352. 352. Um convertido de Maria de Magdala.Parábola para o pequeno Benjamime lições sobre quem é grande no reino dos Céus.
6 de dezembro de 1945.
352.1 E justamente enquanto se estão incendiando o céu e o lago com os fogos do sol que se põe, eles estão voltando para Cafarnaum. Estão contentes. Falam uns com os outros. Jesus fala pouco, mas sorri. Notam que, se o mensageiro tivesse sido mais preciso, eles teriam podido encurtar o caminho. Contudo, como dizem que o cansaço valeu a pena porque um grupo de pequeninos filhos teve seu pai curado, quando seu corpo já se ia esfriando pela aproximação da morte, e também porque já não estão mais sem um pouco de dinheiro.
– Eu vos havia dito que o Pai proveria tudo –diz Jesus.
– E é um antigo amante de Maria de Magdala? –pergunta Filipe.
– Parece… Pelo que me disseram… –responde Tomé.
– A Ti, Senhor, que disse o homem? –pergunta Judas de Alfeu.
Jesus sorri, evitando o assunto.
– Eu o vi mais de uma vez com ela, quando eu ia a Tiberíades com os amigos. Isto é certo –afirma Mateus.
– Sim, meu irmão, responde às nossas perguntas… O homem te pedia somente que o curasses ou também que o perdoasses? –pergunta Tiago de Alfeu.
– Que pergunta sem razão! Quando foi que o Senhor deixou de exigir arrependimento, para conceder uma graça? –diz Iscariotes, com alguma indignação contra Tiago de Alfeu.
– Meu irmão não disse nenhuma tolice. Jesus cura ou liberta e depois diz: “Vai, e não peques mais” –responde-lhe Tadeu.
– Mas é porque Ele já vê o arrependimento nos corações –replica Iscariotes.
– Nos endemoninhdos não há arrependimento, nem vontade de serem libertados. Não foi somente um que já demonstrou tudo isso. Pensa em cada caso e verás que, ou fugiam e se arrojavam como inimigos ou, pelo menos, tentavam uma coisa ou outra, e não o conseguiam somente porque eram impedidos por seus parentes –replica Tadeu.
– E pelo poder de Jesus –acrescenta Zelotes.
– Mas então, Jesus leva em conta a vontade dos parentes, que representa a vontade do endemoninhado, o qual, se não fosse impedido pelo demônio, quereria a libertação.
– Oh! Quantas sutilezas! E para os pecadores, então? Parece-me que faz uso da mesma fórmula, ainda que não se trate de endemoninhados –diz Tiago de Zebedeu.
– A mim Ele disse: “Segue-me”, e eu não lhe havia dito ainda nem uma palavra a respeito do meu estado –observa Mateus.
– Mas Ele via tudo em teu coração –diz Iscariotes, que quer ter sempre razão, a todo custo.
352.2 – Está bem! Mas aquele homem, no dizer do povo, era um grande libidinoso e grande pecador, e não um endemoninhado, ou melhor, não era um possesso porque um demônio, pelos pecados dele, podia tê-lo por mestre ou seu patrão, e agora que ele estava para morrer, que foi que ele pediu? Estamos passeando pelas nuvens, é o que me parece… Voltemos à primeira pergunta –diz Pedro.
Jesus lhe dá razão:
– Aquele homem quis ficar sozinho comigo a fim de poder falar com liberdade. Não falou logo do seu estado de saúde, mas do de seu espírito. Ele disse: “Estou morrendo, mas não tanto como eu dei a entender, a fim de poder ter-te logo comigo. Eu preciso do teu perdão para ficar são. Mas isso me basta. Se não me fizeres ficar com saúde, eu me resignarei. Eu o mereci. Mas, salva a minha alma”, e me confessou as suas muitas culpas. Foi uma desagradável relação de culpas…
Jesus diz assim, mas o seu rosto está cintilando de alegria.
– E Tu ficas sorrindo por isso, Mestre? Parece-me estranho! –observa Bartolomeu.
– Sim, filho de Tolmai. Eu sorrio porque suas culpas não existem mais e porque, pela confissão delas, fiquei sabendo o nome da redentora. Quem foi o apóstolo, neste caso, foi uma mulher.
– Tua Mãe! –dizem muitos.
E outros:
– Joana de Cusa. Se ele ia a Tiberíades muitas vezes, pode ser que a conhecesse.
Jesus sacode a cabeça. Perguntam-lhe:
– Quem, então?
– Maria de Lázaro –responde Jesus.
– Ela veio aqui? Por que não se fez ver por nenhum de nós?
– Ela não veio. Ela escreveu ao seu antigo companheiro de culpa. Eu li as cartas. Em todas elas suplica a mesma coisa: que a escute, que procure redimir-se como ela se redimiu, que a acompanhe no Bem como a tinha acompanhado na culpa e, com palavras acompanhadas de lágrimas, lhe roga que alivie a alma de Maria do remorso de ter seduzido a sua alma. E o converteu. A tal ponto, que ele foi isolar-se em sua campina para vencer as tentações das cidades. A doença, que era mais por remorso da alma do que do corpo, acabou preparando-o para a Graça. Aí está. Estais contentes agora? Compreendeis agora porque Eu estou sorrindo?
– Sim Mestre –dizem todos.
E depois, vendo que Jesus alonga o passo, como para isolar-se, eles se põem a murmurar entre si…
352.3 Já estão começando a ver Cafarnaum quando, no encontro da estrada por onde vão com a que vai pela beira do lago, vindo de Magdala, aí chegam os discípulos vindos a pé, e vieram evangelizando desde Tiberíades. Todos, menos Marziam, os pastores e Manaém, que vieram de Nazaré para Jerusalém em companhia das mulheres. Além disso, os discípulos aumentaram em mais alguns elementos que se uniram a eles quando estavam voltando da missão, e levando consigo novos prosélitos da doutrina cristã.
Jesus os saúda docemente, mas logo torna a ir ficar sozinho, em uma meditação e oração profunda, a alguns passos à frente deles. Os apóstolos, por sua vez, vão juntar-se aos discípulos, especialmente aos mais influentes, isto é, Estevão, Hermes, o sacerdote João, o escriba João, Timoneu, José de Emaús, Hermasteu (que, pelo que eu pude entender, está voando pelo caminho da perfeição) e Abel de Belém da Galiléia, cuja mãe vem lá atrás com as outras mulheres. Os discípulos e apóstolos se revezam em fazer perguntas e dar respostas sobre tudo o que aconteceu desde que eles se separaram. Falam agora sobre a cura e a conversão de hoje, sobre o milagre do estáter na boca do peixe… Falam deste e das causas que lhe deram origem, e daí nascem grandes comentários que vão passando de uma fila para outra, como um fogo que se ateou em folhas secas…
352.4Diz Jesus:
– Aqui colocareis a visão de 7 de março de 1944: “O Pequeno Benjamim de Cafarnaum” sem o comentário. E prosseguireis com o resto da lição e da visão. Vai para a frente.
Devo antes dizer que omito a última frase: “A visão para mim termina aqui etc.” Pois estaria fora de lugar, visto que a visão prossegue.
7 de março de 1944
352.5 Estou vendo Jesus, que vai caminhando por uma estrada da campina, acompanhado e rodeado pelos seus apóstolos e discípulos.
O lago da Galiléia deixa-se ver já perto, completamente tranqüilo e azul, por baixo de um belo sol, ou de primavera ou de outono, pois já não é um sol violento como o do verão. Mas eu acho que é primavera, porque o ar está muito fresco e a natureza não está com aquelas tonalidades douradas e esmaecidas que se vêem no outono.
Parece que, em vista da tarde que vem chegando, Jesus se vá retirando para a casa hospitaleira, e dirigindo-se para o povoado, que já se pode ver aparecendo. Jesus, como faz muitas vezes, vai alguns passos à frente dos discípulos, não muito longe mas só o suficiente para poder concentrar-se em seus pensamentos, sentindo a necessidade do silêncio depois de um dia ocupado na evangelização. Vai andando todo absorto, segurando na mão direita um raminho verde, que certamente Ele apanhou em alguma moita e com o qual vai batendo levemente nas vegetações baixas da beira da estrada.
Atrás dele, ao contrário, os discípulos estão conversando animadamente. Estão relembrando os episódios do dia e não têm a mão leve demais para pesar os defeitos e as culpas dos outros. Mais ou menos todos eles estão criticando o fato daqueles que faziam a cobrança do tributo para o Templo terem querido ser pagos por Jesus.
Pedro, sempre veemente, definiu aquilo como um sacrilégio, porque o Messias não está obrigado a pagar o tributo:
– Isto já é querer que Deus pague a Si mesmo –diz ele–. E isso não é justo. Porque, se eles não crêem que Ele seja o Messias, torna-se um sacrilégio.
Jesus se vira, por um momento, e diz:
– Simão, Simão, haverá muitos desses que duvidarão de Mim. Até mesmo entre os que crêem que têm uma fé firme e inabalável em Mim. Não julgues os irmãos, Simão. Julga sempre a ti mesmo em primeiro lugar.
Judas, com um sorrisinho zombeteiro, diz ao humilhado Pedro, que está de cabeça baixa:
– Esta agora é para ti. Como és o mais velho, queres sempre te fazer de doutor. Não está escrito que iremos ser julgados em nossos merecimentos pela idade. Entre nós há quem seja mais do que tu pelo saber e pelo prestigio social.
Estabelece-se, então, uma discussão sobre os méritos de cada um. Um se gaba de estar entre os primeiros discípulos, outro acha apoio em seu favor, referindo-se ao posto de alto prestígio que deixou para acompanhar Jesus, enquanto um terceiro diz que ninguém como ele tem direitos, porque nenhum como ele converteu-se tanto, a ponto de passar de publicano a discípulo. A discussão vai aumentando e, se eu não tivesse medo de ofender os apóstolos, diria que vai tomando os tons de uma verdadeira briga.
Jesus não toma parte nela. Parece não estar mais ouvindo nada. Enquanto isso, eles já vão chegando às primeiras casas da cidade, que eu sei que é Cafarnaum. Jesus vai indo para frente e os outros atrás, sempre discutindo.
352.6 Um menino pequeno, de uns sete para oito anos, vai correndo e pulando atrás de Jesus. E o alcança, e passa para frente do grupo dos apóstolos, que já estão gritando. É um belo menino, de cabelos castanho-escuros, todos encaracolados e curtos. Tem dois olhinhos pretos e inteligentes em um rosto moreno. Chama cordialmente o Mestre, como se o conhecesse bem:
– Jesus –diz ele–, Tu me deixas ir contigo até à tua casa?
– Tua mamãe está sabendo disso? –pergunta-lhe Jesus, olhando para ele com um sorriso benevolente.
– Ela está.
– É verdade mesmo?
E Jesus, continuando a sorrir, olha para ele com um olhar penetrante.
– Sim, Jesus, é verdade.
– Então, vem.
O menino dá um salto de alegria e agarra a mão esquerda de Jesus, que lha estende. Com que amorosa confiança o menino põe sua mãozinha morena na longa mão do meu Jesus! Como eu gostaria de fazer também eu a mesma coisa!
– Conta-me alguma bela parábola, Jesus –diz o menino, dando seus pulinhos ao lado do Mestre e olhando para Ele de alto a baixo, com um rostinho brilhando de alegria.
Jesus também olha para ele com um sorriso alegre, que lhe descobre a boca sombreada pelos bigodes e pela barba louro-avermelhada que o sol faz ser vista como se fosse de ouro. Seus olhos de safira escura também estão rindo de alegria, enquanto estão olhando para o menino.
– Que vais fazer com a parábola? Ela não é um brinquedo.
– É mais bonita do que um brinquedo. Quando eu vou dormir, fico pensando nela, e depois sonho com ela, e, na manhã seguinte, lembro-me dela, e a repito a mim mesmo, para ser bom. Ela me faz ser bom.
– Tu te lembras dela?
– Sim. Queres que eu te diga todas as que me disseste?
– És bravo, Benjamim, e mais do que os homens, que se esquecem. Como prêmio, vou dizer-te a parábola.
O menino parou de pular. Vai agora caminhando sério e atento como um adulto, e não perde uma palavra, nenhuma das inflexões da voz de Jesus, para o qual ele está olhando tão atentamente, que nem pensa em olhar onde é que está pondo os pés.
352.7 – Um pastor muito bom ouviu a notícia de que em certo lugar do universo havia ovelhas abandonadas pelos pastores não muito bons, e elas andavam em perigo, por caminhos muito maus, por pastagens que lhes faziam mal, e iam sempre terminar em despenhadeiros escuros. Ele foi até aquele lugar e, gastando todos os seus haveres, adquiriu aquelas ovelhas com os seus cordeirinhos. Queria levar a todos para o seu reino, pois aquele pastor era também rei, como o foram muitos reis em Israel. No seu reino, aquelas ovelhas e aqueles cordeirinhos teriam muitas pastagens sadias, águas puras e frescas, estradas seguras e abrigos indestrutíveis para as protegerem dos ladrões e dos lobos ferozes. Por isso, aquele pastor reuniu as suas ovelhas e os seus cordeirinhos e lhes disse: “Eu vim para salvar-vos, a fim de levar-vos para o lugar onde não sofrereis mais, onde não conhecereis mais ciladas nem sofrimentos. Amai-me, acompanhai-me, porque eu vos amo muito e, para ter-vos, eu me sacrifiquei de todos os modos. Mas, se me amardes, o meu sacrifício não me será pesado. Vinde atrás de mim, e vamos…” E o pastor, indo à frente, e as ovelhas o acompanhando, tomaram o caminho que vai para o reino da alegria. O pastor, a cada momento, se virava para ver se elas o estavam acompanhando, para exortar as cansadas, encorajar as desanimadas, socorrer as doentes e acariciar os cordeirinhos. Como as amava! Dava-lhes do seu pão e do seu sal e, em primeiro lugar provava a água das fontes e a abençoava, a fim de perceber se era boa e para torná-la santa. Mas as ovelhas — tu acreditas, Benjamim? — as ovelhas, depois de algum tempo ficaram cansadas. Primeiro uma, depois duas, depois dez, depois cem, ficaram para trás pastando a erva até se encherem sem poderem mais mover-se, e se deitaram, cansadas e saciadas, na poeira e na lama. Outras foram ficar suspensas sobre os precipícios, ainda que o pastor lhes tivesse dito: “Não façais isso.” Umas iam, porque ele ia colocar-se onde havia maior perigo a fim de impedir que elas fossem para lá, bateram nele com a cabeça atrevida e, mais de uma vez, tentaram precipitá-lo de lá. Assim muitas delas ficaram nos despenhadeiros e lá morreram miseravelmente. Outras começaram a brigar entre si e, ficando uma sem chifres e outra sem cabeça, foram se matando umas as outras. Somente um cordeirinho é que nunca se desencaminhou. Ele corria balindo e, com aquele seu balido, ele dizia ao pastor: “Eu te amo!”, e ia correndo atrás do bom pastor. Quando chegaram à porta do seu reino, não havia mais do que eles dois: o pastor e o cordeirinho fiel. Então, o pastor não disse: “Entra”, mas disse: “vem”, e o tomou sobre o seu peito, por entre os braços, e o levou para dentro, chamando a todos os seus súditos e dizendo-lhes: “Aqui está o que me ama. Quero que ele esteja comigo para sempre. E vós, amai-o, porque ele é o predileto do meu coração.” 352.8A parábola terminou, Benjamim. Agora, sabes tu dizer-me: Quem é aquele pastor bom?
– És Tu, Jesus!
– E aquele cordeirinho, quem é?
– Sou eu, Jesus.
– Mas agora eu vou-me embora. Tu te esquecerás de Mim.
– Não, Jesus. Não me esquecerei de Ti, porque te amo.
– Teu amor cessará, quando não me vires mais.
– Eu direi dentro de mim as palavras que tu disseste, e isso será como se Tu estivesses presente. E assim eu te amarei, e te obedecerei. E, dize-me, Jesus, Tu te lembrarás do Benjamim?
– Sempre.
– Como farás para te lembrares de mim?
– Eu direi a Mim mesmo que tu prometeste amar-me e obedecer-me, e assim me lembrarei de ti.
– E me darás o teu Reino?
– Se fores bom, sim.
– Eu serei bom.
– Como farás? A vida é longa.
– Mas também as tuas palavras são muito boas. Se eu as disser a mim mesmo e fizer o que elas mandam fazer, eu me conservarei bom por toda a vida. E assim farei, porque te amo. Quando se quer bem, não se fica cansado de ser bom. Para mim, não é cansativo obedecer a minha mãe, porque lhe quero bem.
Jesus fica parado e olhando o rostinho cheio de amor, mais do que de sol. A alegria de Jesus é tão viva, que até parece ser um outro sol que se acendeu em sua alma e se irradia de suas pupilas. Ele se inclina e beija o menino na fronte.
352.9 Ele parou diante de uma casinha modesta, em cuja frente há um poço. Jesus vai, então, sentar-se perto do poço, e lá os discípulos se reúnem com Ele, e ainda continuam a falar de suas próprias prerrogativas.
Jesus olha para eles. Depois os chama:
– Vinde aqui ao redor de Mim, e ouvi o último ensinamento deste dia, vós que já estais ficando roucos, exaltando os vossos merecimentos, pelos quais julgais poder estabelecer um posto para vós. Estais vendo este menino? Na verdade, ele é na verdade, mais do que vós. Sua inocência lhe dá a chave para abrir as portas do meu Reino. Ele compreendeu, na sua simplicidade de pequeno menino, que no amor está a força para se tornar grande, e na obediência feita por amor, aquela para entrar no meu Reino. Sede simples, humildes, amorosos, com um amor que não só a mim é dado, mas que deve ser recíproco entre vós, obedientes às minhas palavras, a todas, e também a estas, se quereis chegar à entrada por onde entrarão estes inocentes. Aprendei dos pequenos. O Pai lhes revela a Verdade, como não a revela aos sábios.
Jesus fala, conservando de pé, junto aos seus joelhos, Benjamim, sobre cujas costas Ele tem as mãos. Agora o rosto de Jesus está cheio de majestade. Ele está sério, não irritado, mas sério. Está como um Mestre. O último raio do sol lhe forma uma auréola sobre a cabeça loura.
A visão me desapareceu neste ponto, deixando-me cheia de doçura em minhas dores.
[6 de dezembro de 1945.]
352.10 Portanto: é natural que os discípulos não tenham podido entrar todos na casa. Por seu número, e pelo respeito. Eles nunca o fazem, a não ser que sejam convidados a fazê-lo, todos juntos, ou que cada um seja chamado pelo Mestre. Noto sempre um grande respeito, uma grande reserva, mesmo com toda aquela afabilidade do Mestre e sua grande familiaridade. Até Isaque, que se poderia dizer que é o primeiro discípulo entre todos os discípulos, não toma nunca a liberdade de ir a Jesus sem que um sorriso, pelo menos um sorriso do Mestre, o esteja chamando para perto de Si.
É um pouco diferente, não? Daquele modo, muito pronto, e quase burlesco com que muitos tratam as coisas sobrenaturais… Isto é um comentário meu, e que me parece justo, porque não tolero que certas pessoas tratem o que está acima de nós, de um modo com que não tratamos nem aos homens nossos iguais, somente por serem um pouquinho mais do que nós… Mas… Vamos para frente…
Os discípulos, então, se espalharam pela beira do lago, e foram comprar peixe para a ceia, pão e o mais de que precisavam. Está de volta também Tiago de Zebedeu, e chama o Mestre, que está sentado no terraço, com João acocorado a seus pés, em um doce e despreocupado colóquio… Jesus se levanta e vai ao parapeito.
Tiago diz:
– Quanto peixe, Mestre! Meu pai está dizendo que Tu abençoaste as redes com a tua vinda. Olha: este é para nós –e mostra um cesto de peixes, que parecem ser de prata.
– Deus lhe dê muitas graças por sua generosidade. Preparai-o, porque depois da ceia, iremos para a margem com os discípulos.
E eles assim fazem.O lago está escuro como a noite, esperando a lua, que hoje vai nascer tarde. Mais do que ver o mar, o que já se pode é ouvi-lo murmurar, enxaguando as pedras da praia. Por enquanto, somente as fantásticas estrelas, que estão sobre a região do Oriente, se espelham sobre as águas tranqüilas. Assentam-se eles ao redor de uma pequena barca emborcada, sobre a qual Jesus está sentado. E os pequenos faróis das barcas, trazidos para cá, para o centro do círculo, mal iluminam os rostos dos que estão mais perto. O de Jesus está todo iluminado, de alto a baixo, por um pequeno farol posto a seus pés, e por isso todos o podem ver quando Ele fala a um ou a outro.
352.11A princípio, a conversação é simples, familiar. Mas depois assume o tom de uma lição. O próprio Jesus o diz abertamente:
– Vinde e ouvi. Porque daqui a pouco nos separaremos, Eu quero ensinar-vos ainda, para formar-vos melhor.
Hoje Eu vos ouvi discutir, e nem sempre com caridade. Aos maiores entre vós Eu já dei a lição. Mas eu quero dá-la a vós também, e ela não fará mal a estes entre vós que são os maiores, se eles a ouvirem de novo. Agora o pequeno Benjamim não está aqui perto dos meus joelhos. Ele está dormindo em sua cama, e sonhando seus sonhos inocentes. E talvez a sua alma pura esteja aqui entre nós, do mesmo modo. Seja como for, fazei de conta que ele ou qualquer outro menino esteja aqui para vosso exemplo.
Vós, em vossos corações, tendes todos, cravado um prego, uma curiosidade, um perigo. E o prego é isto: querer ser o primeiro no reino dos céus. A curiosidade é esta: saber quem será o primeiro. E, enfim, o perigo: o desejo, ainda muito humano, de ouvir que lhe digam assim: “Tu és o primeiro no Reino dos Céus”, se for dito pelos companheiros complacentes ou pelo Mestre, mas sobretudo pelo Mestre, do qual vós sabeis que é verdade o que Ele diz e qual o conhecimento que Ele tem do futuro. Por acaso, não é assim mesmo? As perguntas estão tremendo sobre os vossos lábios, e estão vivas no fundo dos vossos corações.
O Mestre, para o vosso bem, atende a essa curiosidade, por mais que Ele deteste ceder às curiosidades humanas. O vosso Mestre não é um charlatão ao qual se faz uma pergunta por duas moedas, no meio da barulheira de uma feira. Nem tampouco Ele é tomado pelo espírito de Piton, o qual o ajuda a ganhar dinheiro, ensinando-o a adivinhar para satisfazer às acanhadas mentes dos homens, que querem descobrir o futuro, para saberem como deverão “regular-se”. Mas o homem não pode regular-se, por si mesmo. Só Deus é que o regula, se o homem tiver fé nele! Não adianta saber, ou pensar que se sabe o futuro, se não se tiver um meio para fazer voltar atrás o futuro que foi profetizado. Só existe um meio: a oração ao Pai e Senhor para que, em sua misericórdia, nos ajude. Em verdade, Eu vos digo que a oração feita com fé pode mudar um castigo em bênção. Mas quem recorre aos homens para poder, como homem e com meios humanos, desviar o futuro, não sabe rezar nada, ou sabe rezar, mas muito mal. Eu, por esta vez, porque esta vossa curiosidade pode trazer-vos um bom ensinamento, vou responder a ela, Eu que detesto as perguntas curiosas e desrespeitosas.
352.12Vós vos estáveis perguntando: “Quem de nós é o maior no Reino dos Céus?”
Eu, deixando de lado essa limitaçãodo “entre nós”, amplio os confins dela ao mundo inteiro, ao presente, ao passado e ao futuro, e respondo: “O maior no Reino dos Céus é o que for o menor entre os homens”, isto é, aquele que é considerado “o menor”, pelos homens. O que é simples, o humilde, o que tem confiança, o ignorante. Um exemplo disso é o menino, ou o que tem uma alma de menino. Não é a ciência, não é o poder, não são as riquezas, não são as atividades, mesmo que sejam boas, as coisas que vos tornarão “o maior” no Reino da felicidade. Mas é, sim, o ser como os pequenos por sua afetuosidade, sua humildade e simplicidade, sua fé.
Observai como Me amam as crianças, e imitai-as. Como elas crêem em Mim, e imitai-as. Como recordam aquilo que digo, como fazem o que Eu ensino, e imitai-as. Como não se ensoberbecem pelo que fazem, e imitai-as. Como não se enchem de ciúmes de Mim nem dos companheiros, e imitai-as. Em verdade, Eu vos digo que, se não mudardes vosso modo de pensar, de agir e de amar, e se não vos refizerdes conforme o modelo dos pequenos, não entrareis no Reino dos Céus. Eles sabem o que vós sabeis, o essencial, de minha doutrina. Mas, com que diferença eles praticam o que Eu ensino! Vós dizeis, a cada ato bom que praticais: “Fui eu que o fiz.” O menino me diz: “Jesus, eu me lembrei de Ti hoje, e por Ti eu obedeci, eu amei, eu contive um desejo de brigar… e estou contente, porque Tu, eu o sei, sabes quando eu sou bom, e ficas contente por isso.” E observai também os meninos, quando cometem uma falta. Com que humildade eles me confessam: “Hoje eu fui mau. E isso me desagradava, porque te fiz sofrer.” Eles não procuram desculpas. Sabem que Eu sei. Eles crêem. Eles sofrem por Me verem sofrer.
Oh! Queridos do meu coração, meninos, nos quais não há soberba, fingimento nem luxúria! Eu vo-lo digo: tornai-vos como os meninos, se quiserdes entrar no meu Reino. Amai os meninos, como o exemplo angélico que deles ainda podeis receber. Porque como anjos vós deveríeis ser. Por vossa desculpa, poderíeis dizer: “Nós não vemos os anjos.” Mas Deus vos dá os meninos como modelos, e vós os tendes em vosso meio. E, se vós vedes um menino materialmente necessitado, ou moralmente desprotegido, e que pode perecer, acolhei-o em meu Nome, porque eles são muito amados por Deus. E quem quer que acolha um menino em meu Nome, acolhe a Mim mesmo, porque Eu estou na alma dos meninos, que é inocente. E quem me acolhe, acolhe Aquele que Me enviou, o Senhor Altíssimo.
532.13 E tomai cuidado para não escandalizardes um desses pequeninos, cujos olhos vêem a Deus. Não se deve nunca dar escândalo a nenhum deles. Mas, ai, três vezes ai, de quem ofende a candura inocente dos meninos. Deixai que eles sejam como os anjos, o mais que puderdes. É por demais repugnante o mundo e a carne para a alma que vem dos céus. E o menino, pela sua inocência, é ainda todo alma. Respeitai a alma do menino, e ao seu próprio corpo, como respeitais a um lugar sagrado. Sagrado é também o menino, porque ele tem Deus em si. Em cada corpo está o templo do Espírito. Mas o templo do menino é o mais sagrado e profundo, está além do duplo Véu. Não sacudais nem mesmo as tendas da sublime ignorância da concupiscência, com o vento de vossas paixões.
Eu queria um menino em cada família, no meio de cada reunião de pessoas, para que ele servisse de freio para as paixões dos homens.O menino santifica, restaura e ameniza apenas com os olhares de seus olhos sem malícia. Mas ai daqueles que, com suas palavras e ironias, lesam a fé que os meninos têm em Mim! Melhor seria que a todos eles se ligasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fossem jogados ao mar, a fim de que se afogassem com o seu escândalo. Ai do mundo, pelos escândalos que ele dá aos inocentes! Porque, se é inevitável que haja escândalos, ai do homem que, por sua causa, os provoca.
Ninguém tem o direito de fazer violência ao seu corpo e contra a sua vida. Porque a vida e o corpo nos vieram de Deus, e só Ele é que tem o direito de no-los tomar, ou em parte ou no todo. Contudo, Eu vos digo que, se a vossa mão vos escandaliza, é melhor que a amputeis, e que, se o vosso pé vos leva a dar escândalo, é bom que o amputeis. Pois para vós é melhor entrar como manetas ou como pernetas na Vida, do que serdes lançados no fogo eterno com as duas mãos e os dois pés. E, se não bastar amputar um pé ou uma mão, fazei que vos amputem também a outra mão e o outro pé, para não dardes mais escândalo e para terdes tempo de arrepender-vos, antes que sejais lançados no lugar onde o fogo não se apaga, e rói como um verme que não morre. E, se o vosso olho vos der ocasião de escândalo, arrancai-o. É melhor ser cego de um olho, do que estar no inferno, com os dois. Com um só olho, ou sem olhos, ao chegardes ao Céu, veríeis a Luz, enquanto que, com os dois olhos escandalosos, veríeis as trevas e o horror no inferno. E somente isso.
352.14 Recordai-vos de tudo isso. Não desprezeis os pequeninos, não os escandalizeis, não abuseis deles. Eles são mais do que vós, porque os anjos deles estão sempre vendo a Deus, que lhes diz as verdades a serem reveladas aos meninos e àqueles que tem um coração de menino.
E vós, como meninos, amai-vos entre vós. Sem disputas, sem orgulhos. Vivei em paz entre vós. Tende para com todos um espírito de paz. Sede irmãos, em nome do Senhor, e não inimigos. Não há, não deve haver inimigos entre os discípulos de Jesus. O único Inimigo é Satanás. Dele, sede inimigos persistentes, descendo para a batalha contra ele e contra os pecados que levam Satanás aos corações. Sede incansáveis em combater o Mal, seja qual for a forma que ele assumir. E sede pacientes. Não existe limitação para a obra do apóstolo, porque não há limitação para a obra do Mal. O demônio nunca diz: “Basta. Agora estou cansado, e vou descansar.” Ele é incansável. Passa, ágil como um pensamento, e mais ainda, de um para outro homem, e o tenta, o toma e seduz, e atormenta, e não lhe dá paz. Ele assalta traiçoeiramente, e nos derruba, se ficarmos apenas na vigilância. Às vezes ele se instala, como conquistador, por causa da fraqueza do conquistado. Outras vezes nele entra como amigo, porque o modo de viver da presa que ele estava procurando já estava a caminho de uma aliança com o inimigo. Numa outra vez, expulso de um, sai vagueando e se precipita sobre o melhor, para tirar vingança do vexame que lhe foi infligido por Deus, ou por algum servo de Deus. Mas vós deveis dizer aquilo que ele diz: “Eu não descanso.” Ele não descansa, para povoar o inferno. Vós não deveis descansar, a fim de povoardes o Paraíso. Não lhe deis tréguas. Eu vos predigo que, quanto mais o combaterdes, mais ele vos fará sofrer. Mas não deveis fazer conta disso. Ele pode percorrer a terra. Mas no Céu ele não penetra. Portanto, lá ele não vos aborrecerá mais. E lá estarão todos aqueles que o combateram.
352.15Jesus se interrompe bruscamente, e pergunta:
– Mas, afinal, por que aborreceis sempre João? Que querem eles de ti.
João fica corado como uma brasa, e Bartolomeu, Tomé e Iscariotes inclinam a cabeça, vendo-se descobertos.
– E, então? –diz Jesus, como quem dá uma ordem.
– Mestre, os meus companheiros querem que eu te diga uma coisa.
– Pois, dize-a!
– Hoje, enquanto tinhas ido àquele doente, e nós estávamos andando pela cidade, como Tu havias ordenado, vimos um homem, que não é teu discípulo, e que nós nunca vimos entre os que ouvem a tua doutrina, e que estava expulsando demônios em teu nome, no meio de um grupo de peregrinos que iam para Jerusalém. E ele conseguia. Ele curou a um que tinha um tremor, que o impedia de fazer qualquer trabalho. Também deu a fala a uma menina, que havia sido assaltada no bosque por um demônio em forma de cão e que lhe havia amarrado a língua. Ele dizia: “Vai-te embora, demônio maldito, em nome do Senhor Jesus, o Cristo, Rei da estirpe de Davi, rei de Israel. Ele é Salvador e Vencedor. Foge, diante do nome dele!”, e o demônio fugia realmente. Nós nos sentimos ofendidos. E lho proibimos. Ele nos disse: “Que estou fazendo de mal? Eu honro ao Cristo, livrando-lhe de demônios o caminho, pois eles não são dignos de vê-lo.” E nós lhe respondemos: “Tu não és exorcista segundo Israel, e não és discípulo, segundo Cristo. Não te é permitido fazer isso.” Ele disse: “Fazer o bem sempre é permitido”, e se rebelou contra a nossa injunção, dizendo: “E continuarei fazendo o que estou fazendo.” Aí está. Eles queriam que eu te dissesse isto, especialmente agora, quando acabas de dizer que no Céu estarão todos aqueles que combateram a Satanás.
352.16 – Está bem. Aquele homem será um deles. E já o é. Ele é que tem razão e não vós. Infinitos serão os caminhos do Senhor, e não foi dito que só os que tomam o caminho direto é que chegarão ao Céu. Em todos os lugares, e em todos os tempos, e de mil modos diferentes, haverá criaturas que virão a Mim, talvez por um caminho que, no começo, era mau. Mas Deus verá a reta intenção deles, e os puxará para o bom caminho. Igualmente haverá alguns que, por uma embriaguez cheia de concupiscência, e tríplice, sairão do bom caminho, e tomarão um caminho que os afasta, ou os leva em linha reta para a perdição. Não deveis, pois, julgar os vossos semelhantes. Somente Deus é que vê. Tratai vós de não sair do bom caminho onde, mais do que a vossa vontade, foi a vontade de Deus que vos colocou. E, quando virdes alguém, que crê em meu Nome, e por ele trabalha, não o trateis como estrangeiro, inimigo, nem sacrílego. Pois ele é sempre meu súdito amigo e fiel, já que crê no meu Nome espontaneamente, e melhor do que muitos entre vós. Por isso o meu Nome na boca deles opera prodígios iguais aos vossos, e talvez até maiores. Deus o ama, porque ele me ama, e acabará levando-o ao Céu. Ninguém, que faça prodígios em meu Nome pode ser meu inimigo e falar mal de Mim. Mas, com suas obras, dá ao Cristo honra e testemunho de fé. Em verdade, Eu vos digo que crer em meu Nome já é suficiente para salvar a própria alma. Porque o meu Nome é Salvação. Por isso, Eu vos digo: se o encontrardes ainda, não lho proibais mais. Mas, ao contrário, chamai-o “irmão” pois, de fato ele o é, ainda que esteja fora do recinto do meu Ovil. Quem não está contra Mim, está comigo. Quem não está contra vós, está convosco.
– Teremos nós pecado, Senhor? –pergunta, arrependido, João.
– Não. Vós agistes por ignorância, mas sem malícia. Por isso, não houve culpa. Mas, para o futuro haveria culpa, porque agora o estais sabendo. E agora vamos para as nossas casas. A paz esteja convosco.
352.17Se achar bom, pode pôr, após o fim da visão de hoje, o ditado, que vem em seguida, do pequeno Benjamim (7-3-44). Como achar bom.
[7 de março de 1944].
352.18 Diz, pois, Jesus:
– Aquilo que disse ao meu pequeno discípulo, o digo também a vós. O Reino é dos meus cordeiros fiéis, que me amam, e me seguem sem perder-se em adulações, me amam até o fim. E digo a vós aquilo que disse aos meus discípulos adultos: “Aprendei dos pequenos.”
Não é o ser doutos, ricos, audazes, aquilo que vos fará conquistar o Reino dos céus. Não é o sê-lo humanamente. Mas é sê-lo na ciência do amor, que nos faz doutos, ricos, audazes, sobrenaturalmente. Como ilumina o amor a compreender a Verdade. Como nos faz ricos para conquistá-la! Como nos faz audazes para conquistá-la! Que confiança inspira! Que segurança! Fazei como o pequeno Benjamim, a minha pequena flor que me perfumou o coração naquela tarde e cantou para ele uma música angélica, que recobriu o odor da humanidade fervente, nos discípulos, e o rumor das brigas humanas.
E tu queres saber o que acontece ao pequeno Benjamim? Permanece o pequeno cordeiro de Cristo e, perdido o seu grande Pastor, que este tornou ao céu, se fez discípulo daquele que mais se parecia comigo, tomando por sua mão o batismo, e recebendo o nome de Estevão, meu primeiro mártir. Foi fiel até à morte, e com ele os seus parentes, arrastados à fé pelo exemplo de seu pequeno apóstolo familiar.
Não é conhecido? Muitos são os desconhecidos dos homens, conhecidos por mim no meu Reino. E por isso são felizes. A fama do mundo não acrescenta nem uma centelha à auréola dos bem-aventurados.
Pequeno João, caminha sempre com a tua mão na minha. Irás com segurança e, ao chegares ao Reino, Eu não te direi: “Entra”, mas “Vem”, e te tomarei em meus braços para colocar-te lá onde o meu Amor te preparou um lugar, e o teu amor o mereceu.
Vai em paz. Eu te abençôo.