509. 509. O velho sacerdote Matan, acolhido comos apóstolos e os discípulos fugidos do Templo.


8 de outubro de 1946.

509.1Pedro, ao entrar, faz o mesmo gesto de cansaço que fez no Jordão, depois de ter olhado para Betábara: joga-se como um extenuado sobre a primeira cadeira que encontra, e segura a cabeça com as mãos. Os outros não estão assim tão abatidos, mas estão desfigurados, pálidos, e eu diria que quase perturbados estão todos eles, uns mais, outros menos. Os filhos de Alfeu, Tiago de Zebedeu e André quase nem respondem à saudação de José de Séforis e de sua mulher, que está chegando com uma velhinha servente, e que traz pão quente e diversos alimentos. Marziam está com sinais de choro em seus olhos. Isaque vai correndo para perto de Jesus, pega-lhe a mão e a acaricia, murmurando:

– Sempre como na noite do morticínio… E salvo mais uma vez. Oh! Meu Senhor, até quando isso? Até quando te poderás salvar?

E este grito faz que todos abram a boca, numa confusão, e comecem a falar, contando os maus tratos, as ameaças e o medo que tiveram…

509.2Batem outra vez à porta.

– Ai de mim, será que nos terão acompanhado? Eu havia dito que viessem todos, mas pouco a pouco!… –diz Iscariotes.

– Teria sido melhor, sim. Eles estão sempre junto aos nossos calcanhares. Mas agora… –diz Bartolomeu.

José, ainda que com pouca vontade, vai pessoalmente olhar pela rótula, enquanto sua mulher diz:

– Do terraço podeis descer para as estrebarias, e de lá para a horta, que fica aí atrás. Eu irei mostrar-vos…

Mas, enquanto ela vai indo, seu marido exclama:

– O ancião José! Quanta honra!

E abre a porta, deixando entrar José de Arimateia.

– A paz esteja contigo, Mestre. Eu estava aqui e vi… Manaém me encontrou, quando eu ia saindo do Templo com um aborrecimento mortal. E não ter podido intervir, não ter podido fazer alguma coisa em teu favor e… Oh! Tu também estás aqui, Judas de Keriot? Tu o terias podido fazer, tu, que és amigo de muitos! Não percebes que este é teu dever, tu, um apóstolo?

– Tu és um discípulo…

– Não. Se eu o fosse, estaria acompanhando-o como outros estão. Eu sou um seu amigo1.

– É a mesma coisa.

– Não. Lázaro também é seu amigo, mas não quererás dizer que ele é um discípulo…

– Em sua alma, sim.

– Aqueles que não são uns satanases são todos discípulos de sua palavra, porque sabem que estão servindo à palavra de Sabedoria.

O pequeno bate-boca entre José e Judas de Keriot termina, enquanto que José de Séforis, somente agora, tendo compreendido que não agiu bem, começa a perguntar isto e aquilo, com interesse e com gestos de desagrado.

– Isto seja dito a José de Alfeu. Que seja dito. Eu vou encarregar… Que queres de mim, José? –pergunta, virando-se para o ancião, que lhe bateu no ombro para fazer-lhe uma pergunta.

– Nada. Eu queria apenas felicitar-me contigo pela tua boa aparência. Isto é que é ser um bom israelita. Fiel e justo em tudo. Ah! Eu o sei. Dele pode-se dizer que Deus o provou e que o conhece…

Outra batida à porta. Os dois Josés vão indo juntos para o portão, para abri-lo, e vejo que José de Arimateia se inclina para dizer qualquer coisa ao ouvido do outro, e este faz um movimento de viva surpresa, e se vira, por um momento, a fim de olhar para os apóstolos. Depois ele abre a porta de saída.

509.3Entram Nicodemos e Manaém, seguidos por todos os pastores-discípulos, que se acham em Jerusalém, isto é, Jônatas e os que eram discípulos do Batista. Além desses, também com eles está o sacerdote João, junto com um outro já muito idoso, e Nicolau. E atrás de todos os outros vem Nique com a jovenzinha que o Senhor lhe confiou, e Anália com sua mãe. Tiram elas os véus que estão escondendo os seus rostos, e aparecem aqueles rostos perturbados.

– Mestre! O que está te acontecendo? Eu fiquei sabendo… Antes pelo povo do que por Manaém. A cidade está cheia desta notícia, como uma colmeia que está zumbindo. E quem te ama, sai correndo para ir procurar-te onde pensa que podes estar. E certamente terão ido correndo também à tua casa, José. Eu mesma ia indo às casas de Lázaro… É demais! Como foi que escapaste?

– A Providência velou sobre Mim. Que as discípulas não chorem, mas bendigam ao Eterno e fortaleçam seus corações. E a todos vós, graças e bênçãos. Nem tudo morreu no amor e na justiça em Israel. E isso me conforta.

– Sim. Mas não vás mais ao Templo, Mestre. Por muito tempo não vás, não vás.

As vozes são concordes em dizer as mesmas palavras e aquele aflitivo “não vás”, que repercute por entre as paredes robustas da velha casa como uma voz de suplicante advertência.

O pequeno Marcial, escondido sabe-se lá onde, ouve aquele rumor e, curioso, corre e intromete o seu rostinho por uma fresta do toldo. E, vendo Maria, vai até ela, refugiando-se em seus braços por medo da repreensão de José de Séforis. Mas José está agitado demais e ocupado em escutar um ou outro, em aconselhar, em aprovar, e assim por diante, para cuidar dele, e o vê somente quando o menino, ao qual a velha Maria disse qualquer coisa, vai até Jesus e o beija, jogando-lhe os braços ao pescoço. Jesus o cinge com um dos braços, puxando-o para Si, enquanto vai respondendo a muitos que lhe dizem o que acham que é melhor que se faça.

– Não. Eu não me movo daqui. A Lázaro, que estava me esperando, ide vós dizer que Eu não posso ir. Eu, galileu, e há anos amigo da família, vou ficar aqui até o pôr do sol de amanhã. E depois… irei ver para onde ir…

– Falas sempre assim e depois voltas para lá, mas não te deixaremos mais ir. Pelo menos eu, não. Eu pensei até que te houvesse perdido… –diz Pedro.

Duas lágrimas começam a formar-se nos cantos de seus olhos esbugalhados.

509.4– Nunca vi isso. E basta. Isto me faz decidir-me, se Tu não me recusas. Já estou muito velho para o altar, mas para morrer por Ti estou ainda válido. E morrerei, se for preciso, entre o vestíbulo e o altar, como o sábio Zacarias. Ou, então, como Onias2, o defensor do Templo e do Tesouro, morrerei fora do sagrado recinto ao qual consagrei a minha vida. Mas Tu me abrirás um lugar mais santo! Oh! Eu não posso mais ver a abominação! Por que os meus velhos olhos tiveram que ver tantas coisas? A abominação vista pelo Profeta está do lado de dentro dos muros, e vem subindo, subindo como um movimento das águas que a enchente faz crescer, submergindo a cidade! Sobe, vai subindo os degraus, penetra mais para a frente! Sobe! Continua a subir! Já esbarra contra o santo! A onda de lama já está lambendo as pedras que fazem o pavimento do lugar sagrado. As cores preciosas dele se ofuscam! Sujam-se na lama os pés do sacerdote. Sua túnica se molha nela. O Efod se ensopa. Escondem-se as pedras do seu Racional e nele não se leem mais as palavras. Oh! Oh! As ondas da abominação sobem até o rosto do Sumo Sacerdote e o mancham, a Santidade do Senhor fica debaixo de uma crosta de barro e sua tiara é como um pano que caiu num canal barrento. Barro! Barro! Mas subirá ele extravasando, passando por cima do cume do Mória, desembocando sobre a cidade e sobre todo Israel? Pai Abraão! Pai Abraão! Não querias tu acender lá o fogo do sacrifício para que resplandecesse o holocausto do coração fiel? Agora está borbulhando a lama onde devia estar o fogo! Isaque está no meio de nós e o povo o imola. Mas se pura é a vítima… se pura é a Vitima… sujos são os sacrificadores. Anátema sobre nós! Sobre o Monte o Senhor verá a abominação do seu povo!… Ah!

E o velho que está com o sacerdote João se abaixa até o chão, cobrindo o rosto com o choro desolado de um velho.

– Eu o havia conduzido a Ti… Há tanto tempo ele queria… Mas hoje, depois do que ele viu, ninguém mais o segurava… O velho Matan (ou Natan) frequentemente é visitado por um espírito profético e, se a vista de suas pupilas sempre mais vai diminuindo, já a vista de seu espírito sempre mais aumenta. Senhor, aceita esse meu amigo –diz o sacerdote, João.

– Eu não repudio ninguém. Levanta-te, sacerdote, e eleva o teu espírito. No alto não existe lama, e a lama não toca em quem sabe estar no alto.

O velho se levanta, mas antes de fazê-lo, com todo o respeito, pega a ponta da veste de Jesus e a beija.

509.5As mulheres, especialmente Anália, emocionadas, ainda estão chorando atrás de seus véus, e as palavras do velho aumentam o seu choro. Jesus as chama a Si, e elas, de cabeça baixa, vão saindo do seu cantinho para perto do Mestre. Se Nique e a mãe da Anália ainda conseguem sufocar o pranto, conservando-o quase oculto, a jovem discípula soluça abertamente, sem pensar em dar atenção aos que a observam, com os mais diversos sentimentos.

– Perdoa-a, Mestre. Ela te deve a vida e te ama. Nem pode pensar que te queiram fazer mal. E, além disso, ela ficou assim, sozinha e triste, depois que… –diz a mãe.

– Oh! Não é isto! Não, não é isto! Senhor! Mestre! Salvador meu! Eu… Eu…

Anália não consegue falar, ou por causa dos soluços, ou pela vergonha, ou por outra causa.

– Ela ficou com medo de represálias, porque é discípula. Certamente é por isso. Muitos estão indo embora por causa disso… –diz Iscariotes.

– Oh! Não! A causa não é essa! Tu não entendes nada, homem. Ou, então, tomas emprestado dos outros o teu pensamento. Mas Tu sabes, Senhor, por que é que eu choro. Eu tive medo de que houvesses morrido e não te tivesses lembrado da promessa3… –termina, com um suspiro, depois de ter dito com esforço as primeiras palavras, ao revoltar-se contra a insinuação do Judas.

Jesus lhe responde:

– Eu não esqueço nunca. Não tenhas medo. Vai para a tua casa. Vai tranquila. Vai esperar a hora do meu triunfo e da tua paz. O sol está para sumir. Retirai-vos, mulheres. E a paz esteja convosco.

– Senhor, eu não quereria deixar-te… –diz Nique.

– A obediência é amor.

– É verdade, Mestre. Mas por que não fazes comigo como com Elisa?

– Porque tu me és útil aqui, como ela o é em Nobe. Vai, Nique, vai! Alguns homens escoltem as mulheres para que não sejam importunadas.

509.6Manaém e Jônatas logo se aprestam em obedecer. Mas Jesus faz parar Jônatas, perguntando-lhe:

– Então, tu voltas à Galileia?

– Sim, Mestre. No dia seguinte ao sábado. O patrão me mandou.

– Tens lugar no carro?

– Eu vou sozinho, Mestre.

– Então, levarás contigo Marziam e Isaque. Tu, Isaque, já sabes o que tens que fazer. E tu também, Marziam…

– Sim, Mestre –respondem os dois, Isaque com o seu manso sorriso e Marziam com tremor de choro na voz e… sobre os lábios.

Jesus o acaricia, e Marziam, esquecido de toda retenção, abandona-se sobre o peito dele, dizendo:

– Deixar-te… agora que todos te perseguem!… Oh! Mestre meu! Não te verei nunca mais!… Tu tens sido todo o meu Bem. Tudo eu encontrei em Ti!… Por que me mandas? Deixa-me morrer contigo! Que queres que a vida me importe se eu não te tenho?

– Eu te digo o que disse à Nique: “A obediência é amor.”

509.7– Então, eu vou! Abençoa-me, Jesus!

Jônatas se vai com Manaém, Nique e as outras três mulheres. E os outros discípulos se vão, em grupinhos.

Somente quando a sala, que antes estava superlotada, fica quase vazia, é que se nota a falta de Judas de Keriot. E muitos estranham isso, porque ele estava ali pouco antes e não recebeu nenhuma ordem.

– Terá ido fazer compras para nós –diz Jesus para impedir comentários.

E continua a falar com José de Arimateia e Nicodemos, os únicos que ficaram, além dos doze apóstolos e de Marziam, que está perto de Jesus com a avidez de gozar de sua presença nestas últimas horas. E Jesus está assim, entre Marziam, jovenzinho, e Marcial, ainda menino, os dois moreninhos, magrinhos, igualmente infelizes em sua meninice e igualmente recolhidos em nome de Jesus por dois bons israelitas.

José de Séforis e a mulher eclipsaram-se prudentemente, para deixarem livre o Mestre.

509.8Nicodemos pergunta:

– Mas quem é este menino?

– É Marcial. Um menino que José tomou como filho.

– Eu não sabia.

– Ninguém, ou quase ninguém o sabe.

– É muito humilde esse homem. Um outro teria exposto à vista o seu ato –observa José.

– Tu achas? Vai, Marcial. Leva Marziam para ver a casa… –diz Jesus.

E, tendo saído os dois, continua a falar:

– Estás enganado, José. Como é difícil julgar com justiça!

– Mas, Senhor! Recolher um órfão, pois certamente ele é um órfão, e não gabar-se disso, certamente é humildade.

– O menino… Seu nome o está dizendo, não é de Israel…

– Ah! Agora compreendo. Faz bem em conservá-lo escondido.

– Ele foi circuncidado, mas…

– Não importa. Tu sabes… Também João de Endor o foi… Contudo ele foi ocasião de reprovação. José, além do mais, um galileu, poderia ter alguns aborrecimentos, não obstante a circuncisão. Há tantos órfãos em Israel… É verdade que com aquele nome… e com aquela aparência…

– Como todos vós sois “Israel”, até os melhores! Como até em fazer o bem não compreendeis e não sabeis ser perfeitos! Não compreendeis ainda que um só é o Pai dos Céus e que cada criatura é filha dele? Não compreendeis ainda que um único prêmio ou um único castigo o homem pode receber e que, na verdade, seja prêmio ou castigo? Por que fazer-vos escravos do medo dos homens? Mas este é o fruto da corrupção da Lei divina, tão trabalhada, tão oprimida por pequenas leis humanas a ponto de tornar obtuso e escuro até o pensamento do justo que a pratica. Na Lei mosaica, e portanto divina, na pré-mosaica e unicamente natural, ou surgida de alguma inspiração celeste, foi talvez dito que quem não era de Israel não podia entrar e passar a sê-lo? Não se lê4 no Gênesis: “Quando completa oito dias, toda criança do sexo masculino entre vós, seja circuncidado, tanto o que nasceu na família, como o que foi comprado, ainda que não seja da nossa estirpe, seja circuncidado.” Isto é o que estava dito. Qualquer outro acréscimo é vosso. Eu o disse a José, e a vós o digo. Daqui a pouco não se dará mais excessiva importância à antiga circuncisão. Uma outra nova e mais verdadeira, será feita, e em uma parte mais nobre. Mas enquanto a primeira dura, e vós, por fidelidade ao Senhor, a fazeis no filho do sexo masculino que de vós tiver nascido ou por vós tiver sido adotado, não vos envergonheis de tê-la feito na carne de outra estirpe. A carne é do sepulcro, mas a alma é de Deus. Só se circuncida a carne. Não se pode circuncidar o que é espiritual. Mas o sinal santo brilha sobre o espírito. E o espírito é do Pai de todos os homens. Meditai sobre isso.

509.9Há um silêncio e depois José de Arimateia se levanta:

– Eu já me vou, Mestre. Vem amanhã à minha casa.

– Não. É melhor que Eu não vá.

– Então, vem à minha outra casa, que fica na estrada do Monte das Oliveiras, passando por Betânia. Lá há paz e…

– Também não. Eu irei para o Monte das Oliveiras. Mas para rezar… Pois o meu espírito procura a solidão. Desculpai-me.

– Como quiseres, Mestre. E… não vás ao Templo. A paz esteja contigo.

– A paz esteja convosco.

Os dois se vão…

– Eu gostaria de saber para onde foi Judas! –exclama Tiago de Zebedeu–. Eu diria que ele foi aos pobres. Mas a bolsa dele está aqui!

– Não vos preocupeis com isso… Ele virá…

Torna a entrar Maria de José com tochas acesas, porque a luz já não atravessa mais a espessura de uma lâmina de mica, ali colocada para servir de lampadário no salão, e voltam a entrar os dois rapazes.

– Eu fico contente por deixar-te com um que quase tem o meu nome. Assim, ao chamá-lo, te lembrarás de mim –diz Marziam.

Jesus o puxa para Si.

Torna a entrar também Judas, para o qual a servente foi abrir. Ele está galhardo sorridente e franco!

– Mestre, eu quis ir ver. A tempestade acalmou-se. E eu escoltei as mulheres… É tão medrosa aquela virgem! Eu não te disse nada porque me terias impedido, e eu queria ver se havia perigo para Ti. Mas ninguém está pensando mais no assunto. O sábado esvaziou as estradas.

– Está bem. Agora fiquemos aqui em paz, e amanhã…

– Não quererás ir para o Templo! –gritam os apóstolos.

– Não. Para a vossa sinagoga. Como os bons galileus fiéis.

1 seu amigo, como em 505.1, onde é explicada a diferença entre discípulos e amigos de Jesus. Mas “o amigo” pode ser “mais que discípulo para o coração”, como diz Jesus a Lázaro em 135.2, e está com ele que “faz o que Eu faço”, como o repete em 581.5. A diferença entre discípulos e apóstolos em 165.8.
2 como o sábio Zacarias. Ou, então, como Onias em 2 Crônicas 24,17-22; 2 Macabeus 4,30-35; A abominação vista pelo Profeta, em Daniel 9,27; 11,31; 12,11; acender lá o fogo do sacrifício, em Gênesis 22,1-18.
3 promessa, pedida e obtida em 156.5/6.
4 se lê, em Gênesis 17,12.


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