292. 292. Em Bozra, a insídia dos escribas e fariseus.
1º de outubro de 1945.
292.1Bozra, tanto pela estação do ano, como por estar assim fechada no meio de suas estradinhas, mostra-se, agora pela manhã, pouco visível, por causa da névoa. Pouco visível e muito suja. Os apóstolos, tendo voltado das compras feitas na feira, estão falando entre si delas. Porque a indústria dos albergues daquele tempo e de lugares como este é de tal modo pré-histórica, que cada um precisa pensar em seus mantimentos. Compreende-se que os albergadores não queiram perdoar nem uma migalha. Eles se limitam a cozinhar o que os que chegam vêm trazendo e esperamos que nada roubem do que foi trazido. Ou o mais que podem é fazer as compras para os que chegam ou, então, vender diretamente a eles os alimentos dos quais eles tenham provisão, e fazendo-se também de açougueiros, se for necessário, com os pobres cordeirinhos destinados a ser assados.
Isto de comprar do albergador não agradou a Pedro e até agora ainda continua o bate-boca entre o apóstolo e o albergador: este tem cara de malandro, não deixa de insultar o apóstolo, chamando-o de “galileu”, enquanto que o outro rebate, mostrando um leitão que foi degolado agora mesmo, por conta de alguns que ali estão de passagem:
– Eu sou galileu, e tu és um porco, um pagão é que és. No teu mal cheiroso albergue, eu não ficaria nem uma hora, se eu fosse dono de mim mesmo. Ladrão e… –(aqui ele diz uma outra palavra muito… expressiva, que eu deixo de escrever.)
Percebo que, entre estes de Bozra e os galileus, deve haver uma das muitas incompatibilidades regionais e religiosas, das quais Israel estava cheio, ou melhor, a Palestina.
O albergador grita mais forte:
– Se não fosse porque tu estás com o Nazareno, eu, que sou melhor do que os vossos imundos fariseus, que o odeiam sem motivo, eu te lavaria a cara com o sangue do porco e terias que sair daqui correndo, para ires purificar-te. Mas eu presto respeito a Ele, cujo poder é indiscutível. E a ti eu digo que, com todas as vossas histórias, sois pecadores. Nós somos melhores do que vós. Nós não armamos ciladas. Nós não traímos. Vós, ah! Uma raça de traidores, injustos e velhacos, que não respeitais nem mesmo os poucos santos que tendes entre vós.
– A quem dizes que são traidores? A nós? Ah! Viva o Céu, que agora…
Pedro, irritado, está para atirar-se sobre o homem, mas seu irmão e Tiago o seguram e Simão Zelotes, junto com Mateus, se interpõem.
292.2Todavia, mais do que a intervenção deles, o que vale para fazer cessar a ira é a voz de Jesus, quando Ele aparece por uma porta, e diz:
– Agora, tu, Simão, cala a boca. E tu, também, homem cala-te.
– Senhor, este albergador andou insinuando coisas e me ameaçando por primeiro.
– Nazareno, eu é que fui ofendido por primeiro.
Eu, ele. Ele, eu. Os dois culpáveis jogam a culpa um ao outro.
Jesus vai para a frente, sério e calmo:
– Vós dois não tendes razão. E tu, Simão, menos razão do que ele. Porque tu conheces a doutrina do amor, do perdão, da mansidão, da paciência, da fraternidade. Para não serdes maltratados como galileus, precisais fazer-vos respeitar como santos. E tu, homem, se te sentes melhor do que os outros, dá graças a Deus e torna-te digno de seres sempre melhor. E, sobretudo, não sujes a tua alma com acusações mentirosas. Os meus discípulos não traem, nem armam ciladas.
– Tens certeza disso, Nazareno? E, então, por que é que aqueles quatro vieram fazer-me perguntas se Tu tinhas vindo, com quem é que estavas e muitas outras coisas?
– Coisas? Que coisas? E quem são eles? Onde estão?
Os apóstolos se agrupam, esquecendo-se de que se estão pondo ao lado de um que está sujo com sangue de porco, coisa esta que antes os fazia ficar horrorizados.
– Ide para os vossos trabalhos. Mas tu fica, Misaque.
292.3Os apóstolos lá se vão para a sala da qual saiu Jesus. No pátio ficam sozinhos, um na frente do outro, Jesus e o albergador. A poucos passos de Jesus está o mercador que, assombrado, está observando a cena.
– Responde-me, homem. Com sinceridade. E perdoa, se o sangue irritou a língua de um discípulo meu. Quem são os tais quatro e que foi que disseram?
– Quem sejam eles, eu não sei exatamente. Mas com certeza são escribas e fariseus do outro lado. Quem foi que os trouxe até aqui, eu não sei. Eu nunca os havia visto. Mas eles estão bem informados a respeito de Ti. Sabem de onde vens, para onde vais e quem és. Mas queriam que eu confirmasse tudo isso. Não. Eu posso ser um velhaco. Mas eu sei o meu ofício. Eu não conheço ninguém, não vejo nada, não sei nada para dizer aos outros, compreenda-se. Porque para mim eu sei tudo. No entanto, por que eu devo dizer aos outros o que eu sei, e especialmente àqueles hipócritas? Velhaco, eu? Sim. Se for necessário, defendo até os ladrões. Tu bem o sabes… Mas eu não seria capaz de roubar ou tentar roubar-te a liberdade, a honra, a vida. E aqueles — já não sou mais Farã de Ptolomeu, se não for verdade o que digo — e aqueles estão à espera de ti para te fazerem mal. E quem os manda? Será talvez alguém da Pereia ou da Decápole? Talvez alguém da Traconítide, ou da Gaulanítide ou da Auranítide? Não. Nós, ou não te conhecemos ou, se de Ti sabemos, te respeitamos, como a um justo, se é que não cremos em Ti como um santo. Quem, pois, os terá mandado? Será alguém do teu lado, e talvez um dos teus amigos, porque eles estão sabendo coisas demais…
– Saber por meio de minha caravana é fácil… –diz Misaque.
– Não, mercador. Não é por meio de ti. Mas de outros, que estão com Jesus. Eu não sei, nem quero saber. Não vejo, nem quero ver. Mas, eu te digo: se sabes que és culpado, procura reparar o mal e, se sabes que estás sendo traído, toma providências.
– Culpa, eu não tenho, homem. E não estou sendo traído. O que acontece é que Israel não me compreende. 292.4Mas, como tiveste notícias de Mim?
– Por um rapaz. Um libertino, que dava o que falar de si, tanto em Bozra, como em Arbela. Aqui, pois para cá ele vinha consumar os seus pecados. E lá, porque lá ele desonrava a sua família. Mas depois ele se converteu. Ele se tornou mais honesto do que um justo. Agora mesmo ele passou com os teus discípulos, pois ele é discípulo também e te espera em Arbela para prestar-te homenagem, junto com seu pai e sua mãe. E ele conta a todos que Tu lhe mudaste o coração, pela oração da mãe dele. Filipe de Jacó, se algum dia esta região se tornar santa, terá o merecimento de ter sido o santificador dela. E, se em Bozra há quem creia em ti, é por causa dele.
– Onde estão agora os escribas que aqui vieram?
– Eu não sei. Eles foram embora, porque eu disse que não tinha lugar para eles. Bem que tinha. Mas eu não quis dar hospedagem às serpentes, perto da pomba. Certamente eles estão nesta região. Fica atento.
– Eu te agradeço, homem. Como te chamas?
– Farã. Não fiz mais do que meu dever. Lembra-te de mim.
– Sim. E tu lembra-te de Deus. E perdoa a meu Simão. O grande amor que ele me tem faz, às vezes, que ele fique cego.
– Já passou. Nada de mal. Eu também o ofendi. Mas, sentimo-nos mal, ao sermos insultados. Tu não insultas…
Jesus suspira… Depois diz:
– Queres ajudar o Nazareno?
– Se eu puder…
– Eu falaria deste pátio, com prazer.
– E eu te deixarei falar. Quando?
– Entre a sexta e a nona.
– Vai tranquilo para onde quiseres. Bozra vai ficar sabendo que Tu vais falar. Eu cuido disso.
– Deus te recompense por isso.
E Jesus lhe dá um sorriso, que já é uma recompensa. Depois se encaminha para a sala onde estava antes.
Alexandre Misaque diz:
– Mestre, sorri assim para mim também… Eu também irei dizer aos habitantes da cidade que venham ouvir a Bondade que está falando. Eu conheço muitos deles. Adeus.
– A ti também Deus recompensa –e Jesus lhe sorri.
292.5Entra na sala. As mulheres estão ao redor de Maria, que está com o rosto entristecido e se levanta logo, indo ao encontro do Filho. Ela não fala. Mas tudo nela são perguntas. Jesus lhe sorri, e lhe responde, dizendo a todos:
– Procurai estar livres na hora sexta, falarei em seguida a muitos. Por enquanto ide, todos, menos Simão Pedro, João e Hermasteu. Anunciai-me ao povo, e dai muitas esmolas.
Os apóstolos vão. Pedro se aproxima lentamente de Jesus, que está perto das mulheres e lhe pergunta:
– Por que não eu também?
– Quando somos impulsivos demais, ficamos em casa. Simão, Simão! Quando chegará o dia em que saberás usar de tua caridade para com o próximo? Por enquanto, ela é uma chama ardente, mas toda por Mim, é uma lâmina reta e rija, mas só por Mim. Sê manso, Simão de Jonas!
– Tens razão, Senhor. Tua Mãe já me censurou, como Ela sabe fazer, sem me rebaixar. Mas penetrou até dentro de mim. Mas censuras-me Tu também, mas… depois, não fiques olhando para mim, assim tão triste.
– Sê bom… Sê bom… 292.6Síntique, eu quereria falar-te em particular. Sobe para o terraço. Vem tu também, minha Mãe…
E, no rústico terraço, que cobre toda uma ala da construção, ao sol quente que está aquecendo o ar, Jesus está dando lentamente uns passos, entre Maria e a grega, e diz:
– Amanhã nos separaremos por algum tempo. Perto de Arbela, vós, mulheres, junto com João de Endor, ireis para o Mar da Galileia, continuando juntos até Nazaré. Mas, para não mandar-vos sozinhas, só com um homem já bem enfraquecido, Eu vos farei acompanhar pelos meus irmãos e por Simão Pedro. Eu prevejo que haverá repugnância por esta separação. Mas a obediência é a virtude do justo. Passando pelas terras de que Cusa cuida em nome de Herodes, Joana pode ter escolta para o resto do caminho. Então, vós dispensareis a companhia dos filhos de Alfeu e de Simão Pedro. Mas o motivo pelo qual Eu pedi para subires até aqui é o seguinte: Quero dizer-te, Síntique, que Eu decidi que passes algum tempo na casa de minha Mãe. Ela já o sabe. Contigo ficarão João de Endor e Marziam. Estando lá, tratai-vos bem, formando-vos sempre mais na Sabedoria. Eu quero que tomes muito cuidado com o pobre João. À minha Mãe Eu nem digo isso, porque Ela não precisa de conselhos. Tu podes compreender João e ter dó dele e ele pode fazer-te muito bem, pois é um mestre experiente. Depois, Eu irei. Oh! Irei logo! E nos veremos frequentemente. Espero achar-te mais sábia no conhecimento da Verdade. Eu te abençôo particularmente, Síntique. Este é o meu adeus para ti, por esta vez. Em Nazaré, encontrarás amor e ódio, como em toda parte. Mas na minha casa encontrarás paz. Sempre.
– Nazaré me ignorará, e Eu a ignorarei. Viverei instruindo-me na Verdade e o mundo não será nada para mim, Senhor.
– Está bem. Vai, então, Síntique. E, por enquanto, silêncio. Mãe, tu sabes… Eu te confio estas minhas pérolas mais caras. Enquanto estamos em paz entre nós, minha Mãe, faze que o teu Jesus se restaure com as tuas carícias…
– Quanto ódio, meu Filho!
– Quanto amor.
– Quanta amargura, caro Jesus!
– Quanta doçura!
– Quanta incompreensão, meu Filho!
– Quanta compreensão, minha Mãe!
– Oh! meu Tesouro, querido Filho!
– Minha Mãe! Alegria de Deus e minha. Minha Mãe!
Beijam-se, ficando perto depois um do outro, sobre o banquinho de pedra que rodeia o pequeno muro do terraço, Jesus segurando abraçada sua Mãe, como um protetor amoroso e Ela estando com a cabeça sobre o ombro do Filho e as mãos nas mãos dele, felizes… O mundo está tão longe… sepultado por ondas de amor e de fidelidade…