519. 519. Inexplicável ausência de Judas Iscariotese permanência junto a Lázaro,em Betânia, que não está leproso
28 de outubro de 1946.
519.1Jesus se despede dos discípulos Levi, José, Matias e João, que Ele encontrou não sei onde, e aos quais confia o neo discípulo Sidônias, chamado Bartolomeu. Isto aconteceu à altura das primeiras casas de Betânia. E os discípulos pastores lá se vão, com o novo que veio e com outros sete homens que estavam com eles. Jesus olha para eles que vão caminhando, depois se vira e olha para os seus apóstolos, dizendo:
– E agora vamos para Judas de Simão…
– Ah! Percebeste que ele saiu? –dizem, espantados, os outros–. Nós pensávamos que não tivesses percebido. Porque havia muita gente. E Tu ficaste sempre falando, primeiro com o jovem, depois com os pastores…
– Eu vi, desde o primeiro momento, que ele se havia afastado. Nada Eu deixo de perceber. Por isso e que Eu entrei nas casas amigas para dizer que encaminhassem Judas para Betânia, se ele chegasse Me procurando…
– Queira Deus que não –resmunga entre dentes o outro Judas.
Jesus olha para ele, faz um sinal como quem não dá importância ao que ele disse e continua falando a todos, porque Ele viu que todos tinham o mesmo parecer que Tadeu; os rostos falam mais do que as palavras, às vezes:
– Será bom este descanso, enquanto esperamos a volta dele. Ela dará um conforto a todos. Depois iremos para Tecué. O tempo está frio, mas já vai se tornando mais ameno. Eu evangelizarei aquela cidade, depois subiremos de novo, passando por Jericó, e iremos pela outra margem. Disseram-me os pastores que muitos doentes estão me procurando, e Eu mandei dizer-lhes que não se ponham a caminho, mas fiquem esperando naqueles lugares.
– Então, vamos –suspira Pedro.
– Não estás contente por irmos à casa de Lázaro? –interroga Tomaz.
– Eu estou contente.
– Mas estás falando de um certo modo.
– Não falei assim por causa de Lázaro, mas por causa de Judas…
– Tu és um pecador, Pedro –adverte-o Jesus.
– Sou, sim. Mas… ele, Judas de Keriot, que lá se foi, que é um impertinente, que é um tormento, não o é? –explode Pedro, que não aguenta mais.
– Ele o é. Mas se ele o é, tu não o deves ser. 519.2Lembrai-vos de que Deus vos pedirá contas, Eu digo, nos pedirá, porque a Mim, antes do que a vós, Deus Pai confiou aquele homem, e pedir-nos-á contas de tudo o que tivermos feito para redimi-lo.
– E Tu esperas conseguir isso, meu irmão? Eu não posso crer. Tu, isto eu creio, Tu sabes o passado, o presente e o futuro. E, portanto, não podes enganar-te acerca desse homem. E… Mas é melhor que eu não diga o resto.
– De fato, saber calar-se é uma grande virtude. Mas fica sabendo que o prever mais ou menos exatamente o futuro de um coração não livra ninguém da obrigação de perseverar até o fim, trabalhando para arrebatar da ruína um coração. Não caias tu também no fatalismo dos fariseus, que afirmam que aquilo que o destino quer se há de cumprir e nada impede que se cumpra daquilo que o destino exige, e é com este raciocínio que eles endossam as suas culpas e a endossarão até o seu último ato de ódio contra Mim. Muitas vezes Deus espera o sacrifício de um coração que supera suas náuseas, seus desprezos e antipatias, mesmo as justificadas, para arrancar um espírito do pântano em que ele se está afundando. Sim, Eu vo-lo digo. Muitas vezes, o Onipotente, o Tudo, espera que uma criatura, um nada, faça ou não faça um sacrifício, uma oração, para que Ele confirme, ou não, a condenação de um espírito. Nunca é tarde, nunca é tarde demais para tentar e esperar salvar uma alma. E disso Eu vos darei algumas provas. Mesmo já estando no momento da morte, quando, tanto o pecador como o justo, que por ele se aflige, estão perto de deixar a terra para irem ao primeiro julgamento de Deus, pode-se ainda salvar e ser salvos. Entre o copo e os lábios, diz o provérbio, há sempre um lugar para a morte. Eu, ao contrário, vos digo: entre a extrema agonia e a morte há sempre tempo para se obter o perdão para si mesmos, ou por aqueles que queremos ver perdoados.
Ninguém replica a estas palavras.
519.3Jesus já chegou à pesada cancela e grita a um servo que a abra para Ele. Depois Ele entra. E pergunta por Lázaro.
– Oh! Senhor! Eu estou voltando de ter ido apanhar umas folhas de louro e de canforeiras e bagas de cipreste, e outras folhas e frutos cheirosos para fazer ferver com vinho e resinas e fazer com tudo isso banhos para o patrão. A carne dele está caindo aos pedaços e não se pode resistir ao meu cheiro. Eu vim. Mas não sei se te deixarão passar.
Por medo de que até o ar o escute, o servo abaixa a voz e diz num sussurro:
– Agora que ele tem feridas, as patroas estão afastando a todos, com medo de que… Tu sabes. Verdadeiramente, Lázaro é estimado por poucos… E muitos, por muitos motivos gostariam que… Oh! Não me façais pensar nisso, que está sendo o medo de todos da casa.
– Elas fazem bem. Mas não temais. Essa desventura não acontecerá.
– Mas… poderá ficar são? Um milagre teu?…
– Não ficará são. Mas isto servirá para glorificar o Senhor.
O servo ficou desiludido… Jesus, que cura a todos, aqui não faz nada!… Mas ele só tem um suspiro, a única manifestação de seu pensamento. E depois diz:
– Vou anunciar-te às patroas.
Jesus vai, rodeado pelos apóstolos, que estão interessados em ver o estado de Lázaro, desde quando Jesus lhes falou nele.
519.4Mas as duas irmãs já vêm vindo. A notável, ainda que diferente beleza delas, parece estar enevoada pelo sofrimento e pelo cansaço das vigílias prolongadas. Pálidas, acabadas, descarnadas, tendo cansado aqueles olhos que, há tempo, eram brilhantes, tanto numa como na outra, sem anéis nem braceletes, vestidas com duas vestes de cor cinza escuro, parecem mais servas do que senhoras. Ajoelham-se longe de Jesus, oferecendo-lhe somente o seu pranto. É um pranto resignado, mudo, que desce de uma fonte interna e não pode parar.
Jesus se aproxima. Marta lhe estende as mãos, sussurrando:
– Afasta-te, Senhor. Na verdade, nós estamos com medo de já termos pecado contra a lei sobre a lepra1. Mas não podemos, ó Deus, não podemos provocar um decreto assim contra o nosso Lázaro! Mas Tu não te aproximes, porque nós estamos imundas, pois estamos sempre tocando nas feridas. Somente nós. Porque afastamos disso qualquer outro, e tudo para nós é colocado na soleira, e nós apanhamos, lavamos e queimamos no quarto contíguo ao do nosso irmão. Estás vendo as nossas mãos? Estão corroídas pela cal virgem de que nós fazemos uso para limpar os vasos que depois devolvemos aos servos. Por isso pensamos ser menos culpadas –e chora.
Maria de Magdala, que até aqui esteve calada, geme, por sua vez:
– Deveríamos chamar o sacerdote… Mas… Eu sou a mais culpada, pois me oponho a isso, e digo que não é o terrível mal amaldiçoado em Israel. Não, não é! Mas nos odeiam tanto, e são tantos, que diriam que sim. Por muito menos, o teu apóstolo Simão foi declarado leproso!
– Tu não és sacerdote nem médico, Maria –diz, soluçando, Marta.
– Eu não sou. Mas tu sabes o que foi que eu fiz para ter certeza do que digo. 519.5Senhor, eu saí, percorri todo o vale do Hinon, todo o Siloan, todos os sepulcros perto de En Rogel. Vestida como serva, com um véu, à luz da aurora, carregada de víveres e de águas medicinais, de bandas e de vestuário. E eu distribuí, distribuí tudo. Eu dizia que era um voto por aquele que eu amava. Era verdade. Eu pedia somente para poder ver as feridas dos leprosos. Eles devem ter pensado que eu estava doida… Quem é que quereria ir olhar aqueles horrores? Mas eu, depositando no limites dos outeiros as minhas ofertas, pedia para ver. Eles lá de cima e eu mais abaixo; eles espantados e eu nauseada; chorando eles e chorando eu, olhei, olhei, olhei bastante! Tendo olhado corpos cobertos de escamas, de crostas, de feridas, rostos carcomidos, cabelos brancos e duros mais do que cerdas de animais, olhos que são umas tocas de podridão, maçãs do rosto com os dentes à vista, caveiras em corpos vivos, mãos transformadas em garras de monstros, pés parecendo uns galhos, cheios de nós, fedores, horrores, podridão. Oh! Se eu pequei adorando a carne, se eu gozei com meus olhos, com o olfato, com os ouvidos, com o tato, de tudo aquilo que era belo, perfumado, harmonioso, macio e liso, oh! eu te garanto, que meus sentidos ficaram purificados já pela santificação, pela mortificação que esses conhecimentos me proporcionavam! Meus olhos se esqueceram da beleza sedutora do homem ao contemplarem aqueles monstros, meus ouvidos expiaram o passado gozo de ouvir as vozes viris ao ouvirem agora aquelas vozes ásperas, não mais humanas, e minha carne estremeceu, e o meu olfato se revoltou… e morreu, porque eu vi o que vamos ser depois da morte… Mas eu trouxe comigo esta certeza: a de que Lázaro não está leproso. Sua voz não está alterada, seus cabelos e todos os outros pelos estão intactos e diferentes são as suas feridas. Não está! Não está. E Marta me aflige porque não crê, e porque ajuda ao Lázaro a não crer que não está imundo. Estás vendo? Ele não está querendo ver-te, agora que ficou sabendo que estás aqui, para não te contaminares. Os tolos medos de minha irmã o privam até do teu conforto!…
Sua natureza veemente a leva à cólera. Mas vendo que sua irmã tem um acesso de pranto sem consolo, sua veemência cessa imediatamente e ela abraça Marta, beijando-a e dizendo:
– Oh! Marta! Perdão! Perdão! É a dor que me faz ser injusta! É o amor que eu tenho a ti e a Lázaro que me quereria persuadir. Pobre de minha irmã! Pobres mulheres que somos!
– Eia, vamos. Não fiqueis chorando assim. Tendes necessidade é de paz e compaixão recíproca para vós mesmas e para com ele. Lázaro, além disso, não está leproso. Eu vo-lo digo.
– Oh! Vai até ele, Senhor! Quem melhor do que Tu pode julgar se ele está leproso, ou não? –suplica Marta.
– Eu já não te disse que ele não está leproso?
– Sim. Mas como podes dizê-lo, sem o teres visto?
– Oh! Marta! Marta! Deus te perdoa porque estás sofrendo, e estás como alguém que delira! Eu descobrirei as feridas dele e…
– E o curarás! –grita a Maria, pondo-se de pé.
– Eu já te disse outras vezes que não posso fazer isso… Mas eu vos darei a paz de ficardes sabendo que não estais indo contra a lei dos leprosos… 519.6Vamos.
E se dirige em primeiro lugar para a casa, tendo feito um sinal aos apóstolos para que não o acompanhassem.
Maria vai correndo na frente, abre a porta, continua correndo por um corredor, abre outra porta que dá para um pátio interno, dá uns poucos passos e entra em um quarto meio escuro, cheio de bacias, de pequenos vasos, ânforas, faixas… Um cheiro misturado com aromas e decomposição penetra nas narinas. Uma outra porta está em frente da primeira e Maria a abre, gritando com uma voz que quer ser de uma esperançosa alegria:
– O Mestre está aqui. Ele vem dizer-te que tenho razão, meu irmão. Vamos, sorri, que está entrando o nosso amor e a nossa paz!
E se inclina sobre o irmão, levanta-o um pouco do travesseiro e o beija, sem se importar com o cheiro que, apesar de todos os paliativos, emana do corpo ulcerado; está ainda inclinada a arrumá-lo e já a doce saudação de Jesus ressoa no quarto, e este, que estava com uma claridade bem amortecida, parece iluminar-se com a divina presença.
– Mestre, não tens medo… Eu estou…
– Estás doente. Nada mais do que isso, Lázaro. As normas foram dadas, tão abrangentes e severas, mas como uma medida bem compreensível de prudência. Melhor é exagerar na prudência do que na imprudência, em certos casos, como o das doenças contagiosas. Mas tu não estás contagioso, meu pobre amigo, não estás imundo. Tanto é assim que Eu não penso estar faltando com a prudência para com os irmãos se te abraço e beijo assim.
E o beija, segurando em seus braços o corpo emagrecido.
– Tu és mesmo a paz. Tu! Mas ainda não viste nada. Eis que Maria vai descobrindo o horror. Eu já estou morto, Senhor. Nem sei como minhas irmãs estão podendo resistir.
Eu também não o saberia, tão espantosas e repugnantes são as feridas que se formaram ao longo das varizes das pernas. As mãos delicadas da Maria trabalham ligeiras sobre elas, enquanto, com sua voz maravilhosa, ela responde:
– Os teus males são como umas rosas para as tuas irmãs. São rosas espinhosas só porque tu estás sofrendo. Eis, Mestre. Estás vendo? A lepra não é assim.
– Não é assim. É um grande mal o que te consome, mas não é perigoso. Crê no teu Mestre! Podes cobrir de novo, Maria. Eu já vi.
– E… não vais tocar nele? –suspira a Marta, firme em sua esperança.
– Não é preciso. Não por repugnância, mas para não reabrir as feridas.
Marta se inclina, sem insistir mais, sobre uma bacia onde há vinho ou vinagre aromatizado, e mergulha nele uns linhos que ela passa para sua irmã. Lágrimas mudas caem sobre aquele líquido avermelhado…
Maria enfaixa as pobres pernas, estende de novo as cobertas sobre os pés já inertes e amarelados como os de um morto.
519.7– Estás sozinho?
– Não. Estou com todos, menos Judas de Keriot, que ficou em Jerusalém, e virá… E se Eu estiver já longe, mandai-o para Betábara. Eu estarei lá. E que lá ele me espere.
– Estás indo muito depressa…
– Mas Eu voltarei logo. Daqui a pouco já vem a Dedicação. Estarei em tua casa naqueles dias.
– Não poderei prestar-te honras nas Encênias…
– Estarei em Belém naquele dia. Preciso rever o meu berço…
– Estás triste… Eu sei… Oh! E não se pode fazer nada.
– Eu não estou triste. Sou o Redentor… Mas tu estás cansado. Não fiques lutando contra o sono, meu amigo.
– Era para prestar-te honra…
– Dorme, dorme. Ver-nos-emos depois…
E Jesus se retira sem fazer barulho.
– Viste, Mestre? –pergunta Marta, já fora, no jardim.
– Eu vi. Minhas pobres discípulas… Eu choro convosco… Mas em verdade Eu vos confidencio que o meu coração está muito mais ferido do que o de vosso irmão. O meu coração está roído pela dor…
E olha para elas com uma tristeza tão viva que as duas se esquecem de sua dor, por causa dele, e, impedidas de abraçá-lo, porque são mulheres, limitam-se a beijar-lhe as mãos e a veste, e a quererem servi-lo como a um irmão afetuoso. E o servem em uma saleta e o envolvem de amor.
As vozes altas dos apóstolos são ouvidas do lado de lá do pátio… Todas, menos a voz do discípulo mau. E Jesus escuta, e suspira… Suspira, esperando com paciência o fujão.
1 lei sobre a lepra, que está em Levítico 13-14. A obra indica frequente a esta (até ao encontro com Simão, Zelotes, em 54.2) e a vez que se reporta os ditames (como na parábola de 245.5). Considerada uma das doenças mais terríveis para o homem, a lepra poderia ser vista até nas roupas (Levítico 13,47-59) e nos muros das casas (Levítico 14,33-53). Sobre esta última, Jesus se faz o sujeito de uma parábola e de uma advertência em 369.2.5.
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