por causa das crostas do sangue que descia da fronte!… Ele tinha um rasgão na veste, na altura dos joelhos, e se podia ver o joelho ferido, sangrando… As mãos estavam inchadas e feridas… Tinha ferimentos no queixo e numa face… A cruz havia aberto uma ferida no ombro, que já estava em chagas por causa da flagelação… Na cintura Ele tinha uma ferida feita pelas cordas… Seus cabelos estavam gotejando o sangue, que descia dos espinhos da coroa… Ele tinha…

– Cala-te! Cala-te! Não dá mais para ouvir-te! Cala-te! Eu te peço e te ordeno! –urra Pedro, parecendo ser ele o torturado.

– Não dá mais para ouvir-me! Não dá mais para ouvir-me! Mas eu tive que vê-Lo e ouvi-Lo em seus espasmos! E a Mãe? E a Mãe, então?

Todos abaixam a cabeça, soluçando, e põem-se de novo a andar… Por si mesmos eles não se lamentam mais. Mas todos estão chorando pelas dores de Cristo.

631.5Ei-los no cume. Na primeira pracinha, que é como uma placa de fogo. O mormaço é tão forte que parece que a terra esteja tremendo, devido àquele fenômeno do sol na areia fervendo do deserto.

– Vinde. Subamos por aqui. O centurião nos fez passar por aqui. E a mim também. Ele julgou que eu era filho de Maria. As mulheres também estavam lá. E os pastores. E os judeus…

João vai mostrando os lugares e termina dizendo:

– Mas a multidão ficou lá embaixo, bem embaixo, e cobria a encosta até o vale, até a estrada. As pessoas estavam em cima dos muros. E também dos terraços, perto dos muros. Ficava até onde a vista podia ver. Eu vi isso quando o sol começou a sumir. Antes era como agora, e eu não podia ver…

De fato, Jerusalém parece uma miragem tremulante, lá embaixo. O excesso de luz lhe serve de véu, para quem a quer ver. E João diz:

– Em outras horas — Maria de Lázaro disse isso, mas eu não sabia quando e porque ela teria vindo até aqui — dá para ver os restos pretos das casas reduzidas a cinzas pelos raios. Eram as casas dos mais culpados… de muitos, do meio deles… Aí está! Aqui –(João mede os passos, reconstrói a cena)–, aqui estava Longino, e aqui Maria e eu. E aqui estava a cruz do ladrão arrependido, e ali a outra. Aqui jogaram as sortes para ver de quem iriam ser as vestes. E ali adiante foi o lugar em que a Mãe caiu, quando Ele foi morto… e daqui eu vi quando Ele foi ferido no Coração –(João torna-se pálido como um morto)–, porque aqui estava a Cruz do Senhor.

E se ajoelha no chão, adorando, com o rosto por terra, visivelmente escavada por um traço e um buraco (q98%20p12050), isto é, abrangia o trecho que havia sido manchado de sangue por toda a superfície da sombra do braço da cruz que a atravessava, como também da do tronco vertical da mesma. Madalena deve ter tido um duro trabalho para escavar tanta terra assim e na profundidade de pelo menos um palmo, em uma terra muito dura, misturada com pedras e detritos que formavam uma crosta compacta!

Todos se jogam no chão, para beijar aquela poeira, que agora está sendo molhada com lágrimas…

631.6Mas João se levanta por primeiro e, amorosamente cruel, relembra o episódio… Ele não sente mais o sol… Ninguém o sente mais… Fala, de quando Jesus rejeita o vinho com mirra, de quando ficou nu e se cingiu com o véu da Mãe, de quando se mostrou flagelado tão duramente e ferido, de quando se deitou sobre a cruz e berrou por causa do primeiro cravo, e não mais, para que a Mãe não sofresse ainda mais; e quando lhe rasgaram o pulso e deslocaram o braço para puxá-lo até o ponto certo; e depois quando já estava pregado e a cruz foi virada do outro lado para reforçar os cravos, e o peso dela ficou todo sobre o Mártir, que deixou escapar um gemido; depois a cruz foi virada de volta e levantada, enquanto a arrastavam, e precipitada no buraco e reforçada; e o Corpo desceu com o tranco, dilacerando ainda mais as mãos; e a coroa de espinhos se move e fere mais a cabeça; e as palavras ao Pai do Céu, palavras que pedem perdão pelos que o crucificam, e que dão o perdão ao ladrão arrependido; as palavras à Mãe e a João, a vinda de José e Nicodemos, abertamente heróis que desafiam todo o mundo; a coragem de Maria Madalena; o grito de angústia ao Pai que o abandona; a sede, o vinagre com fel, a extrema agonia e a débil invocação à Mãe; as palavras Dela, que já está com a alma no limite da vida por causa do tormento, o tormento… e a resignação e abandono a Deus; e a horrenda e última convulsão e o grito que fez tremer o mundo; e o grito de Maria quando o viu morto…

– Cala-te! Cala-te –grita Pedro, parecendo que ele é que está transpassado pela lança.

E os outros também pedem:

– Cala te! Cala-te!…

631.7– Não tenho mais nada a dizer. O sacrifício havia terminado. A sepultura… foi um tormento para nós, não para Ele. A única coisa que tem valor nela é a dor da Mãe. Que foi o nosso tormento! Merecemos compaixão talvez? Demo-la a Ele, ao invés de pedir piedade para nós. Demais e sempre nós fugimos da dor, das fadigas, do abandono, deixando tudo isso a Ele, só a Ele. Na verdade, fomos discípulos indignos, que O amamos pela alegria de sermos amados, pelo orgulho de sermos grandes no seu reino, mas que não soubemos amá-Lo na dor… Agora chega. Aqui. Aqui temos de jurar, este é um altar, e é alto, entre o Céu e a Terra, que nunca mais faremos assim. Agora, para Ele a alegria, para nós a cruz. Juremos. Só assim daremos paz à nossa alma. Aqui morreu Jesus de Nazaré, o Messias, o Senhor, para ser Salvador e Redentor. Aqui deve morrer o homem que nós somos e ressurgir o discípulo verdadeiro. Levantai-vos! Juremos no Nome santo de Jesus Cristo de querer abraçar a sua doutrina até saber morrer pela redenção do mundo.

João parece um serafim. Gesticulando, o capuz caiu, e a cabeça loira resplandece ao sol. Ele subiu sobre uns detritos jogados de um lado, talvez sejam as escoras das cruzes dos ladrões, e assumiu involuntariamente a posição de braços abertos, que Jesus usava normalmente para ensinar, e principalmente a posição que tinha sobre a cruz.

Os outros olham para Ele, tão belo, tão entusiasmado, tão jovem, o mais jovem de todos, mas já tão maduro espiritualmente. O Calvário o fez ficar de idade perfeita… Eles olham para Ele, e gritam:

– Nós juramos!

– Então, agora rezemos, a fim de que o Pai torne firme o nosso juramento: “Pai nosso que estás no Céu…”

O coro das onze vozes vai-se firmando, tornando-se cada vez mais firme, à medida que continua. E Pedro bate no próprio peito, enquanto diz: “Perdoa-nos as nossas ofensas”, e todos se ajoelham, quando dizem a última súplica: “Livra-nos do mal.” E eles ficam assim inclinados sobre o chão e meditando…

631.8Jesus está entre eles. Não vi quando chegou nem de onde chegou.

Pode-se dizer que veio do lado do monte que é inacessível. Ele resplandece de amor na forte luz do meio-dia, e diz:

– Quem permanece em Mim não será prejudicado pelo Maligno. Em verdade vos digo que aqueles que estarão unidos a Mim em servir o Altíssimo Criado, cujo desejo é a salvação de todo homem, poderão expulsar os demônios, tornar inofensivos répteis e serpentes, passar por entre feras e chamas sem danos, enquanto Deus quiser que fiquem na terra para servi-Lo.

– Quando foi que vieste, Senhor? –dizem eles, inclinando a cabeça, mas continuando de joelhos.

– Quem me chamou foi o vosso juramento. E agora, agora que os pés dos meus apóstolos já calcaram bem estas glebas, descei depressa para a cidade e ide ao Cenáculo. À noite partirão as mulheres da Galileia, em companhia de minha Mãe. Tu e João ireis com elas. Nós nos encontraremos todos juntos na Galileia, sobre o Tabor –diz Ele a Zelotes e a João.

– Quando, Senhor?

– João saberá e vo-lo dirá.

– Vais deixar-nos, Senhor? Não nos abençoas? Temos muita necessidade da tua bênção.

– Aqui e no Cenáculo Eu vo-la darei. Prostrai-vos!

Ele os abençoa, e o fulgor do sol o envolve como aconteceu na Transfiguração, com a diferença de que aqui o esconde. Jesus não está mais entre eles.

Eles levantam as cabeças. Nada mais. Sol e terra abrasada…

– Levantemo-nos e vamos! Ele foi-se embora! –dizem eles com tristeza.

– É cada vez mais breve a sua parada entre nós.

– Mas hoje Ele parece estar mais contente do que ontem à noite. Tu não achaste, irmão? –pergunta Tadeu a Tiago de Alfeu.

– Ele ficou contente com o nosso juramento. Bendito sejas tu, João, que no-lo fizeste pronunciar! –diz Pedro, abraçando João.

– Eu esperava que Ele falasse de sua Paixão. Para que é que Ele nos fez vir para cá, para depois não dizer nada? –diz Tomé.

– Hoje à noite nós lhe perguntaremos –diz André.

– Sim. Mas agora vamos. O caminho é comprido e nós queremos estar um pouco com Maria, antes que Ela se vá –diz Tiago de Alfeu.

– É mais uma doçura que se acaba! –suspira Tadeu.

– Ficamos órfãos. Que faremos?

Eles se viram para João e para Zelotes, e dizem, com uma ponta de inveja na voz:

– Vós pelo menos ireis com a Mãe! E estareis sempre com Ela.

João faz um gesto, como se quisesse dizer: “Assim é.”

Mas eles não têm uma inveja maligna e logo confessam:

– Mas é justo. Porque tu estavas aqui com Ela e tu por obediência renunciaste a isso. Mas nós…

631.9Eles começam a descer. Mas, assim que põem os pés na segunda pracinha, a mais baixa, veem uma mulher que vem se aproximando sob o sol, pela via íngreme, e que os examina sem falar nada, dirigindo-se com decisão para a pracinha mais acima.

– Já há alguém vindo para cá! E não é só Maria que vem. Mas o que ela está fazzendo? Está chorando e procurando alguma coisa no chão. Será que ela perdeu algum objeto naquele dia? –perguntam uns aos outros.

De fato, bem poderia ser isso, mas não dá para ver quem é ela. O rosto da mulher está muito coberto pelo véu.

O Tomé grita com o seu vozeirão:

– Mulher! Que foi que perdeste?

– Nada. Estou procurando o lugar da Cruz do Senhor. Tenho um irmão, que está à morte, e o Mestre bom não está mais sobre a Terra… –E chora sob o seu véu–. Os homens o expulsaram!

– Ele ressurgiu, mulher. Ele está aqui para sempre.

– Eu sei que Ele está aqui para sempre, porque Ele é Deus e Deus não perece. Mas não está mais entre nós. Este mundo não o quis e Ele foi-se embora. O mundo o renegou. Até os seus discípulos o abandonaram, como se Ele fosse um ladrão. E Ele abandonou o mundo. Eu vou procurar um pouco do seu Sangue. Eu tenho fé que isso curará o meu irmão. Mais do que a imposição das mãos dos seus discípulos, porque eu não creio mais que eles possam fazer prodígios depois de terem sido infiéis a Ele.

– O Senhor esteve aqui há pouco, mulher. Ele ressuscitou, na alma e no corpo, e está ainda entre nós. O perfume de sua bênção está ainda sobre nós. Olha, aqui Ele estava pousando os pés há pouco –diz João.

– Não. Eu estou procurando uma gota do seu Sangue. Eu não estava aqui, e não sei onde é o lugar…

E ela continua a procurar no chão, encurvada.

João lhe diz:

– Este era o lugar de sua cruz. Eu estava aqui.

– Tu estavas aqui? Como amigo ou como crucificador? Dizem que um só dos seus discípulos prediletos é que esteve aos pés da cruz, e poucos outros fiéis discípulos estavam com ele aqui por perto. Mas eu não desejaria estar conversando com um dos seus crucificadores.

– Eu não o sou, mulher. Olha, aqui onde estava a cruz ainda há terra vermelha de sangue, mesmo se já tenham escavado a terra. Era tanto o sangue que ele perdeu, que penetrou fundo terra adentro. Toma. E que a tua fé seja premiada.

João escavou com os dedos no buraco onde esteve a cruz e de lá tirou um pouco do terriço avermelhado, que a mulher recolheu em um pequeno pano de linho, agradecendo-lhe e saindo, andando depressa com o seu tesouro.

– Fizeste bem em não dizer quem somos.

– Por que não disseste quem eras? –dizem os apóstolos.

Como sempre os pensamentos humanos são contrastantes.

João olha para eles e nada diz. E se encaminha na frente deles para a estrada escarpada e calçada.

631.10Mesmo se é mais fácil descer que subir, o sol continua feroz e, quando chegam lá embaixo, aos pés do Gólgota, estão realmente sedentos. Mas há ovelhas no rio e alguns pastores estão com elas, certamente vindo de algum estábulo nas proximidades para a pastagem do final da tarde. Mas a água está turva, impossível bebê-la.

Mas a sede deles é tanta que Bartolomeu se dirige a um pastor, dizendo-lhe:

– Não tens um pouco de água em teu odre?

O pastor olha para eles. Severo. E não responde.

– Talvez um pouco de leite, então. Tuas ovelhas, pelo que se vê, têm leite. Nós te pagamos. Gostaríamos de fosse frio, mas basta beber algo.

– Não dou leite nem água aos que abandonaram seu Mestre. Eu já vos reconheci, sabeis? Eu vos vi e ouvi em Betsur, um dia. Eu bem que me lembro de ti, tu que me pediste… Mas eu não vos vi quando me encontrei com os que iam descendo com o Morto. Só vi este aqui. Não havia água para Ele, como me disseram os que estiveram lá no Monte. Assim, também para vós não há água.

Ele dá um assobio para o seu cachorro, reúne as ovelhas, e vai rumo ao norte, onde começam as elevações do terreno, cobertas de oliveiras e de relva.

Os apóstolos, já cansados, atravessam a ponte e entram na cidade.

631.11Caminham rente aos muros, o capuz sobre a cabeça, um pouco encurvados. Agora as ruas começam a se animarem com os pedestres, já que passou o calor mais forte, das primeiras horas da tarde.

Mas toda a cidade precisa ser atravessada antes de chegar à casa do Cenáculo, e muitos conhecem os apóstolos para que a passagem deles ocorra sem incidentes. E logo acontece que uma risada pungente os atinge, enquanto um escriba (eu achava que não iria vê-los nunca mais, e estava feliz por isso) grita às pessoas, que são muitas naquela encruzilhada onde há uma fonte.

– Ei-los! Vejam só! Eis os restos do exército do grande rei! Os corajosos covardes. Os discípulos do sedutor. Desprezo e zombaria para eles. E a compaixão que se tem para com os doidos!

E assim começa ao redor deles uma sequência infinita de escárnios. Um grita:

– Onde é que estáveis quando Ele recebeu a sua sentença?

E um:

– Agora vos convencestes de que Ele era um falso profeta?

E outros diziam:

– De nada valeu terdes vos subtraído e escondido! O estratagema falhou! O Nazareno está morto. O Galileu foi fulminado por Javé. E vós com Ele.

E alguns dizem, com uma falsa piedade:

– Mas deixai-os quietos. Eles já estão avisados e arrependidos. É verdade que é tarde demais, mas sempre é tempo de fugir. Ainda está na hora!

E há quem fala àquela pequena multidão, em sua maior parte formada por mulheres que parecem propensas a torcer a favor dos apóstolos, dizendo:

– A vós, que ainda duvidais da nossa justiça, que vos sirva de luz o ato dos mais fiéis seguidores do Nazareno. Se Ele fosse Deus, os teria fortificado. Se eles o tivessem reconhecido como o verdadeiro Messias, não teriam fugido, pensando que a força humana não podia triunfar contra Cristo. Mas Ele morreu à vista do povo. E foi em vão que roubaram o cadáver, depois de maltratarem os guardas que estavam adormecidos. Perguntai sobre isso aos guardas, se não foi assim. Ele morreu e os seus seguidores se dispersaram, e grande é aos olhos do Altíssimo quem livrar a Terra Santa de Jerusalém dos vestígios Dele. Que a maldição caia sobre os seguidores do Nazareno. Tomemos nas mãos as pedras, ó povo santo, e que se apedrejem esses tais do lado de fora dos muros.

É demais para a coragem ainda demasiadamente frágil dos apóstolos! Eles já estão um tanto afastados em direção aos muros a fim de não fomentarem nenhuma revolta, com algum desafio imprudente aos acusadores. Mas agora, mais do que a prudência, é o medo que vence. E eles viram as costas, salvando-se pela fuga, indo na direção da porta. Tiago de Alfeu, Tiago d Zebedeu, com João. Pedro e Zelotes são os que, mais calmos e donos de si mesmos, acompanham os companheiros sem correr. E algumas pedras os atingem antes que alcancem a porta, e sobretudo antes que muitas sujeiras os atinjam.

631.12Os guardas, que saem dos seus lugares, fazem com que eles não sejam mais perseguidos depois dos muros. Mas eles continuam a correr, a correr, e se refugiam no pomar de José, lá onde era o Sepulcro.

O lugar é quieto, silencioso e agradável é a luminosidade debaixo dos ramos, que naqueles dias começaram a soltar umas folhas, ainda poucas, mas tão esverdeadas que parece um véu de cor suave sob as ramagens robustas. Eles se jogam no chão esperando que passe o susto enorme.

No fundo da horta um homem está carpindo e reforçando uns pés da verdura, ajudado por um jovenzinho, e nem percebe a presença dos apóstolos, pois eles estão escondidos do outro lado de uma sebe. Só se dá conta quando, depois de ter olhado para o céu e gritado bem alto:

– José, vem, e traze o burro para o atrelarmos à nora –ele se dirige para onde eles estão, sob a copa de uns arbustos, onde há um poço rústico–. Que é que estais fazendo? Quem sois vós? Que quereis na horta do José de Arimateia? E tu, bobo, por que deixas aberta a cancela que José quer que fique fechada desde que o colocou? Não sabes que ele não quer ver ninguém aqui, onde foi colocado o Corpo do Senhor?

Eu digo a verdade, se eu disser que, na tristeza de assistir à colocação aqui do Corpo de Jesus e no espanto pela ressurreição, eu não havia notado que no horto, para lá do recinto de uma muralha verde, de buxos e silvas, houvesse ou não uma cancela, mas de fato eu acho que tenha sido colocada há pouco, sustentada por dois esteios e sem sinal de velhice. Também José, como Lázaro, colocou uma fechadura nos lugares que foram santificados por Jesus.

João se levanta do chão e diz sem medo:

– Nós somos os apóstolos do Senhor. O Senhor nos havia chamado ao Gólgota e nós fomos. Ele nos deu a ordem de irmos à casa onde está sua Mãe, e a multidão nos perseguiu. E nós entramos aqui, e estamos esperando anoitecer…

631.13Mas tu estás ferido? E tu também! E tu! Vinde, para que eu vos socorra. Tendes sede? Estais sem fôlego. Tu, rápido, pega um pouco de água. A primeira água é pura, depois os baldes a tornam turva. Dá de beber a eles, e depois lava um pouco daquelas alfaces frescas e unge-as com o óleo que temos para untar os enxertos. Só tenho isso para dar-vos. Minha casa não é aqui. Mas se quiserdes esperar, podeis vir comigo…

– Não. Não. Nós temos que ir ao encontro do Senhor. Deus lhe pague.

Eles bebem e deixam que se lhes façam os curativos. Todos estão feridos na cabeça. Têm boa pontaria estes judeus!

– Vai tu pela estrada e olha, sem parecer que estás olhando, se há algum espião –diz ao rapaz o hortelão.

– Ninguém, pai. A estrada está vazia –diz o rapaz ao voltar.

– Vai dar uma espiada na porta e volta logo.

Ele colhe umas folhas de funcho e as oferece, desculpando-se por ter somente legumes, a salada e aquelas folhas de funcho, visto que as macieiras mal acabaram de perder as flores.

O rapaz volta:

– Não há ninguém, pai. A estrada para lá da porta está vazia.

– Então, vamos. Ele atrela o burro ao carrinho e joga neste as gramíneas. Nós ficaremos parecendo uns homens que voltam dos campos. Vinde comigo. O caminho ficará mais longo… Mas sempre é melhor do que as pedradas.

– De qualquer maneira, sempre teremos que entrar na cidade…

– Sim. Mas podemos entrar por outra parte, por becos escuros.

Ele fecha com a chave grande a cancela forte, faz que os mais velhos subam para o carro, dá enxadas e rastelos aos outros, carrega Tomé com um feixe de podaduras e João com um fardo de gramas, e vai, com segurança, costeando os muros rumo ao sul.

– Mas a tua casa… Aqui é um deserto.

– A casa está lá do outro lado, e ela não foge. A mulher esperará. Antes, eu sirvo os servos do Senhor–. Ele olha para eles… – Ora, ora! Todos erramos. Também eu tive medo! E todos nós somos odiados por causa do Nome Dele. Até José. Mas que é que ele faz? Deus está conosco. As pessoas!… Odeiam e amam. Amam e odeiam. E depois! O que fazem hoje, esquecem amanhã. É… Se não existissem as hienas! Mas são elas que excitam o povo. E estão cheias de furor porque Ele ressuscitou. Oh! Se Ele se fizesse ver lá do alto, do pináculo do Templo, para que o povo ficasse com a certeza de que Ele ressuscitou. Por que será que Ele não faz isso? Eu creio. Mas nem todos sabem crer. E eles pagam bem a quem disser ao povo que Ele foi roubado por vós, já em decomposição, e que está sepultado ou foi queimado em uma das grutas de Josafá.

Eles já estão ao lado sul da cidade, no Vale do Hinon.

– Eis aí! Ali é a Porta de Sião. Sabeis ir de lá até a casa? É um passo.

– Nós sabemos. Deus esteja contigo pela tua bondade.

– Para mim vós sois sempre os santos do Mestre. Vós sois homens e eu sou homem. Ele sozinho é mais do que o Homem, e não teve que tremer. Eu sei compreender e compadecer-me. E eu acho que vós hoje sois fracos, mas que sereis fortes amanhã. A paz esteja convosco.

Aí ele os livra das gramas e das ferramentas agrícolas, e retorna, enquanto eles vão entrando na cidade rápidos como lebres, e vão escapulindo pelas ruazinhas periférica em direção à casa do Cenáculo.

631.14Mas as adversidades daquele dia ainda não chegaram ao fim. Um grupo de legionários, que se dirigia a uma taverna próxima dali, cruza com eles, e um deles os observa e os indica aos outros. Eles todos riem. E quando aqueles pobres e maltratados discípulos são obrigados a passar diante deles, um dos soldados encostado à porta os provoca:

– Ei! O Calvário não vos lapidou nem os homens vos feriram? Por Júpiter! Eu acreditava que fosseis mais corajosos! E que não temíeis nada, visto que tivestes a coragem de ir até lá em cima. As pedras do monte não vos censuraram por serdes vilões? E tanta ousadia tivestes de subir? Eu sempre vi os culpados fugirem dos lugares que recordam a culpa. Nêmeses os persegue. Mas talvez ela vos tenha arrastado lá para cima para fazer-vos tremer de horror hoje, já que não quisestes tremer de piedade naquele dia.

Uma mulher, talvez a dona da taverna, coloca-se bem na porta e ri. Ela tem uma cara de velhaca que faz medo, e berra bem alto:

– Ó mulheres hebreias, vede bem o que nossos regaços acolheram! Uns vilões perjuros, que só saem de suas tocas quando cessou o perigo. Os ventres romanos só concebem heróis. Vinde, vós, beber à grandeza de Roma. Lá o vinho é seleto e as moças são bonitas…

E ela se afasta dos soldados entrando em seu antro escuro.

631.15Uma hebreia está olhando — algumas mulheres estão com suas ânforas pelo caminho, e dali se ouve o murmúrio da fonte que fica perto da casa do Cenáculo — e tem compaixão. É uma mulher idosa. Diz às companheiras:

– Eles erraram… Mas o povo todo errou.

Vai até os apóstolos e os cumprimenta:

– A paz esteja convosco. Nós não esquecemos… Dizei-nos somente. É verdade que o Mestre ressuscitou?

– Ressuscitou. Nós o juramos.

– Então, não temais. Ele é Deus e Deus vencerá. Paz a vós, meus irmãos. E dizei ao Senhor que perdoe este povo.

– E vós, rezai para que o povo nos perdoe e se esqueça do escândalo que demos. Mulheres, a vós eu, Simão Pedro, peço perdão.

E Pedro chora…

– Nós somos mães, irmãs e esposas, homem. E o teu pecado é o dos nossos filhos, irmãos e esposos. Que o Senhor use de piedade para com todos.

E aquelas almas piedosas os acompanham até a casa e, tendo lá chegado, elas mesmas foram bater à porta fechada. E é Jesus quem vai abri-la, enchendo aquele vazio escuro com sua pessoa em estado de glória, e diz:

– A paz este já convosco pela vossa piedade!

As mulheres ficam paralisadas pelo espanto. E assim elas permanecem até que de novo a porta se fecha atrás dos apóstolos e do Senhor. Aí elas voltam a si.

– Tu o viste? Era Ele. Que belo! Mais bonito do que antes. E está vivo. Mas Ele não é nenhum fantasma. É um homem verdadeiro. A voz é a dele! E dele é o sorriso! Ele fazia movimentos com as mãos. Viste como estavam vermelhas as feridas? Não. Eu fiquei olhando o peito dele respirando, justamente como uma pessoa viva. Oh! Não nos venham dizer que não é verdade! Vamos! Vamos contar isso pelas casas! Não. Vamos bater aqui para vê-lo de novo. Que tens ainda a dizer? É o Filho de Deus, ressuscitado. Já é muito que Ele se tenha mostrado a nós, pobres mulheres!Ele está com sua Mãe, as discípulas e os apóstolos. Não. Sim…

Vencem as que são prudentes. O grupo se afasta.

631.16Jesus, no entanto, entrou com os apóstolos no Cenáculo. E os fica observando. Sorri. Eles tiraram os capuzes, que estavam colocados como bandagens sobre os olhos, antes de entrarem em casa, e os recolocaram nas cabeças, como manda o costume deles. Portanto, não dá para ver as feridas. Eles se sentam, cansados e silenciosos, mais tristes do que cansados.

– Vós tardastes –diz Jesus com doçura.

Faz-se silêncio.

– Não me dizeis nada? Falai! Eu sou sempre Jesus. Já cessou a vossa coragem de hoje?

– Oh! Mestre! Senhor! –grita Pedro, caindo de joelhos aos pés de Jesus–. Não foi a coragem que cessou. Mas o que nos aniquila é verificarmos qual o prejuízo que causamos à tua Fé. Nós estamos arrasados!

– Morre o orgulho, nasce a humildade. Surge o conhecimento, cresce o amor. Não temais. Agora é que vós estais tornando-vos apóstolos. Isto é o que Eu queria!

– Mas nós não poderemos fazer nada! O povo tem razão ao zombar de nós. Nós destruímos a tua obra. Destruímos a tua Igreja!

Estão todos angustiados. Gritam, gesticulam…

Jesus está em uma calma solene. E Ele diz, confirmando as palavras com o gesto:

– Paz! Paz! Nem o Inferno conseguirá destruir a minha Igreja. Não será a frouxidão de uma pedra, ainda não bem soldada com as outras no fundamento, que porá em perigo o edifício. Paz! Paz! Vós o fareis. E o fareis bem, porque agora conheceis humildemente a vós mesmos pelo que sois, pois agora sois sábios de uma grande sabedoria: a de saber que cada ato tem repercussões bem vastas, por vezes indeléveis, e sabeis também que quem está no alto — lembrai-vos daquilo que Eu disse1 sobre a luz que é colocada no alto para ser vista, mas, justamente porque ela é vista por todos, deve ter uma chama pura — e quem está no alto tem o dever, mais do que quem não está no alto, de ser perfeito. Estais vendo, meus filhos? O que passa sem ser observado, ou é desculpado, se tiver sido feito por um fiel, não passa sem ser observado se tiver sido feito por um sacerdote, e é severo o julgamento do povo. Mas o vosso futuro cancelará o vosso passado. Eu não vos disse nenhuma palavra no Gólgota, mas deixei que o mundo falasse. Eu vos conforto. Coragem, não choreis mais.

631.17Refrescai-vos, agora, e deixai que Eu vos cure. Assim.

Toca levemente nas cabeças feridas. E diz:

– Porém, é bom que vos afasteis daqui. Por isso eu disse: “Ide ao Tabor, em oração.” Podereis ficar nas aldeias próximas e todas as manhãs, na aurora, subir até ali e ficardes à minha espera.

– Senhor, o mundo não crê que ressuscitaste –diz em voz baixa Tadeu.

– Eu persuadirei o mundo. E vos ajudarei a vencer o mundo. E vós, sede-me fiéis. Não peço nada mais. E bendito seja quem vos humilha, porque vos santifica.

Jesus parte o pão, oferece as partes s distribui, dizendo:

– Eis o meu viático para vós que ireis. Lá Eu já preparei o alimento para os meus peregrinos. Fazei o mesmo no futuro, para com aqueles que do meio de vós partirem. Sede paternais para com todos os fiéis. Tudo o que Eu faço ou vos faço fazer, fazei-o vós também. Também a viagem ao Calvário, meditando e fazendo meditar sobre o caminho doloroso, fazei-o no futuro. Contemplai! Contemplai a minha dor. Porque é por ela, e não pela glória presente que Eu vos salvei. Lá está Lázaro com as irmãs. Elas vieram para saudar minha Mãe. Ide, vós também, porque minha Mãe vai partir daqui a pouco no carro de Lázaro. A paz esteja convosco.

Jesus se levanta, e sai rapidamente.

631.18– Senhor! Senhor! –grita André.

– Que queres, irmão? –pergunta-lhe Pedro.

– Eu gostaria de perguntar-lhe muitas coisas. Falar-lhe dos que estão pedindo curas… Não sei! Quando Ele está no meio de nós, não sabemos mais dizer-lhe nada!

E sai correndo para ir procurar o Senhor.

– É verdade. Ficamos como quem perdeu a memória –concordam todos.

– No entanto, Ele é tão bom para conosco. Ele nos chamou de “filhos” com tanta doçura que me abriu o coração! –exclama Tiago de Alfeu.

– Mas Ele é tão Deus agora! Eu tremo quando Ele está perto de mim como se eu estivesse no santo dos Santos –diz Tadeu.

André está de volta:

– Ele não está mais lá. O espaço, o tempo e os muros lhe estão subjugados.

– Ele é Deus! É Deus! –dizem todos, unidos em adoração.

1 daquilo que Eu disse, em 169.7.


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