374. 374. Dia da Parasceve. Pelas ruasde Jerusalém e no subúrbio de Ofel.


2 de fevereiro de 1946.

374.1 Eles saem do Templo, que está cheio de gente, para se mergulharem no meio da agitação das ruas, onde todos querem andar depressa, atarefados como estão com os últimos preparativos para a Páscoa, ao passo que os retardatários procuram, com muito trabalho, encontrar alguma sala, algum vestíbulo, ainda que seja um só, para o transformarem num cenáculo, onde irão consumir o cordeiro.

É muito fácil que se encontrem, e também é fácil que não se reconheçam, naquele atropelo e agitação contínua, que podem ser vistos em todas as cidades, onde há representantes de todas as religiões, entre as quais a dos israelitas, e onde o sangue puro de Israel contraiu, pela mistura com outros sangues, ou simplesmente por mimetismo, muitas semelhanças com outras raças. E assim é que se veem hebreus, que parecem ser egípcios, e até os que, por seus lábios salientes, seus narizes achatados e pelo ângulo facial, parecem aparentados com os núbios outros há que, por seus rostos cortantes, miúdos, por seus membros delgados, seus olhares cheios de vivacidade, mostram que são provenientes das colônias gregas, ou mestiçados com gregos. Ao lado deles, há homens robustos e altos, com um rosto que parece ter sido feito com o esquadro, e que falam de tal modo, que não são muito estranhos aos povos latinos. Há muitos, que nós modernos chamaríamos circassianos ou persas, que já nos fazem lembrar dos olhos dos mongóis, ou dos núbios, seja pelos rostos muito alvos dos primeiros, ou pelos rostos azeitonados dos segundos. É um belo caleidoscópio de rostos e de vestes! Com isso os olhos ficam cansados, pois é muito possível que eles fiquem olhando sem ver. Mas, o que escapa ao olhar de um, é notado pelo de outro. Portanto, é compreensível que o que escapa ao olhar do Mestre, que está sempre um pouco absorto em si mesmo, quando o deixam em paz sem ficarem fazendo-lhe perguntas, possa ser notado por este ou por aquele dos que estão com Ele. E os apóstolos, que estão mais perto de Cristo, mostram um ao outro o que estão vendo, e falam bastante, fazendo seus comentários… muito humanos, sobre as pessoas de quem estão falando.

374.2 Um desses comentários salgados, sobre um ex-discípulo, que vai passando tranquilamente, como se não os estivesse vendo, é detido por Jesus:

– A quem dizeis estas palavras –interroga Ele.

– Aquele bobalhão lá –diz Tiago de Zebedeu–. Ele fingiu que não nos estava vendo, e não é só ele que está fazendo assim. Mas, quando Tu o curaste quando te procurava naquele tempo, ele sabia enxergar-nos. Que lhe sobrevenha uma pústula maligna!

– Tiago! É com estes sentimentos que estás ao meu lado e que te preparas para comer o cordeiro? Na verdade, tu és mais incoerente do que ele. Ele se separou com sinceridade, quando viu que não podia fazer o que Eu mandava. Tu ficas, mas não fazes o que Eu mando. Será que não és mais pecador do que ele?

Tiago fica vermelho, como se estivesse congestionado, e se afasta, indo para trás, muito humilhado.

– É que nos sentimos mal, ao vê-los fazerem assim –diz João, para ajudar ao irmão, que foi censurado–. O nosso amor se revolta, ao vermos o desamor deles…

– Sim. Mas, credes que estais tendo amor a eles, ao procederdes assim? Grosserias, más palavras e insultos nunca ajudaram a chegar a um ponto a que se queria fazer chegar um rival, ou alguém que pensa diferente de nós. É a doçura, a paciência, a caridade que persevera, apesar de todas as recusas, que acabam conseguindo. Eu compreendo, e me compadeço dos vossos corações, que sofrem, ao verem que Eu não sou amado. mas Eu quereria saber-vos e ver-vos mais sobrenaturais, nos atos e nos meios, para me fazerdes amar. Vamos, Tiago, vem cá. Não foi para humilhar-te que Eu falei. Compreendamo-nos, amemo-nos entre nós, meus amigos… Já há tanta incompreensão e dor para o Filho do Homem!

Tiago, agora calmo, volta para o lado de Jesus.

374.3 Vão caminhando por algum tempo em silêncio. Depois, Tomé explode em uma vibrante exclamação:

– Mas é mesmo uma vergonha!

– Quê? –pergunta Jesus.

– Ora, a covardia de muita gente! Mestre, não estás vendo quantos estão fingindo que não te conhecem?

– E daí? Mudar-se-á um “i” do que está escrito sobre mim, por causa do agir deles? Não. Só para eles é que se muda o que poderia estar escrito. Porque nos livros eternos podia estar escrito sobre eles: “os discípulos bons”, ao passo que é assim que se escreverá: “Aqueles que não foram bons, aqueles para os quais de nada valeu a vinda do Messias.” É uma palavra tremenda, sabeis? Pior do que aquela outra: “Adão e Eva pecaram.” Porque o pecado deles eu posso anular, mas não poderei anular isto de renegar o Verbo Salvador…

374.4Vamos agora virar para este outro lado. Eu permanecerei com os irmãos, com Simão Pedro e Tiago, no subúrbio de Ofel. Judas de Simão ficará. Mas Simão, o Zelotes, João e Tomé irão ao Getsêmani para apanharem as bolsas.

– Isto! Assim Jonas engolirá por direito o seu cordeiro –diz, ainda inquieto, Pedro.

Outros se riem…

– Bem, bem! Não te admires se ele tiver medo. Amanhã poderias ser tu o medroso.

– Eu, Mestre? É mais fácil que o Mar da Galileia se transforme em vinho, do que eu ter medo –afirma Pedro com segurança.

– No entanto… na outra tarde… Oh! Simão, não parecias estar muito corajoso nas escadarias do palácio de Cusa –diz Judas de Keriot, sem muita ironia, mas sempre com aquele sarcasmo suficiente para ferir Pedro.

– É porque… eu temia pelo Senhor. Por isso é que eu estava agitado. Não por outro motivo.

– Tudo bem! Tudo bem! Esperemos não ter nunca… aquele medo para não ficarmos fazendo tristes figuras, hein? –responde Judas de Keriot, batendo-lhe uma mão sobre o ombro, como quem protege, e como quem zomba.

Noutros momentos, o seu modo de agir teria desencadeado uma reação. Mas Pedro, desde a tarde anterior, se acha num estado de admiração por Judas, que o suporta em tudo.

Jesus diz:

– Filipe e Natanael, como André e Mateus, vão ao palácio de Lázaro, para dizer-lhe que estamos indo.

Afastam-se estes últimos, e os outros continuam indo com Jesus. Os discípulos, menos Estevão e Isaque, vão com os apóstolos, que foram mandados ao palácio. No subúrbio de Ofel há uma nova separação, os que foram enviados ao Getsêmani vão rapidamente em companhia de Isaque. Estevão fica com Jesus, e os filhos de Alfeu, Pedro, Tiago e Iscariotes, e, para não ficarem parados na encruzilhada, vão mais devagar, na mesma direção dos que foram para o Getsêmani. Vão indo justamente pela estrada estreita que, na noite da quinta-feira santa, vai ser percorrida por Jesus, com os seus torturadores. Agora que é o meio-dia, ela está deserta. Uma pracinha com uma fonte sombreada por uma figueira, que abre suas folhas tenras sobre o espelho da água parada, encontra-se, poucos passos depois.

374.5 – Lá está Samuel de Anália –diz Tiago de Alfeu, que o deve conhecer bem.

O jovem está para entrar em casa, levando o cordeiro… E levando também outras coisas de comer.

– Ele providencia para a ceia pascal, também para seu parente

–observa Judas de Alfeu.

– Mas agora ele se estabeleceu aqui. Não estava fora? –diz Pedro.

– Sim. Estabeleceu-se aqui. Dizem que está namorando com a filha de Cléofas, o fabricante de sandálias. Ela é endinheirada.

– Ah! E então por que ele diz que Anália o abandonou? –pergunta o Iscariotes–. Isso é mentira!

– O homem se serve da mentira com facilidade. E não sabe que, assim fazendo, se coloca no caminho do mal. Basta um primeiro passo, um passo para não poder livrar-se mais… É um visgo… Um labirinto… É uma armadilha. Uma armadilha. Uma armadilha que lhe caiu em cima… –diz Jesus a Judas de Keriot.

– Que pena! O homem parecia tão bom, no seu passado –diz Tiago de Zebedeu.

– É verdade. Eu até achava que ele iria imitar a esposa, entregando-se todo a Ti, formando assim um casal de esposos angelicais e servos teus. Eu teria jurado! –diz Pedro.

– Meu Simão, não jures nunca sobre o futuro de um homem. É a coisa mais incerta que pode haver. Nenhum dos elementos existentes no momento do juramento pode servir de garantia de que o juramento é seguro. Há delinquentes que se tornam santos, e há justos, que se tornam delinquentes –responde-lhe Jesus.

374.6 Enquanto isso, Samuel, depois de ter entrado em casa, tornou a sair para ir buscar água na fonte. E assim é que ele viu Jesus. Olha agora para Ele com evidente desprezo, lhe faz o que me parece ser certamente um insulto, mas com palavras em hebraico, que eu não entendo.

Iscariotes lança-se para a frente num pulo, agarra-o por um braço, sacudindo-o como se faz com uma árvore, da qual se quer fazer que caiam os frutos maduros:

– É assim que falas ao Mestre, pecador? Vamos, já, de joelhos! Logo! Pede-lhe perdão, ó língua suja como um porco! Vamos! Já! ou eu te arrebento!

É terrível, em sua violência repentina, o belo Judas! O seu rosto se altera amedrontador. Inutilmente Jesus procura acalmá-lo. Mas, enquanto o Judas não vê o blasfemador ajoelhado na terra lamacenta, não diminui a pressão.

– Perdão –diz entre dentes o infeliz, que deve estar sendo torturado pelas tenazes dos dedos do Iscariotes.

Mas ele só disse aquela palavra sem sinceridade, porque a isso estava sendo obrigado. Jesus responde:

– Eu não tenho rancor. Tu, sim, não obstante o que disseste. A palavra é inútil, quando não é acompanhada por um movimento do coração. Tu, em teu coração, estás blasfemando ainda contra Mim. E com dupla culpa. Porque me acusas e me odeias por um motivo que a tua consciência, depois de refletir bem, te diz que não é verdade. E, por que tu, só tu faltaste, e não Anália, nem Eu. Mas de tudo Eu te perdoo. Vai, e trata de tornar-te honesto e agradável a Deus. Deixa-o, Judas.

– Eu vou. Mas eu te odeio! Tu me desencaminhaste Anália, e eu te odeio…

– Consola-te, porém, com Rebeca, filha do fabricante de sandálias. E te consolavas também com isto: desde quando Anália era tua esposa, e estava doente, só pensava em ti…

– Eu estava viúvo… Pensava que já o estava… E procurava uma mulher… Agora, voltei a Rebeca, porque… porque… Anália não me quer –desculpa-se Samuel, que vê que vão sendo descobertas as suas manhas.

Judas Iscariotes termina, dizendo:

– É porque Rebeca é muito rica. Feia, como uma sandália rasgada… e velha como uma sola perdida na estrada, mas rica, oh! rica!…

E se ri, sarcástico, enquanto o outro foge.

– Como é que sabes disso? –pergunta Pedro.

– Oh! Coisa fácil é saber onde há virgens e dinheiro!

– Bem. Vamos pela estradinha, Mestre? Esta praça parece um forno de assar pão. Lá encontraremos sombra e um ar melhor –explica Pedro, que está suado.

374.7 Vão indo, devagar, enquanto esperam que os outros voltem. A estradinha está deserta.

Uma mulher sai, por uma porta, e chorando, vai prostrar-se aos pés de Jesus.

– Que tens?

– Mestre, já te purificaste?

– Sim. Por que perguntas?

– Porque eu queria dizer-te… Mas não podes aproximar-te dele… O médico diz que ele está infectado. Depois da Páscoa, irei chamar o sacerdote… e… Hinon o acolherá. Não digas que eu sou culpada. Eu não sabia de nada. Ele trabalhou em Jope durante muitos meses e voltou assim, dizendo que se havia ferido. Eu fiz uso de bálsamos e de banhos com aromas… mas não valeram nada. Consultei um conhecedor de ervas medicinais e ele me deu pós para o sangue… Separei dele os filhos… separei a cama… porque… eu estava começando a compreender. Ele piorou. Chamei o médico. E ele me disse: “Mulher, tu sabes qual o teu dever e eu o meu. Isto é uma lesão proveniente da luxúria. Afasta-o de ti. Eu o afastarei do povo. E o sacerdote o separará de Israel. Ele devia ter pensado nisso quando estava ofendendo a Deus, a ti e a si mesmo. Agora, que ele expie.” Eu consegui o silêncio dele até o dia depois dos Ázimos. Mas se tu tivesses piedade do pecador e de mim que ainda o amo, e dos filhos inocentes…

– Que queres que Eu te faça? Não achas que quem pecou, é justo que expie?

– Sim, ó Senhor! Mas Tu és a Misericórdia viva!

Toda a fé de que uma mulher é capaz está na voz, no olhar, nos gestos da mulher, que está ajoelhada e com os braços estendidos na direção do Salvador.

– E ele, que tem no coração?

– O aviltamento. Que mais que queres que ele tenha, Senhor?

– Bastaria um movimento sobrenatural de arrependimento, de justiça, para conseguir piedade…

– Justiça?

– Sim. Dizer: “Eu pequei. Minha culpa merece isto e muito mais, mas àqueles a quem ofendi peço piedade.”

– Eu já lhe dei. Tu, que és Deus, dá-lhe. Eu não posso dizer-te:

Entra… Estás vendo que não toco em Ti nem eu… 374.8Mas, se quiseres, eu o chamo e do terraço eu o faço falar.

– Sim.

A mulher, com a cabeça recolhida para dentro do vão da porta, chama com voz forte:

– Jacó! Jacó! Sobe ao terraço. Mostra-te. Não tenhas medo.

O homem aparece ao parapeito do terraço alguns momentos depois. Um rosto amarelento, inchado, a garganta enfaixada, uma mão enfaixada… a ruína de um homem corrompido… Ele olha com uns olhos cheios d’água, olhos de um doente de doenças ignóbeis. E pergunta:

– Quem quer falar comigo?

– Jacó, aqui está o Salvador…

A mulher não diz mais nada, mas parece querer hipnotizar o doente, transmitindo a ele o seu pensamento…

O homem, ou porque percebe esse pensamento dela, ou porque tenha feito um movimento espontâneo, estende os braços, e diz:

– Oh! Livra-me! Eu creio em Ti! É horrível ter que morrer assim.

– É horrível faltar com o próprio dever. Nesta tu não pensavas? Nem nos filhos?

– Piedade, Senhor… Deles e de mim… Perdão! Perdão!

E se debruça sobre o pequeno muro chorando, com as mãos enfaixadas estendidas e também o braço todo, que fica descoberto pela manga, que recua para cima, manchado já pelas pústulas que estão quase unidas umas às outras, inchado, repulsivo… O homem, na posição em que se colocou, parece um fantoche macabro, um cadáver jogado ali já prestes a entrar em decomposição, causa pena e náuseas ao mesmo tempo.

A mulher está chorando, continuando de joelhos sobre a poeira.

Jesus parece estar esperando uma palavra ainda… Finalmente essa palavra desce, por entre soluços:

– Eu gemo a Ti, na contrição do meu coração! Dá-me pelo menos a promessa de que esses não sofrerão fome… e depois… eu sairei daqui resignado para a expiação. E Tu, salva a minha alma! Pelo menos a alma!

– Sim. Eu te curo. Por causa dos inocentes. Para dar-te um modo de te mostrares justo. Compreendes? lembra-te disto: O Salvador te curou. Deus conforme o modo com que corresponderes a esta graça, te absolverá de tuas culpas. Adeus. A paz esteja contigo, mulher.

E Jesus sai dali, quase correndo, indo ao encontro dos que vêm vindo do Getsêmani. Nem mesmo os gritos do homem, que sente e vê que está ficando curado, o fazem parar, nem os da mulher.

– Dobremos por este beco para não passarmos de novo por lá –diz Jesus, depois de ter-se reunido com os outros.

374.9 Entram por um beco quase intransitável, tão estreito que, duas pessoas, uma ao lado da outra, só passam por ele com dificuldade. E se um burro passa por ele com uma albarda, tem que comprimir-se contra as paredes como se faz com um selo. O lugar é meio escuro porque os telhados quase que se tocam naquela solidão, naquele silêncio e mau cheiro. Eles vão indo em fila, como uns frades, enquanto vão atravessando o beco miserável. Depois, eles se reúnem numa pracinha cheia de rapazotes.

– Por que disseste aquelas palavras àquele homem? Tu nunca dizes… –pergunta Pedro, ansioso.

– Porque aquele homem vai ser um dos meus inimigos. E essa sua culpa futura irá agravar a que já existe.

– E Tu o curaste?! –perguntam todos, estupefatos.

– Sim. Por causa dos pequenos inocentes.

– Hum! Vai voltar a ficar doente…

– Não. Quanto à vida do corpo, depois do espanto e do sofrimento que ele passou, ficará curado. Não ficará mais doente.

– Mas ele irá pecar contra Ti, como dizes. Eu o teria feito morrer.

– Tu és um homem pecador, Simão de Jonas.

– E Tu és bom demais, Jesus de Nazaré –replica Pedro.

Entram por uma rua central, e somem, e não vejo mais nada.

374.10Nota minha.

Tanto o homem curado como Samuel, eu os reconheço1. O primeiro é aquele que, na Paixão, fere com uma pedra a cabeça de Jesus. Mais do que ele, eu reconheço sua mulher, agora doente como naquele tempo, e a casa que tem uma característica porta alta, acima de três degraus. E assim, com a máscara de ódio que o transforma, eu reconheço em Samuel o jovem que mata a mãe com um pontapé, a fim de poder ir ferir o Mestre com um cacete. Por conta minha, colocarei estas notas ao pé da página N… da Paixão.

1 os reconheço, porque “vistos” em um episódio escrito no ano precedente, mas que estará em 604.2.


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