577. 577. Terceiro anúncio da Paixão.Maria de Alfeu rememora a figura de José.O insensato pedido dos filhos de Zebedeu.
8 de março de 1947.
577.1A aurora apenas aclara o céu e torna difícil a vista do caminho na hora em que Jesus sai de Doco, onde todos ainda estão dormindo. O barulho dos passos certamente não está sendo ouvido por ninguém, porque todos vão com um pisar cuidadoso, e porque as pessoas ainda estão dormindo e as casas, fechadas. Ninguém fala antes de se verem fora da cidade, e vão indo pelo campo que agora desperta lentamente, com aquela meia luz bem fresca, depois do banho que lhe deram as orvalhadas.
Então Iscariotes começa a falar:
– Caminhada inútil, descanso perdido. Teria sido melhor não ter vindo até este lugar.
– Não. Não nos trataram mal aqueles poucos que encontramos. Perderam a noite para ouvir-nos e para irem buscar os doentes pelos campos. Foi até bastante bom que nós tenhamos vindo. Porque aqueles que, por doença ou por outra causa, não podiam esperar para ir ver o Senhor em Jerusalém, o viram aqui e ficaram consolados com a saúde recebida ou com outras graças. Os outros, como se sabe, já o receberam na cidade… Pois é o costume de todos nós irmos até lá, sempre que se possa, em qualquer dia antes da festa –diz acertadamente Tiago de Alfeu, pois ele é sempre manso, tudo ao contrário de Judas de Keriot, que até nas horas boas é sempre violento e autoritário.
– Justamente porque nós também estamos indo a Jerusalém era inútil irmos por aqui. Eles nos teriam percebido e visto lá…
– Mas não as mulheres e os doentes –replica, interrompendo-o, Tiago de Alfeu.
Judas finge não ouvir e diz, como que para continuar a conversa:
– Pelo menos eu creio que nós vamos a Jerusalém, ainda que agora eu não tenha muita certeza, depois das palavras ditas àquele pastor…
– E aonde queres que vamos a não ser para lá? –pergunta Pedro.
– Ora, isso eu não sei. É tudo tão irreal o que temos feito de uns meses para cá, tudo tão contrário ao que se poderia prever, e contra o bom senso, e até contra a justiça, que…
– Ei! Mas eu te vi bebendo leite em Doco e, no entanto, tu estás falando como um ébrio! Onde é que estás vendo coisas contrárias à justiça? –pergunta Tiago de Zebedeu, com uns olhos que não prometem boa coisa.
E ele ainda carrega:
– Basta de censurar o Cristo! Já compreendeste que basta? Não tens o direito, e logo tu, de censurá-lo. Ninguém tem esse direito, porque ele é perfeito, e nós… Nenhum de nós o é, e tu menos do que todos.
– Mas sem dúvida! Se tu estás doente, trata de curar-te, mas não nos fiques afligindo com tuas acusações. Se és um lunático, ali está o Mestre. Faze-te curar e acaba com isso! –diz Tomé, que já está perdendo a paciência.
577.2De fato, Jesus está lá atrás com Judas de Alfeu e João, e estão aguardando as mulheres que, pouco acostumadas a caminhar na penumbra, sentem dificuldade em prosseguir pelo caminho que não é bom e até mais escuro do que os campos, porque foi aberto em um olival já frondoso. E Jesus fala animadamente com as mulheres, estando alheio ao que vai sucedendo lá adiante, e que, no entanto, é ouvido pelos que estão com Ele, porque, se as palavras chegam mal, o tom delas dá a entender que não são palavras calmas, mas já com sabor de discussão.
Os dois apóstolos, Tadeu e João olham-se e depois olham para Jesus e para Maria. Mas Maria está tão velada com o seu manto, que dela quase nem se vê o rosto. E Jesus parece não ter ouvido. Mas tendo terminado sua conversação — eles estavam falando de Benjamim e do seu futuro, e estão falando agora da viúva Sara, de Afeque, que se estabeleceu em Cafarnaum e é mãe amorosa, não só do menino de Gíscala, mas também dos filhos pequenos da mulher de Cafarnaum1 que, tendo passado a segundas núpcias, não amava mais os filhos do primeiro casamento, e que depois morreu “tão mal que verdadeiramente se viu ali a mão de Deus em sua morte”, diz Salomé — Jesus vai adiante junto com Judas Tadeu e se une aos apóstolos, dizendo, enquanto vai indo:
– Fica tu também, João, se quiseres. Eu vou responder a esse inquieto e restabelecer a paz.
Mas João, tendo dado alguns poucos passos com as mulheres, vendo que o caminho já se vai tornando mais aberto e claro, vai de carreira unir-se a Jesus, justamente quando ele está dizendo:
– Tranquiliza-te, pois, Judas. Não faremos nada de irreal, como nunca fizemos. Agora mesmo não estamos fazendo nada que não fosse previsível. Este é o tempo no qual é previsível que todo verdadeiro israelita, não impedido por doença ou outras causas muito graves, suba até o Templo. E nós estamos subindo ao Templo.
– Mas nem todos. Marziam, por exemplo, ouvi dizer que não virá. Será que ele está doente? Por que é que ele não vem? Parece-te que o podes substituir pelo samaritano?
O tom em que fala Judas é insuportável…
Pedro murmura:
– Ó Prudência… põe um freio em minha língua, pois eu sou homem! –e aperta fortemente os lábios para não dizer mais nada.
Seus olhos, um pouco bovinos, têm um olhar comovente, pois é visível neles o esforço que o homem está fazendo para frear sua ira e aflição ao ouvir Judas falar daquele modo…
577.3A presença de Jesus conserva quietas todas as línguas. E somente Jesus é quem fala, dizendo, com sua calma verdadeiramente divina:
– Vinde um pouco para frente. Que as mulheres não ouçam. Há dias, que Eu preciso dizer-vos uma coisa. Eu prometi2 fazê-lo quando estávamos nos campos de Tersa. Mas Eu queria que estivéssemos todos juntos para ouvir. Que estivésseis todos vós. Mas não as mulheres. Deixemo-las em sua humilde paz… Naquilo que Eu vou dizer-vos estará também a razão pela qual Marziam não está conosco, e também a tua mãe, Judas de Keriot. E não as tuas filhas, Filipe, nem as discípulas de Belém da Galileia com a menina. Há coisas que nem todas podem suportar. Eu, o Mestre, sei o que é bom para os meus discípulos e quanto eles podem ou não podem suportar. Nem vós sois fortes para suportar a prova. E seria uma graça para vós o serdes excluídos. Mas deveis continuar-me e deveis saber o quanto sois fracos para serdes, depois, misericordiosos com os fracos. Portanto, não podeis ser excluídos desta tremenda prova que vos dará a medida daquilo que sois, daquilo em que vós vos transformastes depois dos três anos que estais comigo. Sois doze. Viestes a Mim quase todos ao mesmo tempo. Não serão os poucos dias que vão do meu encontro com Tiago, com João e André, até o dia no qual também tu foste acolhido entre nós, Judas de Keriot, nem aquele dia em que tu, Tiago, meu irmão, e tu, Mateus, viestes ficar comigo, não serão esses dias que poderão justificar tão grande diferença de formação entre vós. Todos vós éreis, e também tu, douto Bartolomeu, e também vós, irmãos meus, muito deficientes no que se refere à formação em minha doutrina. Aconteceu, então, que a vossa formação, melhor do que a de outros entre vós que seguem a doutrina do velho Israel, era para vós um obstáculo para formar-vos na minha doutrina. Pois bem. No entanto, nenhum de vós percorreu estrada suficiente, como a que seria necessário percorrer, que fosse capaz de levar-vos a um único ponto. Só um de vós atingiu esse ponto. Outros chegaram perto dele e outros ficaram longe. E ainda outros ficaram muito atrás. E outros!… Sim, devo dizer também isso, em vez de virem para frente foram para trás. Não fiqueis olhando uns para os outros. Não fiqueis procurando entre vós quem é o primeiro nem quem é o último. Aquele que talvez pense ser o primeiro, e é tido por primeiro, ainda precisa provar-se a si mesmo. Aquele que se crê o último está para resplandecer em sua formação como uma estrela do céu. Por isso, uma vez mais Eu vos digo: “Não julgueis”. Os fatos julgarão em sua evidência. Por enquanto, não podeis compreender. Mas brevemente, muito brevemente, vos lembrareis destas minhas palavras e as compreendereis.
– Quando? Tu nos prometeste dizer-nos, explicar-nos também porque é que a purificação pascal será diferente neste ano e não o dizes nunca! –lamenta-se André.
– É sobre isso que Eu vos quis falar. Porque, tanto aquelas palavras como estas são a mesma coisa, têm sua raiz numa mesma coisa. 577.4Nós, vejam, estamos subindo para Jerusalém para a Páscoa. E lá se cumprirão todas as coisas ditas pelos profetas3 dada aos hebreus no Egito, como foi ordenado a Moisés no deserto, que o Cordeiro de Deus está para ser imolado e o seu sangue está para lavar os pilares dos corações, e o anjo de Deus passará sem ferir aqueles que tiverem sobre si, e com amor, o sangue do Cordeiro imolado, que está para ser levantado como a serpente feita de metal precioso sobre a viga transversal, a fim de servir como um sinal aos que foram feridos pela serpente infernal, e ser salvação para aqueles que para ela olharem com amor. O Filho do Homem, vosso Mestre Jesus, está para ser entregue nas mãos dos príncipes dos sacerdotes, dos escribas e dos anciãos, que o condenarão à morte, o entregarão aos gentios para que por eles seja escarnecido. Ele será esbofeteado, espancado, escarrado, arrastado pelas ruas como um trapo sujo; e os gentios, depois de o terem flagelado e coroado com espinhos, o condenarão à morte de cruz, que é própria para os malfeitores, querendo o povo hebreu a sua morte, tendo-se reunido em Jerusalém para isso, e que Ele ocupe o lugar de um ladrão. E assim Ele será morto. Mas como está escrito nas profecias, depois de três dias, Ele ressurgirá. Esta é a prova que vos aguarda. É ela que provará a vossa formação. Em verdade, Eu vos digo, a todos vós que vos credes tão perfeitos a ponto de desprezar aqueles que não são de Israel, e até desprezar muitos do nosso próprio povo; em verdade Eu vos digo que vós, que sois a minha parte escolhida do rebanho, quando for preso o Pastor, sereis atacados pelo medo e debandareis, fugindo como se os lobos que se assanharam contra Mim de todos os lados estivessem revoltados contra vós. Eu vos digo: não temais. Nem um fio de cabelo vos será arrancado. Eu bastarei para saciar os lobos ferozes…
577.5Os apóstolos, à medida que Jesus vai falando, parecem criaturas sob a chuva de pedras. Eles vão se inclinando sempre mais enquanto Jesus vai falando. E quando Ele termina, dizendo:
– E tudo o que Eu vos digo já está para acontecer. Não é, como das outras vezes, quando havia ainda muito tempo pela frente. Agora, a hora chegou. Eu vou indo para ser entregue aos meus inimigos e imolado para a salvação de todos. E este botão de flor ainda não terá perdido as suas pétalas, depois de ter florescido, e Eu já estarei morto –e nesse ponto Ele protege o rosto com as mãos e geme como se tivesse sido ferido. Iscariotes está lívido, completamente lívido…
O primeiro a voltar a si é Tomé, que proclama:
– Isto não acontecerá, porque nós te defenderemos, ou morreremos junto contigo, e assim demonstraremos que te havíamos alcançado em tua perfeição e que éramos perfeitos no amor a Ti.
Jesus olha para eles sem dizer nada.
Bartolomeu, depois de um grande silêncio em meditação, diz:
– Disseste que vais ser entregue… Mas quem é que te pode entregar nas mãos dos teus inimigos? Isto não foi dito nas profecias. Não. Não foi. Seria horrível demais se algum teu amigo, algum teu discípulo, um dos teus acompanhantes, mesmo que fosse o último de todos, te entregasse aos que te odeiam… Não. Quem te ouviu com amor, ainda que uma só vez, não pode cometer esse delito. Eles são homens e não são feras, não são satanases… Não, meu Senhor. E nem mesmo aqueles que te odeiam poderão… Eles têm medo do povo, e o povo estará todo ao redor de Ti.
Jesus olha também para Natanael e nada fala.
Pedro e Zelotes falam animadamente um com o outro. Tiago de Zebedeu repreende o irmão, porque o vê calmo, e João lhe responde:
– É porque há três meses que eu estou sabendo disso4 –e duas lágrimas lhe descem pelo rosto.
Os filhos de Alfeu falam com Mateus, que sacode a cabeça, desconfortado.
André se vira para Iscariotes:
– Tu, que tens tantos amigos no Templo…
– João conhece até Anás –replica Judas.
E termina:
– Mas que queres que façamos? Que queres que possa uma palavra de homem, se assim está escrito?
– E tu crês mesmo? –perguntam juntos Tomé e André.
– Não. Eu não creio em nada. São boatos inúteis, bem que o diz Bartolomeu. O povo todo estará ao redor de Jesus. Já se nota isso pelos que vamos encontrando. E será um triunfo. Vereis que será assim –diz Judas de Keriot.
– Mas, então, por que Ele… –diz André, mostrando Jesus que parou para esperar as mulheres.
– E por que é que o diz? Porque está impressionado… e porque nos quer provar. Mas não acontecerá nada. E, afinal, eu irei…
– Oh! Sim. Vai ouvir –suplica André.
577.6Estão calados, porque Jesus está de novo acompanhando-os, e está entre sua Mãe e Maria do Alfeu.
Maria tem um sorriso pálido, porque a cunhada lhe mostrou algumas sementes apanhadas não sei onde, e lhe diz que quer semeá-las em Nazaré, depois da Páscoa, justamente ao lado da pequena gruta, tão querida por Maria:
– Quando eras menina, eu me lembro de como estavas sempre com estas flores nas mãozinhas. Tu as chamavas as flores da tua vinda. E, de fato, quando nasceste, o teu jardim estava cheio delas e, naquela tarde, quando toda Nazaré correu para ver a filha de Joaquim, as moitas dessas estrelinhas pareciam todas uns diamantes por causa da água que tinha descido do céu e por causa do último raio de sol, que lá do poente a golpeava; e também porque tu te chamavas “Estrela”, e todos sorriam, felizes pelo presságio e pela alegria de teu pai.
577.7E José, irmão do meu esposo, disse: “Estrelas e gotinhas. É verdadeiramente Maria5!” E quem lhe teria dito, naquele tempo, que tu irias tornar-te a estrela dele? Quando ele voltou de Jerusalém escolhido para ser teu esposo! Nazaré inteira lhe queria fazer festa, porque grande era a sua honra vinda do Céu e vinda do matrimônio contigo, filha de Joaquim e de Ana, e todos queriam fazer-lhe festa. Mas ele, com aquelas suas maneiras simpáticas e firmes, rejeitou qualquer festa, causando admiração a todos, porque qual é o homem destinado a tão honrosas núpcias e a tal decreto do Altíssimo, que não festeje a sua felicidade com todo o seu ser? Mas ele dizia: “Para uma grande eleição, grande preparação.” E praticando a continência tanto nas palavras como nos alimentos, porque qualquer outra continência sempre houve nele, passou aquele tempo trabalhando e rezando, porque eu acho que cada batida do martelo, cada sinal deixado pelo cinzel se transformaria em oração, se for possível orar e trabalhar. O seu rosto estava como ainda em êxtase. Eu ficava pondo em ordem a casa, alvejando os lençóis e tudo mais que foi deixado por tua mãe e que ficou amarelado pelo tempo, e olhava para ele enquanto estava trabalhando no jardim e na casa para fazer ficar tudo bonito, como se nunca tivesse ficado nada abandonado, e eu lhe falava… mas era como se estivesse absorto. Ele sorria. Mas não para mim ou para outros, para algum pensamento que não era, não, o pensamento de todo homem que está para casar-se. Aquele é um sorriso de uma alegria maliciosa e carnal… Ele… Ele parecia sorrir para os anjos invisíveis de Deus, e que com eles falasse e se aconselhasse… Oh! Que eu disso estou certa, certa de que eles o instruíssem sobre o modo de tratar-te! Porque depois, outro espanto para toda Nazaré e quase a indignação do meu Alfeu, fez que se adiassem as núpcias o mais possível, e nunca se pode entender como de repente ele se decidiu para antes do tempo marcado. E também quando se soube que tu eras mãe, comoNazaré se surpreendeu com a sua alegria absorta!… Mas também o meu Tiago é um pouco assim. E assim se vai tornando cada vez mais. Agora, que eu o observo bem — não sei por que, mas desde que viemos para Efraim ele me parece completamente novo — eu o vejo assim… igual a José. Olha para ele agora, Maria, agora que ele se põe de novo a olhar para nós. Não tem aquele aspecto de absorto, tão habitual de José, teu esposo? Um sorriso que eu não sei dizer se é triste ou distante. Ele olha, um olhar distante, para além de nós, como tinha José muitas vezes. Tu te lembras como Alfeu o molestava? E como lhe dizia: “Irmão, ainda estás vendo as pirâmides?” E ele sacudia a cabeça sem responder, paciente e guardador dos segredos de seus pensamentos. Ele nunca foi um falador. Mas desde quando voltaste de Hebron! Nem à fonte ele ia mais sozinho, como fazia antes, como todos fazem. Ou estava contigo ou em seu trabalho. E a não ser no sábado, quando ele ia à sinagoga, ou quando ia fazer trabalhos em outros lugares, ninguém pode dizer que viu José andando à toa naqueles meses. Depois partistes… Que ansiedade não ficar sabendo nada sobre vós, depois da matança! Alfeu resolveu ir até Belém… “Eles partiram”, foi o que lhe disseram. Mas como acreditar, se vos tinham um ódio mortal na cidade onde ainda se viam as manchas vermelhas do sangue inocente, e as ruínas ainda soltavam fumaça, e lá se dizia que era por causa de vós que aquele sangue havia corrido. Foi a Hebron e depois ao Templo, porque lá Zacarias tinha o seu turno. Isabel não lhe deu mais do que lágrimas e Zacarias, palavras de conforto. Ele e ela, preocupados por causa de João, temendo novas crueldades, o haviam escondido e temiam por ele. De vós nada sabiam, e Zacarias disse a Alfeu: “Se estão mortos, o sangue deles cai sobre mim, porque eu os persuadi a ficarem em Belém.” 577.8A minha Maria! O meu Jesus, tão bonito na Páscoa que veio em seguida ao seu nascimento! E ficamos sem saber nada. Por tanto tempo! Mas por que nunca chegava uma notícia?…
– Porque era bom ficar calados. Lá, onde nós estávamos, eram muitos os Josés e as Marias, e era bom que passássemos como um casal qualquer –respondeu tranquila Maria.
E suspira:
– E eram, em sua tristeza, dias ainda felizes. O mal estava tão longe ainda! Se tantas coisas faltavam às nossas pessoas humanas, nossos espíritos se saciavam pela alegria de ter-Te, meu Filho!
– Agora também tu o tens, Maria, ao teu Filho. Falta José, é verdade. Mas Jesus está aqui com o seu completo amor de adulto –observa Maria de Alfeu.
Maria levanta a cabeça a fim de olhar para o seu Jesus. E o sofrimento se nota em seu olhar ainda que a boca sorrisse levemente. Mas ela não diz nada.
577.9Os apóstolos pararam para esperá-los, e estão todos reunidos, até Tiago e João, que iam atrás de todos com a mãe deles. Enquanto repousam da viagem, alguns estão comendo um pouco de pão, e a mãe de Tiago e de João se aproxima de Jesus, prostra-se diante dele que ainda nem se assentou, pois está com pressa de prosseguir a viagem.
Jesus a interroga, pois é evidente nela o desejo de pedir alguma coisa:
– Que queres, mulher? Fala.
– Concede-me uma graça, antes que te vás embora, como dizes.
– Qual é?
– A de ordenar que estes meus dois filhinhos, que por Ti deixaram tudo, se assentem, um à tua direita e o outro à tua esquerda, quando estiveres já sentado em tua glória, no teu Reino.
Jesus olha para a mulher e depois olha para os dois apóstolos, e diz:
– Fostes vós que sugeristes6 esse pensamento à vossa mãe, interpretando muito mal as promessas que Eu fiz ontem. O cêntuplo pelo que tiverdes deixado, não o tereis em um reino desta Terra. Será que vós também vos tornastes ávidos e estultos? Mas não sois vós. É o crepúsculo malcheiroso das trevas, que vem avançando, e o ar infectado de Jerusalém, que vem chegando, que vos corrompe e vos cega… Eu vos digo que vós não sabeis o que estais pedindo! Podeis, por acaso, beber o cálice que Eu vou beber?
– Podemos, Senhor.
– Como podeis dizer isso, se ainda não compreendestes qual vai ser o amargor do meu cálice? Não será apenas o amargor que Eu vos descrevi ontem, o amargor que Eu sinto como o Homem de todas as dores. Haverá torturas que, mesmo que Eu as descrevesse, vós não estaríeis em condições de entender… Contudo, sim, porque — mesmo sendo ainda como duas crianças que não sabem qual é o valor do que estão pedindo — visto, porém, que sois dois espíritos justos e que tendes amor a Mim, vós certamente bebereis do meu cálice. Mas, sentar-vos à minha direita e à minha esquerda não cabe a Mim vos conceder. Isso é concedido àqueles para os quais foi preparado por meu Pai.
577.10Os outros apóstolos, enquanto Jesus ainda está falando, são duros em criticar o pedido dos filhos de Zebedeu e da mãe deles. E Pedro diz a João:
– Logo tu! Eu não te estou reconhecendo mais como aquele que eras!
E Iscariotes, com aquele seu sorriso de demônio, diz:
– Verdadeiramente os primeiros serão os últimos. Que tempo de surpresas e boatos…
E dá uma risada forçada.
– Por acaso temos seguido o nosso Mestre indo atrás de honras?
–censura-os Filipe.
Tomé, em vez de dirigir-se aos dois, se dirige a Salomé, dizendo:
– Por que fazes que os teus filhos sejam humilhados? Se eles, não, tu devias refletir e impedir uma coisa dessas.
– É verdade. Nossa mãe não teria feito isso –diz Tadeu.
Bartolomeu não fala, mas o seu rosto só mostra reprovação.
Simão Zelotes diz, para acalmar a irritação:
– Todos nós podemos errar.
Mateus, André, Tiago de Alfeu não falam, mas visivelmente estão sofrendo com aquele incidente que veio surpreender a todos, o destoante gesto de João que veio manchar o bom conceito que faziam dele.
Jesus faz um gesto como para impor silêncio, e diz:
– Que é isso? Será que de um erro vão nascer muitos outros? Vós que estais reprovando indignados, não percebeis que vós também estais pecando? Deixai de falar desses vossos irmãos. A minha reprovação já é suficiente. O erro deles é evidente, mas também o arrependimento deles é humilde e sincero. Deveis amar-vos uns aos outros e sustentar-vos reciprocamente. Porque, na verdade, por enquanto, nenhum de vós é perfeito. Vós não deveis imitar o mundo e os homens dele. No mundo, como vós sabeis, os príncipes das nações são os que mandam, e os seus grandes exercem sobre elas o poder em nome dos príncipes. Mas entre vós não há de ser assim. Não deve haver entre vós o desejo ardente de dominar sobre os homens nem sobre vossos companheiros. Pelo contrário, quem entre nós quiser ser o maior, que se faça vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, que se faça o servo de todos. Assim como fez o vosso Mestre. Por acaso Eu terei vindo para oprimir e dominar? E para ser servido? Não. Na verdade, não. Eu vim para servir. E assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar sua vida para a redenção de muitos, assim vós deveis saber fazer se quiserdes ser como Eu sou e estar onde eu estou. Agora ide. E ficai em paz entre vós, como Eu estou convosco.
577.11Jesus me diz:
– Assinala bem este ponto: “… vós certamente bebereis do7 meu cálice.” Nas traduções se diz: “o meu cálice.” Eu disse “do meu”, e não “o meu.” Nenhum homem teria podido beber o meu cálice. Somente Eu, Redentor, tive que beber todo o meu cálice. Aos meus discípulos, aos meus imitadores e amigos, certamente é concedido beber daquele cálice do qual Eu bebi. Portanto, o certo é dizer “do meu cálice”, e não “o meu cálice.”
1 mulher de Cafarnaum, de nome Meroba, encontrada em 449.6/8.
2 Eu prometi, em 575.8. Trata-se do anúncio (o terceiro depois daqueles que estão nos capítulos 346 e 355) da Paixão, já iminente.
10 todas as coisas ditas pelos profetas, relativas ao Messias, são citadas e repetidas em: 7.3 - 10.5 - 27.3 - 41.3 – 66.2 - 73.6 - 74.7 - 77.5 - 78.6 - 108.4 - 111.6 - 144.3 - 155.8 - 176.3 - 177.4 - 194.5 - 207.8 - 225.11 - 260.8 - 266.10 - 291.4 - 293.4/5 - 324.4.8 - 340.9 - 342.8 - 348.12 - 354.12 - 378.5 - 382.7 - 390.6 - 399.5 - 405.9 - 414.3 - 436.2.5 - 463.2.5 - 464.10/11 - 471.1 - 478.3.9 - 482.5 - 483.8 - 486.4 - 487.6/8 - 506.3 - 507.6 - 518.6.7 - 520.7 - 525.5.8 - 536.2 - 549.9 - 554.8 - 556.7 - 560.5 - 561.11 - 566.19 - 579.8.10 - 580.3 - 588.9 - 589.3 - 591.5/6 - 592.9 - 593.1 - 595.4 - 596.38 - 597.5.7/11 - 598.7 - 600.9.13 - 601.1 - 604.4.10.25 - 609.3. De certa forma, são recapituladas em 625.6/9 e encontradas também em 639.3, 645.5 e 647.5.
3 ordem, que está em Levítico 12,1-14 e que se refere à Páscoa. Para esta e outras citações, podem ser consultadas as notas referentes ao índice temático no final do volume.
4 há três meses que eu estou sabendo disso, que lhe foi confiado pelo Mestre em 540.3.
5 Maria, nome da Mãe de Jesus e muito comum entre as mulheres hebreias do seu tempo, tem numerosas interpretações, mas nenhuma com derivação certa. Os significados de estrela (já em 4.4) e distila (já em 198.8), evocando respectivamente a luz e a dor (como em 5.6, 22.13, 262,4), reconduzem a uma interpretação de São Jerônimo, à qual se acrescenta (em 168.4 e 244.9) uma referência ao mar. Pela raiz do nome, a sábia observação de Iscariotes em 199.2 poderia ser esclarecedora. Todavia, Jesus diz, em 346.3, que “somente aqueles que unirão fé perfeita a amor perfeito chegarão a conhecer o verdadeiro significado do nome ‘Maria’, da Mãe do Filho de Deus”.
6 vós que sugeristes, mesmo tendo encontrado a condescendência da mãe, que, todavia, não reduz a responsabilidade dos dois filhos (como se lê em 106.7.12) pela solicitação insensata.
7 do, preposição em itálico na antepenúltima linha de 577.9, evidenciada com sinais vistosos no manuscrito original. A expressão “beber o cálice” parece traduzida corretamente do texto grego dos evangelistas Mateus e Marcos; mas poderia ser interpretada também como “beber no cálice”, se for dita em aramaico, a língua falada por Jesus, na qual não haveria distinção de forma entre “beber o cálice” e “beber no cálice”.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15