303. 303. Jesus com a Mãe em Nazaré.
15 de outubro de 1945.
303.1 Estamos em uma tarde já escura de dezembro. Tarde fria e com vento. Tiradas as folhas, arrancadas das árvores que ainda as tinham, e que fazem um rumor por entre o sibilar do vento, não se ouve nenhum outro barulho nas ruas de Nazaré, que estão agora no escuro, como as de uma cidade morta. Parece até uma cidade de lobos…
Mas, enquanto isso, pelas ruas desertas de Nazaré, lá vai andando o Cordeiro de Deus, que se dirige para a sua casa. Sua alta sombra, escura como a veste que ele traja, quase desaparece na penumbra de uma noite sem estrelas, e o passo dele produz apenas um leve barulho, quando Ele passa por sobre algum montinho de folhas secas e, depois de fazê-las redemoinhar pelo ar, levadas pelo vento, este as depõe de novo no chão, e está pronto a transportá-las de novo para algum outro ponto.
Chega perto da casa de Maria de Cléofas. Fica um pouco na dúvida se entra ou não no jardim e se bate na porta da cozinha, ou vai para diante. Mas acaba prosseguindo, sem ficar parado ali. Ei-lo já na pequena rua, onde fica sua casa. A agitada ondulação das copas das oliveiras, por cima do pequeno outeiro, ao lado do qual está a casa, que já se vê como, uma ondulação negra sob um céu escuro. Jesus apressa o passo. Já está chegando à porta. Escuta com atenção. É tão fácil poder ouvir-se o que está acontecendo dentro de uma casa tão pequena! Basta que alguém ajuste o ouvido ao umbral, para ter apenas uns poucos centímetros de madeira, entre quem escuta e quem está falando… Mas Ele não ouve nenhuma voz.
– Agora é tarde –suspira Ele–… Vou esperar a aurora, para bater à porta.
303.2 Mas, quando Ele está para afastar-se dali, chega até Ele o barulho cadenciado do tear. Ele sorri. E diz:
– Ela está desperta ainda. Está tecendo. Certamente é Ela. Esta é a cadência de minha Mãe.
Não posso ver o seu rosto, mas estou certa de que Ele está sorrindo, porque o sorriso já está em sua voz, que antes era triste, e agora já está alegre.
Ele bate à porta. Aquele rumor cessa por um momento, depois ouve-se outro rumor, que é o de uma cadeira empurrada e, finalmente, uma voz clara, que pergunta:
– Quem está batendo?
– Sou Eu, minha Mãe!
– Meu Filho!
É um doce grito de alegria, e um grito, ainda que tenha sido emitido em baixo tom. Ouve-se o barulho feito pelas mãos nos ferrolhos, e o deslizar destes… e a porta se abre, deixando passar uma onda de luz dourada por sobre a escuridão da noite. Maria cai nos braços de Jesus, ali mesmo na entrada, como se não pudessem tardar nem um minuto, Ele a recebê-la, e Ela a lançar-se sobre o seu Coração.
– Filho, meu Filho…
Beijos e doces palavras: “Minha Mãe”, “Meu Filho”… Depois entram e a porta se fecha completamente.
Maria explica em voz baixa:
– Todos estão dormindo. Eu velava… Desde quando voltaram Tiago e Judas, dizendo que Tu virias depois deles, eu sempre fiquei te esperando até tarde. Estás com frio, Jesus? Sim. Estás gelado. Vem. Eu deixei a lareira acesa. Vou jogar nela um feixe de gravetos. Assim te aquecerás.
E o leva pela mão, como se Ele continuasse a ser o seu pequenino Jesus…
A chama brilha, alegre e crepitante, na lareira realimentada. Maria olha para Jesus, que estende as mãos para aquecê-las perto das chamas.
– Como estás pálido! Não estavas assim, quando nos separamos… Estás ficando magro e descorado, meu Filho. Há tempo, Tu eras de leite e rosas. Mas agora pareces ser feito de marfim velho. Que houve de novo contigo, meu Filho? Serão, como sempre, os fariseus?
– Sim… e mais outras coisas. Mas agora estou feliz, aqui contigo, e logo estarei bem. Este ano as Encênias se fazem aqui, minha Mãe! Eu atinjo a idade perfeita, aqui ao teu lado. Estás contente?
– Sim. Mas a idade perfeita para Ti, meu coração, ainda está longe… És ainda jovem, e para mim és o meu Menino. Aqui tens o leite quente. Queres bebê-lo aqui, ou lá?
– Lá, minha Mãe. Ainda está muito quente. Eu o beberei, enquanto fores cobrir o tear.
303.3Voltam para a saleta, e Jesus se assenta numa caixa-banco, ao lado da mesa, e bebe o seu leite. Maria olha para Ele, e sorri. E sorri mais ainda, quando toca no saco que Jesus trouxe, e o põe sobre uma pequena mesa. Sorri tanto, que Jesus lhe pergunta:
– Que é que estás pensando?
– Estou me lembrando de que Tu chegaste justamente no aniversário de nossa partida para Belém… também naquele dia havia sacos e cofres abertos e cheios de roupas, especialmente uns paninhos… para um Pequenino, que podia nascer, como dizia José. Que devia nascer, dizia eu a mim mesma, em Belém de Judá… Eu os havia escondido no fundo, porque José tinha medo disso. Ele não sabia ainda que o nascimento do Filho de Deus não estaria sujeito, nem por Ele mesmo, nem pela Mãe do Menino, às misérias do dar à luz e do nascer. Não sabia… e por isso é que tinha medo de estar longe de Nazaré comigo naquele estado. Eu tinha certeza de que lá eu já seria uma parturiente… Tu estavas muito exultante em mim, pela alegria de teres chegado ao teu Natal e ao Natal da Redenção, e eu não podia enganar-me. Os Anjos volteavam, como turbilhões, ao redor da Mulher, que consigo trazia a Ti, meu Deus… Agora, não era mais o Arcanjo sublime, nem era o dulcíssimo Anjo que me guarda, como faziam eles nos meses que vieram antes. Agora, eram coros e mais coros de anjos, que desciam do Céu de Deus ao meu pequeno Céu: o meu seio, onde Tu estavas… Eu os ouvia cantar e dizerem uns aos outros suas palavras de luz… palavras que revelavam a ânsia deles por te verem, o Deus Encarnado… E eu os ouvia, durante suas fugas de amor, vindos do Paraíso para te adorarem a Ti, o Amor do Pai, escondido em meu seio. E eu procurava aprender as palavras deles… os cantos deles… os seus ardores… Mas uma criatura humana não pode dizer nem ter coisas do Céu…
Jesus a escuta sentado e Ela em pé, perto da mesa, como uma sonhadora, e Jesus cheio de felicidade, com uma das mãos posta sobre a madeira escura, e a outra sobre o coração… E Jesus lhe cobre a mãozinha branca e gentil com a sua, que é mais longa e escura, e aperta em seu punho aquela mãozinha santa… E, quando Ela se cala, quase lastimando-se por não ter podido aprender dos Anjos as palavras, os cânticos e todos os ardores deles, Jesus diz:
– Todas as palavras dos anjos, todos os seus cantos, todos os seus ardores não me teriam feito feliz sobre a terra se Eu não tivesse tido os teus, minha Mãe. Tu me disseste e me deste o que eles não puderam dar-me. Não tu deles, mas eles de ti é que aprenderam… 303.4Vem cá, minha Mãe, ao meu lado, e continua a contar… Não coisas daquele tempo… mas de agora. Que é que estavas fazendo agora?
– Estava trabalhando…
– Eu sei. Mas, que trabalho estavas fazendo? Eu aposto que estavas te cansando por Mim. Deixa-me ver…
Maria fica mais vermelha do que a peça que está no tear, e que Jesus, tendo-se levantado, está observando.
– Púrpura? Quem foi que ta deu?
– Judas de Keriot. Ele fez que lha dessem os pescadores de Sidon, parece-me. Ele quer que eu te faça uma veste de rei. A veste, eu faço, sim. Mas para Ti não há necessidade de púrpura para seres rei.
– Judas é mais cabeçudo do que um mulo –e foi esse o único comentário sobre a púrpura que Judas ganhou…
Depois, Jesus se vira para a Mãe:
– E vai sair uma veste inteira do pedaço que ele te deu?
– Oh! Não, meu Filho. Poderá servir para as orlas da veste e do manto. Não mais do que isso.
– Está bem. Agora compreendo porque é que a estás fazendo com fitas em baixo. Então… Minha Mãe: agrada-me este pensamento. Tu me conservarás separadas estas fitas, e um dia Eu te direi que as uses para uma bela veste. Mas temos ainda tempo. Não te afadigues.
– Eu trabalho, quando estou em Nazaré…
– É verdade… 303.5E os outros, que é que fizeram nesse tempo?
– Eles se instruíram.
– Ou melhor, tu os terás instruído. Que te parece?
– São três boas pessoas. Tirando a ti, nunca tive alunos mais dóceis e atentos. Tomei o cuidado de zelar também por João. Ele está muito doente. Não irá viver muito…
– Eu sei. Mas para ele é um bem. Afinal, ele mesmo o deseja. Ele compreendeu espontaneamente o valor do sofrimento e da morte. E Síntique?
– É uma pena afastá-la. Vale por cem discípulas, pela santidade e pela capacidade de entender o sobrenatural.
– Compreendo. Mas, que devo fazer?
– O que fizeres está sempre bem feito, meu Filho!
– E o menino?
– Também ele está aprendendo. Mas está muito triste nestes dias… Está lembrando-se da desventura por que passou, há um ano. Oh! Não havia muita alegria aqui… João e Síntique suspiram, ao pensarem que vão partir daqui, e o menino chora, pensando em sua mãe morta…
– E tu?
– Eu… Tu sabes, Filho. Não brilha o sol para mim, quando Tu estás longe. Nem brilharia se o mundo não te amasse. Mas, pelo menos, seria um sol sereno… E, no entanto…
– Ela chora. Pobre Mãe! Não te fizeram muitas perguntas sobre João e Síntique?
– E quem Tu querias que as fizesse? Maria de Alfeu sabe, e se cala. Alfeu de Sara já viu João, mas não é curioso. Ele o chama “o discípulo.”
– E os outros?
– Tirando Maria e Alfeu, nenhum outro vem à minha casa. Alguma mulher para procurar serviço ou conselho. Mas os homens de Nazaré não atravessam mais a minha soleira.
– Nem José e Simão?
– Não… Simão me manda óleo, farinha, azeitonas, lenha, como para obter o perdão por não te compreender, como quem quisesse falar por meio de presentes. Ele os entrega à Maria, sua mãe, mas não vem aqui. Afinal, qualquer um que viesse não veria mais do que a mim, porque Síntique e João se retiram quando alguém bate à porta…
– É uma vida muito triste…
– Sim. E o menino sofre um pouco com isso, de modo que Maria de Alfeu o leva consigo, quando vai fazer compras. Contudo, agora não estaremos mais tristes, meu Jesus. Porque Tu estás conosco!
– Eu estou aqui… Agora vamos dormir. Abençoa-me, minha Mãe, como quando Eu era pequeno.
– Abençoa-me, meu Filho. Eu sou a tua discípula.
Beijam-se. Acendem outra candeia, e saem dali para irem dormir.