224. 224. No apóstolo João atua o amor. Chegada a Beter.
20 de julho de 1945.
224.1 A comitiva apostólica passou por uma mudança em seu acompanhamento animal. Aqui não está mais o bode e , em lugar dele, estão uma ovelha e dois cordeirinhos. A ovelha, gorda e com os úberes cheios, e com dois cordeirinhos alegres como dois meninos. É um pequenino rebanho que, por ter um aspecto menos cabalístico do que o do bode, que era muito preto, agrada mais a todos.
– Eu vos havia dito que viria uma cabra, para fazer de Margziam um pequeno pastor feliz. Mas, em vez da cabra, já que de cabras não quereis saber, eis que vieram as ovelhas. E são brancas. Justamente como Pedro sonhava.
– Mas é certo! Parecia-me estar trazendo comigo Belzebu –diz Pedro.
– De fato, desde quando ele esteve conosco, sucederam-nos coisas bem desagradáveis. Era o feitiço que nos acompanhava –confirma irritado Iscariotes.
– Era, então, um bom feitiço, porque, que foi que aconteceu mesmo de mal? –diz calmamente João.
Todos se dirigem a ele, como para censurá-lo por sua cegueira.
– Mas não viste em Modin como fomos escarnecidos?
– E a ti parece nada aquela queda que o meu irmão levou? Ele podia ter ficado arruinado. Como poderíamos fazer para levá-lo para fora de lá, se ele tivesse quebrado as pernas ou a espinha?
– E ontem de noite, achaste bonito aquele interlúdio?
– Eu vi tudo, considerei tudo, e bendisse ao Senhor, porque não nos aconteceu nada de mal. O mal veio em direção a nós, mas depois fugiu, como sempre, e certamente aquele encontro serviu para deixar sementes de bem, tanto em Modin, como perto dos vinhateiros, que acorreram com a certeza de encontrar pelo menos um ferido, e com o pesar de terem sido sem caridade, tanto assim, que quiseram fazer uma reparação. O mesmo se diga perto dos ladrões de ontem à noite. Eles não fizeram nada de mal, e nós, isto é, Pedro, ganhou as ovelhas em troca do bode e, como presente por terem todos sido salvos, os pobres têm agora muito dinheiro pelas bolsas a nós dadas pelos mercadores e pelas ofertas das mulheres. E todos, e isto é o que vale mais, todos receberam bem as palavras de Jesus.
– João está com a razão –dizem Zelotes e Judas Tadeu.
E este último assim termina:
– Parece mesmo que cada coisa aconteça por um claro conhecimento do que está para acontecer. Encontrarmo-nos justamente lá, e com atraso por causa da minha queda, junto com aquelas mulheres cheias de jóias, junto com aqueles pastores com um rebanho gordo, junto àqueles mercadores carregados de dinheiro, magníficas presas para os ladrões! 224.2Meu irmão, dize-me a verdade: Sabias que tudo isso iria acontecer? –pergunta Tadeu a Jesus.
– Eu já vos disse muitas vezes que Eu leio nos corações e que, quando o Pai não dispõe de modo diferente, Eu não deixo de saber o que deve acontecer.
– Mas, às vezes, por que fazes erros, como aquele de ir ao encontro dos fariseus hostis, ou a cidades completamente hostis? –pergunta Judas Iscariotes.
Jesus olha para ele fixamente, e depois lhe diz calmamente e devagar:
– Não são erros, são necessidades de minha missão. Do médico precisam os doentes, e do Mestre os ignorantes. Tanto estes, como aqueles, às vezes repelem o médico e o mestre. Mas este, se for um bom médico e um bom mestre, continua a ir a quem os repele, porque o dever dele é ir. E Eu vou. Quereríeis vós que onde Eu me apresento caíssem todas as resistências. Eu o poderia fazer. Mas Eu não violento ninguém. Eu persuado. A coerção só é usada em casos muito excepcionais, e só quando os espíritos, iluminados por Deus, chegam a compreender que ela pode servir para persuadir de que Deus existe e que Ele é mais forte, ou então em caso de uma salvação coletiva.
– Será como o caso de ontem à noite? –pergunta Pedro.
– Ontem à noite, aqueles ladrões ficaram com medo, vendo que estávamos bem acordados para recebê-los –diz, com evidente desprezo, Iscariotes.
– Não. Eles ficaram persuadidos pelas palavras –diz Tomé.
– Sim! Assim te parece! São, na verdade, as almas ternas que se persuadem com duas palavras, ainda que sejam de Jesus. Eu sei daquela vez que fomos assaltados, eu com toda a família e muitos de Betsaida, no desfiladeiro de Adonim! –responde Filipe.
– Mestre, dize-me uma coisa. Desde ontem estou querendo te perguntar. Mas, afinal, foram as tuas palavras, ou a tua vontade que não deixaram acontecer nada? –pergunta Tiago de Zebedeu.
Jesus sorri e se cala.
Responde Mateus:
– Eu creio que tenha sido a sua vontade, que superou a dureza daqueles corações, e chegou a paralisá-la, a fim de poder falar e salvar.
– Eu também acho que é assim. É por isso que Ele quis ficar lá sozinho, olhando para o bosque. Ele os tinha subjugados pelo seu olhar, com sua confiança neles, e com sua calma, estando desarmado. Ele não tinha nem um pau!… –diz André.
– Está bem. Tudo isso somos nós que dizemos. São ideia s nossas. Eu quero saber o que o Mestre diz –diz Pedro.
Começa, então, entre eles uma discussão calorosa, que Jesus os deixa entabular, entre os que dizem que, tendo Jesus declarado que não força a ninguém, logo ele não terá usado de violência, nem mesmo com aqueles ladrões. E quem diz isso é Bartolomeu, enquanto Iscariotes, apoiado, ainda que levemente por Tomé, diz que ele não pode crer que o olhar de um homem possa fazer tudo aquilo.
Mateus o rebate, dizendo:
– Pode tudo aquilo, e mais ainda. Eu fui convertido pelo seu olhar, antes mesmo do que por suas palavras.
Os sim e os não entram em contraste, com violência, ficando cada qual obstinado em sua tese. João se cala, como Jesus, e fica sorrindo, com a cabeça inclinada, para esconder o seu sorriso. Pedro volta ao assalto, porque nenhuma das razões dos companheiros o persuade. Ele pensa e diz que o olhar de Jesus é diferente do de qualquer outro homem, e quer saber se é porque Jesus é o Messias, ou se é porque Ele é sempre Deus.
224.3 Jesus, então, fala:
– Em verdade, Eu vos digo que não somente Eu, mas quem quer que seja que esteja unido a Deus com uma santidade, uma pureza, uma fé sem rachaduras, poderá fazer o que Eu fiz e mais ainda. O olhar de um menino, se o seu espírito estiver unido ao de Deus, pode fazer desabar os templos vãos, sem fazer uso da sacudida de Sansão, pode instilar a mansidão às feras e aos homens-feras, pode repelir a morte, vencer as doenças do espírito, como a palavra de um menino unido ao Senhor, e feito instrumento do Senhor, pode também curar as doenças, tirar o veneno das serpentes e operar qualquer milagre. Porque Deus opera nele.
– Ah! Agora entendi –diz Pedro.
E olha, olha, olha para João. E depois ele termina todo um raciocínio que tinha consigo, dizendo em alta voz:
– Eis! Tu, Mestre, pudeste, porque és Deus, e porque és Homem unido a Deus. E assim sucede com quem sabe chegar, ou já conseguiu chegar a estar unido a Deus. Eu compreendi.
– Mas, não perguntas a ti mesmo qual a chave desta união, qual o segredo deste poder. Nem todos dentre os homens chegam a isso, e, no entanto, todos eles têm os mesmos requisitos para o conseguirem.
– É isto! Mas onde está a chave dessa força para unir-se a Deus e para dominar as coisas? Uma oração, ou palavras secretas…
– Há pouco, Judas de Simão acusava o bode de ser o culpado de todas as coisas más que nos aconteceram. Não há feitiços que dependam dos animais. Acabai com as superstições, que ainda são idolatrias, e que podem causar desventuras. E, visto que não há fórmulas para fazer feitiços, não há também palavras cabalísticas para operar milagres. O que existe é só o amor. Como Eu disse ontem de tarde, o amor acalma os violentos e sacia os ávidos. O Amor é Deus. Com Deus em vós, plenamente possuído, pelo merecimento de um amor perfeito, o olho se transforma em fogo que queima todos os ídolos, e derruba os simulacros, a palavra se torna Poder. E ainda: o olho torna-se arma que desarma. Não se resiste a Deus, ao Amor. Somente o demônio resiste, porque é ódio perfeito, e com ele resistem também os seus filhos. Os outros, os débeis possuídos por alguma paixão, mas que não se venderam voluntariamente ao demônio, não resistem a ele. Seja qual for a religião deles, o absenteísmo deles quanto a qualquer fé, seja qual for o seu nível de baixeza espiritual, são golpeados pelo Amor, que é o grande Vitorioso. Procura chegar a isto logo, e farás, então, o que fazem os filhos de Deus, os portadores de Deus.
224.4 Pedro não tira os olhos de João: Tomé, Zelotes, os filhos de Alfeu, Tiago e André, estão com a inteligência desperta e indagadora.
– Mas, então, Senhor –diz Tiago de Zebedeu–, que aconteceu com o meu irmão? Tu falas dele. É ele o menino que faz milagres? É isto? É assim?
– Que ele fez? Ele virou uma página do livro da vida, leu e conheceu novos mistérios. Nada mais. Ele vos precedeu, porque ele não fica parado, a pensar em todos os obstáculos, a medir todas as dificuldades, a calcular todas as vantagens. Mas não vê mais a terra. Vê a Luz e se dirige para ela. Sem fazer paradas. Mas, deixai-o como está. As almas, que consomem mais chamas, não se perturbam em seu ardor, que alegra e consome. Precisa deixá-las arder. É suma alegria e sumo cansaço. Deus lhes concede instantes de noite, porque sabe que o ardor mata as almas-flores, como o faz com as flores dos campos. Deixai sossegado o atleta do amor, quando Deus assim o deixa. Imitai os mestres de educação física, que concedem aos seus alunos os necessários descansos… Quando tiverdes chegado, vós também, ao ponto a que ele já chegou, e até além, porque ireis além tanto vós como ele, então compreendereis a necessidade do respeito, do silêncio, da penumbra, que experimentam aquelas almas de que o Amor fez suas presas e seus instrumentos. Não fiqueis agora pensando: “Então, eu terei prazer em ser assim conhecido, e João é um tolo, pois as almas do próximo, como as dos meninos, querem deixar-se seduzir pelo maravilhoso.” Não. Quando tiverdes chegado a esse ponto, tereis o mesmo desejo de silêncio e de penumbra que João tem agora. E, quando Eu não estiver mais no meio de vós, lembrai-vos de que, quando precisardes julgar a respeito de uma conversão ou de uma atitude de santidade, devereis sempre usar como medida a humildade. Se em alguém continua a haver orgulho, não vos enganeis, pensando que ele esteja convertido. E, se em alguém, ainda que seja chamado de “santo”, reinar a soberba, ficai certos de que santo ele não é. Poderá ele, como um charlatão e um hipócrita, viver bancando o santo, e até simular milagres. Mas ele não é. A aparência é hipocrisia, e os prodígios dele são satanismo. Compreendestes?
– Sim, Mestre…
Todos se calam, muito pensativos. Mas, se as bocas estão fechadas, podem adivinhar-se os pensamentos claros, pelos seus olhares e por suas expressões. Uma grande vontade de saber tremula, como uma aragem, ao redor deles…
224.5 Zelotes se esforça para entreter os companheiros, a fim de ter tempo para falar-lhes em particular, e certamente para aconselhá-los a se calarem. Eu tenho a impressão de que Zelotes exerce muito este ministério no grupo dos apóstolos. Ele é o moderador, o conciliador, o conselheiro dos companheiros, além de ser o que compreende muito bem o Mestre. Agora, ele diz:
– Estamos já nas terras de Joana. Aquele lugar em forma de berço é Beter. Aquele palácio sobre aquele cume é o seu castelo natal. Estais sentindo no ar este perfume? São os roseirais que, com o sol da manhã, começam a exalar seu perfume. A tarde, então, é que se espalha fortemente a fragrância. Mas agora é tão belo vê-los, nesta frescura da manhã, ainda recobertos pelo orvalho, como milhões de diamantes, jogados sobre milhões de botões, que se abrem. Quando o sol está para se pôr, colhem-se todas as flores chegadas a um desabrochar completo. Vinde. Quero mostrar-vos, de uma pequena elevação, a vista dos roseirais que transbordam do cume, como de uma cascata para baixo, pelos barrancos da outra vertente. É uma cascata de flores que depois, torna a subir, como uma onda, por sobre duas outras colinas. É um anfiteatro, um lago de flores. É esplêndido. O caminho é mais íngreme. Mas vale a pena ir por ele, porque daquela beira se domina todo este paraíso. E chegaremos logo também ao castelo. Lá Joana vive livre, no meio dos seus camponeses, a única guarda para tanta riqueza. Mas eles amam tanto a sua patroa que faz destes vales um éden de beleza e de paz, que eles valem muito mais do que os guardas de Herodes. Eis, olha, Mestre. Olhai amigos.
E, com um gesto, mostra um semicírculo de colinas invadidas pelos roseirais.
De todos os lados, por onde os olhares pararem verão roseiras e mais roseiras debaixo das árvores plantadas para formarem um abrigo contra o vento, contra os raios muito ardentes do sol e as chuvas de pedra. O sol bate e o ar passa de um lado para outro, até por debaixo desta coberta ligeira que mais parece um véu, mas que não abafa, conservando-se dentro das regras seguidas pelos jardineiros, e por baixo vivem felizes os mais belos roseirais do mundo. São milhares e milhares de plantas de todas as espécies de rosas. Roseiras anãs, roseiras baixas, altas, altíssimas. Colocadas em tufos, como almofadas bordadas com flores aos pés das árvores, sobre prados de ervas muito verdes, ou em sebes, ao longo dos caminhos, ao lado dos rios, em círculos, ao redor dos tanques de irrigação, espalhadas por este parque em parte formado por colinas, ou, então, enroladas nos troncos das árvores, com suas cabeleiras floridas, que se lançam de um tronco a outro, formando festões e grinaldas. Uma coisa verdadeiramente de sonho. Todos os tamanhos, bem como as matizes, aí estão presentes, e se trançam, pondo as cores do marfim perto do ardor cor de sangue de outras corolas, e reinando soberanas pelo número, as verdadeiras rosas da cor das maçãs do rosto das crianças, que se esfumam nos contornos, passando para o branco matizado de rosa.
Todos ficam impressionados com tão grande beleza.
– Mas, que se faz com tudo isso? –pergunta Filipe.
– Goza-se disso –responde Tomé.
– Não. Daí também se tiram essências, dando trabalho a centenas de servos, jardineiros e de empregados nas prensas das essências… Os romanos as procuram com avidez. Jônatas já me dizia isso, quando me mostrou as contas da última colheita. 224.6Mas lá vem Maria de Alfeu com o menino. Eles nos viram e estão chamando as outras…
De fato, eis que Joana e as duas Marias vêm vindo, precedidas por Margziam, que desce correndo, com os braços já em posição de abraço, em direção de Jesus e de Pedro. As mulheres, ligeiras, se prostram diante de Jesus.
– A paz esteja com todas vós. E minha mãe, onde está?
– Entre os roseirais, Mestre. Com Elisa. Oh! Elisa está bem curada! Ela já pode enfrentar o mundo e seguir-te. Obrigada por me teres usado para isso.
– Obrigado Eu a ti, Joana. Estás vendo como era útil vir para a Judeia? Margziam, eis dois presentes para ti. Este belo boneco e estas belas ovelhinhas. Eles te agradam?
O menino perdeu até o fôlego de alegria. Ele se inclina para Jesus, que se inclinou para dar-lhe o boneco, e ficou assim curvado para poder olhá-lo no rosto e o aperta ao pescoço, beijando-o com toda a veemência possível.
– Assim te faças humilde como as ovelhinhas e te tornes depois um bom pastor para os que crerem em Jesus. Não é verdade?
Margziam diz sim, sim, sim, com o fôlego entrecortado e com os olhos lúcidos de júbilo.
– Agora, vai a Pedro, que Eu vou para minha mãe. Eu estou vendo lá longe a orla do véu dela, que lá vai correndo ao longo de uma sebe de roseiras.
E corre para ir a Maria, recebendo-a sobre o coração, numa das curvas do caminho. Depois do primeiro beijo, Maria explica, ainda ansiosa:
– Aí atrás vem Elisa… Eu corri para te beijar, porque deixar de abraçar-te, meu Filho, eu não podia… e beijar-te diante dela eu não queria… Ela está muito mudada. Mas o coração sempre dói, diante das alegrias dos outros, que para sempre a ela são negadas. Ei-la chegando aí.
Elisa dá rapidamente os últimos passos, e se ajoelha para beijar a veste de Jesus. Não é mais aquela triste mulher de Betsur. Mas uma velha austera, marcada pela dor e, contudo, imponente pelos sinais que a dor lhe deixou no rosto e no olhar.
– Que Tu sejas bendito, meu Mestre, agora e sempre, por me teres devolvido aquilo que tinha perdido.
– Sempre mais paz a ti, Elisa. estou contente por encontrar-te aqui. Levanta-te.
– Eu também estou contente. Tenho muitas coisas para te dizer, para te pedir, Senhor.
– Para isso teremos o tempo todo, porque Eu permanecerei aqui alguns dias. Vem, que Eu vou te fazer conhecer os condiscípulos.
– Oh! Então, já compreendeste o que eu queria dizer? Isto é, que eu quero renascer para uma vida nova: a tua. Quero refazer minha família: a tua. Quero ter filhos: os teus. Como Tu disseste, quando falavas em Noemi, lá em minha casa, em Betsur. Sou eu uma nova Noemi, em tua graça, meu Senhor. Que Tu sejas bendito por isso. Não estou mais na amargura, nem infecunda. Ainda vou ser mãe. E, se Maria o permitir, um pouco tua mãe também, além de a ser dos filhos de tua doutrina.
– Sim. Tu o serás. Maria não ficará ciumenta por isso e Eu te amarei, de tal modo que não fiques chorando por teres vindo. Vamos agora àqueles que querem dizer-te que te amam como irmãos.
E Jesus a toma pela mão, levando-a para perto de sua nova família.
A viagem para a espera do Pentecostes chegou ao fim.