244. 244. João repete o discurso de Jesus sobre a criaçãoe sobre os povos que esperam a Luz.
5 de agosto de 1945
244.1Todos estão subindo por atalhos sombreados, que vão para Nazaré. Os declives das colinas Galileias parecem ter sido criados nesta manhã, pois a última tempestade os lavou e o orvalho os conserva cheios de luz e frescor, brilhando todos ao primeiro sol. O ar está tão puro, que nos permite ver todos os pormenores dos montes mais ou menos próximos e nos dá uma sensação de leveza e boa disposição.
Quando se chega ao lado de uma colina, nossos olhos se divertem, diante de uma vista do lago muito bonita à luz desta manhã. Todos admiram, fazendo como Jesus. Mas Maria Madalena logo vira o olhar daquele para outro ponto, procurando alguma coisa em outra direção. Seus olhos vão pousar sobre os vértices das montanhas, que estão a noroeste do ponto em que ela se acha, mas parece não ter achado o que desejava.
Susana, que também está presente, lhe pergunta:
– Que estás procurando?
– Eu quereria reconhecer o monte onde encontrei1 o Mestre.
– Pergunta a Ele.
– Oh! Não vale a pena que eu o perturbe. Ela está agora falando justamente com Judas de Keriot.
– Que homem, aquele Judas! –sussurra Susana.
Ela não diz mais nada, mas o resto se entende.
– Aquele monte, certamente não está perto desta estrada. Mas uma vez eu te levarei até lá, Marta! Era uma manhã como esta, com tantas flores… Havia muita gente… Oh! Marta! E eu tive coragem de mostrar-me a todos com esta veste de pecado e com aqueles amigos… Não. Não podes ficar ofendida pelas palavras de Judas. Elas são por mim merecidas. Tudo aquilo eu mereci. E neste sofrimento está a minha expiação. Todos se lembram, todos têm o direto de dizer-me a verdade. E eu devo calar-me. Oh! Se as pessoas pensassem antes de pecar. Quem me ofende agora é o maior amigo, porque ele me ajuda a expiar.
– Mas isto não quer dizer que ele não tenha cometido uma falta. Mãe, teu filho está mesmo contente com este homem?
– É preciso rezar muito por ele. Assim diz ele.
244.2João deixa os apóstolos para ir ajudar as mulheres em uma passagem escabrosa, sobre a qual as sandálias deslizam e principalmente porque o caminho tem muitas pedras lisas espalhadas, parecendo escamas de ardósia avermelhada e uma ervinha clara e dura, coisas essas que são muito traiçoeiras para os pés, que nelas não encontram firmeza. Zelotes faz como João e, arrimando-se a eles dois, as mulheres conseguem ultrapassar aquele ponto difícil.
– É um pouco cansativo este caminho. Mas não tem poeira e a multidão. Além disso, é mais curto –diz Zelotes.
– Eu o conheço, Simão –diz Maria–. Eu fui àquele pequeno povoado, que está a meia encosta, com os meus sobrinhos, quando Jesus foi expulso de Nazaré –diz Maria Santíssima e suspira.
– Mas, visto daqui, o mundo é belo. Lá estão o Tabor e o Hermon, e no norte os montes de Arbela e, mais longe, o grande Hermon. É pena que não se veja daqui o mar, como se vê do Tabor –diz João.
– Estiveste lá?
– Sim, com o Mestre.
– João, com seu amor pelo infinito, nos obteve uma grande alegria, porque Jesus, lá no alto, falou de Deus com um arrebatamento nunca antes ouvido. Depois, quando já tínhamos obtido tudo isso, ainda obtivemos uma grande conversão. Tu também o ficarás conhecendo, Maria. E o teu espírito se sentirá fortalecido, ainda mais do que já estiver. Encontramos um homem endurecido no ódio, embrutecido pelos remorsos, e Jesus fez dele alguém, que eu não hesito em dizer que será um grande discípulo. Como tu, Maria. 244.3Porque, podes crer é também verdade o que eu te digo, nós pecadores somos os mais dispostos a ceder ao Bem, que nos atrai, porque sentimos a necessidade de ser perdoados até por nós mesmos –diz Zelotes.
– É verdade. Mas tu és muito bom, quando dizes “nós pecadores.” Tu podes ter sido um infeliz, mas não um pecador.
– Todos nós somos, uns mais outros menos, e quem pensa que o é menos está mais sujeito a tornar-se pecador, se é que ainda não o é. Todos nós somos. Mas os maiores pecadores, que se convertem, são os que sabem ser sem limites no Bem, como o foram no mal.
– O teu conforto me alivia. Sempre foste um pai para os filhos de Teófilo, tu mesmo.
– E, como um pai, eu me alegro por ver-vos, os três, como amigos de Jesus.
– Onde foi que encontrastes aquele discípulo, grande pecador?
– Foi em Endor, Maria. Simão quer atribuir ao meu desejo de ver o mar o merecimento por muitas coisas belas e boas. Mas, se João, o ancião, veio até Jesus, não foi por merecimento de João, o estulto. Foi por merecimento de Judas de Simão –diz sorrindo o filho de Zebedeu.
– Foi ele quem o converteu? pergunta duvidosa, Marta.
– Não. Mas foi ele que quis que fôssemos a Endor e…
– Sim. Para vermos a caverna da maga… É um homem muito esquisito, Judas de Simão… Precisa-se aceitá-lo como é… E João de Endor foi quem nos guiou até a caverna, e depois ficou conosco. Mas, meu filho, o merecimento será sempre teu, porque sem aquele teu desejo de infinito, não teríamos tomado aquele caminho, nem teria vindo a Judas de Simão o desejo de ir àquela estranha busca.
244.4– Eu gostaria de saber o que foi que Jesus disse no alto do Tabor2…
como eu gostaria de reconhecer o monte onde o vi –suspira Maria Madalena.
– O monte é aquele sobre o qual parece estar-se acendendo agora o sol, por causa daquela pequena lagoa, usada pelos rebanhos e que recolhe as águas das nascentes. Nós estávamos mais acima, no ponto em que o cume parece rachado por alguma gigantesca picareta, que tivesse querido pôr em fila as nuvens e encaminhá-las para outros lugares. Quanto às palavras que Jesus disse, eu creio que João te poderá dizer.
– Oh! Simão! Quando é que um rapaz vai poder repetir as palavras de Deus?
– Um rapaz, não. Mas tu, sim. Experimenta. Por consideração para com tuas irmãs e para comigo, que te quero bem.
244.5João fica muito vermelho, quando começa a repetir o discurso de Jesus.
– E Ele disse: “Eis a página infinita sobre a qual as águas correntes vêm escrever a palavra ‘Creio’. Pensai no caos do Universo, antes que o Criador quisesse ordenar os elementos e estabelecer entre eles a maravilhosa sociedade que deu aos homens a terra e tudo o que ela contém, e ao firmamento os astros e os planetas. Nada de tudo isso existia antes. Nem como um caos informe, nem como coisa já feita em ordem. E Deus a fez. Portanto, Ele fez primeiro os elementos. Pois eles são necessários, ainda que às vezes nos pareçam nocivos.
Mas pensai bem e sempre. Não há nenhuma pequena gota de orvalho que não tenha a sua boa razão de ser. Não há inseto, por pequeno e molesto que seja, que não tenha sua boa razão de ser. E assim também não existe montanha, por mais monstruosa que seja, vomitando de suas vísceras fogo e pedras incandescentes, que não tenha sua boa razão de ser. Não existe ciclone sem motivo. E não há, passando das coisas para as pessoas, não há acontecimento, não há pranto, não há alegria, não há nascimento, não há morte, não há esterilidade ou maternidade fecunda não há longo convívio nem rápida viuvez, não há desventuras de misérias e doenças, como também não há prosperidade de meios e de saúde, que não tenha a sua boa razão de ser, ainda que assim não pareça à miopia e soberba do homem, que vê e julga com todas as suas cataratas e com todas as névoas que acompanham as coisas imperfeitas. Mas o Olho de Deus, mas o Pensamento sem limitações de Deus, vê e sabe. O segredo para se viver imunes dessas dúvidas estéreis, que nos fazem ficar nervosos e nos exaurem, que envenenam os nossos dias na terra, está em saber crer que Deus tudo faz por amor e não na estulta intenção de atormentar por atormentar.
244.6Deus havia criado os anjos. E uma parte deles, por não terem querido acreditar que já estava bom o nível de glória em que Deus os havia colocado, se haviam rebelado e, com seus espíritos queimados pela falta de fé em seu Senhor, haviam tentado assaltar o trono inacessível de Deus. Às harmoniosas razões dos anjos que tinham fé, eles haviam oposto a sua discordância, o seu pensamento injusto e pessimista, e esse pessimismo, que é falta de fé, os tinha transformado de espíritos de luz, como haviam sido feitos, em espíritos das trevas.
Vivam para sempre aqueles que, no Céu como na terra, sabem fundamentar seus pensamentos em um pressuposto cheio de luz. Nunca se enganarão completamente, ainda que os fatos os estivessem desmentindo. Não se enganarão, pelo menos no que se refere aos seus espíritos, os quais continuarão a crer, a esperar, a amar acima de tudo a Deus e depois ao próximo, permanecendo por isso com Deus pelos séculos dos séculos.
O Paraíso já tinha ficado libertado desses orgulhosos pessimistas, os quais viam como escuras até as mais luminosas obras de Deus, assim como na terra os pessimistas veem escuras até as ações mais sinceras e brilhantes do homem, ou por quererem viver separados em uma torre de marfim, ou por se crerem os únicos perfeitos, eles se auto-condenam a uma prisão escura, que termina nas trevas do reino inferior, o reino da negação. Porque o pessimismo é negação
244.7Deus, pois, fez o conjunto dos seres criados. E, como, para compreender o mistério glorioso de Nosso Ser Uno e Trino, é necessário saber crer e ver que, desde o princípio, o Verbo existia, e estava junto de Deus, unidos pelo Amor perfeitíssimo, que só podem expandir dois, que são Deus sendo Um, assim igualmente para se ver o conjunto dos seres criados como ele é, é necessário olhá-lo com os olhos da fé, porque no seu ser, assim como um filho traz em si o indelével reflexo do pai, assim o conjunto dos seres criados tem em si o indelével reflexo do seu Criador. Veremos, então, que também aqui, no princípio foi o céu e a terra, depois foi a luz, comparável ao amor. Porque a luz é alegria, como o é também o amor. E a luz é a atmosfera do Paraíso. E o Ser incorpóreo, que é Deus, é Luz, e é o Pai de toda luz intelectiva, afetiva, material, espiritual, assim no céu, como na terra.
No princípio foi o céu e a terra, e por eles foi dada a luz, e pela luz todas as coisas foram feitas. E, como no Céu altíssimo foram separados os espíritos de luz dos espíritos das trevas, assim, no conjunto dos seres criados, foram separadas as trevas da luz, e foram feitos o dia e a noite e o primeiro dia, conjunto dos seres criados, foi, com sua manhã e sua tarde, com seu meio-dia e sua meia-noite. E, quando o sorriso de Deus, a luz, voltou depois da noite, eis que a mão de Deus, a sua poderosa vontade, se estendeu sobre a terra informe e vazia, se estendeu por sobre o céu, onde vagavam as águas, um dos elementos já libertados do caos, e quis que o firmamento separasse o vaguear desordenado das águas entre o céu e a terra, para que houvesse um véu aos fulgores do paraíso, medida às águas superiores, para que sobre a agitação dos metais e dos átomos, não caíssem dilúvios sobre a terra, arrancando e desregrando as coisas que Deus reunia.
A ordem estava estabelecida no céu. E a ordem se fez sobre a terra, pela ordem que Deus deu às águas espalhadas pela terra. E o mar se fez. Ei-lo. Sobre ele, como sobre o firmamento, está escrito: ‘Deus existe.’ Seja qual for a intelectualidade de um homem e a sua fé ou a sua falta de fé, diante desta página, na qual brilha uma partícula do infinito que é Deus, na qual está testemunhado o seu poder — porque nenhum poder humano e nenhum assentamento natural de elementos podem repetir, nem mesmo na menor medida, um prodígio igual, — o homem é obrigado a crer. A crer não só no poder, mas na bondade do Senhor, que por este mar dá alimento e estradas ao homem, dá sais salutíferos, dá moderação para o sol e espaço para os ventos, dá sementes à terra, uma distante da outra, dá vozes às tempestades, para que eles chamem de novo essa formiga, que é o homem em comparação com o infinito que é o seu Pai, e dá-lhe meios para elevar-se, contemplando mais altas visões, em mais altas esferas.
244.8Três são as coisas que mais falam de Deus na criação que é toda testemunho dele: A luz, o firmamento e o mar. A ordem astral e meteorológicas, reflexo da ordem divina; a luz, que só um Deus podia fazer; o mar, a potência que só Deus, depois de tê-lo criado, podia pôr dentro de firme limites, dando-lhe movimento e voz, sem que por isso, como um turbulento elemento de desordem, ele cause prejuízo à terra, que o suporta em sua superfície.
Penetrai o mistério da luz, que nunca se consome. Levantai o olha-r para o firmamento, onde estão rindo as estrelas e os planetas. Abaixai o vosso olhar para o mar. Vede-o como ele é. Não há separação. Mas há uma ponte entre os povos que estão em outras praias, invisíveis, até desconhecidas, mas que é necessário crer que existem, só porque são deste mar. Deus não faz nada inútil. Por isso Ele não teria feito essa infinidade, se ela não tivesse como limite lá, para lá do horizonte, que nos impede de ver, outras terras, povoadas por outros homens, vindas todas de um único Deus, levadas para lá por vontade de Deus, para povoarem continentes e regiões, levadas por tempestades e correntes marítimas. E esse mar leva em suas ondas, nas vozes de suas águas e de suas marés, apelos que vêm de longe. Existem caminhos, não separações.
A ânsia que produz uma doce angústia em João é este apelo dos irmãos longínquos. Quanto mais o espírito se torna dominador da carne, tanto mais ele é capaz de ouvir as vozes dos espíritos que estão unidos, mesmo quando divididos, assim com os ramos que brotaram de uma única raiz estão unidos, mesmo quando um não vê o outro, porque algum obstáculo se interpõe entre eles.
Olhai o mar com olhos de luz. Nele cevareis terras e terras, espalhadas ao longo das praias, dentro de seus limites e pelo interior, terras e mais terras ainda, e de todas vem este grito: ‘Vinde! Trazei-nos a luz que vós possuís. Trazei-nos a vida que vos é dada. Dizei ao nosso coração a palavra, que nós ignoramos, mas que sabemos que é a base do universo: o amor. Ensinai-nos a ler a palavra que vemos traçada sobre as páginas infinitas do firmamento e do mar: Deus. Iluminai-nos para que vejamos que uma luz viva é mais e mais verdadeira ainda do que aquela que avermelha os céus e enche de pedras preciosas o mar. Dai às nossas trevas a Luz que Deus vos deu, depois de tê-la gerado com o seu amor, e a deu a vós, mas para todos, assim como a deu aos outros, mas para que eles a dessem à terra. Vós sois os astros, nós a poeira. Mas, formai-vos assim como o Criador com o pó da terra formou o homem para que a povoasse, adorando-o agora e sempre, até que chegue a hora em que não existirá mais a terra, mas venha o Reino. O Reino da luz, do amor, da paz, assim como a vós o Deus vivo disse que virá, porque nós também somos filhos deste Deus e pedimos para conhecer o nosso Pai.’
E, por caminhos do infinito, aprendei a andar. Sem temores e sem desprezos. Indo ao encontro dos que clamam e choram. Indo àqueles que vos causarão até tristeza, porque sentem Deus, mas não sabem adorar a Deus, e que, no entanto, vos darão glória, porque vós sereis grandes e, quanto mais possuirdes o amor, mais o sabereis dar, levando à verdade os povos que vos esperam.”
244.9 Jesus falou assim, muito melhor do que eu disse. Mas pelo menos esse é o seu conceito.
– João, tu fizeste uma repetição exata do Mestre. Só deixaste o que Ele disse sobre o teu poder de compreender a Deus, pela tua generosidade de doar-te. Tu és bom, João. És o melhor entre nós, Fizemos a viagem, sem dar-nos conta disso. Lá está Nazaré sobre suas colinas. O Mestre está olhando para nós e sorrindo. Unamo-nos a Ele para entrarmos juntos na cidade.
– João –diz a Virgem Maria–. Deste um grande presente à Maria.
– Eu também. À pobre Maria, você abriu horizontes infinitos…
– De que é que estavam falando tanto? –pergunta Jesus aos que estão chegando.
– João repetiu o teu discurso no Tabor. De um modo perfeito. E nós ficamos felizes.
– Fico contente que a Mãe tenha ouvido, Ela que traz um nome, ao qual o mar não é estranho, e possui uma caridade vasta como o mar!
– Meu Filho, Tu a possuis como homem, e isso ainda não é nada, em comparação com a tua infinita caridade de Verbo de Deus. Meu doce Jesus!
– Vem, minha Mãe, para o meu lado. Como quando voltávamos de Caná ou de Jerusalém, quando Eu era menino, e tu me seguravas pela mão.
E olham-se com olhares de amor.
1 onde encontrei, em 174.11/14.
2 no alto do Tabor… A obra não nos mostrou quando pararam sobre o monte, mas somente a ida (em 187.5) e o seu retorno (em 188.1).
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