376. 376. Lição sobre a salvação operada pelos santose condenação do Templo corrompido.


4 de fevereiro de 1946.

376.1 Muitos discípulos e discípulas receberam a licença de partir, de volta para as casas onde se hospedavam, ou retomando os caminhos pelos quais eles tinham vindo.

Numa tarde esplendida deste abril, que já vai adiantado, ficam na casa do Lázaro os discípulos verdadeiros e propriamente ditos, e particularmente os mais dedicados à pregação. Entre eles estão os pastores, como Hermes e Estevão, sacerdote João, Timoneu, Hermasteu, José de Emaús, Salomão, Abel de Belém da Galileia, Samuel e Abel de Corozaim, Agabo, Aser e Ismael de Nazaré, Elias de Corozaim, Filipe de Arbela, José, barqueiro de Tiberíades, João de Éfeso, Nicolau de Antioquia. Das mulheres ficam, além das discípulas conhecidas, Anália, Dorcas, a mãe de Judas, Mirta, Anastásica, as filhas de Filipe. Não vejo mais Miriam de Jairo, nem o próprio Jairo. Talvez já tenham voltado para a casa onde estavam hospedados.

Estão caminhando devagar pelos pátios, ou então pelo terraço da casa, enquanto, ao redor de Jesus, que está sentado ao lado da caminha de Lázaro, estão quase todas as mulheres e todas as antigas discípulas. Estão ouvindo Jesus que fala com Lázaro, descrevendo os lugares por onde passaram nas últimas semanas antes da viagem para a Páscoa.

376.2 – Chegaste justamente a tempo de salvar o pequenino –comenta Lázaro, depois da narração de Cesareia de Filipe, referindo-se ao lactente que está dormindo feliz nos braços maternos.

E Lázaro acrescenta:

– É um belo menino! Muito bonito. Mulher, tu me deixas vê-lo de perto?

Dorcas se levanta e, silenciosa, mas triunfalmente, estende o seu filho para a admiração do doente.

– É um belo menino! Muito bonito. O Senhor o proteja e o faça crescer são e santo.

– E também fiel ao seu Salvador. Se assim não tivesse de ser, eu o quereria morto mesmo agora. Tudo, menos um salvado ser ingrato ao Senhor! –diz Dorcas firmemente, voltando ao seu lugar.

– O Senhor chega sempre a tempo para salvar, diz Mirta, mãe de Abel de Belém. O meu não estava menos perto da morte, e de que morte! Que hora tremenda!…

Mirta empalidece ainda, só de recordar…

– Então virás em tempo também para mim, não é verdade? Para dar-me paz –diz Lázaro, acariciando a mão de Jesus.

– Mas, não estás um pouco melhor, meu irmão? pergunta Maria. Tu me pareces mais aliviado desde ontem…

– Sim. E eu mesmo estou admirado disso. Talvez Jesus…

– Não, meu amigo. É que Eu estou derramando sobre ti a minha paz. Tua alma está saturada dela e isso diminui o sofrimento dos membros. É um decreto de Deus que tu sofras.

– E morra. Dize-o logo. Pois bem… seja feita a sua vontade, como Tu ensinas. A partir deste momento, não pedirei mais a cura, nem alívio. Eu tenho recebido tantas coisas de Deus (ele olha involuntariamente para Maria, sua irmã), que é justo que eu lhe dê em troca de tudo o que recebi, a minha submissão…

376.3 – Faze-o ainda mais, meu amigo. Muita coisa já é sermos resignados e sofrermos a dor. Mas tu dás ao que fazes um valor ainda maior.

– Qual é, meu Senhor?

– Oferecê-lo pela redenção dos homens.

– Eu também sou um pobre homem, Mestre. Não posso aspirar a ser um redentor.

– És Tu quem o diz. Mas estás errado. Deus se fez homem para ajudar os homens. Mas os homens podem ajudar a Deus. As obras dos justos estarão unidas às minhas, na hora da Redenção. Dos justos que morreram há séculos, dos que agora estão vivos, ou dos futuros. Tu, une as tuas às deles desde agora. É tão belo unir-se com a Bondade infinita, ajuntar a ela o que pudermos dar da nossa bondade limitada, e dizer: “Eu também estou cooperando, ó Pai, para o bem dos irmãos.” Não pode haver amor maior para com o Senhor e para a salvação eterna de nossos irmãos. Salvarem-se eles por si mesmos? É pouco. É o mínimo de santidade. Belo é salvar. Entregar-se para salvar. Atiçar o amor, até que ele se transforme numa fogueira imoladora para salvar. Aí, então, é que o amor é perfeito. Pois muito grande será a santidade de quem é generoso.

– Como é belo tudo isso, não é verdade, minhas irmãs? –diz Lázaro, com um sorriso sonhador em seu rosto já definhado.

Marta, comovida, dá, com a cabeça, sinal de assentimento.

376.4 Maria que está assentada sobre uma almofada aos pés de Jesus, em sua postura habitual de humilde e ardente adoradora, diz:

– Talvez seja eu a causa dos sofrimentos do meu irmão? Dize-o a mim, Senhor, para que a minha aflição seja completa!…

Lázaro exclama:

– Não, Maria, não. Eu… devia morrer disso. Não fiques metendo flechas no meu coração.

Mas Jesus, sempre extremamente sincero, diz:

– É certo que sim! Eu o percebi no bom irmão, em suas orações e em seus sobressaltos. Mas isto não te deve causar uma angústia que pese demais. Pelo contrário, deve dar vontade de te tornares perfeita, ao veres o que custas. E enche-te de alegria! Enche-te de alegria, porque Lázaro, tendo-te arrebatado ao demônio…

– Não eu. Mas Tu, Mestre.

– … por ter-te arrebatado ao demônio, mereceu de Deus um prêmio futuro, por causa do qual haverão de falar dele os povos e os anjos. E, como haverão de falar de Lázaro, também falarão de outros, e especialmente de outras, que arrebataram a Satanás sua presa, com o seu heroísmo.

– Quem são? Quem são? –perguntam, curiosas, as mulheres e talvez todas estejam esperando que sejam elas, uma por uma.

376.5 Maria de Judas não fala. Mas olha, olha para o Mestre… Jesus também olha para ela. Poderia iludi-la. Mas não o faz. Não a humilha, mas não a ilude. Ele responde a todas:

– Vós ficareis sabendo no Céu.

A sempre angustiada mãe de Judas pergunta:

– E se uma não consegue, ainda que o queira? Qual vai ser a sua sorte?

– Vai ser a sorte que sua alma boa merece.

– O Céu? Mas, ó Senhor, uma esposa, uma irmã ou uma mãe que… que não conseguisse salvar aqueles que ela ama e os visse ser condenados, poderia ter o Paraíso, estando no Paraíso? Não achas Tu que ela não terá nunca mais alegria, porque… a carne de sua carne e o sangue do seu sangue terão merecido condenação eterna? Eu penso que ela não poderá gozar, vendo quem ela amou sofrer penas atrozes…

– Estás errada, Maria. A vista de Deus, a posse de Deus são fontes de uma felicidade tão sem limites, que não é possível haver pena para os bem-aventurados. Sempre agindo com atenção, na obra de ajudarem ainda aos que podem ser salvos, eles não sofrem mais por causa dos que foram afastados de Deus e, portanto, afastados também deles, que já estão em Deus. A Comunhão dos Santos é para os Santos.

– Mas se ajudam aos que ainda podem ser salvos, isto é sinal de que estes que estão sendo ajudados ainda não são santos –objeta Pedro.

– Mas eles têm vontade de serem. Os santos de Deus ajudam até nas necessidades materiais, a fim de fazerem passar os seus ajudados de uma vontade passiva a uma ativa. Tu me compreendes?

– Sim e não. Eis aqui um exemplo: se eu estivesse no céu, e visse, suponhamos, um movimento fugaz de bondade em… Eli, o fariseu, por exemplo, que eu faria?

– Usarias de todos os meios para aumentar os seus movimentos bons.

– E, se não desse resultado? Que faria depois?

– Depois, quando ele fosse condenado, tu não te interessarias mais por ele.

– E se, como ele está agora, ele estivesse completamente digno de condenação, mas fosse querido por mim — uma coisa que não acontecerá nunca — que deveria Eu fazer?

– Antes de tudo, fica sabendo que há perigo de te condenares tu, uma vez que disseste que não o tens, nem o terás como querido. Depois, fica sabendo que, se estivesses no Céu unido intimamente com a Caridade, rezarias pela sua salvação até o momento do seu julgamento. Pois haverá espíritos que serão salvos até no último momento depois de uma vida inteira de orações feitas por eles.

376.6 Entra um servo, dizendo:

– Manaém chegou. Ele quer ver o Mestre.

– Que ele venha. Certamente tem coisas sérias a dizer.

As mulheres, mais discretas, se retiram, e os discípulos as acompanham. Mas Jesus chama de volta Isaque, o sacerdote João, Estevão e Hermes, Matias e José, que são pastores discípulos.

– É bom que saibais, vós também, que sois discípulos –explica Ele.

Manaém entra e faz uma inclinação.

– A paz esteja contigo –saúda-o Jesus.

– A paz esteja contigo, Mestre. O sol já se está pondo. Que o primeiro passo do sábado seja para Ti, meu Senhor.

– Tiveste uma boa Páscoa?

– Boa! Nada de bom pode haver onde estão Herodes e Herodíades: Acho que terei comido o Cordeiro pela última vez, estando com eles! Ainda que me custe a morte, não ficarei por mais tempo com eles!

– Acho que cometes um erro. Podes servir ao Mestre, ficando…

–objeta Iscariotes.

– Isto é verdade. E é aquilo que me tem até agora segurado. Mas que nojo! Poderia me substituir Cusa…

Bartolomeu lhe faz observar:

– Cusa não é Manaém. Cusa é… Sim. Ele fica em cima do muro. Não denunciaria nunca o patrão. Vocé é mais verdadeiro.

– Isto é verdade. É verdade o que dizes. Cusa é cortesão. Sofre o fascínio da realeza! Que estou dizendo? Da lama real. E até lhe parece ser rei, por estar com o rei… E treme só em pensar em perder os favores reais. Na outra tarde, ele estava como um cão moído por pancadas, quando, quase rastejando, ele apareceu diante de Herodes, que o tinha mandado chamar, depois de ter ouvido os queixumes de Salomé, que foi expulsa por Ti. Cusa estava em um momento bem difícil. O desejo de livrar-se daquilo a qualquer custo, talvez até te acusando, tirando-te a razão, era o que estava escrito em seu rosto. Mas Herodes!… Herodes só queria rir por detrás da mocinha, da qual ele já tem náuseas, assim como tem náuseas da mãe dela. E ele ria como um doido, ao ouvir Cusa repetir as tuas palavras. Ele repetia: “Suaves, suaves demais para esta jovem… (e disse uma palavra tão obscena, que eu não a repito). Ele devia pisar nela, no seu seio frenético… Mas ele ter-se-ia contaminado”, e ria. Depois, ficando sério, disse: “Mas a afronta, merecida pela fêmea, não é permitida pela coroa. Eu sou magnânimo, (é a ideia fixa dele ser isso e, posto que ninguém lhe dá este título, ele o dá a si mesmo) e, perdoo o Rabi, também porque ele disse à Salomé o que é verdade. Mas eu quero que ele venha à Corte, para eu perdoá-lo completamente. Quero vê-lo, quero ouvi-lo e fazê-lo operar milagres. Que ele venha e eu me farei seu protetor.” Assim ele dizia na outra tarde e Cusa não sabia o que dizer. Porque Tu não podes certamente atender aos desejos de Herodes. Hoje ele me disse: “Tu certamente vais a Ele… Dize-lhe a minha vontade.” E eu a digo. Mas… já sei qual vai ser a resposta. Mas, dize-a a mim, a fim de que eu lha possa transmitir.

– Não!

É um “não” que parece um raio.

– Não estarás criando para Ti um inimigo forte demais? –pergunta Tomé.

– E até um carrasco. Mas não posso responder, senão assim: “Não”.

– Ele nos irá perseguir…

– Oh! Dentro de três dias, não se lembrará de mais nada –diz Manaém, sacudindo os ombros.

E acrescenta:

– Prometeram levar-lhe umas dançarinas… Elas devem chegar amanhã… Mas ele se esquecerá de tudo!…

376.7 O servo está de volta:

– Patrão, aí estão Nicodemos, José, Eleazar e outros fariseus e cabeças do Sinédrio. Querem saudar-te.

Lázaro olha para Jesus interrogativamente. Jesus compreende:

– Que venham. Eu os saudarei com prazer.

Depois que entram José, Nicodemos, Eleazar (aquele justo do banquete de Ismael), João (aquele do banquete, acontecido há tempo, o do José de Arimateia), um outro que eu ouço chamar pelo nome de Josué, outro chamado Filipe, outro Judas, e último Joaquim. As saudações parecem não ter fim. Ainda bem que a sala é ampla, pois senão, como haveriam de fazer todas aquelas inclinações e dar tantos abraços, vestidos com estavam com todos aqueles mantos? Mas, por mais que ela seja ampla, fica tão cheia que os discípulos têm que sair um por um em fila. No fim, ficam somente Lázaro com Jesus. Talvez também nem lhes pareça que estão debaixo do foco de muitas pupilas sinedritas!

– Soubemos que estavas em Jerusalém, ó Lázaro. E viemos –diz o que tem o nome de Joaquim.

– E eu, com isso, sinto admiração e alegria. Há pouco, eu nem me lembrava mais do teu semblante –diz Lázaro, um pouco irônico.

– Mas… sabes… Sempre eu queria vir, mas… tu havias desaparecido.

– Mas não parecia que assim fosse. Porque, de fato, é muito difícil que se vá a um infeliz…

– Não! Não digas isso! Nós… estávamos respeitando o teu desejo. Mas agora que… não é verdade, Nicodemos?

– Sim, Lázaro. São os antigos amigos que estão de volta. Também para ouvir tuas notícias, e para venerar o Rabi.

– Que notícias me trazeis?

– Hum…. As de sempre. Coisas conhecidas de todos… O mundo. É isso…

Dão uma olhada de soslaio para Jesus, que está sentado em sua cadeira um pouco absorto.

376.8 – Como estais todos juntos hoje, se já acabou de passar o sábado?

– Houve aqui uma reunião extraordinária.

– Hoje? Que razão houve tão urgente?

Os que tinham chegado olham maliciosamente para Jesus. Mas Ele está absorto…

– Houve muitos motivos… –respondem depois.

– E eles não se relacionam com o Rabi?

– Sim, Lázaro. Também com Ele. Mas também um grave acontecimento esteve sendo julgado, enquanto as festas nos conservaram todos juntos na cidade –explica José de Arimateia.

– Um fato grave? Qual foi?

– Um… um erro de… juventude. Hum. Sim. Uma feia discussão, porque… Rabi, escuta-nos. Estás entre pessoas honestas. Ainda que não sejamos teus discípulos, mas também não somos teus inimigos. Lá na casa de Ismael Tu me disseste1 que eu não estou longe da justiça –diz Eleazar.

– É verdade. E o confirmo.

– E eu te defendi no banquete do José, indo contra Félix –diz João.

– Também isso é verdade.

– Estes pensam como nós. Hoje fomos chamados para decidir… e não estamos contentes com o que se decidiu. Porque venceram os outros que estavam contra nós. Tu, que és mais sábio do que Salomão, escuta, e julga.

Jesus o sonda com seu olhar profundo. E depois diz:

– Falai.

– Podemos estar seguros de que ninguém nos está ouvindo? Pois se trata de uma coisa horrível… –diz aquele que se chama Judas.

– Fecha a porta e baixa o toldo, que ficaremos num sepulcro –responde-lhe Lázaro.

376.9– Mestre, ontem cedo Tu disseste a Eleazar de Anás que não se contaminasse por nenhum motivo. Por que foi que o disseste? –pergunta Filipe.

– Porque tinha que dizer-lhe. Ele se contamina. Mas não Eu. Os livros sagrados dizem isso.

– É verdade. Mas como sabes que ele se contamina? por acaso a menina te terá falado antes de morrer? –pergunta Eleazar.

– Qual menina?

– Aquela que morreu depois da violência e com ela também a mãe, e não se sabe se foi a dor que as matou ou se elas se mataram, ou se foram mortas com veneno para que não pudessem falar mais.

– Eu não estou sabendo de nada disso. Eu estava vendo a alma corrompida do filho de Anás. Sentia o fedor dela. E falei. Outra coisa eu não sabia, nem estava vendo.

– Mas, que foi que aconteceu? –pergunta Lázaro, interessado.

– Aconteceu que Eleazar de Anás viu uma menina, filha única de uma viúva, e… a atraiu com o pretexto de arranjar-lhe trabalho, pois elas, para viverem, faziam trabalhos de confecção de vestes, e… abusou dela. A menina morreu… Três dias depois e com ela também a mãe. Mas, antes de morrer, apesar das ameaças que receberam, disseram tudo ao único parente… E ele foi a Anás levar-lhe a acusação e, não contente com isso, disse a José, a mim e a outros… Anás o mandou prender, e pôr na cadeia. De lá ele, ou irá para a morte ou não ficará mais livre. Hoje Anás quis saber o que pensamos a respeito disso –diz Nicodemos.

– Não o teria feito se não houvesse sabido que não o soubessem ainda –diz entre dentes, José.

– Sim… Afinal, com uma votação mascarada, com uma simulação de julgamento é que se decidiu sobre a honra e a vida de três infelizes e sobre a punição para o culpado –termina Nicodemos.

– E, então?

– E, então, é natural. Nós, que votamos pela liberdade do homem e pela punição de Eleazar, fomos ameaçados e expulsos como injustos. Que Tu dizes?

– Que Jerusalém me causa arrepios e que em Jerusalém o tumor mais fétido é o Templo –diz Jesus de modo lento e terrível.

E termina dizendo:

– Ide dizer isso aos do Templo.

– E Gamaliel, que diz? –pergunta Lázaro.

– Ele, mal ouviu a narração do fato, cobriu o rosto, e saiu, dizendo: “Que venha logo o novo Sansão para matar os filisteus corruptos.”

– Ele falou bem. Mas ele virá logo.

Um silêncio.

376.10 – E dele não se falou? –pergunta Lázaro, mostrando Jesus.

– Oh! Sim. Antes de tudo. Houve quem dissesse que Tu chamaste de “mesquinho” o reino de Israel. E por isto foste chamado de blasfemador. E de sacrílego também. Porque o reino de Israel é de Deus.

– Ah! Sim? E que nome foi dado pelo Pontífice ao violador de uma virgem? Ao emporcalhador do seu ministério? Respondei-me! –diz Jesus.

– Ele é filho do Sumo Sacerdote. Porque é sempre Anás o verdadeiro rei lá dentro –diz, atemorizado da imponência de Jesus, Joaquim, que o tem à frente, alto, em pé e com o braço estendido…

– Sim. É o rei da corrupção. E quereis que Eu não chame de “mesquinho” um reino no qual temos um Tetrarca imundo e homicida, um Sumo Pontífice cúmplice de um violador e de um assassino?

– Talvez a menina se tenha matado ou tenha morrido de dor –sussurra Eleazar.

– Sempre terá sido assassinada por seu violador… E agora não se está arranjando uma terceira vítima no parente, que está aprisionado para que não possa falar? E não se profana o altar, aproximando-se eles dele com tantos delitos? E a justiça não está sendo sufocada ao imporem eles silêncio aos justos do Sinédrio que já são tão raros? Sim, que venha logo o novo Sansão e derrube o edifício profanado, e acabe com ele para ser restaurado!… Eu com vômitos, por causa das náuseas que sinto, não somente chamo de “mesquinho” a este infeliz Reino. Mas me afasto de seu coração apodrecido, cheio de delitos sem nome, espelunca de Satanás… Eu me vou. Não por medo da morte. Mas, por enquanto, ainda vou indo porque não chegou a minha hora e eu não dou pérolas aos porcos de Israel, mas as levo para os humildes espalhados pelos tugúrios, pelos montes, pelos vales dos lugarejos pobres. Nesses lugares ainda se sabe crer e amar quando há quem o ensine. Nos lugares onde há espíritos sob vestes rústicas, enquanto que as túnicas e os mantos sagrados, e, mais ainda, o Efod e o Racional2, os expulso do Paraíso. E para sempre. Os que quiseram ser deuses mas são demônios. Não há necessidade que estejam mortos para serem julgados. Já o estão. E sem remissão.

376.11 Os vistosos sinedritas e fariseus parecem ter ficado pequeninos de tanto que eles se encolheram a um canto diante da ira terrível do Cristo, que parece, ao contrário, tornar-se um gigante de tão fulgurantes que estão os seus olhos e violentos os seus gestos.

Lázaro geme:

– Jesus! Jesus! Jesus!…

Jesus o ouve e, mudando de tom e de aspecto, lhe diz:

– Que tens, meu amigo?

– Oh! Não fiques terrível assim, não és mais quem eras! Como ter esperança na misericórdia, se te mostras tão terrível?

– E, no entanto é assim, e mais ainda, que Eu estarei, quando for julgar as doze tribos de Israel. Mas, cria coragem, Lázaro. Quem crê no Cristo já está julgado.

E Ele se assenta de novo.

Um silêncio. Finalmente, João pergunta:

– E nós, por termos preferido impropérios, em vez de mentir contra a justiça, como seremos julgados?

– Com justiça. Perseverai, e chegareis aonde Lázaro já está: a amizade de Deus.

Levantam-se.

– Mestre, nós vamos retirar-nos. A paz esteja contigo. E contigo, Lázaro.

– A paz esteja convosco.

– Que isso que foi dito fique aqui –suplicam muitos.

– Não temais! Ide. Deus vos guie em todos os vossos novos atos.

Eles saem. Ficam sozinhos Jesus e Lázaro. Pouco depois, este diz:

– Que horror!

– Sim. Que horror… Lázaro, eu vou preparar a partida de Jerusalém. Serei teu hóspede em Betânia até o fim dos Ázimos3.

– E sai…

1 me disseste, em 335.11; te defendi, em 114.5/6.
5 o Efod e o Racional, mencionados também em 114.7, 294.3, 509.4, 525.13 e 588.3, faziam parte do vestuário sacerdotal descrito em Êxodo 28; 39,1-32. O racional era um peitoral em forma de bolso quadrado, fixado ao éfode, que era uma veste. “Eu apenas porto o verdadeiro Racional sobre o qual está escrito: Doutrina e Verdade”, dirá Jesus a Caifás em 604.14. (O éfode era também o nome de um instrumento divinatório, como em Juízes 8,24-27).
2 Miguel é o nome do príncipe dos anjos que figura em Daniel 10,13.21; 12,1. Será mencionado também em 405.4.
3 dos Ázimos, ou seja, da festa dos Ázimos, que iniciava com a Páscoa e durava uma semana, durante a qual era permitido comer apenas pão ázimo, isto é, sem fermento, como está em Êxodo 12,15-20; 13,3-7; 23,15.


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