218. 218. Chegada a Ascalon, cidade dos filisteus.
14 de julho de 1945.
218.1 A aurora vem chegando, com o seu hálito fresco, para despertar os adormecidos; Eles se levantam de suas camas de areia, sobre as quais dormiram, ao abrigo de uma duna coberta por umas poucas ervas secas, e sobem para a parte mais alta dela. Uma profunda costa arenosa está à frente deles, enquanto, um pouco para um lado e um pouco para outro, há terrenos cultivados e bonitos. O leito de um rio sem água põe em realce, com suas pedras brancas, o louro da areia e, com sua brancura de ossos dessecados, ele vai até o mar, que daqui se vê reluzir lá longe, com seus vagalhões avolumados pela maré alta da manhã e tornados ainda mais altos por um pouco do vento mistral, que está soprando e penteando o oceano.
Caminham à beira da duna até chegarem à torrente seca e a atravessam, e começam de novo a andar, em diagonal, por sobre as dunas, que vão afundando debaixo dos seus pés, e que assim, todas onduladas, mais parecem uma continuação do mar, agora com matérias sólidas e enxutas, em vez de suas águas movediças. Chegam depois à praia úmida, e podem já andar mais depressa, enquanto João se deixa hipnotizar, ao olhar o mar sem confins, que começa a luzir com os primeiros lampejos do sol e fica parecendo estar bebendo aquela beleza, vai ficando com os olhos ainda mais azuis, e Pedro, mais prático, tira as sandálias, sunga a veste, e vai patinhando nas pequenas ondas da margem, procurando achar algum carangueijinho, ou algum molusco para chupar. Uma bela cidade marítima, a uns dois bons quilômetros de distância, se estende à beira-mar por sobre o rochedo em forma de meia Lua e para além do qual o vento e as borrascas transportaram as areias. E o rochedo, agora que a água, depois da maré, se retirou, fica descoberto também aqui, obrigando os passantes a voltar a andar sobre as areias enxutas, para não machucarem os seus pés nus nas pedras.
– Por onde vamos entrar, Senhor? Daqui se vê uma muralha bem compacta. Pelo mar não podemos entrar. A cidade está no ponto mais fundo do arco –diz Filipe.
– Vinde. Eu sei por onde se entra.
– Já estiveste aqui?
– Uma vez, quando Eu era pequenino e Eu nem me lembraria mais. Mas Eu sei por onde se passa.
– É estranho! Eu já notei isso muitas vezes… Tu não erras nunca de caminho. Algumas vezes somos nós que te fazemos errar. Mas Tu! Sempre parece que Tu tenhas estado no lugar onde te moves –observa Tiago de Zebedeu.
Jesus sorri, mas não responde. 218.2Ele vai sem hesitações até um pequeno subúrbio rural, onde os hortelãos cultivam verduras para a cidade. As chácaras e as hortas estão bem distribuídas e bem cuidadas, e as mulheres e os homens as cultivam, e estão agora despejando água nos sulcos, água que tiram dos poços com um grande trabalho para os braços, ou, então, com o velho e chiador sistema dos baldes, elevados por um pobre burrinho que, com um tapa-olhos, fica andando ao redor do poço. Mas eles não dizem nada. Jesus os saúda:
– Paz a vós.
E as pessoas permanecem, se não hostis, indiferentes.
– Senhor, aqui vamos correr o perigo de morrer de fome. Eles nem entendem a tua saudação. Agora, quem vai experimentar sou eu –diz Tomé.
E fala ao primeiro hortelão que vê, dizendo-lhe:
– Custa caro a tua verdura?
– Não mais do que as das outras hortas. Cara ou não, conforme estiver mais ou menos gorda a bolsa.
– Disseste bem. Mas, como estás vendo, eu não morro por deixar de comer. Sou gordo e corado, mesmo sem as tuas verduras. Sinal de que a minha bolsa é uma boa teta. Em poucas palavras: nós somos treze, e podemos comprar. Que é que tens para vender?
– Ovos, verduras, amêndoas temporãs e maçãs já murchas, porque apanhadas há tempo, azeitonas… o que quiseres.
– Dá-me ovos, maçãs e pão para todos.
– Pão, eu não tenho. Tu o achas na cidade.
– Eu estou com fome agora, e não com fome daqui a uma hora. Não creio que não tenhas pão.
– Não tenho. A mulher o está fazendo. Mas, estás vendo lá aquele velho? Ele sempre tem bastante, porque, como mora perto da estrada, muitos peregrinos lhe pedem. Vai a Ananias, e pede-lhe. Agora, vou buscar os ovos. Mas, olha que custam um denário cada dois.
– Ladrão. Será que as tuas galinhas põem ovos de ouro?
– Não. Mas não é bonito ficar no meio do fedor da galinhada e, de graça não se fica lá. Além disso, vós não sois judeus? Então, pagai.
– Fica com eles para ti. Está bem pago –e Tomé lhe vira as costas.
– Eh! Ó homem, vem aqui. Eu tos dou por menos. Três por um denário.
– Nem quatro. Bebe-os tu, e que te dêem um nó na garganta.
– Vem cá. Escuta. Quanto queres dar?
O hortelão vai atrás do Tomé.
– Nada. Não os quero mais. Eu queria fazer uma ligeira refeição, antes de ir para a cidade. Mas é melhor assim. Não perderei a voz nem o apetite para poder cantar as histórias dos reis e para tomar uma boa refeição no albergue.
– Eu lhes dou a uma didracma cada dois.
– Puxa! És pior do que uma mutuca. Dá-me os teus ovos. E que sejam frescos. Se não, eu volto aqui e faço teu nariz ficar mais amarelo do que já está –e Tomé já vai levando pelo menos duas dúzias de ovos na dobra da capa–. Vistes? As despesas sou eu que as farei daqui em diante, nesta terra de ladrões. Eu sei como lidar com eles. Eles vêm cheios de dinheiro para comprar de nós para as suas mulheres, e os braceletes que compram nunca são grossos demais, e nos preços pechincham dias inteiros. Mas eu me vingo. 218.3Agora, vamos àquele outro escorpião. Vem, Pedro. E tu, João, segura os ovos.
Vão indo até o velho, que tem uma horta comprida, ao lado da estrada mestra, que, vindo do norte, passando rente às casas do subúrbio, conduz à cidade. É uma estrada bonita, bem calçada, certamente obra dos romanos. A porta da cidade, do lado oriental, já está perto e, para além dela, se vê que a estrada continua reta. É realmente artística, transformada em uma dupla série de pórticos sombreados, sustentados por colunas de mármore, a cuja sombra fresca o povo caminha, deixando o centro da estrada para os jumentos, os camelos, os carros e os cavalos.
– Bom dia! Aqui vende pão? –pergunta Tomé.
O velho, ou não ouve, ou não quer ouvir. Na verdade, a chiadeira que a nora faz é tão forte, que chega a criar confusão.
Pedro, perde a paciência, e grita:
– Segura o teu Sansão! Pelo menos ele poderá tomar fôlego, para que não acabe morrendo aqui, diante de meus olhos. E escuta-nos!
O homem faz o burrinho parar, e fica olhando de lado para o seu interlocutor, mas Pedro o desarma, dizendo:
– E, então? Não será justo pôr o nome de Sansão em um burrinho? Se és filisteu, bem que te deves alegrar, porque é uma ofensa a Sansão1. E, se és de Israel, te deves alegrar, porque nos faz lembrar uma das derrotas dos filisteus. Logo, como estás vendo…
– Eu sou filisteu, e me orgulho disto.
– Fazes bem. Eu também te louvarei, se nos deres pão.
– Mas, não és tu judeu?
– Eu sou cristão.
– Que lugar é esse?
– Não é um lugar. É uma pessoa. Eu sou dessa pessoa.
– És escravo dela?
– Eu sou livre mais do que qualquer outro homem, porque quem é daquela pessoa não depende senão de Deus.
– Dizes a verdade? Não depende nem de César?
– Que César! Que é o César em comparação com Aquele que eu acompanho e ao qual pertenço, e em nome do qual eu te peço um pão?
– Mas, onde está esse poderoso?
– É aquele homem lá, que está olhando para cá e sorrindo. É Cristo, o Messias. Nunca ouviste falar dele?
– Sim, o rei de Israel. Vencerá Roma?
– Roma só? Ele vencerá o mundo todo, e até o Inferno.
– E vós sois os generais dele? Vestidos assim? Talvez para fugirdes às perseguições dos pérfidos judeus.
– Sim e não. Mas, dá-me um pão, que, enquanto vamos comendo, eu te explicarei.
– Pão só? Eu te darei também água, vinho, cadeiras à sombra, a ti, ao teu companheiro e ao teu Messias. Chama-o.
E Pedro sai, movendo rapidamente as pernas, até Jesus:
– Vem, vem. O velho filisteu nos dá o que queremos. Mas eu creio que ele nos acutilará com perguntas… Eu lhe disse quem és…mais ou menos, eu lho disse. Mas ele está bem disposto.
218.4 Vão todos para a horta, onde o homem já colocou uns bancos ao redor de uma mesa tosca, debaixo de uma viçosa trepadeira de videira.
– A paz a ti, Ananias. Que a terra produza flores por tua caridade, e te dê abundantes frutos.
– Obrigado. A paz a Ti. Senta-te, sentai-vos. Anibe! Nubi! Pão, vinho, água. Depressa –ordena o velho a duas mulheres, certamente africanas, pois uma é totalmente negra, dos lábios grossos e cabelos encarapinhados, e a outra é bem escura, mas já de um tipo mais europeu.
E o velho explica:
– São as filhas das escravas de minha mulher. Ela morreu e morreram as que tinham vindo com ela. Mas as filhas ficaram. É o alto e o baixo Nilo. Minha mulher era de lá. Proibido, não? Mas eu não ligo para isso. Eu não sou de Israel, e as mulheres de raça inferior são mansas.
– Não és de Israel?
– Eu o sou, mas forçado, porque Israel está sobre o nosso pescoço, como um jugo. Mas… tu és israelita, e ficarás ofendido com isto que te estou dizendo?
– Não. Eu não me ofendo. Gostaria somente que tu escutasses a voz de Deus.
– Ele não nos fala.
– Tu é que dizes isto. Eu te falo, e é a voz dele.
– Mas Tu és o rei de Israel.
As mulheres, que já vêm chegando com pão, água e vinho, e ao ouvir falar de “rei”, param, surpresas, olhando para aquele jovem louro, sorridente, cheio de dignidade, que o patrão chamou de “rei”, e depois procuram retirar-se, mas quase que rastejando, por causa do respeito.
– Obrigado, mulheres. E a paz também para vós.
Depois, dirigindo-se de novo ao velho:
– Elas são jovens… Podes, pois, continuar o teu trabalho.
– Não. A terra está molhada, e pode esperar. Fala um pouco. Anibe, para o asno, e leva-o para a sombra. E tu, Nubi, vai despejar os últimos baldes, e depois… Tu ficas conosco, Senhor?
– Não te incomodes com outras coisas. Pois para Mim, basta-me tomar um pouco de alimento, e depois vou entrar em Ascalon.
– Eu não fico incomodado. Vai, pois, Tu à cidade. Mas de tarde, volta, que vamos partir o pão e compartilhar do sal. E vós, ide depressa: tu a fazer o pão, e tu, vai chamar o Geteu e dizer-lhe que mate um cabrito, e o prepare para a tarde. Ide.
E as duas mulheres lá se vão, sem dizerem nada.
218.5 – De forma que, então, és rei? Mas, e as tuas armas? Herodes é cruel em tudo o que faz. Ele nos reconstruiu Ascalon. Mas foi para glória dele. E agora… Mas as vergonhas de Israel, Tu as conheces melhor do que Eu. Como farás?
– Eu não tenho outra arma, senão a que vem de Deus.
– Será a espada de Davi?
– A espada da minha palavra.
– Oh! Pobre ingênuo! Ela perderá a ponta e perderá o fio, ao encontro do bronze dos corações.
– Assim achas? Eu não tenho em vista um reino deste mundo. Para vós todos Eu tenho em vista o Reino dos Céus.
– Para nós todos? Até para mim, um filisteu? Até para as minhas escravas?
– Para todos. Para ti e para elas. E até para o selvagem, que está no centro das florestas da África.
– Queres formar um reino desse tamanho? E por que é que o chamas dos Céus? Poderias chamá-lo Reino da Terra.
– Não. Não erres em compreender. O meu é o Reino do Verdadeiro Deus. Deus está no Céu. Por isso é o Reino do Céu. Cada homem é uma alma vestida de corpo, mas a alma só pode viver nos Céus. Eu quero cuidar da alma, livrá-la dos erros e dos ódios, e conduzi-la para Deus pelo caminho da bondade e do amor.
– Isto me agrada muito. Os outros, eu a Jerusalém não vou, mas sei que os outros de Israel, há muitos séculos não falam assim. Queres dizer que Tu não nos odeias?
– Eu não odeio a ninguém.
O velho fica pensando… depois pergunta:
– E as duas escravas, terão elas também uma alma como vós de Israel?
– Com toda a certeza. Elas não são feras que tenham sido capturadas. São criaturas infelizes. Devem ser amadas. Tu as amas?
– Não as trato mal. Quero obediência, mas não faço uso do açoite, e as alimento bem. Animal não bem nutrido não pode trabalhar, costuma-se dizer. Mas também o homem mal alimentado não é um bom negócio. Além disso, são nascidas aqui em casa. Eu as vi pequeninas. Agora ficam só elas, porque eu sou muito velho, sabes? Quase oitenta. Elas e Geteu são o resto de minha casa de tempos passados. Eu me afeiçoei a elas como a móveis de minha propriedade. Elas é que me fecharão os olhos…
– E depois?
– Depois… Ora! Eu não sei. Irão trabalhar como criadas, e nossa casa se desfará. Isso me desagrada. Eu a fiz abastada, com o meu trabalho. Esta terra se tornará arenosa, estéril… Esta vinha… Nós a plantamos, eu e a mulher. Aquele roseiral… é egípcio, Senhor. Sinto nele o odor da minha esposa… Parece-me um filho… o único filho que está sepultado aos pés dele, já transformado em pó… Dores… Melhor morrer jovem e não ficar vendo isto, e a morte que vem chegando…
– O teu filho não está morto, nem a tua mulher. O espírito deles continua vivo. O que deles morreu foi a carne. A morte não deve espantar. É vida a morte para quem espera em Deus, e vive como justo. Pensa nisto. Eu vou à cidade. Voltarei esta tarde, e vou pedir-te aquele pórtico para dormir com os meus.
– Não, Senhor. Eu tenho muitos quartos vazios. E os ofereço.
Judas põe sobre a mesa algumas moedas.
– Não. Não as quero. Eu sou desta terra mal vista por vós. Mas talvez sejam melhor do que aqueles que nos dominam. Adeus, Senhor.
– A paz a ti, Ananias.
As duas escravas, junto com Geteu, um musculoso camponês já ancião, vieram para vê-lo partir.
– A paz também a vós. Sede bons. Adeus.
E Jesus toca de leve nos cabelos encarapinhados de Nubi e nos claros e estendidos da Anibe, sorri para o homem, e lá se vai.
218.6Pouco depois, entram em Ascalon, passando pelo dúplice pórtico, que vai diretamente para o centro da cidade, uma imitação de Roma, com tanques e fontes, com praças como a do Foro, com torres ao longo dos muros, e sobretudo com o nome de Herodes lá colocado por ele mesmo, para aplaudir-se, visto que os ascalonitas não o aplaudem. Há muito movimento e cresce muito, a cada hora que passa, e vai ficando perto a parte central da cidade, uma cidade aberta, bem arejada, com fundos iluminados e virados para o mar, que fica parecendo fechado como uma turquesa em uma tenaz de coral cor-de-rosa, pelo meio das casas espalhadas no arco profundo, que faz parte da costa, sem chegar a ser um golfo, mas um verdadeiro arco, uma porção do círculo que o sol ilumina todo, dando-lhe um tom róseo muito suave.
– Vamos dividir-nos em quatro grupos. Eu vou, ou melhor, deixo que vades. Depois, Eu escolherei. Ide. Depois da hora nona, Eu vos encontrarei, junto à Porta, pela qual tivermos entrado. Sede prudentes, e tende paciência.
E Jesus fica olhando como eles vão andando, e Ele permanece sozinho com Judas Iscariotes, que já declarou que a esses não vai dizer nada, porque são piores do que os pagãos. Mas, quando percebe que Jesus quer ficar andando para lá e para cá, sem falar, então ele muda de pensamento, e diz:
– Desagrada-te ficar sozinho? Eu iria com Mateus, Tiago e André, que são os menos capazes…
– Então, vai. Adeus.
E Jesus vai andando pela cidade, percorrendo-a no sentido do comprimento e da largura, como um desconhecido, por entre as pessoas atarefadas, que nem prestam atenção nele. Somente dois ou três meninos levantam a cabeça, curiosos, e uma mulher desonestamente vestida, que vai decididamente ao encontro dele, com um sorriso cheio de subentendidos. Mas Jesus olha para ela de um modo tão sério, que ela fica corada, e abaixa os olhos, indo-se embora dali. Tendo ela chegado a um canto, vira-se ainda, e, visto que um homem do povo, que observou a cena, lhe lança uma palavra mordaz de zombaria por sua derrota, ela se enrola em seu próprio manto, e foge.
Os meninos, ao contrário, andam ao redor de Jesus, olham para Ele, sorriem ao seu sorriso. Um mais corajoso pergunta:
– Quem és?
– Jesus –responde Ele, acariciando-o.
– Que fazes?
– Estou esperando uns amigos.
– São de Ascalon?
– Não. Da minha terra e da Judeia.
– És rico? Eu, sim. Meu pai tem uma bela casa e dentro está fazendo tapetes. Vem ver. É aqui perto.
E Jesus vai sozinho com o menino, entrando por um longo corredor, que mais parece uma estrada coberta. No fundo, tornado mais vivo por causa da penumbra do corredor, está brilhando um escorço de mar, muito iluminado pela luz do Sol.
218.7 Aí encontram uma menina muito magra, que está chorando.
– É Dina. É pobre, sabes? Minha mãe lhe dá comida. A mãe dela não pode mais trabalhar. O pai já morreu, no mar. Foi numa tempestade, quando de Gaza ele ia para o porto do Grande Rio, a fim de levar umas mercadorias e apanhar outras. Mas, como as mercadorias eram do meu pai, e o pai da Dina era um marinheiro nosso, minha mãe agora cuida delas. Mas, há tanta gente que ficou assim sem pai… Que dizes Tu? Deve ser triste ficar órfãos e pobres. Aqui está a minha casa. Não digas a eles que eu estava na rua. Eu devia agora estar na escola. Mas eu fui mandado para fora, porque eu estava fazendo os companheiros rir, com isto aqui… –e ele puxa para fora de sua veste um boneco entalhado em madeira em uma tabuinha fina e, na verdade, muito engraçado, apresentado com uma barba e um nariz muito caricaturados.
Jesus tem um sorriso, que lhe tremula sobre os lábios, mas se refreia, e diz:
– Não é o professor, é? Nem algum parente, não fica bem.
– Não. É o sinagogo dos judeus. Ele é velho e feio, e nós sempre zombamos dele.
– Isso também não está direito. Certamente ele é muito mais velho do que tu e…
– Oh! É um velho corcunda e quase cego, mas é tão feio!… Eu não tenho culpa se ele é feio!
– Não. Mas tens culpa por zombares de um velho. Também tu, quando fores velho, serás feio, porque ficarás encurvado, terás poucos cabelos, serás meio cego, caminharás com uma bengala e terás uma cara como aquela. E, então? Terás prazer se algum menino sem respeito zombar de ti? E, depois, para que perturbar o mestre e os companheiros? Não fica bem. Se teu pai soubesse disso, te castigaria, e tua mãe ficaria aborrecida. Eu não direi nada a eles, contanto que me dês logo duas coisas: a promessa de não cometer mais essas faltas e que me dês esse boneco. Quem foi que o fez?
– Eu mesmo, Senhor… –diz, envergonhado, o menino, já agora consciente da gravidade de suas travessuras…
E acrescenta:
– Eu gosto muito de entalhar a madeira! Algumas vezes eu reproduzo as flores dos tapetes, ou os animais que neles estão representados. Sabes?… Aqueles dragões, as esfinges, e outros animais ainda…
– Estas coisas tu podes reproduzi-las. Há tantas coisas bonitas neste mundo! E, então, prometes que me dás este boneco? Se não, não somos mais amigos. Eu o conservarei como lembrança de ti, e rezarei por ti. Como te chamas?
– Alexandre. E Tu, o que me dás?
Jesus fica embaraçado. Ele tem sempre muito pouco! Mas depois se lembra de ter uma fivela muito bonita, na gola de uma de suas túnicas, e a procura no saco, encontra e tira, e a dá ao menino.
– E agora vamos. Mas, presta atenção: mesmo que Eu me vá embora, Eu sei de tudo do mesmo modo. E, se Eu ficar sabendo que estás fazendo o mal, Eu volto aqui, e conto tudo à mamãe.
E o pacto ficou feito.
218.8 Eles entram na casa. Depois do vestíbulo, há um amplo pátio, e este é cercado de três lados por umas salas grandes, onde estão os teares.
A criada foi abrir, surpresa por ver o menino chegar acompanhado por um desconhecido, e vai avisar à patroa. E esta, uma mulher de aparência gentil, chega correndo, e pergunta:
– Mas será que o meu filho sentiu-se mal?
– Não, mulher. Ele me trouxe para ver os teus teares. Eu sou um forasteiro.
– Queres fazer compras?
– Não. Eu não tenho dinheiro. Mas tenho amigos, que gostam de coisas bonitas, e que têm dinheiro.
A mulher olha curiosamente para este homem que confessa, assim sem rodeios, que é pobre, e lhe diz:
– Eu pensava que fosses um senhor. Tens os modos e os ares de um grão senhor.
– Mas, em vez disso, Eu sou simplesmente um rabi galileu: Jesus, o Nazareno.
– Nós fazemos negócios, e não temos prevenções. Vem e olha!
E o leva a olhar os seus teares, onde umas moças trabalham, sob a direção da patroa. Os tapetes são realmente dignos de ser apreciados, seja pelos desenhos, seja pelas cores. São de uma boa espessura, macios. Parecem canteiros em flor, ou um caleidoscópio de pedras preciosas. Outros misturaram às flores figuras alegóricas como hipogrifos, sereias, dragões, e até mesmo grifos heráldicos semelhantes aos nossos.
Jesus se mostra admirado:
– És muito inteligente. Fiquei contente por ter visto tudo isso. E fiquei contente porque tu és boa.
– Como sabes disso?
– Se vê, e o menino me falou de Dina. Deus te recompense por isso. Ainda que tu não creias, estás já muito perto da Verdade, já que tens em ti a caridade.
– Qual verdade?
– A do Senhor Altíssimo. Quem ama ao próximo, e para com a família e os dependentes exercita a caridade, e a estende até aos mise ráveis, já tem em si a Religião. 218.9Aquela ali é a Dina, não é mesmo?
– Sim. A mãe dela está para morrer. Depois, eu ficarei com ela, mas não para trabalhar nos teares. Ela é ainda muito pequena e frágil. Vem aqui, Dina, a este senhor.
A menina, com o rostinho triste das crianças infelizes, aproxima-se dele timidamente.
Jesus a acaricia, e lhe diz:
– Tu me levas à tua mãe? Gostarias que ela ficasse sã, não é verdade? Então, leva-me a ela. Adeus, mulher. E, adeus, Alexandre. E sê bom.
E Jesus sai com a menina pela mão.
– És tu só? –ele pergunta.
– Tenho três irmãozinhos. O último não conheceu o pai.
– Não chores. És capaz de crer que Deus pode curar tua mãe? Tu sabes, não é mesmo, que há um só Deus, que ama os homens que Ele criou, e especialmente as crianças boas? E que Ele tudo pode?
– Eu sei, Senhor. Antes, o meu irmão Tolmé ia à escola, e na escola, nós nos misturamos com os judeus. E assim ficamos sabendo muitas coisas. Sei que Ele existe, e que se chama Javé, e que nos puniu, porque os filisteus foram maus para com Ele. Disso nos acusam sempre as crianças hebreias. Mas, eu não existia ainda, nem minha mãe, nem meu pai. Por que então?… –e o pranto lhe embarga a palavra.
– Não chores. Deus te ama e me trouxe aqui por causa de ti e da tua mamãe. Sabes que os israelitas esperam o Messias, que deve vir para fundar o Reino dos Céus? O Reino de Jesus Redentor e Salvador do mundo?
– Eu o sei, Senhor. E nos ameaçam, dizendo: “Ai de vós!”
– E sabes que é que o Messias fará?
– Fará grande a Israel, e nos tratará muito mal.
– Não. Ele redimirá o mundo, tirará o pecado, ensinará a não pecar, amará aos pobres, os doentes, os aflitos, irá a eles, ensinará aos ricos, aos sãos e aos felizes a amá-los, recomendará que sejam bons, para terem a vida eterna e feliz no Céu. Isto Ele fará. E não oprimirá a ninguém.
– E, como se ficará sabendo que é Ele?
– Porque Ele amará a todos, curará os doentes que crêem nele, redimirá os pecadores, e ensinará o amor.
– Oh! Se Ele estivesse aqui, antes que minha mãe morra! Como eu haveria de crer! Como eu o pediria! Eu iria procurá-lo, até que o encontrasse, e lhe diria: “Eu sou uma pobre menina sem pai, minha mãe está para morrer, e eu espero em Ti”, e tenho a certeza de que, ainda que eu seja uma filisteia, Ele me atenderia.
É uma fé simples e forte a que vibra na voz da menina. Jesus sorri, olhando para a pobrezinha, que vai andando a seu lado. Ela não está vendo este sorriso luminoso, porque está olhando para a frente, para a casa que já está perto…
218.10 Chegam a um casebre muito pobre, no fundo de um beco sem saída.
– É aqui, Senhor. Entra…
Um quartinho miserável, um colchão de palha, tendo sobre ele um corpo mirrado, três pequeninos com idades entre dez e três anos, sentados perto do colchão. A miséria e a fome transparecem em cada canto.
– A paz a ti, mulher. Não te movas. Não queremos te incomodar. Encontrei a tua filha, e fiquei sabendo que estás doente. E Eu vim. Gostarias de ficar sã?
A mulher, com um fio de voz, responde:
– Oh! Senhor!… mas, para mim tudo se acabou!… –e chora.
– Tua filha chegou a crer que o Messias poderia curar-te. E tu?
– Oh! Eu também creria. Mas, onde está o Messias?
– Sou Eu, que estou falando contigo.
E Jesus, que estava inclinado sobre o colchão, murmurando suas palavras perto do rosto da pobre prostrada, ergue o busto, e diz em voz alta:
– Eu quero. Fica curada.
Os meninos quase que ficam amedrontados com a imponência dele e estão, os três rostinhos espantados, fazendo uma coroa ao redor da enxerga da mãe. Dina junta e aperta as mãos sobre seu pequeno peito. Uma luz de esperança, de felicidade, brilha em seu rostinho. Ela está arquejante, de tão grande que é a sua emoção. Está de boca aberta, querendo dizer uma palavra, que seu coração está murmurando, e, quando vê que sua mãe, que antes estava da cor da cera e abandonada, agora, como se uma força a puxasse para si e se transfundisse nela, quando vê a mãe que ergue o busto para sentar-se depois, sempre com os olhos fixos no Salvador, e se põe de pé, então Dina é que dá um grande grito de alegria. “Mamãe!” Afinal, ela disse a palavra que lhe estava enchendo o coração!… E, depois, outra: “Jesus!” E, abraçando a mãe, a obriga a ajoelhar-se, dizendo:
– Adora, adora! É Ele aquele que o mestre de Tolmé dizia ser o Salvador profetizado.
– Adorai o verdadeiro Deus, sede bons, lembrai-vos de Mim. Adeus.
E rapidamente Ele sai, enquanto as duas, muito felizes, ainda estão prostradas no chão…
1 Sansão, cujaas ações empreendidas contra os filisteus são narradas em Juízes 14-16. Além disso, as lutas entre Israel e os filisteus, as quais muitas vezes se aludem no presente capítulo e nos sucessivos (a ultima vez em 221.9), são o argumento dominante de 1Samuel 4-7; 13-14; 17; 23; 28; 31.