384. 384. O velho Ananias se tornao custóde da casa de Salomão.
15 de fevereiro de 1946.
384.1 A casinha do Salomão, aquela que, sem saber quem era seu proprietário, eu vi, em março de 1944, na visão1 da ressurreição de Lázaro, é uma das últimas daquela rua única desta vilazinha pobre e fora de mão, e que chega até o rio. É uma vilazinha de barqueiros, com as casinhas mais ricas colocadas ao longo da pequena rua empoeirada, e as outras espalhadas, sem nenhuma ordem, por entre as árvores das margens. E certamente não são muitas. Talvez nem cheguem a cinquenta. E são tão pequenas, que caberiam todas em um daqueles casarões populares das grandes cidades de nossos dias. Agora a primavera as faz parecerem menos míseras, porque as torna agradáveis com seu frescor, com as grinaldas de convólvulos, com os festões das videiras, ou com o riso aberto das flores amarelas das aboboreiras, que estão sobre umas paliçadas rústicas, marcando os limites das propriedades, e subindo pelas beiradas dos telhados, ao redor das portas das casas. E não falta alguma roseira, que parece estar desambientada, por sua beleza, nesse entremeio de cestas e de redes, junto à amarelidão das mostardeiras em flor e do pacífico balancear das primeiras vagenzinhas dos legumes.
Até a estrada parece menos feia, porque o caniçal lá no fundo tem, não somente as bagas duras cheias de nós pulverulentos, mas se enfeita com os penachos das eleocárias e, por entre as fitas das folhas dos caniços, ergue as facas dos gladíolos selvagens, que se ostentam com as espigas multicores de suas flores, enquanto os leves convólvulos, de caule filiforme, abraçam em espiral os nós e os caniços, e em cada volta mostram o cálice muito tenro da pequena flor de um cor-de-rosa lilás muito tênue. E os passarinhos, às miríades, se amam por entre os caniços, namorando-se nas pontas deles, balançando-se pendurados aos convólvulos, misturando seus trinados e suas cores com o verde das margens palustres.
Jesus empurra a rústica cancela, que se abre para uma pequena horta, ou pátio. Certamente, se aqui era uma horta, agora é uma confusão selvagem de ervas, que renasceram; e, se era um pátio, as ervas formam agora um conjunto de herbáceas, aí semeadas pelo vento. Somente as aboboreiras é que se mostraram espertas, agarrando-se à videira ali plantada e à figueira, e subindo para mostrar as bocas risonhas de suas flores perto dos cachinhos, ainda em miniatura das videiras, ou das folhinhas ainda tenras da figueira, as quais, em sua base, justamente no berço onde está o pecíolo, apresentam a gema dura dos figos-flores, mal formados ainda. As urtigas atormentam os pés nus, de tal modo que Pedro e Tomé, tendo apanhado dois remos carunchados, se põem a machucar aquelas irritantes ervas, para diminuir o seu veneno.
Enquanto isso, Tiago e João procuram fazer funcionar a velha fechadura enferrujada e, tendo conseguido o que queriam, abrem a porta rústica, e entram em um quarto-cozinha, onde está forte o cheiro do mofo e de lugar fechado. Poeira e teias de aranha enfeitam as paredes, uma mesinha rústica, uns bancos e cadeiras e uma mesa constituem a mobília, e duas portas se abrem em uma parede.
384.2 Enquanto isso, Pedro está explorando…
– Aqui há um quartinho com uma só cama. É boa para Jesus… E aqui? Ah! Compreendi. Isto é a despensa, o arsenal, o celeiro e um ninho de ratos… Olha como estão correndo os ratos! Roeram tudo nestes meses. Mas agora quem vai pensar em vós sou eu, não duvideis… Mestre, pode-se mesmo agir aqui como donos?
– Foi o que disse Salomão.
– Muito bem! Dize, meu irmão, e tu, Tiago. Vinde cá para tapar todos os buracos. E tu, Mateus, junto com Judas, vai colocar-te na porta, e não deixes que saia nem um só dos ratos! Faze de conta que és ainda aquele amável cobrador do telônio de Cafarnaum. Naquele tempo, nenhum cliente te escapava, ainda que ele se tornasse esperto como uma lagartixa, ao acordar… E vós, ide apanhar quanto mais ervas secas puderdes no jardim, e trazei-as aqui. E Tu, Mestre, vai… para onde quiseres, enquanto eu… vou dar um jeito nestes satanases imundos, que estragaram estas boas redes, e comeram toda inteira uma quilha de barca…
E, enquanto ele vai falando, vai amontoando madeira roída, pedaços de rede reduzida a estopa, gravetos, pondo tudo no meio do quarto e, tendo arranjado também umas ervas verdes, as coloca sobre tudo o mais, e depois acende o fogo, e sai logo de lá, enquanto as primeiras volutas de fumaça vão-se levantando do montão. E ele se ri, dizendo:
– E morram todos os filisteus!
– Mas, não pões fogo em tudo? –pergunta Simão, o Zelotes.
– Não, meu caro. Porque a umidade dos ramos tempera o tamanho das chamas, as chamas soltam das ervas a fumaça, e assim, com uma boa combinação, o seco e o verde se ajudam, para fazerem uma vingança. Estás sentindo que fedor? Daqui a pouco, ouvirás os chiados. Quem é que me contava que os cisnes cantam, antes de morrer? Ah! Síntique! Daqui a pouco, quem vai cantar são os ratos.
Judas Iscariotes o interrompe, com uma grande risada, e observa:
– Não se pode saber nada mais dela. E nada de João de Endor. Quem vai saber onde foram parar?
– No lugar que devia ser –responde Pedro.
– Tu sabes onde é?
– Sei que eles não estão mais aqui, servindo de alvo para os que lhes tinham aversão.
– Mas, não perguntaste a ninguém? Eu, sim!
– E eu, não. Uma coisa que não me interessa é saber onde estão. Basta-me pensar e rezar para que se conservem santos.
Tomé diz:
– A mim me perguntaram sobre isso uns ricos fariseus, clientes de meu pai. Mas eu lhes respondi que não sei de nada.
– E, não estás curioso por saber? –insiste Judas.
– Eu não, e estou dizendo a verdade…
– Escutai, escutai! A fumaça está fazendo efeito. Mas, vamos para fora, senão ficamos sufocados também nós –diz Pedro. E esta observação pôs fim àquele assunto.
384.3 Jesus está no jardim, e vai pondo de pé os caules dos legumes, que nasceram das sementes caldas, e estão rastejando pelo chão.
– Estás fazendo de hortelão, Mestre? –pergunta sorrindo Filipe.
– Sim. Fico com dó até de ver uma planta, que rasteja inutilmente, quando ela está destinada a subir, rumo ao sol, e a produzir frutos.
– Belo assunto para um discurso, Mestre –observa Bartolomeu.
– Sim, é belo. mas tudo serve de assunto, para quem sabe meditar.
– Nós também vamos te ajudar. Quem vai por entre os caniços do rio ver se acha alguns legumes?
Os jovens vão, rindo, e os mais velhos começam a fazer uma limpeza, arrancando com cuidado as ervas parasitas.
– Oh! Agora se vê que era uma horta. Aqui só faz falta uma saladinha. Mas porrós, alhos, verduras, ervas finas e legumes aqui estão. E abóboras! Quantas abóboras. É preciso podar a videira, limpar a figueira, e…
– Mas, Simão, nós não vamos ficar aqui –diz Mateus.
– Mas aqui viremos outras vezes. Ele o disse. E não ficaremos aborrecidos, se tivermos um pouco de ordem ao redor de nós. Olha, olha! Até um jasmim, pobrezinho, está debaixo desta cachoeira de abóboras. Se Porfíria visse esta planta assim tão aflita, iria chorar sobre ela e lhe falaria como se fala a uma criança. Sim, porque, antes de ela ter Marziam, já falava com suas flores, como a filhos… Aí está.
Aqui eu também achei um lugar. Eu tirei a abóbora, porque… 384.4Oh! Lá vão os rapazes com uns caniços e com um… Mestre, há trabalho para Ti. É um cego!
De fato, estão entrando Tiago e João, André e Tomé, trazendo os caniços, e Tomé, que vem quase carregando o peso de um pobre velhinho, todo esfarrapado, e com os olhos embranquecidos pela catarata.
– Mestre, ele estava procurando agriões nas margens, e por pouco ia caindo na água. Ele ficou sozinho, há alguns meses, porque o filho, que o mantinha, morreu, a nora voltou para casa, e ele… vai vivendo como pode. Não é mesmo, pai?
– Sim. Sim. Onde está o Senhor –diz ele virando seus olhos velados.
– Está aqui. Estás vendo aquele vulto branco e alto? É Ele.
Mas Jesus já ia andando para frente, e o pega pela mão.
– Estás sozinho, pobre pai? E não nos estás vendo?
– Não. Enquanto eu tinha vista, eu entretecia cestos e nassas, e fazia redes. Mas agora… Eu vejo mais com os dedos do que com os olhos, e, ao procurar as ervas, eu me engano, e algumas vezes uso ervas nocivas, que me fazem mal ao estômago.
– Mas, no lugar…
– Oh! Lá são todos pobres e cheios de filhos, eu já estou velho!… Que é um velho? Que é que eu sou? A nora levou tudo o que eu tinha. Mas, se pelo menos ela me tivesse levado consigo, como uma ovelha velha, para que eu tivesse perto de mim os netinhos… os filhos do meu filho…
Ele chora, abandonado, sobre o peito de Jesus, que o segura entre os seus braços e o acaricia.
– Não tens casa?
– Ela a vendeu.
– E como vives?
– Como os animais. Nos primeiros dias o lugar me ajudava. Mas depois se cansaram…
– Então, Salomão faz mal por ser generoso –observa Mateus.
– Generoso conosco. Por que não deu ele a casa ao velho –pergunta Filipe.
– Porque, quando ele passou por aqui na última vez, eu tinha ainda uma casa. Salomão é bom. Mas no lugar lhe chamam “o doido”, de algum tempo para cá, e não fazem mais aquilo que Salomão tinha ensinado que se fizesse –diz o velho.
384.5 – Ficarias de boa vontade aqui comigo?
– Oh! Eu não ficaria mais com saudades dos netos!
– Mesmo se continuasses sendo pobre e cego, bastar-te-ia estar a meu serviço, para seres feliz?
– Sim!
Um sim trêmulo, mas muito enérgico…
– Está bem, pai. Escuta. Tu não podes fazer o caminho que eu faço. E eu não posso permanecer aqui. mas poderemos querer-nos bem, e fazer-nos bem um ao outro.
– Tu, sim, a mim, mas eu… Que pode fazer o velho Ananias?
– Guardar-me a casa e a horta, para que Eu a encontre em ordem, na volta. Agrada-te?
– Oh! Sim. Mas eu sou cego… A casa… eu me acostumarei com as paredes. Mas a horta… Que fazer para tomar conta dela, se eu não distingo as ervas umas das outras? Oh! Como seria belo servir-te, Senhor! E terminar minha vida assim…
O velho está com as mãos sobre o coração, sonhando com uma coisa impossível.
Jesus si inclina sorrindo e lhe beija os olhos embaçados…
– Mas eu… estou começando a enxergar… Estou vendo… Oh! Oh! Oh!…
Ele fica cambaleando de alegria, e cairia, se Jesus não o socorresse.
– Que alegria!… –diz Pedro, com a voz grossa pela emoção.
– E que fome… Ele disse que há dois dias vem vivendo somente com agrião, sem óleo e sem sal… –termina Tomé.
– Sim, nós o trouxemos por isso. Para matar-lhe a fome…
– Pobre velho! –todos se compadecem dele.
O velhinho volta a si e chora, chora. É o pobre pranto dos velhos… tão triste, mesmo quando choram de alegria, e ele murmura:
– Agora, sim, agora posso servir-te, ó bendito. Bendito! Bendito!
E ele gostaria de inclinar-se para beijar os pés de Jesus.
– Não, pai. Agora vamos para dentro, vamos comer, e depois te daremos uma roupa, e tu estarás entre filhos, e nós teremos um pai, que nos dará as boas vindas, cada vez que voltarmos, e a bênção, cada vez que partirmos. Vamos procurar dois pombos, para que tenhas criaturas vivas perto de ti. Procuraremos sementes para a horta, e tu as semearás nos canteiros, e semearás a Fé em Mim nos corações deste lugar.
– Ensinarei a caridade. Eles não a têm.
– Também a caridade. Mas procura ser afável.
– Oh! Eu o serei. Eu não disse nem uma palavra dura à nora, que me abandonou. Procurei compreender e perdoar.
– Eu vi isto em teu coração. Por isso, Eu te amei. Vem. Vem comigo… –e Jesus entra na casa, levando pela mão o velhinho.
384.6 Pedro olha como ele vai andando. E enxuga uma lágrima com as costas da mão, antes de retomar o trabalho interrompido.
– Estás chorando, irmão?
Pedro não responde. André insiste:
– Por que estás chorando, irmão?
– Ocupa-te com a grama, tu. Se eu estou chorando é porque… eu sei porque, porque…
– Dize-o também a nós, sê bom –dizem muitos.
– É por que… É porque me tocam mais o coração essas lições assim… assim afinal, feitas assim, e não como quando Ele troveja, imponente!
– Mas, então se vê nele o Rei! –exclama Judas.
– E aqui se vê o Santo. Tem razão Pedro –diz Bartolomeu.
– Mas, para reinar, precisa ser forte.
– Mas, para redimir, precisa ser santo.
– Para com as almas, sim. Mas, para Israel…
– Israel não será nunca Israel, se as almas não se santificarem.
Os “sim” e os “não” se entretecem. E cada um dá um parecer diferente.
O velhinho volta para fora com um jarro na mão. Ele vai à fonte buscar água. Nem parece mais aquele de antes, de tão feliz que está.
– Velho pai, escuta. Na tua opinião de que Israel está precisando para ser grande? De um rei, ou de um santo? –pergunta André.
– De Deus é que ele precisa. Daquele Deus que lá dentro reza e medita. Ah! Filhos, filhos, sede bons, vós que o acompanhais! Sede bons, muito bons. Ah! Que presente vos fez o Senhor! Que presente!
E ele se vai, agitando os braços, rumo ao céu e murmurando:
– Que presente! Que presente!…
1 na visão, de 23 de março de 1944, relatada no volume “I quaderni del 1944” (Os cadernos de 1944). A “ressurreição de Lázaro” relatada na presente obra, no capítulo 548, é de 26 de dezembro de 1946. Refere-se a dupla redação de certos episódios, trataremos em nota em 587.13.
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