267. 267. Jesus carpinteiro em Corozaim.


31 de agosto de 1945.

267.1Jesus está trabalhando com prazer em uma oficina de carpinteiro. Está terminando de fazer uma roda. Um menino magrinho e triste o está ajudando, levando-lhe madeira ou outras coisas. Manaém, como uma testemunha inútil, mas admirador, está sentado em um grande banco, junto à parede.

Jesus tirou sua bela veste de linho, e vestiu outra escura e que, por não ser a dele, chega-lhe apenas até a metade das canelas. É uma roupa de trabalho, limpa, mas remendada, provavelmente do carpinteiro falecido.

Jesus encoraja, com sorrisos e boas palavras, o menino, ensinando-lhe como se há de fazer para que a cola chegue ao ponto certo, a fim de que possam ficar bem polidas as paredes do cofre.

– Levaste pouco tempo para terminá-lo, Mestre –diz Manaém, levantando-se, e indo passar o dedo nas molduras do cofre já acabado e que o menino já está lustrando com um verniz.

– Estava já quase acabado!

– Eu gostaria de possuir este teu trabalho. Mas já chegou o comprador, e acho que os direitos são dele. Ele já esperava levá-lo para compensar o pouco dinheiro que havia emprestado. Tu o contrariaste. Pois não é como ele pensa. Que ele apanhe os seus objetos, e basta. Se ele fosse pelo menos algum dos que creem em Ti… Aquelas coisas teriam para ele um valor incalculável. Ouviste?

– Deixa-o fazer. 267.2Afinal, aqui há madeira, e a mulher ficará bem feliz, se puder usá-la, para tirar dela algum lucro. Faze-me a encomenda de um cofre que Eu te farei…

– Deveras, Mestre? Mas pensas em continuar a trabalhar?

– Enquanto houver madeira. Eu sou um operário consciencioso –diz, sorrindo abertamente.

– Um cofre feito por Ti! Oh! Que relíquia. Mas que é que colocarei dentro?

– Tudo o que quiseres. Não será mais que um cofre.

– Mas, se Tu o fizeste?!

– E, então? Também o Pai fez o homem, Ele fez todos os homens. E, no entanto, que é que Ele pôs no homem e que é que os homens aí põem?

E Jesus vai falando e trabalhando, andando para cá e para lá, à procura das ferramentas necessárias, apertando os tornos, perfurando, acepilhando e torneando, conforme o caso.

– Nós colocamos aí o pecado. É verdade.

– Tu o estás vendo! E crês que o homem criado por Deus é muito mais do que um cofre feito por Mim. Não confundas nunca o objeto com a ação. De um trabalho meu, fazeis apenas uma relíquia para vosso espírito.

– Que queres dizer?

– Quero dizer dá ao teu espírito o ensinamento tirado do que Eu faço.

– A tua caridade, a tua humildade, a tua operosidade, então…Todas estas virtudes, não é mesmo?

– Sim. E procura tu estas mesmas coisas para o futuro.

– Sim, Mestre. Mas, fazes para mim um cofre?

– Eu te farei. Mas, olha que, visto que tu o consideras sempre como uma relíquia, Eu farei que o pagues como tal. Assim se poderá dizer que, pelo menos uma vez também Eu fui cobiçoso de dinheiro… para os orfãozinhos…

– Cobra-me o que quiseres. Eu te pagarei. Pelo menos ficará justificado o meu ócio, enquanto Tu trabalhas.

267.3– Está escrito: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto.”

– Mas isso foi dito ao homem culpado. Não a Ti.

– Ah! Um dia Eu vou ser o Culpado, e terei sobre Mim todos os pecados do mundo. Eu os levarei embora comigo, na minha primeira partida.

– E achas que o mundo não pecará mais?

– Deveria não pecar. Mas pecará sempre. Por isso é que o peso que Eu terei sobre Mim será tão grande, que fará despedaçar-se o meu coração. Porque sobre Mim Eu terei os pecados cometidos desde Adão até aquela hora e os outros a partir daquela hora, até o fim dos séculos. Tudo Eu expiarei em lugar do homem.

– E o homem não Te entenderá, a ainda não Te amará… Achas que Corozaim vá se converter com esta lição silenciosa e santa, que lhe estás dando com o teu trabalho, feito para socorrer uma família?

– Ela não o fará. Mas até dirá: “Ele preferiu trabalhar para passar o tempo e para ter dinheiro.” Ora, Eu não tinha mais dinheiro. Eu o havia dado todo. Eu dou sempre tudo o que tenho, até o último ceitil, e trabalhei para poder dar dinheiro.

– E para a comida para Ti e Mateus?

– Deus a teria provido.

– Mas a nós Tu deste de comer.

– Sim.

– Como foi que fizeste?

– Pergunta-o ao dono da casa.

– Eu vou fazer-lhe, com certeza esta pergunta, logo que voltarmos a Cafarnaum.

Jesus se ri com bondade, por entre a sua barba loura.

267.4Faz-se um silêncio em que há só o rumor do ranger do torno apertado ao redor dos pedaços de roda.

Depois, Manaém lhe pergunta:

– Que pensas fazer antes do sábado?

– Ir a Cafarnaum, para lá esperar os apóstolos. Foi combinado que nos unamos toda sexta-feira à tarde, e que fiquemos juntos durante todo o sábado. Depois darei as ordens, e, se Mateus ficar são, serão seis os pares, que irão evangelizar. Se não… Queres tu ir com eles?

– Eu prefiro ficar contigo, Mestre… Será que me deixas dar-te um conselho?

– Dize-o. Se ele for justo, Eu o aceitarei.

– Não fiques nunca completamente sozinho. Tu tens muitos inimigos, Mestre.

– Eu sei. Mas tu achas que os apóstolos fariam muita coisa em caso de perigo?

– Eles te amam, acho eu.

– Certamente. Mas não adiantaria. Os inimigos, se tiverem a ideia de capturar-me, viriam com forças muito mais fortes daquelas dos apóstolos.

– Não importa. Não fiques sozinho.

– Dentro de duas semanas, terão vindo a Mim muitos discípulos. Eu os estou preparando para enviá-los também para a evangelização. Já não estarei sozinho. Fica tranquilo.

Enquanto eles assim estão falando, muitos curiosos de Corozaim se aproximam para dar uma olhadela, e depois se afastam, sem dizerem nada.

– Eles estão espantados, por te verem trabalhando.

– Sim. Eles não sabem ser humildes, até o ponto de dizerem: “É assim que Ele nos ensina.” Os melhores que Eu tinha aqui estão com os meus discípulos, menos um velho, que já morreu. Mas não importa. Uma lição é sempre uma lição.

– Que dirão os apóstolos, ao saberem que estás trabalhando de operário?

– São onze, porque Mateus já disse o que pensa. Serão, então, onze pareceres diferentes. E, na maior parte, contrários ao que faço. Mas isso já me servirá para ensiná-los.

– Deixas-me assistir à lição?

– Se tu quiseres ficar…

– Mas, eu sou um discípulo, e eles são apóstolos!

– Tudo o que fizer bem aos apóstolos o fará também ao discípulo.

– Eles se sentirão mal, por serem corrigidos na minha presença.

– Vai ser bom, para que se tornem humildes. Fica, fica, Manaém. Eu te conservo com prazer junto a Mim.

– E eu com prazer vou ficar.

267.5Aparece a viúva e diz:

– A comida está pronta, Mestre. Mas Tu trabalhas demais…

– Estou ganhando o meu pão, mulher. E depois… aqui está mais um cliente. Ele também quer um cofre. E paga bem. Teu depósito de madeira vai ficar vazio, diz Jesus, tirando um avental rasgado, que ele trazia na frente, e encaminhando-se para fora do quarto para ir lavar-se em uma bacia que a mulher levou até à horta.

E ela, com um daqueles sorrisos incertos, que se fazem ver depois de muito tempo de pranto, diz:

– Fica vazio o depósito de madeira, mas a casa fica cheia da tua presença, e o coração, de paz. Já não tenho mais medo do amanhã, Mestre. E Tu não tenhas mais medo de que nós nos esqueçamos de Ti.

Entram na cozinha, e tudo termina.