431. 431. Tomé prepara o encontrode Jesus com os camponeses de Jocanã.


6 de maio de 1946.

431.1 Continuaram andando em silêncio por algum tempo depois do incidente. Mas, chegados a uma encruzilhada entre os campos, Tiago de Zebedeu diz:

– Eis! Daqui se vai a Miqueias… Mas… Iremos ainda? Certamente aquele homem nos espera nos seus domínios para maltratar-nos…

– E impedir-nos de falar aos camponeses. Tiago tem razão. Não devemos ir –aconselha Iscariotes.

– Eles me esperam. Mandei dizer que vou lá. O seu coração está em festa. Sou o Amigo que vem para consolá-los.

– Vamos lá uma outra vez. Se conformarão –diz com um sacudir de ombros Judas.

– Tu não te conformas tão facilmente quando te é tirada uma coisa que esperas.

– As minhas são coisas sérias. As suas…

– E, que há de mais sério, de maior, do que a formação, do que o apoio a um coração? Eles são corações que tudo está procurando afastar da paz, da Esperança. E eles não têm mais do que uma esperança: a da vida futura. E não tem senão um meio para irem ao que esperam: o meu auxílio. Não. Eu irei a eles, e inda que seja recebido a pedradas.

– Não, irmão. Não, Senhor!, dizem juntos Zelotes e Tiago de Alfeu. Só serviria para serem castigados aqueles pobres servos. Tu não ouviste. Mas Jocanã disse assim: “Até agora, eu tenho suportado. Mas agora não suportarei mais. E ai daquele servo que for a Ele, o que o acolher. É um réprobo, é um Demônio. Não quero corrupções em minha casa,” e a um companheiro ele disse ainda: “A custa de matá-los, eu os curarei do seu encantamento por esse maldito.”

Jesus inclina a cabeça, pensando… e sofrendo. É visível o seu sofrimento… Os outros se compadecem dele, mas quê fazer?

431.2 E é a serenidade habitual de Tomé que resolve a situação:

– Vamos fazer assim: Paremos aqui até o pôr-do-sol, para não violarmos o sábado. Nesse ínterim, um de nós dá uma escapadela até às casas, e diz: “Alta noite, todos perto da fonte, nos arredores de Séforis!” E nós, depois do pôr-do-sol, iremos para lá, e lá os esperamos nos pequenos bosques da base do monte, sobre o qual está Séforis. Então o Mestre fala àqueles pobrezinhos e os consola, e, às primeiras luzes, eles voltam para suas casas, e nós atravessamos a colina, e vamos para Nazaré.

– Tomé tem razão. Bravo, Tomé! –dizem muitos.

Mas Filipe observa:

– E quem é que vai avisar? Lá somos todos conhecidos, e nos podem ver…

– Quem poderia ir é Judas de Simão. Ele conhece bem os fariseus… –diz inocentemente André.

– Que queres insinuar? –agride-o Judas.

– Eu? Nada. Digo que tu os conheces, porque estiveste muito tempo no Templo e tens boas amizades. E tu sempre te gabas disso. E a um amigo, eles não farão mal… –diz o manso André.

– Não penses nisso, sabes? Nenhum de vós pense assim. Se estivéssemos ainda protegidos pela Cláudia, talvez… mas agora, não. Porque agora, em conclusão ela se desincumbiu, não é verdade, Mestre?

– Cláudia continua a admirar o Sábio. Nunca fez outra coisa, e nada mais do que isso. Dessa admiração talvez ela passará à fé no verdadeiro Deus. Mas somente a ilusão de uma mente exaltada poderia crer que ela tivesse outros sentimentos a meu respeito. Nem, se ela os tivesse, Eu os quereria. Posso ainda aceitar o paganismo delas, porque espero mudá-lo em cristianismo. Não posso aceitar o que seria a idolatria delas, isto é, a adoração de um Homem, pobre ídolo, sobre um pobre trono humano.

Jesus diz essas coisas de um modo pacato, como se estivesse falando a todos, em uma lição. Mas Ele está tão decidido, ao falar, que não deixa nenhuma dúvida sobre a sua intenção e sobre as suas decisões de ser um repressor de qualquer possível desvio neste sentido, por parte dos seus apóstolos.

431.3 Por isso, ninguém lhe replica a respeito de uma realeza humana, e, contudo, ainda lhe perguntam:

– E, então, que vamos fazer pelos camponeses?

– Eu vou. Fui eu que fiz a proposta, e eu vou, se o Mestre o consentir. Certamente os fariseus não me irão devorar… –diz Tomé.

– Vai, então. E a tua caridade seja abençoada.

– Oh! É tão pouca coisa, Mestre!

– É uma coisa muito grande, Tomé. Tu ouves os desejos dos teus irmãos: Jesus e os camponeses, e tens dó deles. E o teu Irmão na carne te abençoa também por eles –diz Jesus, pousando a mão sobre a cabeça inclinada diante dele, a de Tomé, que, comovido, murmura:

– Eu… teu… irmão? É honra demais, meu Senhor. Eu, teu servo, e Tu, meu Deus… Isto, sim… Eu vou.

– Vais tu sozinho? Eu vou também! –dizem Tadeu e Pedro.

– Não. Vós sois muito fogosos. Eu sei transformar tudo em risadas… é o melhor meio de desarmar certos caracteres. Vós começais a irritar-vos logo… Eu vou sozinho.

– Vou eu –dizem João e André.

– Oh! Sim. Um de nós, sim, e também um como Simão o Zelotes ou Tiago de Alfeu.

– Não. Não. Eu não reajo nunca. Eu me calo, e faço –insiste André.

– Então, vem.

E lá se vão para um lado, enquanto Jesus prossegue com os outros para o outro lado.