91. 91. Lição aos discípulos no olival perto de Nazaré.
29 de janeiro de 1945.
91.1 Vejo Jesus com Pedro, André, João, Tiago, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Judas Tadeu, Simão e Judas Iscariotes, e o pastor José sair de casa e ir para fora de Nazaré. Mas nas imediações, sob umas bastas oliveiras. Diz:
– Vinde ao meu redor. Nesses meses de presenças e ausências, Eu vos avaliei e vos pesei. Pude conhecer-vos e também conhecer o mundo com a experiência de um homem. Agora Eu decidi mandar-vos pelo mundo. Mas antes quero ensinar-vos, para tornar-vos capazes de enfrentar o mundo com a doçura e a perspicácia, a calma e a constância, a consciência e o conhecimento da vossa missão. Este tempo de um calor canicular, que impede qualquer longa peregrinação pela Palestina, será usado por Mim para a vossa instrução e formação como discípulos. Como um músico, Eu percebi o que em vós existe de dissonante, e venho pôr-vos em consonância, para conseguirmos aquela harmonia celeste, que havereis de transmitir ao mundo, em meu nome. Detenho este filho (e mostra José), porque delego à ele o encargo de levar as minhas palavras aos seus companheiros, a fim de que também ali se forme um núcleo eficiente para ir anunciando-me, não só com o anúncio da minha existência, mas com os pontos mais essenciais da minha doutrina.
91.2 Em primeiro lugar, Eu vos digo que é absolutamente necessário que haja entre vós amor e união. Que é que vós sois? Homens de todas as classes sociais, de todas as idades, e de todos os lugares. Preferi escolher aqueles que estão virgens de doutrinas e conhecimentos para que mais facilmente possa chegar até o íntimo deles com a minha doutrina, e também por que — sendo vós destinados a evangelizar os que estiverem na absoluta ignorância do verdadeiro Deus — quero que, lembrando da primitiva ignorância de Deus por parte deles, não os trateis com desprezo, mas com piedade os ensineis, lembrando da piedade com que Eu vos ensinei.
Eu ouço em vós uma objeção: “Nós não somos pagãos, ainda que não tenhamos uma cultura intelectual.” Não. Vós não sois. Mas, não somente vós, e, sim, também aqueles que entre vós representam os doutos e os ricos, estais envolvidos em uma religião que, desnaturada por inúmeras razões, de religião só tem o nome. Em verdade Eu vos digo que muitos são os que se gloriam serem filhos da Lei. Mas oitenta por cento deles não são mais do que idólatras, que fizeram uma confusão da verdadeira, santa: eterna Lei do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, com os nevoeiros de mil pequenas religiões humanas. Por isso, cuidando um do outro, tanto vós, pescadores humildes e sem cultura, como vós que sois mercadores ou filhos de mercadores, oficiais ou filhos de oficiais, ricos ou filhos de ricos, dizei: “Somos todos iguais. Todos temos as mesmas fraquezas e todos precisamos dos mesmos ensinamentos. Irmãos nos defeitos pessoais ou nacionais, devemos, de agora em diante, tornar-nos irmãos no conhecimento da Verdade e no esforço para praticá-la.”
Eis: irmãos. Quero que assim vos chameis e que assim vos considereis. Vós sois como uma só família. Quando é que uma família prospera e o mundo a admira? Quando é unida e concorde. Se um filho se torna inimigo do outro, se um irmão prejudica ao outro, poderá durar a prosperidade daquela família? Não. Em vão o pai de família se esforça para trabalhar, para remover as dificuldades, para impor-se ao mundo. Os seus esforços não terão êxito, porque os bens se desfazem, as dificuldades aumentam, o mundo escarnece desse estado de briga sem fim que despedaça corações e seres, que unidos eram uma potência contra o mundo, reduzindo-os a um montinho de pequenos, suscetíveis interesses contrários, dos quais os inimigos da família se aproveitam para acelerar sua ruína. Que assim não aconteça entre vós. Sede unidos. Amai-vos. Amai-vos para ajudar-vos. Amai-vos para ensinar a amar.
91.3 Observai. Também o que nos rodeia nos ensina esta grande força. Olhai esta tribo de formigas, que vão correndo todas para um mesmo lugar. Seguimo-la. E descobriremos a razão pela qual não é inútil esta sua corrida para um determinado ponto… Ei-la aqui. Esta pequena irmã delas, descobriu, com seus minúsculos órgãos, que para nós são invisíveis, um grande tesouro debaixo desta folha grande de agrião selvagem. É um pedaço de miolo de pão, que talvez tenha caído de algum camponês, que aqui veio cuidar de suas oliveiras, ou de algum viajante, que nesta sombra se pôs a comer o seu alimento, ou de algum menino brincando sobre a relva florida. Mas, como poderia sozinha arrastar para o buraco este tesouro mil vezes maior do que ela? E eis que chamou uma de suas irmãs, e lhe disse: “Presta atenção. Vai correndo dizer às nossas irmãs que aqui há alimento para a tribo toda, e por muitos dias. Corre, antes que algum pássaro descubra este tesouro, e chame os seus companheiros e o devorem.” E a formiguinha saiu correndo, ofegante por causa da aspereza do terreno, indo para cima e para baixo, por cascalhos e gravetos, até chegar ao formigueiro, para dizer: “Vinde. Uma de nós vos está chamando. Ela encontrou comida para todas. Mas sozinha, não a pode trazer até aqui. Vinde.” E, então, todas, mesmo aquelas que, já cansadas pelo trabalho do dia inteiro, descansavam pelas galerias do buraco, todas saíram correndo, até as que estavam amontoando as provisões nas celas de armazenagem. Uma, dez, cem, mil… Olhai… Pegam com suas garras, levantam, usando de seus corpos como de umas carretas, arrastam, firmando suas patinhas no chão. Esta cai… A outra, ali, quase se machuca, porque a ponta do pão a espreme, batendo repetidamente, entre a sua extremidade e uma pedra; Esta também, tão pequenina, uma jovenzinha da tribo, para extenuada… mas, assim mesmo, olha, retomando o fôlego, recomeça. Oh! Como são unidas! Olhai: agora o pedaço de pão está todo cingido por elas, e vai, vai sendo levado, lentamente, mas vai. Seguimo-lo… Mais um pouco, pequenas irmãs, mais um pouco e depois a vossa fadiga será recompensada. Elas não aguentam mais. Mas não desistem. Descansam, e depois retomam… Eis que chegaram ao formigueiro. E agora? Agora ao trabalho para cortar em migalhas o grande miolo. Olhai que trabalho! Umas cortam, outras transportam… E chegaram ao fim. Agora tudo está a salvo, e elas, felizes, desaparecem dentro daquela fenda, pelas galerias abaixo. São formigas. Nada mais do que formigas. Contudo, são fortes, porque são unidas. Meditai sobre isto.
91.4 Tendes alguma pergunta a fazer-me?
– Eu queria perguntar-te: Mas, à Judeia não voltaremos mais? –pergunta Judas Iscariotes.
– Quem disse isto?
– Tu, Mestre. Disseste que ias preparar o José, para que fôsse instruir os outros na Judeia! Desgostaste tanto dela, que nem queiras mais lá voltar?
– Que foi que te fizeram na Judeia? –pergunta Tomé curioso.
E Pedro, veemente, diz ao mesmo tempo:
– Ah! Então, eu tinha razão, quando dizia que tinhas voltado esgotado. Que foi que te fizeram os “perfeitos” em Israel?
– Nada, amigos. Nada mais que tudo o que irei encontrar também aqui. Se Eu andar por toda a terra, terei por toda parte amigos misturados com inimigos. Mas, Judas, Eu te havia pedido que ficasses calado…
– É verdade, mas… Não, eu não posso calar-me, quando vejo que Tu preferes a Galileia à minha pátria. Tu és injusto, aí está. Lá tivestes honras também…
– Judas! Judas… oh! Judas. Tu és injusto nesta censura. E por ti mesmo te acusas, deixando-te levar pela ira e pela inveja. Eu me tinha esforçado para tornar conhecido apenas o bem que recebi na tua Judeia e, sem mentir, pude falar com alegria desse bem, para apresentar-vos como pessoas amáveis, a vós que sois da Judeia. Com alegria. Porque para o Verbo de Deus não existem separação de regiões, antagonismos, inimizades, diferenças. Eu vos amo a todos, ó homens. A todos… Como é que podes dizer que prefiro a Galileia, quando quis realizar os primeiros milagres1 e as primeiras manifestações sobre o solo sagrado do Templo e da Cidade Santa, e querida por todos os israelitas? Como podes dizer que Eu seja parcial, se de vós onze discípulos — ou seja, dez, porque o meu primo é família, não é amizade — quatro são judeus? E, se acrescento os pastores, todos judeus, vês quantos amigos tenho na Judeia. Como podes dizer que não vos amo se, Eu sei, programei as andanças de modo a dar o meu Nome a um pequeno de Israel e de recolher o espírito de um justo de Israel? Como podes dizer que não vos amo, a vós, judeus, se, quando foi revelado o meu Nascimento e a minha preparação para a missão, quis dois judeus contra um só da Galileia? Acusas-me de injustiça. Mas, examina-te, Judas, e verás se não és tu o injusto.
Jesus falou com majestade e doçura. Mas, ainda que não tivesse falado mais nada, teriam bastado os três modos como Ele disse: “Judas”, no início do discurso, para dar uma grande lição. O primeiro “Judas” foi dito pelo Deus majestoso, que exige respeito, o segundo pelo Mestre que ensina com doutrina paternal, o terceiro era um pedido de amigo, magoado pelos modos do seu amigo.
Judas inclinou a cabeça mortificado, ainda irado, e feio, ao deixar aflorar seus baixos sentimentos.
91.5 Pedro não sabe calar-se:
– Pelo menos, pede perdão, rapaz. Se eu estivesse no lugar de Jesus, não ficarias somente com umas palavras! Mais do que injusto! És um sem respeito, belo senhor! É assim que vos educam aqueles do Templo? Ou não é possível educar-te? Porque, se forem eles…
– Basta, Pedro. Eu já disse o que era preciso. Também sobre isso Eu vos darei amanhã um ensinamento. E agora repito a todos o que Eu tinha dito a estes na Judeia: não digais à minha Mãe que o seu Filho foi maltratado pelos judeus. Ela já está muito aflita por haver percebido que Eu tenho sofrido. Respeitai minha Mãe. Ela vive na sombra e no silêncio. Sua atividade é a prática da virtude e da oração por Mim, por vós, por todos. Deixai que as luzes foscas do mundo e as ásperas contendas fiquem longe do seu asilo de retraimento e de pureza. Não ponhais nem mesmo o eco do ódio, onde tudo é amor. Respeitai-a. Ela é mais corajosa do que Judite, e o vereis. Mas não a obrigueis, antes da hora, a provar a angústia, que é o sentimento dos desgraçados do mundo. Daqueles que não sabem, nem de modo rudimentar, o que é Deus e a Sua Lei. São aqueles de quem Eu vos falava no princípio: os idólatras que se julgam os sábios de Deus e que por isso unem idolatria à soberba. Vamos.
E Jesus põe-se de novo a caminho para Nazaré.
1 os primeiros milagres deve aqui entender-se os das primeiras manifestações públicas de Jesus, que excluem o milagre, primeiro em absoluto, feito nas bodas de Caná na Galileia para manifestar o poder da Mãe (como se diz em 52.9).