197. 197. No Templo com José de Arimateia.A hora da incensação.
22 de junho de 1945.
197.1 Pedro está realmente solene, quando entra, em seu papel de pai, no recinto do Templo, segurando Jabé pela mão. Ele parece ter ficado mais alto, de tão empertigado que vai indo.
Atrás, em grupo, vão entrando todos os outros. Jesus é o último, entretido em uma séria conversa com João de Endor, que parece estar com vergonha de entrar no Templo.
Pedro pergunta ao seu protegido:
– Nunca estiveste aqui?
E tem por resposta esta frase:
– Quando eu nasci, pai. Mas não me lembro de nada.
O que faz Pedro rir à vontade, e ele repete a resposta para os seus companheiros que se riem também, dizendo bonachões e chistosos:
– Talvez estavas dormindo, e por isso… –ou então: –Somos todos como tu. Não nos lembramos de quando viemos até aqui, depois de termos nascido.
197.2 Também Jesus faz a mesma pergunta ao seu protegido, e recebe resposta semelhante, ou quase. Pois João de Endor diz:
– Éramos prosélitos, e aqui cheguei nos braços de minha mãe, justamente na Páscoa, porque nasci nos primeiros dias de Adar, e minha mãe, que era judia, pôs-se em viagem logo que pôde, para oferecer em tempo o seu filho, do sexo masculino, ao Senhor. Talvez depressa demais… porque ela ficou doente e não sarou mais. Eu tinha menos de dois anos, quando fiquei sem minha mãe. Foi a primeira desventura de minha vida. Mas eu que era o seu primogênito, me tornei unigênito, por causa da doença dela; mas ela estava tão ufana, porque morria por ter obedecido à Lei! Meu pai me dizia: “Ela morreu contente, por ter-te oferecido no Templo…” Pobre mãe! Que foi que ofereceste? Um futuro assassino…
– João, não fales assim. Naquele tempo eras Félix, e agora és João. Tem presente a grande graça que Deus te fez, e para sempre. Mas abandona o aviltamento pelo que foste. Não voltaste mais ao Templo?
– Oh! Sim. Aos doze anos e, desde então, sempre, enquanto… enquanto eu pude fazê-lo… Depois, quando teria podido fazê-lo, não o fiz mais, porque já te disse qual era o culto que eu praticava; era só um: o do ódio… E também por isso não tenho coragem de encaminhar-me para cá. Eu me sinto um estranho na Casa do Pai… Eu o abandonei por tempo demais…
– Tu voltas aqui, seguro pela mão por Mim, que sou o Filho do Pai. Se Eu te conduzo para diante do altar é porque sei que tudo está perdoado.
João de Endor tem um soluço áspero, e diz:
– Obrigado, meu Deus!
– Sim. Dá graças ao Altíssimo. Estás vendo como tinha espírito profético a tua mãe, uma verdadeira israelita? Tu és o filho homem consagrado ao Senhor e jamais resgatado. És meu, és de Deus, discípulo e, por isso, futuro sacerdote do teu Senhor na nova era e nova religião, que terá um nome tirado do meu: Eu te absolvo de tudo, João. Anda tranquilo para a frente, indo para o Santo. Em verdade, Eu te digo que, entre todos os que moram neste recinto, há muitos mais culpados e mais indignos do que tu de se aproximarem do altar…
197.3 Enquanto isso, Pedro se esforça para explicar ao pequeno as coisas mais dignas de serem observadas no Templo, mas chama em seu socorro outros mais cultos, especialmente Bartolomeu e Simão, porque ele se acha bem à vontade com estes anciãos, nesse seu papel de pai.
Eles estão perto do gazofilácio para fazerem as suas ofertas, quando José de Arimateia os chama:
– Vós estais aqui? Desde quando? –diz ele depois das saudações recíprocas.
– Desde ontem à tarde.
– E o Mestre?
– Está ali com um novo discípulo. Daqui a pouco, virá.
José olha para o menino, e pergunta a Pedro:
– É teu netinho?
– Não… Sim… Afinal, não é nada do meu sangue, mas muito na fé e tudo no amor.
– Não te entendo bem…
– É um órfãozinho… mas nada do meu sangue. Um discípulo… porém muito na fé. Um filho… porém tudo no amor. O Mestre o acolheu… e eu o acaricio. Deve tornar-se maior de idade por estes dias…
– Já tem doze anos? Tão pequenino?
– É… mas o Mestre o dirá… José, tu és bom… um dos poucos bons que há aqui dentro… Dize-me uma coisa: estarias disposto a ajudar-me a resolver este problema? Tu sabes… eu o estou apresentando como se fosse meu filho. Mas eu sou galileu e tenho em mim uma lepra feia…
– Lepra? –exclama José, apavorado e afastando-se.
– Não tenhas medo!… Estou com a lepra de ser de Jesus! E é a mais odiosa para os do Templo, a não ser para poucas exceções.
– Naão! Não digas isso!
– É verdade e está dita. Por isso, eu temo que eles tratarão com crueldade o pequeno, por causa de mim e de Jesus! Pois eu não sei como é que ele sabe a Lei, o Hagadã e o Midrashot. Jesus diz que ele sabe bem…
– Ora! mas se é Jesus quem o diz! Não tenhas medo!
– Bem que gostariam dar-me um aborrecimento! aqueles!
– Vejo que queres muito bem a este pequeno. Tu o tens sempre contigo?
– Eu não posso!… Vivo caminhando… O menino é pequeno e franzino…
– Mas eu iria de boa vontade contigo… –diz Jabé, que ficou mais confiante pelas palavras carinhosas de José.
Pedro está radiante de alegria… Mas ainda diz:
– O Mestre diz que não se deve, e não o faremos… Mas, de qualquer maneira, nós nos veremos… José… tu me ajudas?
– Mas, como não? Eu irei contigo. Diante de mim, não cometerão injustiças. Quando iremos? 197.4Oh! Mestre! Dá-me a tua bênção!
– A paz esteja contigo, José. Tenho muito prazer em ver-te, e com boa saúde
– Eu também, Mestre, e também os amigos te verão com alegria. Estás no Getsêmani?
– Estava. Depois da oração, irei para Betânia.
– À casa de Lázaro?
– Não. À casa de Simão. Estou também com minha mãe, com a mãe dos meus irmãos e a de João e Tiago. Irás lá ver-me?
– Ainda perguntas?! Grande alegria e grande honra. Eu te agradeço por isso. Eu irei com vários amigos!…
– Vai devagar, José, com, esses amigos!… –aconselha Simão Zelotes.
– Oh! Vós já os conheceis. A prudência diz: “Que as paredes não ouçam.” Mas, quando vós os virdes, compreendereis que são amigos.
– Então…
– Mestre, Simão de Jonas estava me falando sobre a cerimônia do pequeno. Tu chegaste na hora em que eu lhe estava perguntando quando pretendeis realizá-la. Eu também quero estar lá.
– Será na quarta-feira, antes da Páscoa. Quero que ele faça a sua Páscoa, já como filho da Lei.
– Muito bem. Está entendido. Eu virei apanhar-vos em Betânia. Mas, na segunda-feira eu virei com os amigos.
– Está dito.
– Mestre, eu vou deixar-te. A paz esteja contigo. Está na hora do incenso1.
– Adeus, José. A paz esteja contigo. 197.5Vem, Jabé. Esta é a hora mais solene do dia. Há outra análoga de manhã. Mas esta é ainda mais solene. A manhã inicia o dia. E é bom que o homem bendiga ao Senhor, para ser abençoado durante o dia, em todos os seus trabalhos. Mas a tarde é ainda mais solene. A luz diminui, cessa o trabalho, a noite vem chegando. A luz que diminui faz lembrar a queda no mal e de fato as ações pecaminosas realizam-se quase sempre de noite. E porque? Porque o homem, não estando mais ocupado com o trabalho, mais facilmente se deixa rodear pelo Maligno com seus chamarizes e pesadelos. Por isso, é bom, depois de termos dado graças a Deus, por ter-nos protegido durante o dia, que lhe supliquemos para que se afastem de nós os fantasmas da noite e as tentações. A noite, o sono… símbolo da morte. Mas, felizes daqueles que, tendo vivido com a bênção do Senhor, adormecem, não nas trevas, mas em uma luminosa aurora. O sacerdote, que oferece o incenso, assim o faz por todos nós. Ele reza por todo o povo, em comunhão com Deus, e Deus lhe confia a sua bênção para o povo de seus filhos. Estás vendo como é grande o ministério do sacerdote?
– Eu gostaria… Parecer-me-ia estar mais perto da mamãe…
– Se fores sempre um bom discípulo e um bom filho de Pedro, tu o serás. Agora, vem. As trompas estão anunciando que a hora chegou. Vamos com veneração louvar a Javé. (Jesus diz assim, com o “J” longo: um Jieovee muito cantado, com os últimos “e” muito abertos, como se fossem quase um a, mas o que vem depois do “J” é muito fechado).
1 incenso que no Templo queimava da manhã ao pôr do sol como está prescrito em Êxodos 30,7-8.