113. 113. Volta a Betânia depois da Festa dos Tabernáculos.


20 de fevereiro de 1945.

113.1 Não sei como farei para escrever tanto, porque sinto que Jesus quer apresentar-se com seu Evangelho vivido, e sofri a noite inteira para recordar a visão seguinte, da qual rabisquei as palavras ouvidas como pude, para não me esquecer delas.

[…].

113.2 Agora pois, e são 11 horas, vejo o seguinte:

Jesus está de novo na casa de Lázaro. Pelo que ouço, compreendo que a Festa dos Tabernáculos já aconteceu, e que Jesus voltou a Betânia, por insistência do seu amigo, que nunca quereria ficar separado de Jesus. Compreendo também que Jesus está na casa de Lázaro somente com Simão e João, enquanto que os outros estão espalhados pela região. E compreendo enfim, que houve um reencontro de amigos, ainda fiéis a Lázaro, e por ele convidados para fazê-los conhecer Jesus.

Tudo isso compreendo, porque Lázaro ilustra ainda melhor as características morais de cada um.

113.3 Assim fala de José de Arimateia, definindo-o “homem justo e verdadeiro israelita.” Ele diz:

– Não ousa dizer, porque teme o Sinédrio, do qual faz parte, e que já te odeia, que espera em Ti, o Predito pelos Profetas. Por sua própria iniciativa, pediu-me para vir aqui conhecer-te e ver o que por si mesmo pode pensar de Ti, pois não lhe parece justo o que os teus inimigos diziam de Ti… Até da Galileia vieram alguns fariseus para te acusarem de pecado. Mas José se pronunciou assim: “Quem faz milagres, tem Deus consigo. Quem tem Deus, não pode estar em pecado. Ao contrário, não pode ser outro, senão alguém a quem Deus ama.” E gostaria de ver-Te em Arimateia em sua casa. Mandou que Te dissesse isto. E eu te peço, escuta o pedido meu e dele.

– Vim para os pobres e os sofredores da alma e do corpo, mais do que para os poderosos, que veem em Mim somente um objeto de interesse. Mas irei à casa do José. Não tomei partido contra os poderosos. Um dos meus discípulos — aquele que por curiosidade e pela importância que arroga a si mesmo, foi até à tua casa sem ordem minha… mas é jovem, e por isso é desculpado — pode testemunhar o meu respeito pelas classes poderosas, que se autoproclamam “as tutoras da Lei” dando a entender que são sustentadoras do Altíssimo. Oh! O Eterno por si próprio se sustém. Nenhum dos doutores jamais teve o respeito que Eu tive para com os oficiais do Templo.

– Eu sei disso como sabem muitos outros… Mas somente os melhores dão a este ato o nome certo. Os outros… o chamam de “hipocrisia.”

– Cada um dá o que tem em si, Lázaro.

– É verdade. Mas, vai à casa de José. Ele te quereria lá no próximo sábado.

– E Eu irei. Podes mandar dizer-lhe isto.

113.4 – O Nicodemos também é bom. Aliás… me disse… Posso contar-te uma crítica sobre um dos teus discípulos?

– Fala. Se é justo, dirá justiça; se for injusto, estará criticando uma conversão, porque o Espírito dá luz ao espírito do homem, quando o homem é reto; e o espírito do homem, guiado pelo Espírito de Deus, tem uma sabedoria sobre-humana, e lê a verdade dos corações.

– Disse-me: “Não critico a presença dos ignorantes, nem dos publicanos entre os discípulos do Cristo. Mas não julgo digno de estar entre os seus, aquele que não sei se está com Ele ou contra Ele, como um camaleão, que toma a cor e o aspecto do que está perto dele.”

– Este é Iscariotes. Eu sei. Mas, acreditai todos: a juventude é um vinho que fermenta, e depois se depura. Ao fermentar, cresce e espuma, e transborda por todos os lados pela exuberância do vigor. Vento de primavera, vira para todos os lados, e parece um louco, descabelando as árvores. Mas é a ele que precisamos agradecer por fecundar as flores. Judas é vinho e vento. Mas não é mau. O seu modo confunde e perturba, até choca e faz sofrer. Mas não é completamente mau… é um potro de sangue quente.

– Tu o dizes… Eu não sou competente para julgá-lo. 113.5Dele ficou-me a amargura de ter-me dito que Tu a tinhas visto…

– Mas aquela amargura se mitiga agora com mel, diante da minha promessa…

– Sim. Mas eu me lembro daquele momento… O sofrimento não se esquece, mesmo após o seu término.

– Lázaro, Lázaro! Estás te perturbando demais… e por coisas mesquinhas! Deixa que passem os dias: são bolhas de ar que desaparecem, e não voltam, com suas cores alegres ou tristes. E olha para o Céu. Ele não se desvanece: é para os justos.

– Sim, Mestre e Amigo. Não quero julgar a permanência de Judas Contigo, nem o teu querer tê-lo Contigo. Vou rezar para que ele não te prejudique.

Jesus sorri e tudo termina.