326. 326. Uma permanência em Aqzib.
11 de novembro de 1945.
326.1 – Senhor, esta noite eu fiquei pensando… Por que queres tu vir para tão longe, para depois voltar para os confins da Fenícia? Deixa que eu vá com um outro. Eu vou vender o Antônio… Isso me desagrada, mas agora ele não tem uso e ficaria dando na vista. E eu irei ao encontro de Filipe e de Bartolomeu. Eles não podem passar senão por aquela estrada, e com certeza me encontrarei com eles… E tu podes ficar certo de que eu não falarei. Eu Não quero dar-te tristeza. Tu, fica repousando aqui com os outros, e assim deixamos todos aquela estrada de Jeftael, e vamos mais depressa –diz Pedro, enquanto vão saindo da casa onde dormiram.
E já estão parecendo menos magros, porque mudaram de roupa e suas barbas e cabelos foram postos em ordem por uma mão habilidosa.
– Teu pensamento é bom. Não me oponho a que o realizes. Vai, então, com os companheiros que quiseres.
– Com Simão, então. Senhor, abençoa-nos.
Jesus os abraça, dizendo:
– Com um beijo. Ide.
Ficam olhando como eles vão descendo ligeiros para a planície.
– Como é bom Simão de Jonas! Nestes dias eu o apreciei, como nunca havia feito antes –diz Judas Tadeu.
– Eu também –diz Mateus–. Ele nunca é egoísta, nunca soberbo, nunca exigente.
– Nunca se prevaleceu de ser ele o chefe. Pelo contrário! Parecia o último de nós, mesmo quando se conservava em seu posto –acrescenta Tiago de Alfeu.
– A nós isso não espanta. Há anos que o conhecemos. Ele é impetuoso, mas tem um grande coração. Além disso, é tão honesto –diz Tiago de Zebedeu.
– Meu irmão é bom, ainda que seja um pouco rude. Mas, desde quando veio ficar com Jesus, sua bondade cresceu o dobro. Eu tenho um caráter muito diferente e por isso, às vezes ele se impacientava. Mas era porque compreendia que eu sofria com aquele caráter. Era para o meu bem que se impacientava. Quando se chega a compreendê-lo, concorda-se com ele –diz André.
326.2 – Nestes dias nos entendemos sempre bem e fomos todos um só coração –afirma João.
– É verdade! Também eu notei isso. Durante o mês inteiro, e em momentos de ansiedade, nunca tivemos desentendimentos… Enquanto que,às vezes… não sei por que… –fica falando sozinho Tiago de Zebedeu.
– Por quê? Ora, é fácil de entender-se! Porque estamos firmes em nossa intenção. Perfeitos, ainda não. Mas firmes, sim. E, por isso, aceitamos o bem que alguém propõe ou rejeitamos o mal que alguém nos mostra como tal, quando antes não o tínhamos conseguido ver assim por nós mesmos. E por quê? Não é difícil dizê-lo. Porque nós oito temos um só pensamento: fazer todas as coisas de modo a dar alegria a Jesus. Eis aí tudo –exclama Tadeu.
– Eu não creio que os outros tenham outro pensamento –diz, conciliador, André.
– Não. Nem Filipe, nem Bartolomeu, ainda que este esteja já com muita idade e esteja muito por Israel. E também não Tomé, ainda que seja muito mais homem do que espírito. Eu seria injusto para com esses, se os acusasse de… Jesus, bem que tens razão. Perdoa. Mas, se soubesses o que é para mim ficar vendo o que estás sofrendo. E tudo por causa dele! Eu sou teu discípulo como todos os outros. Mas, além disso, sou teu irmão e teu amigo, e o sangue quente de Alfeu está em mim. Jesus, não fiques olhando para mim, assim sério e triste. Tu és o Cordeiro, e eu… o leão… E podes crer que muito me custa o refrear-me, para não rasgar com uma patada esta rede de calúnias que te envolve e derrubar o abrigo no qual está escondido o verdadeiro inimigo. Eu gostaria de ver qual é a realidade do rosto espiritual dele, ao qual eu dou um nome… mas pode ser que assim o esteja caluniando. Nele eu deixaria um tal sinal, se eu conseguisse conhecê-lo sem possibilidade de engano, que lhe tiraria para sempre a vontade de fazer-te mal –diz com veemência Tadeu, que foi detido por um olhar de Jesus, quando ia começando a falar.
Tiago de Zebedeu lhe responde:
– Terias que deixar esse sinal na metade da população de Israel!… Mas Jesus irá para frente do mesmo modo. Tu viste nestes dias como nada se pode contra Jesus. 326.3Que vamos fazer agora, Mestre? Já falaste aqui?
– Não. Há menos de um dia que eu cheguei a estas encostas, Eu dormi na mata.
– Será porque eles não te aceitaram?
– O coração deles rejeitou o Peregrino… Eu estava sem dinheiro…
– Então, eles são de uns corações de pedra. Eles teriam medo de quê?
– De que Eu fosse um ladrão… mas não importa. O Pai, que está nos Céus, me fez encontrar uma cabra, perdida ou fujona. Vinde cá, que Eu vo-la mostro. Ela está no meio do mato com o seu cabritinho. A cabra não fugiu ao ver que Eu me aproximava dela. Mas me deixou até espremer o leite em minha boca… como se Eu também fosse um filhote dela. Eu dormi perto dela, com o cabritinho quase sobre o meu coração. Deus é bom para com o seu Verbo!
Vão indo para aquele lugar de ontem, para um capão de mato bem fechado e cheio de espinheiros. Um carvalho secular, que eu não sei como pode ainda estar vivo com esta rachadura na base, como se o terreno se tivesse aberto e tivesse partido em dois o seu forte tronco, tudo enfaixado por heras verdes e por sarças que agora estão sem folhas. E Jesus está no meio disso tudo. Perto dali está pastando a cabra com o seu cabritinho e, vendo tantos homens aponta para eles os seus chifres, como uma defesa. Mas depois ela reconhece Jesus e se acalma. Eles lhe oferecem migalhas de pão e se afastam.
– Eu dormi ali –explica Jesus–. E ali Eu teria ficado, se vós não tivésseis vindo. Eu já estava com fome. A finalidade do jejum havia terminado… Não era preciso ficar insistindo por causa de outras coisas que não têm mais jeito…
Jesus está triste de novo… Os seis se olham de soslaio, mas nada dizem.
– E agora? Aonde vamos?
– Vamos ficar aqui, por hoje. Amanhã desceremos para pregar na estrada de Ptolemaida e depois iremos para os confins da Fenícia, para voltarmos para cá, antes do sábado.
E devagar vão voltando para o povoado.