155. 155. Cura da pequena romana em Cesaréia edesacordo sobre os contatos com os pagãos.
5 de maio de 1945.
155.1 Jesus diz:
– Pequeno João, vem Comigo, pois quero que escrevas uma lição para os consagrados de hoje. Vê e escreve. Jesus está ainda em Cesareia Marítima.
155.2Não está mais naquela praça de ontem, mas num lugar mais central, do qual, porém, ainda se vê o porto e os navios. Aqui há muitas lojas e outras casas comerciais e, como até no chão, neste espaço sem calçamento, estão esteiras com várias mercadorias, concluo estar nos arredores do mercado, que talvez localizava-se perto do porto e dos armazéns, para comodidade dos que chegam por mar e dos compradores de mercadorias trazidas por mar. Há um grande barulho e o vaivém da multidão.
Jesus espera com Simão e os primos, que os outros tenham comprado os alimentos de que necessitam. Alguns meninos olham curiosamente para Jesus, que os acaricia docemente, enquanto fala com os seus apóstolos. Jesus diz:
– Não me agrada ver o descontentamento porque Eu me estou aproximando dos gentios. Mas Eu não posso senão fazer o que devo e ser bom com todos. Esforçai-vos por serdes bons, pelo menos vós três e João; os outros irão atrás de vós por imitação.
– Mas como se faz para ser bons com todos? Afinal, eles nos desprezam e oprimem, não nos entendem, são cheios de vícios… –escusa-se Tiago do Alfeu.
– Como se faz? Tu estás contente por teres nascido do Alfeu e da Maria?
– Sim. Com certeza. Por que me perguntas isso?
– E se tivesses sido interrogado por Deus, antes de seres concebido, terias querido nascer deles?
– Mas, sim. Eu não entendo…
– E se, ao invés, tivesses nascido de um pagão, e ouvisses que te acusavam por teres querido nascer de um pagão, que é que terias respondido?
– Eu teria dito… teria dito: “Eu não tenho culpa de uma coisa destas. Eu nasci dele, mas podia ter nascido de um outro.” Eu teria dito: “Vós sois injustos em vossa acusação. Se não faço o mal, por que é que me odiais?”
– Tu o disseste. Também estes, que vós desprezais porque são pagãos, podem dizer a mesma coisa. Tu não tens merecimento por teres nascido do Alfeu, um verdadeiro israelita. Deves agradecer por isso somente ao Eterno, porque te fez um grande presente e, por reconhecimento e humildade, procurar levar ao verdadeiro Deus outros que não receberam este presente. 155.3É preciso ser bom.
– É difícil amar a quem não se conhece!
– Não. Presta atenção. Tu, ó pequenino, vem aqui.
Aproxima-se um pequenino de uns oito anos, que estava brincando em um canto com outros dois meninos. É um menino robusto, de cabelos muito escuros, mas de uma pele muito alva.
– Quem és?
– Eu sou Lúcio, Caio Lúcio de Caio Mário, sou romano, filho do decurião da guarda, que ficou aqui, depois que foi ferido.
– E aqueles, quem são?
– São Isaque e Tobias. Mas não se deve dizer isto, porque não se pode. Eles apanhariam.
– Por que?
– Porque eles são hebreus e eu sou romano. Não podemos estar juntos.
– Mas tu estás com eles. Por que?
– Porque nos queremos bem. Brincamos sempre juntos, com os dados e com o saltarelo. Mas nós estamos escondidos.
– E a Mim, quererias bem? Eu também sou hebreu, e não sou um menino. Pensa: Eu sou um Mestre, isto é, um Sacerdote.
– E a mim que importa? Se me queres bem, eu te quero bem. E bem eu te quero porque Tu me queres bem.
– Como é que o sabes?
– Porque és bom. Quem é bom quer bem.
– Eis, amigos. O segredo para amar. Ser bons. Então se ama, sem pensar se isso faz parte, ou não, de uma religião.
E Jesus, segurando pela mão o pequeno Caio Lúcio, vai acariciar os pequenos hebreus, que ficaram assustados e foram esconder-se atrás de um corredor, e lhes diz:
– Os meninos bons são anjos. Os anjos têm uma só Pátria: o Paraíso. Têm uma só religião: a do único Deus. Têm um só Templo: o Coração de Deus. Sede amigos sempre, como os anjos.
– Mas se eles nos veem, nos batem…
Jesus sacode tristemente a cabeça e não rebate…
155.4Uma mulher alta e formosa chama Lúcio e ele deixa Jesus, gritando: “É a mamãe!”, e à mulher ele grita:
– Tenho um amigo grande, sabes? É um Mestre!!!
A mulher não se afasta com o filho, ao contrário, vai até Jesus e lhe pergunta:
– Salve! Não és Tu o homem da Galileia, que ontem falou no porto?
– Sou Eu.
– Espera-me aqui, então. Eu volto logo, e se vai com o seu pequeno.
Entrementes, os outros apóstolos também chegaram, todos, com exceção de Mateus e de João, e perguntam:
– Quem é ela?
– É uma romana, penso eu –responde Simão e os outros.
– Que é que ela queria?
– Ela disse que a esperasse aqui. Logo saberemos.
Algumas pessoas, neste meio tempo, foram chegando perto e curiosas esperam.
A mulher volta com outros romanos.
– Então, Tu és o Mestre? –pergunta um, que parece ser servo de alguma casa senhoril.
E, tendo obtido a confirmação, pergunta:
– Sentirias repugnância em curar uma filha pequena de uma amiga de Cláudia? A menina está à morte, porque se sente sufocada e nem o médico sabe de que é que ela está morrendo. Ontem à tarde estava boa. Esta manhã em agonia.
– Vamos.
Dão uns poucos passos por um caminho que vai em direção ao lugar em que estiveram ontem e chegam ao portão, todo aberto, de uma casa que parece habitada por romanos.
– Espera um momento.
O homem entra depressa e logo depois torna a aparecer, dizendo:
– Vem.
155.5 Mas antes ainda que Jesus pudesse entrar, sai de lá uma jovem de aspecto senhoril, mas em condições mais que visíveis de uma grande aflição. Tem nos braços uma pequenina criatura de poucos meses, quase inerte, lívida como alguém que se está sufocando. Eu diria que estava com uma difteria mortal e já em seus últimos momentos de vida. A mulher se refugia no peito de Jesus, como um náufrago que se apega a um rochedo. O seu pranto é tal, que não a deixa falar.
Jesus pega a criaturinha, que está com pequenos movimentos convulsivos, com as mãozinhas cor de cera e as unhas já roxas e a levanta. A cabecinha dela cai para trás, sem força. A mãe, sem soberba de romana diante do hebreu, deixou-se cair na poeira aos pés de Jesus e soluça, com o rosto erguido, os cabelos meio soltos, os braços estendidos tocando na veste e no manto de Jesus. Atrás dela e ao redor, os romanos da casa e as hebreias da cidade estão olhando.
Jesus molha o seu dedo indicador direito em sua saliva e o põe na boquinha anelante, introduzindo-o para baixo. A menina se debate e torna-se mais escura ainda. A mãe grita: “Não! Não!” e parece alguém que se contorce sob uma lâmina que a traspassa. As pessoas suspendem a respiração.
Mas o dedo de Jesus sai de lá envolvido por uma pelota de membranas purulentas e a menina não mais se debate e, depois de uma pequena ameaça de choro, se acalma, com um sorriso inocente, agitando as mãozinhas e movendo os lábios como um passarinho que pipila, batendo as pequenas asas, à espera de que se lhe dê comida.
– Toma, mulher. Dá-lhe o leite. Ela está curada.
A mãe está de tal modo atordoada, que pega a pequenina e estando como está, na poeira, beija-a e a acaricia, dá-lhe o peito e, como uma louca, se esquece de tudo que não seja a sua pequenina.
Um romano pergunta a Jesus:
– Mas como foi que pudeste? Eu sou o médico do Procônsul e sou douto. Procurei remover o obstáculo. Mas ele estava em baixo, muito em baixo!! E Tu… assim…
– Tu és douto. Mas contigo não está o Deus verdadeiro. Que Ele seja bendito por isso! Adeus.
E Jesus põe-se em movimento, como querendo sair dali.
155.6Mas eis que um pequeno grupo de israelitas se sente na necessidade de intervir:
– Como foi que te permitiste aproximar-te dos estrangeiros? Eles são corruptos, são impuros, e todos os que se aproximam deles ficam como eles.
Jesus os olha — são três — fixo, severo e depois fala:
– Não és tu o Ageu? O homem de Azoto, que veio aqui no mês de Tisri passado procurar fazer negócios com o mercador, que tem seu posto nos alicerces da fonte velha? E tu, não és o José de Ramá, que vieste até aqui para consultar o médico romano, e tu bem sabes, como Eu sei, o por quê? E então? Não vos sentis impuros?
– Um médico nunca é estrangeiro. Ele cura o corpo, e o corpo é igual para todos.
– A alma o é, com maior razão do que o corpo. Afinal, que foi que Eu curei? O corpo inocente de um pequenino e, por este meio, espero curar as almas não inocentes dos estrangeiros. Como médico e como Messias, posso, portanto, aproximar-me seja lá de quem for.
– Não o podes.
– Não, Ageu? E tu, por que tratas com o mercador romano?
– Não me aproximo dele, senão com a mercadoria e o dinheiro.
– E, uma vez que não tocas na sua carne, mas somente aquilo que foi tocado pela sua mão, achas que não te contaminas. Oh! Como sois cegos e cruéis!
155.7 Ouvi, todos. Justamente no livro do Profeta do qual esse traz o nome, está escrito1: “Apresenta aos sacerdotes esta questão sobre a Lei: ‘Se um homem leva uma carne santificada na dobra de sua veste e com ela toca depois no vinho ou nas comidas, no pão, ou no óleo ou outros alimentos, ficarão eles santificados?’ E os sacerdotes responderam: ‘Não’. Então Ageu disse: ‘Se alguém, que ficou imundo por ter tocado em um morto, tocar em uma destas coisas, ficará ela contaminada?’ E os sacerdotes responderam: ‘Sim’.
Por esta astuciosa, mentirosa e incoerente maneira de agir, vós impedis e condenais o Bem e só aceitais o que vos traz vantagens. Então cessa o desprezo, a repugnância, a náusea. Vós discernis, desde que não vos traga prejuízo pessoal, se uma coisa é imunda ou torna impuro, e se aquela outra não o é. E como podeis, bocas mentirosas, professar que, se aquilo que é santificado por ter tocado numa carne ou coisa santa, não santifica aquilo que toca, aquilo que tocou coisa imunda possa tornar imundo aquilo que toca?
Não compreendeis que vos estais desmentindo a vós mesmos, ó mentirosos ministros de uma Lei de Verdade, ó aproveitadores da mesma, que a torceis como uma corda, conforme achais que podeis tirar dela alguma vantagem, ó fariseus hipócritas que, sob um pretexto religioso, quereis desafogar o vosso rancor humano, completamente humano, ó profanadores do que é de Deus, ó insultadores e inimigos do Mensageiro de Deus? Em verdade, em verdade Eu vos digo que todos os vossos atos, todas as vossas conclusões, todos os vossos movimentos, têm como motivo um completo mecanismo de astúcia, ao qual servem de rodas e de molas, de pesos e tirantes, os vossos egoísmos, as vossas paixões, as vossas insinceridades, os vossos ódios, as vossas sedes de dominar, as vossas invejas.
Que vergonha! Avarentos, tremebundos, rancorosos, vós viveis com o medo orgulhoso de que alguém vos supere, mesmo quando não são da vossa casta. E mereceis, então, ser como aquele do qual tendes medo e raiva! Vós, como diz Ageu, que, de um montão de vinte alqueires fazeis um de dez, e de cinquenta barris fazeis vinte, embolsando a vantagem da diferença, enquanto, e pelo exemplo a ser dado ao homem, e pelo amor a ser prestado a Deus, deveríeis ao monte dos alqueires e ao monte dos barris, não tirar, mas acrescentar, do vosso bolso, em favor de quem tem fome, e mereceis ser esterilizados pelo vento abrasador, pela ferrugem e pelo granizo em todas as obras de vossas mãos.
Quem são entre vós os que vêm a Mim? Estes, estes que para vós são esterco e imundície, estas supremas ignorâncias, que nem sabem que há um verdadeiro Deus, eles vêm a Quem traz presente este Deus, nas palavras e nas obras. Mas vós, mas vós! Vós vos fizestes um nicho, e aí estais. Áridos, frios como ídolos à espera dos incensos e adorações. E, visto que vos credes uns deuses, parece-vos inútil pensar no verdadeiro Deus, assim como deve ser pensado, e vos parece perigoso que outros, que não sois vós, ousem fazer o que vós não ousais. Vós não podeis, na verdade, ousá-lo, porque sois uns ídolos. E porque sois servos do ídolo. Mas, quem ousa, pode, porque não ele, mas Deus opera nele.
155.8 Ide! Ide dizer a quem vos enviou atrás de meus calcanhares, que Eu desprezo os mercadores, que acham não ser contaminação vender as mercadorias, ou a pátria, ou o Templo àqueles de quem recebem dinheiro. Dizei a esses que Eu sinto repugnância dos brutos, que só têm o culto da própria carne e do próprio sangue e pela cura destes não acham ser contaminação aproximarem-se de um médico estrangeiro. Ide dizer que a medida é igual e que não há duas medidas. Ide dizer que Eu, o Messias, o Justo, o Conselheiro, o Admirável, Aquele que terá sobre si o Espírito do Senhor com seus sete dons, Aquele que não julgará pelo que aos olhos parece ser, mas pelo que é segredo de corações, Aquele que não condenará pelo que ouve com os ouvidos, mas pelas vozes espirituais que ouvirá no interior de cada homem, Aquele que tomará a defesa dos humildes e julgará os pobres com justiça, Aquele que Eu sou, porque isto Eu sou, já estou julgando e punindo os que sobre a terra são somente terra, e o sopro da minha respiração, fará morrer o ímpio e exterminará o seu covil, enquanto que haverá Vida e Luz, Liberdade e Paz para aqueles que, desejosos de justiça e de fé, virão ao meu monte santo, para se saciarem da Ciência do Senhor. Isto é Isaías2, não é verdade?
O meu povo! Todo ele vem de Adão, e Adão vem de meu Pai. Todo ele, pois, é obra do Pai e a todos tenho o dever de reunir ao Pai. E Eu os conduzo a Ti, ó Pai santo, eterno, poderoso. Eu os conduzo a Ti estes filhos errantes, depois de havê-los reunido, chamando-os com palavras de amor, reunindo-os sob a minha vara de pastor, parecida com a que Moisés levantou contra as serpentes mortíferas, para que Tu tenhas o teu Reino e o teu povo. Nem faço distinções, porque no fundo de cada vivente Eu vejo um ponto que brilha mais do que o fogo: a alma, uma centelha de Ti, ó eterno Esplendor. Ó meu eterno desejo! Ó minha incansável vontade!
Isto Eu quero. Com isto Eu me queimo. Uma terra que cante, toda, o teu Nome. Uma humanidade que te chame Pai. Uma redenção que salve a todos. Uma vontade fortificada que faça todos obedientes à tua vontade. Um triunfo eterno, que encha o Paraíso com um hosana sem fim… Oh! Multidão dos Céus!! Aí está. Eu vejo o sorriso de Deus… e este é o prêmio contra todas as durezas humanas.
155.9 Os três fugiram, sob a saraivada de reprovações. Os outros todos, romanos ou hebreus, ficaram de boca aberta. A mulher romana, com a pequenina, saciada de leite que dorme tranquila no colo materno, ficou lá onde estava, quase aos pés de Jesus, e chora de alegria materna e de comoção espiritual. Muitos estão chorando, por causa da arrasadora conclusão de Jesus que, em seu êxtase, parece flamejar.
E Jesus, abaixando o olhar e o espírito do Céu para a terra, vê a multidão, vê a mãe… e, ao passar, depois de um gesto de adeus a todos, toca de leve com a mão a jovem romana, como que a abençoá-la por sua fé. E vai-se embora com os seus, enquanto o povo, ainda assombrado, fica onde está…
155.10 (A jovem romana, se não for alguém muito parecida, é uma das romanas que estavam com Joana do Cusa no caminho do Calvário3.
Mas, como ninguém aqui a chamou pelo nome, fico na incerteza.)
1 está escrito, em: Ageu 2,11-13; segue outra citação de: Ageu 2,16.
2 é Isaías, isto é: Isaías 11,1-5.
3 no caminho do Calvário, em 608.9 (visão escrita dois meses antes e que está no décimo volume). Trata-se, como veremos em 167.3, da romana Valeria como a filhinha Faustina.