463. 463. Em Tariqueia. Convite de Cusa a Jesus, não obstanteum discurso sobre a natureza do reino messiânico ea conversão de uma pecadora. Jesus aceita um convitede Cusa superando a oposição de Pedro.


27 de julho de 1946.

463.1 A pequena península de Tariqueia se lança para dentro do lago, fazendo uma profunda enseada a sudoeste, de modo que não é errado dizer-se que, mais do que uma península, é um istmo, cercado de água em todo o seu perímetro, permanecendo unido à terra somente por um pequeno lado. Pelo menos assim era nos tempos de Jesus nos quais a estou vendo. Não sei se depois, no curso de vinte séculos, a areia e os seixos rolados, transportados por uma pequena torrente, que desemboca exatamante na enseada do sudoeste, tenha podido modificar o aspecto do lugar, assoreando a pequena baía e alargando, por isso mesmo, a língua de terra do istmo. A baía é tranquila, azulada, com traços de jade nos lugares onde espelha o verde das árvores, que se inclinam da costa para o lago. Muitas barcas flutuam sobre as águas que se movem levemente.

O que me chama a atenção é um estranho dique que, feito em arcos com base na areia da praia, forma uma espécie de passeio, um molhe, que sei eu, na direção do oeste. Não compreendo se terá sido feito para ornamento ou para outra finalidade útil, que não sei qual teria sido. Este passeio, dique ou molhe, é recoberto por uma espessa camada de terra sobre a qual foram colocadas algumas árvores, muito perto umas das outras, ainda que não muito altas, e que formam uma galeria verde sobre a estrada. Muita gente passa o tempo passeando por baixo daquela galeria, que sussurra ao soprar da brisa, das águas e das copas, melhorando o já agradável teor do frescor.

Vê-se nitidamente a embocadura do Jordão e o defluir das águas do lago sobre o leito do rio, fazendo alguns redemoinhos ao encontrarem algum engarrafamento junto aos pilares de uma ponte, que eu diria ser romana devido à sua arquitetura com robustos pilares, colocados como quebra-mar (não sei se falo certo), contra os cantos dos quais vem bater a corrente das águas, com todo um belo jogo de luzes de madrepérolas expostas ao sol, que as atinge frontalmente, e se esforçando para fluir na garganta do rio, apertado, depois de ter tido tanta largura no lago. Quase no fim da ponte, já do outro lado, está uma cidadezinha muito branca, espalhada pelo verde de um campo muito fértil. E, mais acima, indo para o norte, sobre a costa oriental do lago, está a vila que vem antes de Hipo e os bosques altos acima dos rochedos, para lá dos quais está Gamala, bem visível no alto de sua colina.

Jesus, acompanhado por uma grande comitiva de pessoas que o seguem desde Emaús, e que aumentou com os que já o esperavam em Tariqueia — entre esses está Joana, que veio em sua barca —, se dirigem logo para o dique arborizado. Param no centro deste, ficando com as águas à direita, e a praia à esquerda os que podem colocar-se na estrada arborizada. Quem não pode encontrar lugar na estrada, coloca-se mais abaixo na praia, que está ainda um pouco umidecida pela maré alta da noite, ou por alguma outra razão, e parcialmente sombreada pelas copas das árvores do dique, ou então faz encostar as barcas e nelas toma lugar à sombra das velas.

463.2 Jesus faz sinal de que vai falar e todos guardam silêncio.

– Está escrito1: “Tu te moveste para salvar o teu povo, para salvá-lo com o teu Cristo.” Está escrito: “Eu me alegrarei no Senhor e exularei em Deus meu Jesus.”

O povo de Israel tomou para si esta palavra, deu a ela um significado nacional, pessoal, egoísta, que não corresponde à verdade sobre a pessoa do Messias. Deu um significado limitado, que avilta a grandeza da ideia messiânica, rebaixando à ideia de uma manifestação comum de poder humano e de violência vitoriosa contra os dominadores encontrados em Israel por Cristo.

Mas a verdade é diferente. É grande, ilimitada, vem do Deus verdadeiro, do Criador e Senhor do céu e da terra, do Criador da humanidade, daquele que, como multiplicou os astros no firmamento e cobriu de árvores de todas as espécies a terra e a povoou de animais, colocando peixes nas águas e pássaros no céu, assim multiplicou os filhos do homem por Ele criado para que fosse o rei da Criação e sua criatura predileta. Agora, como poderia o Senhor, Pai de todo o gênero humano, ser injusto para com os seus filhos, para os filhos dos filhos nascidos do Homem e da Mulher por Ele formados com a matéria, a terra, e com a alma, o seu hálito divino? E como tratar a estes de modo diferente daqueles, como se eles não viessem da mesma fonte, como se não viessem dele, mas de algum outro ser sobrenatural e seu antagonista, como se tivessem sido criados de outros ramos, portanto fossem uns estrangeiros, uns bastardos, uns desprezíveis?

O verdadeiro Deus não é um pobre deus deste ou daquele povo, um ídolo, uma figura irreal. É a sublime Realidade, a Realidade universal, o Ser único, Supremo, Criador de todas as coisas e de todos os homens… É, portanto, o Deus de todos os homens. Ele ama, ainda que eles, por não o conhecerem, não o amam ou, se o conhecem mal e o amam mal, ou conhecendo-o, não o sabem amar. A paternidade não deixa de existir, quando um filho é ignorante, é estulto ou malvado. O pai procura instruir o filho, porque instruí-lo é amor. O pai se sacrifica para tornar menos estulto o filho deficiente. O pai, com lágrimas, com condescendências, com castigos salutares, com perdões misericordiosos, procura corrigir o filho mau e torná-lo bom. Este, o pai-homem. O Pai-Deus ama a todos os homens e quer que eles se salvem. Ele, que é Rei de um Reino infinito, Rei eterno, olha para o seu povo, formado por todos os povos espalhados pela face da Terra, e diz: “Aí está o povo de minhas criaturas, o povo que vai ser salvo com o meu Cristo. Eis o povo para o qual foi criado o Reino dos Céus. E eis que chegou a hora de salvá-lo com o Salvador.”

463.3 Quem é o Cristo? Quem é o Salvador? Quem é o Messias? Muitos são os gregos aqui presentes, muitos também os não gregos e que sabem o que quer dizer a palavra “Cristo.” Cristo, pois, quer dizer o consagrado, o que foi ungido com óleo para cumprir a sua missão. Consagrado a quê? Talvez à pequena glória de um trono? Talvez à glória maior de um sacerdócio? Não. Consagrado para reunir sob um único cetro, em um só povo, sob uma única doutrina, a todos os homens para que sejam irmãos entre si e filhos de um único Pai e que seguem a Lei dele para terem parte no seu Reino.

Rei, em nome do Pai, que no-lo enviou, o Cristo reina como convém à sua Natureza, isto é, divinamente, porque de Deus. Deus pôs tudo como escabelo dos pés de seu Cristo, mas não para que Ele oprima e sim para que salve. De fato, o seu nome é Jesus, que em língua hebraica quer dizer Salvador. Quando o Salvador salvar das insídias e da ferida mais violenta, um monte estará sob os seus pés e uma multidão de todas as raças cobrirá o monte para simbolizar que Ele reina e se eleva sobre toda a Terra e sobre todos os povos. Mas o Rei estará nu, sem outra riqueza, a não ser o seu sacrifício, para simbolizar que Ele não se inclina senão para as coisas do espírito e que as coisas do espírito se conquistam e se redimem com os valores do espírito e a heroicidade do sacrifício, não com a violência e o ouro. Assim será para dar a resposta àqueles que temem, como aqueles que o odeiam sem outra razão, a não ser o tremor que sentem de serem despojados daquilo que por eles é querido. A resposta é que Ele é um Rei espiritual, somente isso, mandado para ensinar aos espíritos a conquistar o Reino, o único Reino que Eu vim fundar.

Eu não vos dou novas leis. Para os israelitas Eu confirmo a Lei do Sinai. Aos gentios, Eu digo: a lei para possuir o Reino nada mais é do que a lei da virtude que toda criatura de moral elevada a si mesma se impõee que pela fé no verdadeiro Deus, se transforma de lei moral e de virtude humana em lei de moral sobre-humana.

463.4 Ó gentios! Vós gostais de proclamar deuses os grandes homens de vossas nações e os colocais nas fileiras dos numerosos e irreais deuses com que povoais o Olimpo que criastes para vós, a fim de terdes alguma coisa, em que crerdes, por que a religião, uma religião é necessária ao homem, assim como é necessária uma fé, sendo a fé o estado permanente do homem, e a incredulidade uma anomalia acidental. Nem sempre esses homens elevados à divindade valem, nem mesmo como simples homens, sendo grandes às vezes por sua força bruta, outras vezes por sua astúcia poderosa, outras ainda, pelo poder que de algum modo adquiriram. E assim sendo, eles levam consigo, como dotes de super-homens, as misérias que o homem sábio valoriza por aquilo que elas valem: podridão de paixões desenfreadas.

Que eu esteja dizendo a verdade, mostra-o o fato de que no vosso Olimpo quimérico, vós não soubestes colocar nem um só daqueles grandes espíritos que souberam intuir o Ser supremo, e foram agentes intermediários entre o homem animal e a Divindade que eles instintivamente perceberam, com seu espírito meditativo e virtuoso. Do espírito do filósofo que raciocina, do verdadeiramente grande filósofo para o do verdadeiro crente, que adora o verdadeiro Deus, o passo é curto, enquanto que do espírito do crente para o eu do astuto, do prepotente ou do materialmente herói, há um abismo. Contudo, não foram colocados por vós aqueles que pela virtude de sua vida se elevaram tanto acima da massa humana até se aproximarem dos reinos do espírito, mas o foram aqueles que vós temestes como patrões cruéis, ou que quisestes adular por servilismo de escravos, ou então admirastes como modelos vivos daquelas liberdades de instintos animais, que aos vossos apetites anormais parecem um escopo e uma meta de vida. E tendes invejado aqueles que foram descritos na lista dos deuses, desprezando aqueles que mais se aproximaram da divindade pela prática e a doutrina ensinadas e vividas em um vida virtuosa.

Agora, em verdade, eu vou dar-vos o modo de tornar-vos deuses2. Aquele que fizer o que Eu digo e crer no que ensino, esse subirá para o verdadeiro Olimpo, e será deus, deus filho de Deus, em um Céu onde não existe corrupção nenhuma, e onde o Amor é a única Lei. Em um Céu onde nos amamos espiritualmente, sem obtusidade e sem as insídias dos sentidos, a fazerem os habitantes de lá, inimigos uns dos outros, como acontece nas vossas religiões. Eu não venho pedir atos rumorosamente heróicos. Venho para dizer-vos: Vivei como criaturas dotadas de alma e razão, não como animais. Vivei de modo que mereçais viver, viver realmente, com a parte imortal de vós, no Reino daquele que vos criou.

463.5 Eu sou a Vida. Venho para ensinar-vos o caminho para irdes para a vida. Venho dar a vida por vós todos, e a dá-la, para dar-vos a ressurreição da vossa morte, do vosso sepulcro de pecado e idolatria. Eu sou a Misericórdia. Venho chamar-vos, reunir-vos todos. Eu sou o Cristo Salvador. O meu Reino não é deste mundo. Contudo, a quem crer em Mim e na minha palavra, nasce-lhe no coração um reino que está preparado desde o princípio do mundo, é o Reino de Deus, o Reino de Deus em vós.

De Mim foi escrito3 que Eu sou Aquele que estabelecerá a justiça entre as nações. É verdade, porque se os cidadãos de cada nação fizessem o que Eu ensino, os ódios, as guerras, as violências teriam fim. Está escrito de Mim que Eu não levantarei a voz para maldizer aos pecadores, nem a mão para destruir os que são como umas canas fendidas, ou umas torcidas que já estão soltando fumaça por sua maneira indecorosa de viver. É verdade. Eu sou o Salvador, venho para robustecer aos que estão feridos, para dar o combustível àqueles cuja lâmpada estiver fumacenta por falta do que é necessário. Foi dito de Mim que Eu sou Aquele que abre os olhos aos cegos e tira do cárcere os prisioneiros, levando à luz os que estavam nas trevas do cárcere. É verdade. Os cegos mais cegos são aqueles que nem com a vista da alma veem a Luz, isto é, o verdadeiro Deus. Eu venho como Luz do mundo para que vejam. Os prisioneiros mais prisioneiros são aqueles que têm por correntes as suas paixões más.Qualquer outra corrente se torna inútil se o prisioneiro morrer. Mas as correntes dos vícios duram e acorrentam até além da morte da carne. Eu venho para despedaçá-las. Eu venho para tirar das trevas do cárcere subterrâneo da ignorância de Deus todos aqueles que o paganismo sufoca sob a acumulação de suas idolatrias.

463.6 Vinde à Luz e à Salvação. Vinde a mim, porque o meu Reino é verdadeiro e a minha Lei é boa. Não se vos pede senão que ameis o único Deus e ao vosso próximo e por isso, que repudieis os ídolos e as paixões que vos endurecem os corações áridos, sensuais, ladrões e homicidas. O mundo diz4: “Oprimamos o pobre, o fraco, o que está só.

Que seja a força o nosso direito, a dureza o nosso hábito, a intransigência, o ódio, a ferocidade, as nossas armas. O justo, como não reage, seja conculcado, oprimidos sejam a viúva e o órfão, que têm uma voz fraca.” Eu digo: sede doces e mansos, perdoai aos inimigos, socorrei aos fracos, sede justos no vender e no adquirir e até no direito sede magnânimos, não aproveitando-vos do vosso poder para oprimir os outros. Sede moderados em todas as vossas tendências, pois a temperança é prova de força moral, enquanto que a concupiscência é prova de fraqueza. Sede homens e não animais, não temais que estejais decaídos demais, a ponto de não poderdes levantar-vos de novo.

Em verdade Eu vos digo que, assim como uma lama pode virar água pura, evaporada pelo sol, purificando-se ao deixar-se esquentar, e elevar-se ao céu para tornar a cair, em forma de chuva ou de orvalho, livre de impurezas e sadia, com a condição de que saiba deixar-se golpear pelo sol, assim também os espíritos que se aproximarem da grande Luz que é Deus, gritarem a Ele: “Eu pequei, sou uma lama, mas desejo a Ti, que és Luz”, tornar-se-ão espíritos que sobem purificados para o seu Criador. Tirai da morte o horror que ela causa, fazendo de vossa vida uma moeda para adquirir a Vida. Despojai-vos do passado como de uma veste suja, e revesti-vos de virtude. Eu sou a Palavra de Deus e em seu Nome vos digo que quem tiver fé nele e boa vontade, quem tiver arrependimento do passado e um propósito reto para o futuro, seja ele hebreu ou gentio, tornar-se-á filho de Deus e possuidor do Reino dos Céus.

Eu vos disse no princípio: “Quem é o Messias?” E agora Eu vos digo: “Sou Eu que vos estou falando, e o meu reino está em vossos corações, se o acolherdes, e depois estará no céu que Eu abrirei para vós, se souberdes perseverar na minha Doutrina. Isto é o Messias, e nada mais. Rei de um Reino espiritual, do qual com o seu sacrifício abrirá as portas para todos os homens de boa vontade.

463.7 Jesus terminou de falar e procura ir para uma escadinha que do dique leva para a margem. Talvez Ele queira alcançar a barca de Pedro que está balançando perto de um desembarcadouro rudimentar. Mas Ele se vira, de repente, olha para a multidão e grita:

– Quem foi que me invocou pelo espírito e pela carne?

Ninguém responde. Ele repete a pergunta e move os seus esplêndidos olhos por sobre a multidão, que se apinha por detrás de suas costas, não somente na estrada, mas também lá em baixo sobre a areia. Ainda estão em silêncio.

Mateus observa:

– Mestre, quem vai saber quantos neste momento terão suspirado por Ti, sob a emoção causada pelas tuas palavras?

– Não. Uma alma gritou: “Piedade”, e Eu a ouvi. E para dizer-vos que é verdade, eu respondo: “Que te seja feito segundo o que pedes, porque justo é o movimento do teu coração.”

E alto, esplêndido, estende imperiosamente a mão para o rumo da praia.

Tenta de novo encaminhar-se para a escadinha, mas põe-se na frente dele Cusa, que desceu de alguma barca e o saúda, com uma profunda inclinação:

– Há muitos dias que estou te procurando. Fiz um giro por todo o lago atrás de Ti, Mestre. Eu preciso falar-te. Serás meu hóspede. Tenho muitos amigos comigo.

– Ontem Eu estava em Tiberíades.

– Disseram-me isso. Mas eu não estou sozinho. Vê quantas barcas, já viradas para o outro lado? Lá estão muitos que te querem. Entre eles há também uns teus discípulos. Vem, eu te peço, à minha casa, do outro lado do Jordão.

– É inútil, Cusa. Eu sei o que é que tu queres dizer-me.

– Vem, Senhor.

– Os doentes e os pecadores me estão esperando. Deixa-me…

– Também nós te estamos esperando, doentes, ansiosos por teu bem. E há também doentes na carne…

– Ouviste as minhas palavras. Então, por que insistes?

– Senhor, não nos afastes, nós…

463.8 Uma mulher abriu caminho pelo meio da multidão. Eu já estou bastante experiente a respeito das vestes hebraicas para compreender que ela não é hebreia e está com vestes… honestas, para que ela seja uma desonesta. Mas, para esconder todas as suas formas e as suas graças, talvez bastante atrevidas, ela envolveu-se toda num véu, azulado como a veste ampla, contudo provocante nos modos como deixou descobertos seus braços muito bonitos. Ela se joga no chão e se arrasta pela poeira até chegar a tocar na veste de Jesus, que ela pega entre os dedos, beija justamente na orla e fica chorando, sacudida pelos soluços.

Jesus, que estava para responder a Cusa e para dizer-lhe: “Vós estais errados e…”, inclina o olhar, e diz:

– Eras tu aquela que me estavas invocando?

– Sim… e não sou digna da graça que me fizeste. Eu não teria devido nem mesmo chamar-te com o espírito. Mas a tua palavra… Senhor… eu sou pecadora. Se eu descobrisse o rosto, muitos diriam o meu nome. Eu sou… uma cortesã… uma infanticida… e o vício me havia feito ficar doente… Eu estava em Emaús e te dei uma jóia… e ma restituiste… e um teu olhar… desceu ao meu coração… E eu te acompanhei… Tu falaste. Eu repeti para mim mesma aquelas tuas palavras: “Eu sou lama, mas te desejo, a Ti que és Luz.” Eu disse: “Cura a minha alma e, depois, se quiseres, também a minha carne,” Senhor eu fiquei curada na carne… e a alma?

– A alma já te está curada pelo arrependimento. Vai e não peques mais. Estão perdoados os teus pecados.

A mulher beija de novo a orla da veste e se levanta. Ao fazê-lo, seu véu cai.

– Galácia! Galácia! –gritam muitos e urram insultos, até apanham pedras e areia e as jogam sobre a mulher, que se inclina, permanecendo sem temor.

463.9 Jesus com serenidade, levanta a mão. Impõe silêncio.

– Por que a estais insultando? Não lhe fazíeis assim, quando ela era pecadora. Por que o fazeis agora quando ela se redime?

– Eles o fazem, porque ela está velha e doente –gritam muitos, com vozes escarninhas.

Verdadeiramente a mulher, ainda que já não seja muito jovem, bem longe está ainda de ser velha e feia, como eles dizem. Mas a multidão é assim.

– Vai adiante de Mim e desce para aquela barca. Eu te acompanharei até a tua casa, por outro caminho –ordena Jesus.

Depois diz aos seus:

– Ponde-a no meio de vós e acompanhai-a.

A ira da multidão, instigada por algum israelita intransigente, vira-se toda contra Jesus, entre gritos, dizendo:

– Anátema! Falso Cristo! Protetor de prostitutas! Quem as protege, as aprova. E mais do que isto. Aprova-as porque gosta delas!

–e frases semelhantes urradas, ou melhor, latidas, ladradas, especialmente por um grupinho de viciados hebreus, não sei de qual casta, que por entre os urros, jogam mancheias de areia úmida, que atingem o rosto de Jesus.

Ele levanta o braço e limpa o rosto, sem protestos. Não somente isso, mas com um gesto, faz parar Cusa e alguns outros que quereriam reagir em sua defesa e diz:

– Deixai que o façam. Pela salvação de uma alma, Eu sofreria muito mais! Eu perdoo.

Zenon, o de Antioquia, que sempre esteve perto do Mestre, exclama:

– Agora, verdadeiramente sei que és um verdadeiro Deus, não um falso reitor. A grega disse a verdade! As tuas palavras nas termas me haviam desiludido. Estas de agora me conquistaram. O milagre me espantou. O teu perdão aos ofensores me conquistou. Adeus, Senhor. Pensarei em Ti e em tuas palavras.

– Adeus, homem. A Luz te ilumine o coração.

463.10 Cusa insiste de novo, enquanto vão indo para o desembarcadouro e enquanto no dique está havendo uma vozearia entre os romanos e os gregos de um lado e os israelitas do outro.

– Vem! Por poucas horas somente. É necessário. Eu mesmo te tornarei a acompanhar-te. Tu és benigno com as meretrizes, queres ser inexorável conosco?

– Está bem. Eu irei. De fato, é necessário.

Jesus se vira para os apóstolos, que já estão nas barcas:

– Ide para a frente. Eu vos alcançarei.

– Vais sozinho? –pergunta Pedro, pouco contente.

– Eu estou com Cusa…

– Hum! E nós, não podemos ir? Para que é que ele te quer com os amigos dele? Por que ele não veio a Cafarnaum?

– Nós fomos até lá. Vós lá não estáveis.

– Vós lá nos esperáveis. Esta é a verdade!

– Pelo contrário, nós viemos seguindo os vossos rastros.

– Ide agora a Cafarnaum. Será o Mestre que deve andar atrás de vós?

– Simão está com a razão –dizem os outros apóstolos.

– Por que não quereis que Ele venha comigo? Será esta a primeira vez que Ele vem à minha casa? Por acaso, vós não me conheceis?

– Sim, que te conhecemos. Mas não conhecemos os outros. Aí está.

– E o que temeis? Que eu seja amigo dos inimigos do Mestre?

– Eu não sei de nada! Eu só me lembro do fim de João, o Profeta!

– Simão, tu me estás ofendendo, Sou homem honrado. Eu te juro que, antes que fosse puxado um cabelo do Mestre, eu me faria traspassar. Tu deves crer em mim. A minha espada está a teu serviço…

– Eh! Que traspassem… Que adiantaria? Depois… Sim, eu creio em ti… Mas, uma vez que estejas morto, seria a vez dele. Eu prefiro o meu remo à tua espada, a minha pobre barca, e principalmente os nossos corações a serviço dele.

– Mas comigo está Manaém. Crês em Manaém? Está também o fariseu Eleazar, aquele que tu conheces, o sinagogo Timoneu e Natanael ben Fada. A este tu não conheces, mas é um chefe importante e quer falar com o Mestre. Está também João, chamado Antipas, de Antipátride, favorito de Herodes o Grande, que agora está velho, mas é poderoso, dono de todo o vale de Gahás e…

– Basta, basta! Tu citas grandes nomes que para mim nada dizem, a não serem dois… e vou eu também…

– Não. Queremos falar com o Mestre…

– Querem… E quem são eles? Querem?! E eu não quero. Sobe para cá, Mestre, vamos. Não quero saber de ninguém, eu não confio senão em mim mesmo, eu. Vamos, Mestre. E tu, vai em paz, vai dizer a todos esses que nós não somos uns vagabundos. Eles sabem onde encontrar-nos –e empurra a Jesus, sem outras cerimônias, enquanto Cusa protesta em voz alta.

463.11 Jesus intervém definitivamente:

– Não tenhas medo, Simão. Nada me acontecerá de mal. Eu o sei. E é bom que eu vá. É bom para Mim. Entende-me –e o fixa com seus olhos brilhantes, como para lhe dizer: “Não insistas. Compreende-me. Há razões que me aconselham a ir.”

Simão cede de má vontade. Mas cede como quem foi dominado… Porém não deixa de resmungar seu descontentamento por entre dentes.

– Fica tranquilo, Simão, eu mesmo te acompanharei na volta, ao meu Senhor e a ti –promete Cusa.

– Quando?

– Amanhã.

– Amanhã? Precisas de todo esse tempo para dizeres duas palavras? Estamos entre a tércia e a sexta… Antes da tarde, se Ele não estiver conosco, iremos até a tua casa, para lembrar-te. E não somente nós…

E diz isso em um tom que não deixa dúvidas quanto às suas intenções.

Jesus pousa a mão sobre o ombro de Pedro.

– Eu te digo. Eu sei. Não me farão nada. Mostra que acreditas em minha verdadeira natureza. Eu te digo. Eu sei. Não me farão nada. Querem somente explicar-se comigo… Vai. Conduze a mulher a Tiberíades, para na casa de Joana, e poderás ver que eles não me raptam com barcas e homens armados…

– Está bem, mas a casa dele –(e acena para Cusa)– eu já conheço. Sei que atrás dela há um terreno, que ela não é uma ilha, e que atrás estão Gálgala, Gamala, Aera, Arbela, Gerasa, Bozra, Pela, Ramot e muitas outras cidades!

– Mas não temas, digo Eu. Obedece… Dá-me um beijo, Simão. Eia! Também a vós.

Os beija e abençoa. Quando vê a barca andar grita para eles:

– Ainda não é a minha hora. Enquanto não for, nada e ninguém poderá levantar a mão contra Mim. Adeus meus amigos.

Jesus vira-se para Joana, que parece visivelmente perturbada e pensativa e lhe diz:

– Não temas. É bom que isto aconteça. Vai em paz.

E diz a Cusa:

– Vamos. Para mostrar-te que não tenho medo. E para curar-te…

– Eu não estou doente, Senhor…

– Tu estás. Eu to digo. E muitos junto contigo. Vamos.

Sobe à barca ligeira e rica, e se senta. Os remadores começam a vogar sobre as águas paradas, fazendo um arco para evitar a corrente que jáa se percebe ao chegar no fim do lago, perto da desembocadura dele no rio.

 

1 Está escrito, em Habacuque 3,13.18. As palavras teu Cristo (do verso 13) e meu Jesus (do verso 18), presentes na vulgata, tornaram-se teu consagrado (ou teu messias) e meu salvador na neo-vulgata.
2 tornar-vos deuses e, duas linhas mais acima, será deus (a qual segue o apropriado esclarecimento: deus filho de Deus) são expressões similares a do Salmo 82,6, referidas em João 10,34. Por outro lado, o uso da minúscula na palavra “deus” e todo o contexto (especialmente lá onde diz “no Reino d’Ele que vos criou”) excluem ao que possa ser atribuída ao homem a mesma natureza de Deus. MV explica nas notas que inserimos em 170.4, 365.16 e 537.11; e evidencia frequentemente o texto da obra, como em 58.5 (onde os fieis são chamados deus menores), em 470.4 (onde Adão em graça é chamado de pouco inferior a Deus, seu Criador), em 506.2 (onde se fala do homem que torna-se deus por participação e graça). Do mesmo modo, devem ser interpretadas outras afirmações análogas como as de 515.3 (os verdadeiros obedientes se tornarão deuses) - 516.5 - 524.7 - 600.36 - 606.14.
3 foi escritro, em Isaías 42,1-9.
4 diz, como em Sabedoria 2,10-12.


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