538. 538. Jesus orante na gruta da Natividade,contemplado pelos discípulos ex-pastores.
11 de dezembro de 1946.
538.1Jesus está atrás do Templo, perto da Porta do Rebanho, fora da cidade. Ao redor dele estão os apóstolos e os discípulos pastores, menos Levi, ainda assustados e enfurecidos. Não vejo nenhum outro dos discípulos, que antes estavam no Templo com Ele.
Estão discutindo uns com os outros e com Jesus, mas com Judas de Keriot de modo especial. Estão censurando a este último pela ira dos judeus, e o fazem com uma ironia um tanto mordaz. Judas os deixa falar e fica repetindo:
– Eu falei com os fariseus, os escribas e os sacerdotes, e nenhum deles estava no meio do povo.
Censuram Jesus por não ter interrompido a discussão, depois de tê-la feito cessar na primeira vez. E Jesus responde:
– Eu devia completar a minha exposição.
E ainda estão em desacordo sobre para onde irem, pois o sábado está próximo e os dias ainda são de festa. Simão Pedro propõe a casa do José de Arimateia, porque em Betânia não é lugar para se ir e causar incômodo, especialmente depois que Jesus já declarou que a Betânia não é para se ir mais.
Tomé responde:
– José não está e Nicodemos também não. Eles estão fora. Foram à festa. Eu os saudei ontem, quando estávamos à espera de Judas, e eles me disseram.
– Vamos a Nique, então –propõe Mateus.
– Ela está em Jericó, para a Festa –responde Filipe.
– Vamos a José de Séforis –diz Tiago de Alfeu.
– Hum! José… Não lhe estaremos fazendo nenhum presente! Ele tem tido aborrecimentos e… Sim, que eu direi quais! Ele venera o Mestre, mas quer a sua paz. Parece uma barca presa entre duas correntes opostas… e para ficar sempre flutuando, dependendo sempre de que se ponham nela os lastros. Mesmo que o lastro seja leve como o pequeno Marcial, e por isso é que não lhe pareceu bem cedê-lo a José de Arimateia –diz Pedro.
– Ah! Então, é por isso que ontem ele o tinha em sua companhia…
–exclama André.
– Isso mesmo. E por isso é melhor deixá-lo acalmar-se em algum portozinho seguro. Não somos muito corajosos. E o Sinédrio faz medo a todos! –diz ainda Pedro.
– Fala por ti, eu te peço. Eu não tenho medo de ninguém –diz Iscariotes.
– Nem eu. Para defender o Mestre, eu desafiaria todas as legiões. Mas nós somos nós… Os outros… Ah! Eles têm seus negócios, suas casas, suas mulheres, suas filhas, e ficam pensando em tudo isso.
– Nós também temos tudo isso. E então? –observa Bartolomeu.
– E sois iguais aos outros. Não critiqueis ninguém, porque a hora da prova ainda não chegou –diz Jesus.
– Não chegou? E que coisas queres a mais do que aquelas pelas quais já temos passado? No entanto, viste hoje como eu te defendi! Todos temos te defendido. Mas eu mais do que todos. Eu abri caminho com uns empurrões que teriam feito flutuar uma barca!… 538.2Uma ideia! Vamos para Nobe. Ficará feliz o velho!
– Sim, sim. Para Nobe –aprovam todos.
– João não está lá. Viajaríeis à toa. A Nobe podeis ir, mas não à casa de João.
– Podeis. E Tu, não podes?
– Não quero, Simão de Jonas. Eu já tenho um lugar para ir durante estas tardes das Encênias. Mas quando eu for tirado do meio de vós, podeis estar tranquilos em qualquer lugar. Por isso Eu vos digo: ide por onde quiserdes. Eu vos abençoo. Eu vos faço lembrar que vivais unidos de corpo e alma, obedientes a Pedro, vosso chefe, mas não como a um patrão, e sim, como a um irmão mais velho. Logo que Levi tiver voltado com a minha sacola, nos separaremos.
– Isto não, meu Senhor! Que eu te deixe ir sozinho, isso nunca!
–exclama Pedro.
– Assim há de ser sempre, se Eu o quiser, Simão de Jonas. Mas não te preocupes. Não estarei na cidade. Ninguém, a não ser um anjo ou um demônio, descobrirá o meu refúgio.
– E é bom assim. Porque já há demônios demais que te odeiam. Eu te digo que sozinho não irás!
– Há anjos também, Simão, e Eu irei.
– Mas para onde? Para qual casa, se Tu rejeitaste as melhores, ou por tua vontade ou pelas circunstâncias?! Não irias querer ficar nesta estação em qualquer gruta dos montes?
– E se fosse isso? Seriam elas sempre menos geladas do que os corações dos homens que não me amam –diz Jesus, como se estivesse falando consigo mesmo, e baixando a cabeça para esconder um brilho de pranto em seus olhos.
538.3– Eis Levi. Vem correndo –diz André, que está olhando do alto da estrada.
– Então, demo-nos a paz e separemo-nos. Se quereis ir a Nobe, fazei isso logo, em tempo, antes do pôr do sol.
Levi chega, ofegante:
– Estão te procurando por toda parte, Mestre… Assim me disseram os que te amam… Eles estiveram em muitas casas, especialmente nas de gente pobre…
– Eles te viram? –pergunta Tiago de Zebedeu.
– Com certeza. E até me fizeram parar. Mas eu, que já esperava isso, lhes disse: “Eu vou para Gabaon”, e saí logo pela Porta de Damasco, correndo por detrás dos muros… Eu não menti, Senhor, porque eu e estes fomos a Gabaon depois do sábado. Esta noite estaremos nos campos da cidade de Davi… São dias de recordações para nós… –e olha para Jesus com um sorriso angelical em seu rosto viril e barbudo, um sorriso que revela em seu semblante o menino daquela noite já distante1.
– Está bem. Vós já podeis ir. E vós também. E também Eu. Cada um pelo seu caminho. Ireis esperar-me na cidade de Salomão, onde Eu estarei dentro de poucos dias. E antes de deixar-vos repito as palavras que Eu vos disse, antes de mandar-vos dois a dois pelas cidades: “Ide, pregai, anunciai que o Reino de Deus está muito perto. Curai os doentes, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos do espírito e da carne, impondo em meu Nome a ressurreição do espírito, a procura de Mim, que é vida, ou a ressurreição da morte. E não vos ensoberbeçais do que fizerdes. Evitai as discussões entre vós e com quem não vos ama. Não exijais nada pelo que fizerdes. Preferi ir por entre as ovelhas perdidas da casa de Israel, e não por entre os gentios e samaritanos. E isto, não por aversão, mas porque não estais ainda preparados para poderdes convertê-los. Dai o que tiverdes, sem preocupar-vos com o dia de amanhã. Fazei tudo o que me vistes fazer e com um espírito igual ao meu. Eis. Eu vos dou o poder de fazer o que Eu faço e que quero que façais, para que Deus seja glorificado.
Depois Jesus sopra sobre eles, beija-os um por um e se despede deles.
538.4Todos partem pesarosos, olhando para trás muitas vezes. Ele os saúda com a mão até ver que todos se foram, depois desce para o leito do Cedron, por entre as moitas, e assenta-se em um penhasco à beira da água que borbulha. Bebe desta água clara e certamente gelada. Lava o rosto, as mãos e os pés. Depois põe sua veste e torna a sentar-se. Fica pensando… E não percebe o que está acontecendo perto dele, isto é, que o apóstolo João, que já ia longe com os companheiros, voltou atrás sozinho e o imita escondendo-se em uma moita fechada…
Jesus fica ali por algum tempo, depois se levanta, põe a bolsa a tiracolo e, acompanhando o Cedron, que vai passando de uma moita para outra, chega ao poço de En Rogel, e depois atalha, indo para sudoeste, até chegar à estrada que vai para Belém. E João, a uns cem passos atrás, o acompanha, todo embuçado em seu manto para não ser reconhecido.
E vão indo, sem parar pelas estradas despojadas de plantas pelo rigor do inverno. Jesus, com seu passo longo, vai deixando para trás o caminho. João o acompanha com dificuldade, porque tem que tomar cuidado para não ser percebido. Por duas vezes Jesus parou e olhou para trás. Na primeira, ao passar perto da pequena colina, onde Judas foi para falar com Caifás e os companheiros. E a segunda, perto de um poço, onde ele se assenta e come um pedacinho de pão, bebendo depois da ânfora de um homem. Em seguida, põe-se de novo a caminhar, enquanto o sol vai descendo, descendo… até que chega o crepúsculo. Chega ao sepulcro de Raquel quando a última vermelhidão do sol no ocaso vai-se apagando e se transformando numa pincelada de cor arroxeada. O céu, do lado do ocidente, parece uma cobertura de glicínias em flor, ao passo que do lado do oriente, já está da cor do puro cobalto, no frio firmamento invernal do oriente, e já as primeiras luzes siderais começam a brilhar lá nos limites mais afastados de sua abóbada.
Jesus apressa o passo, para poder chegar ao ponto desejado antes que a noite escureça. Mas tendo atingido um ponto alto, do qual se vê toda a cidadezinha de Belém, Ele para, olha, suspira… Depois põe-se a descer rapidamente. Não entra na cidade, mas passa ao redor dela, pelo meio das últimas casas. Vai diretamente até às ruínas da casa ou torre de Davi, onde Ele nasceu. Atravessa o rio que passa por perto da gruta, põe o pé sobre o pequeno espaço cheio de folhas secas… Dá uma olhada por sobre os escombros. Está vazia… Ele entra…
E João fica lá de longe, tomando cuidado para não ser nem ouvido nem visto. Caminha, olha, mais às apalpadelas do que com a vista, encontra mais um dos estábulos arruinados, entra e acende uma luz em um dos cantos. Vê lá um pouco de palha e de ervas sujas. Alguns ramos secos. Algum feno na manjedoura.
538.5João está contente. E diz a si mesmo: “Pelo menos… ouvirei… e… Ou morremos os dois juntos, ou eu o salvo.” Depois suspira e diz:
– E Ele nasceu assim! E agora vem até aqui para chorar em sua dor… E… Ah! Eterno Deus! Salva o teu Cristo! Meu coração está tremendo, ó Deus Altíssimo, porque Ele sempre se isola antes de suas grandes obras… E que obra maior pode fazer, a não ser a de manifestar-se como Rei Messias? Oh! Todas as suas palavras estão aqui dentro de mim… Eu sou um rapaz tolo e compreendo pouco. Todos nós compreendemos pouco, ó nosso Eterno Pai. Mas eu estou com medo. Tenho medo! Porque Ele fala de morte. E de morte dolorosa, de traição, e de coisas horríveis… Tenho medo! Medo, meu Deus! Fortifica o meu coração, ó Senhor Eterno. Fortifica o meu coração de pobre rapaz, assim como certamente fortificas o do teu Filho para as futuras vicissitudes… Oh! Eu já o estou ouvindo! Ele veio até aqui para isto. Para ouvir-te mais do que nunca e fortificar-se no teu amor. E eu o imito, ó Pai Santíssimo! Ama-me, e faze que eu te ame para ter a força de tudo padecer sem covardia, para o conforto de teu Filho.
João faz uma longa oração, posto de pé, com os braços levantados, à luz trêmula de dois fachos, que ele acendeu no fogão antigo. Fica rezando até ver que o fogo está para apagar-se. Depois sobe para a larga manjedoura e se acocora sobre o feno. Ele forma uma sombra unida a outra sombra, envolvido como está em seu manto escuro e envolvida como está a gruta nas trevas; até que uma primeira claridade da lua vai entrando pela abertura virada para o nascente, para dizer que a noite já vai alta. Mas João, cansado, pegou no sono. Sua respiração e o leve rumor do regato são os únicos barulhos dentro desta noite de dezembro.
No alto o céu, no qual há nuvens leves como uns véus, contra os quais a lua vai-se chocando, tudo parece estar sendo percorrido por fileiras de anjos… Contudo, não se ouve canto de anjos. Nas ruínas os pássaros noturnos respondem uns aos outros com seus lamentosos “cucu, cucu” e às vezes terminam com aquela risada das bruxas, própria das corujas, e de longe parece um lamento semelhante a uma uivada. Será algum cão preso dentro de algum aprisco, e que está uivando para a lua, ou então algum lobo, até o qual o vento faz chegar o cheiro da presa desejada, e que está batendo com a cauda de um lado e do outro, e uivando de desejo de aproximar-se dos apriscos que estão bem guardados? Não sei.
538.6Depois ouvem-se vozes, o barulho de pisadas, e vê-se uma luz avermelhada e trêmula por entre as ruínas. E aparecem, um atrás do outro, os discípulos pastores Matias, João, Levi, José, Daniel, Benjamim, Elias, Simeão. Matias está segurando levantado um facho aceso, para ver o caminho. Mas quem vai à frente é Levi, que é o primeiro a enfiar a cabeça dentro da gruta de Jesus. Mas logo ele se vira, e faz sinal para que parem e fiquem calados, olha de novo… e depois, com a mão direita estendida para trás, faz sinal aos outros para que se aproximem, e ele se afasta, tendo um dedo sobre os lábios, num gesto pedindo silêncio, a fim de dar lugar aos outros, cada um por sua vez, e eles olham e se retiram, comovidos como Levi.
– Que poderemos fazer? –diz Elias num sussurro.
– Fiquemos aqui a contemplá-lo –diz José.
– Não. Não é licito a ninguém violar os segredos espirituais das almas. Afastemo-nos mais para lá –diz Matias.
– Tens razão. Vamos para o estábulo ao lado. Estaremos ainda aqui e perto dele –diz Levi.
– Vamos –dizem eles.
Mas antes de se afastarem, olham por um instante ainda para dentro da gruta da Natividade, e depois se retiram, comovidos, procurando não fazer barulho.
Mas quando já estão na saída do estábulo mais próximo, ouvem o roncar de João.
– Há alguém aí –diz Mateus, detendo-se.
– Que está fazendo? Vamos entrar nós também. Como fez um mendigo, pois deve tratar-se de um mendigo, assim nós também podemos refugiar-nos aí –explica Benjamim.
Entram, segurando levantado o facho aceso. João está parecendo um novelo em sua cama improvisada e incômoda, com o rosto coberto até a metade pelos cabelos e pelo manto, e continua a dormir. Aproximam-se devagar, com a intenção de se assentarem sobre a palha espalhada por perto da manjedoura. Mas, ao fazer isso, Daniel olha com mais atenção o que está dormindo e o reconhece. E diz:
– É o apóstolo do Senhor, João de Zebedeu. Eles se refugiaram aqui para rezar… e o apóstolo foi vencido pelo sono… Retiremo-nos daqui. Ele poderia sentir-se envergonhado por saber que foi achado dormindo em vez de estar rezando.
538.7Voltam para fora e, contrariados, entram no outro desvão, que vem depois deste. Mas Simeão ainda se lamenta:
– Por que não ficarmos na entrada de sua gruta, para podermos vê-lo de vez em quando? Nós temos estado durante tantos anos expostos ao orvalho e à luz das estrelas para vigiar os cordeiros. E pelo Cordeiro de Deus não o faremos? Bem que temos direito a isso, nós que o adoramos em seu primeiro sono!
– Tens razão como homem e como adorador do Homem-Deus. Mas que foi que viste quando olhaste lá para dentro? Talvez um homem? Não. Nós, sem o querermos, atravessamos a intransponível entrada, depois de termos afastado o tríplice véu estendido como um anteparo à frente do mistério, e vimos o que nem mesmo o Sumo Sacerdote vê quando entra no Santo dos Santos. Vimos os inefáveis amores de Deus com Deus. Não nos é lícito continuar a espreitá-los. O poder de Deus poderia punir as nossas pupilas ousadas, que viram o êxtase do Filho de Deus. Oh! Já estamos contentes com o que conseguimos! Queríamos vir aqui para passar a noite em oração, antes de irmos para a nossa missão. Rezar e lembrar-nos daquela noite, que já está longe… Mas, em vez disso, podemos contemplar o amor de Deus! Oh! Verdadeiramente nos tem amado muito o Eterno, dando-nos a alegria da contemplação do Pequenino e a de sofrer por Ele, a de anunciá-lo ao mundo, como discípulos de Deus Menino e do Homem-Deus! Agora Ele nos concedeu ainda este mistério… Bendigamos o Altíssimo e não queiramos nada mais –diz Matias, que eu tenho a impressão de que é o mais autorizado pela sabedoria e justiça do meio dos pastores.
– Tens razão. Deus nos amou muito. Não devemos exigir nada mais. 538.8Samuel, José e Jônatas só tiveram a alegria de adorar o Menino e de sofrer por Ele. Jonas morreu sem acompanhá-lo. O próprio Isaque não está aqui para ver o que nós temos visto. E se há um que merece, é Isaque, que se preocupa em anunciá-lo –diz João.
– É verdade. É verdade. Como teria sido feliz Isaque por ver isto! Mas nós lhe contaremos –diz Daniel.
– Sim. Vamos guardar tudo em nosso coração para dizer-lhe –diz Elias.
– E aos outros discípulos e fiéis! –exclama Benjamim.
– Não. Aos outros, não. E não por egoísmo, mas por prudência e por respeito ao mistério. Se Deus quiser, virá a hora na qual o poderemos dizer. Por enquanto devemos saber calar-nos –diz também Matias.
E, virando-se para Simeão:
– Tu foste comigo discípulo de João. Lembra-te de como ele nos instruía sobre a prudência nas coisas santas: “Se Deus, um dia, como já vos beneficiou, ainda vos beneficiar com dons extraordinários, que isso não vos transforme em uns ébrios faladores. Lembrai-vos de que Deus se manifesta aos espíritos que estão encerrados na carne, porque são como joias celestes, que não devem ser expostas às sujeiras do mundo. Sede santos em vossos membros e em vossos sentimentos para saberdes frear todos os instintos carnais. Nos olhos como nos ouvidos, na língua como nas mãos. E santos no pensamento, sabendo frear o orgulho de tornar conhecido o que vós tendes. Porque os sentidos, os órgãos e a inteligência devem servir, e não reinar. Servir ao espírito, não reinar sobre o espírito. Devem cuidar do espírito e não perturbá-lo. Por isso, sobre os mistérios de Deus em vós, salvo o caso de alguma sua ordem explícita, ponde o selo de vossa prudência, como o espírito tem o do cárcere temporário na carne. Seriam coisas completamente inúteis, más e perigosas a carne e a inteligência, se não servissem para dar merecimento, com a aflição que lhes damos, como resposta aos estímulos que nos dão, e se não servissem para fazer de Templo o altar sobre o qual paira a glória de Deus: o nosso espírito…” Estais lembrados disso? Tu, João, e tu, Simeão? Eu espero que sim, porque, se não vos lembrais das palavras do nosso primeiro mestre, verdadeiramente ele estaria morto para vós. Um mestre vive enquanto sua doutrina vive em seus discípulos. E ainda que ele seja substituído por um mestre maior, e para os discípulos de Jesus, pelo Mestre dos Mestres, nunca é lícito esquecer as palavras do primeiro, que nos prepararam para compreender e amar com sabedoria o Cordeiro de Deus.
– É verdade. Tu falas com sabedoria. Nós te obedeceremos.
538.9– Mas como é penoso, cansativo resistir, estando assim tão perto dele, ao desejo de vê-lo, pelo menos mais uma vez! Será que ele ainda é como era? –pergunta Simeão.
– Quem sabe? Como resplandecia o seu rosto!
– Mais do que a lua em noite serena!
– Sua boca tinha um sorriso divino.
– E suas pupilas tinham um pranto divino.
– Não falava nada. Mas tudo nele era oração.
– Que terá Ele visto?
– O seu Eterno Pai. Duvidas disso? Só aquela vista é que lhe podia dar aquele aspecto. E até, que digo eu? Mais do que ver ao Pai, estava com Ele e nele! O Verbo, unido ao Pensamento. E como se amavam!… Oh!… –diz Levi, que parece estar em êxtase também.
– Foi bem por isso que eu disse que não vos era lícito permanecer lá. Considerai que nem mesmo o seu apóstolo Ele quis consigo…
– É verdade. Mestre Santo! Tem dele tanta necessidade, mais do que a terra ressequida tem da água, de ser inundado pelo amor de Deus. Existe tanto ódio ao redor dele!…
– Mas também há muito amor. Eu gostaria… Sim, eu o faço. O Altíssimo está aqui presente. Eu me ofereço e digo: “Senhor Deus Altíssimo, Deus e Pai do teu povo, que aceitas e consagras os corações e os altares, e imolas as vítimas a Ti agradáveis, que desça como um fogo a tua verdade e me consuma como vítima com o Cristo e pelo Cristo, teu Filho e teu Messias, meu Deus e Mestre. A Ti eu me recomendo. Ouve a minha oração!”
E Matias, que rezou pondo-se de pé com os braços levantados, tornou a sentar-se sobre o feixe de lenha que o acolhe.
538.10A lua parou de iluminar a gruta, pois já está virada para o ocidente. Sua claridade está ainda sobre o campo, mas não mais aqui dentro, e os rostos e as coisas desaparecem numa só e mesma sombra. Também as palavras vão ficando raras e as vozes, mais baixas. Por fim, a sonolência vence a boa vontade, as palavras vão ficando separadas e, às vezes, sem resposta… O frio, que se torna forte perto da aurora, é um estimulante contra o sono, e eles tornam a levantar-se, acendem os fachos e aquecem os seus membros retesados.
– Como fará Ele, que certamente não pensa no fogo –diz Levi, que está quase batendo os dentes.
– E haverá pelo menos alguma coisa para comer? –pergunta Elias, e acrescenta: Agora não temos nada mais do que o nosso amor e comida pouca e fraca… e hoje é sábado…
– Sabes de uma coisa? Vamos colocar toda a nossa comida na entrada da gruta e depois vamos-nos embora daqui. Nós sempre podemos achar um pão antes da tarde, na casa de Raquel ou de Elisa. E seremos a providência da Providência do Filho daquele que provê para todos nós –propõe José.
– Sim, sim. Façamos um bom fogo, para vermos bem e para aquecer-nos bem, depois levemos tudo para lá e nos afastemos, antes que, com a aurora, Ele e o apóstolo saiam e vejam.
Ao fogo de altas labaredas, eles abrem suas sacolas, delas tiram pão, queijos curados e algumas maçãs. Depois vão buscar mais lenha e saem com muita cautela, enquanto Matias ilumina tudo com um facho aceso no fogo. Põem tudo bem fora da entrada da gruta, os feixes no chão, em cima deles o pão e as outras comidas. Depois eles se retiram, atravessam o rio, um atrás do outro, e se vão com a chegada de um crepúsculo cheio de silêncio, que um canto de galo quebra de repente.
1 o menino daquela noite já distante, em 30.2/3.6; na cidade de Salomão, isto é, além do Jordão, como na passagem de João 10, 40-42, que preenche o vazio na narração valtortiana; as palavras Eu que vos disse, em 265.
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