586. 586. O sábado antes da entrada em Jerusalém.A ceia de Betânia. Judas de Keriot decide.
28 de março de 1947.
586.1A ceia foi preparada na sala toda branca, onde Jesus falou às discípulas. É um completo esplendor de branco e de prata, no qual uma nuance menos clara e fresca é dada por uns feixes de ramos de macieiras ou pereiras, ou outras árvores frutíferas, cândidas como a neve, mas trazendo uma lembrança tão leve de rosas, que até faz pensar na neve que aflora de um beijo da aurora ainda distante. Eles se erguem de vasos bojudos ou de delicadas ânforas de prata por sobre as mesas e os escritórios e os armários perfilados ao longo das paredes da sala. As flores espalham pela sala aquele perfume característico de flores de árvores frutíferas, com o frescor e o agradável amargor de uma primavera pura.
Lázaro entra na sala ao lado de Jesus. Atrás dele, dois a dois ou em grupos mais espessos, vêm os apóstolos. Por últimos, as duas irmãs de Lázaro e Maximino. Não vejo as discípulas. Nem mesmo Maria eu estou vendo. Talvez elas tenham preferido ficar na casa de Simão ao redor da Mãe aflita.
O dia já se inclina para o crepúsculo. Mas alguns raios que ainda restam do sol batem nas cabeleiras sussurrantes de algumas palmeiras reunidas num grupos a poucos metros da sala, e os passarinhos brigam antes de irem descansar. Além das palmeiras e do loureiro, além das sebes e das roseiras, dos jasmineiros e dos canteiros de lírios do vale, de outras flores e plantinhas odoríferas, a mancha branca, borrifada pelo verde tenro das primeiras folhas, de alguns pés de macieiras ou de pereiras temporonas no pomar. Parece uma nuvem que ficou emaranhada por entre os ramos.
586.2Jesus, ao passar por perto de uma ânfora cheia de ramos, observa:
– Eles já estavam com as primeiras frutinhas. Olha só! Lá em cima estão as flores, enquanto mais abaixo, e já caída, a flor está com o ovário já inchado.
– Foi Maria quem as quis colher. E levou feixes delas também para tua Mãe. Ela se levantou ao alvorecer do dia, acho eu, por medo de que um dia a mais de sol acabasse com estas frágeis corolas. Fiquei sabendo, há pouco, dessa devastação. Mas eu não senti aquele desprezo que sentiram os servos e agricultores. Pelo contrário. Eu fiquei pensando que era justo oferecer-te todas as belezas da Criação, a Ti, Rei de todas as coisas.
Jesus se assenta em seu lugar, sorrindo, e olha para Maria que, junto com a sua irmã, se prontifica a servir como se fosse uma serva, levando os vasos da purificação e as toalhas, e depois servindo o vinho nos cálices e pondo sobre a mesa as bandejas com as iguarias, pouco a pouco, à medida que os servos as vão levando da cozinha, ou as oferecem depois de tê-las trinchado nas credências.
Naturalmente, se as irmãs servem com cortesia todos os comensais, os cuidados delas estão especialmente concentrados sobre dois comensais, que são para elas os mais queridos: Jesus e Lázaro.
586.3Em certo momento Pedro, que está comendo com bom apetite, faz uma observação:
– Olhem só! Agora é que eu percebi. Os pratos todos são como os que usamos na Galileia. Parece-me… Mas é mesmo. Parece-me estar em um jantar de núpcias. Só que aqui não falta o vinho, como faltou lá em Caná.
Maria sorri, preparando para o apóstolo mais um cálice de vinho aromatizado e muito claro. Mas não diz nada.
E é ainda Lázaro quem explica:
– Este foi de fato o pensamento das irmãs, especialmente de Maria: dar uma ceia na qual o Mestre tivesse a impressão de estar em sua Galileia, certamente melhor, muito melhor, ainda que também ela imperfeita, por não ter sido nestes lugares…
– Mas para fazê-los pensar nisso, quereríamos ver Maria aqui presente. Em Caná ela esteve. Foi por ela que o milagre aconteceu
–observa Tiago do Alfeu.
– Deve ter sido um grande vinho aquele!
– O vinho é símbolo de alegria e deveria ser também de fecundidade, pois o vinho é suco da videira fecunda. Mas não me parece ter fecundado muito. Susana1 não teve um filho –diz Iscariotes.
– Oh! Se era um bom vinho! Ele fecundou o nosso espírito…
–diz João, um pouco sonhador, como sempre acontece quando ele fica contemplando em seu interior os milagres operados por Deus.
E termina:
– Por uma virgem é que ele foi feito… e o influxo da pureza desceu em quem o saboreou.
– Mas crês tu que Susana é virgem? –pergunta, rindo-se, Iscariotes.
– Eu não disse isso. Virgem é a Mãe do Senhor. A virgindade emana de tudo aquilo que por Ela se realizou. Sempre eu penso que as coisas que são feitas por Maria vão buscar sua força na virgindade dela…
E de novo parece estar sonhando com alguma coisa, como se sorrisse diante de alguma visão feliz.
– Feliz deste rapaz! Eu acho que ele nem se lembra mais do mundo agora. Observai-o –diz Pedro, mostrando João, que está deitado sobre seu divã e vai partindo pedacinhos de pão, sem os comer.
Jesus também se inclina um pouco para ver João, que está a um canto, do lado da mesa em forma de U, e por isso está um pouco atrás das costas do Senhor, que fica no centro, do lado de dentro, tendo o seu primo Tiago à esquerda e Lázaro à direita; e, depois de Lázaro, estão Zelotes e Maximino, depois Tiago, o outro Tiago e Pedro, enquanto João está entre André e Bartolomeu, depois está Tomé, tendo à sua frente Judas, Filipe, Mateus e Tadeu, que está justamente no canto em que a mesa comprida do centro começa.
586.4Maria de Lázaro sai da sala, enquanto Marta coloca sobre a mesa as bandejas cheias de flores de figos novos, de hastes verdes de funcho, amêndoas frescas descascadas, morangos grandes ou framboesas, que sei eu, que parecem mais vermelhos por estarem no meio da esmeralda verde clara dos funchos e do leitoso das amêndoas, dos pequenos melões ou de outras frutas do gênero… Parecem-me serem daqueles melões verdes da baixa Itália, e das laranjas douradas.
– Já é tempo dessas frutas? Ainda não vi delas em nenhum lugar já maduras assim –diz, arregalando os olhos, Pedro, mostrando os morangos e os melões.
– Em parte eles vieram das praias de Gaza, onde eu tenho um pomar com esses produtos, e uma parte vem dos terraços que eu tenho acima da casa, dos viveiros de plantinhas mais delicadas e que é preciso proteger das geadas. Mas quem me ensinou a fazer assim foi um amigo romano… Só me ensinou isso de bom…
Lázaro ficou triste. Marta suspira… Mas Lázaro, de repente, volta a ser o hospedeiro perfeito, que não dá tristezas aos seus convidados.
– Nas cidades de Baia e Siracusa, e ao longo do arco de Sibaris é costume cultivar essas delícias por este método, para tê-las maduras antes do tempo. Comei: são as últimas laranja nos laranjais líbicos e os primeiros melões do Egito, que cresceram nos solários. Comei das amêndoas brancas de nossas terras do Lácio, das favas tenras, dos talos digestíveis, que têm o sabor do anis… 586.5Marta, pensaste no menino?
– Eu pensei em todos. Maria ficou comovida, ao se lembrar do Egito…
– Lá nós tínhamos algumas plantas em nosso pobre pomar. Nos dias de grandes calores era uma festa ir mergulhar os melões no poço do vizinho, que por aquele tempo era profundo e fresco, e os comermos de tarde… Eu me lembro… E eu tinha uma cabrita gulosa, que precisava ser vigiada, porque era ávida das plantas e frutas tenras…
Jesus, que falava com a cabeça um pouco inclinada, levanta-a e fica olhando as palmeiras, que se agitam ao vento da tarde que já vem chegando:
– Quando eu vejo aquelas palmas, fico lembrando-me do Egito… daquela terra amarelada e arenosa, que o vento movia facilmente do chão e lá ao longe tremiam ao ar rarefeito as figuras das pirâmides… Os caules altos das palmeiras… e a casa onde… Mas é inútil dizer… A cada tempo a sua preocupação e, com sua preocupação, a alegria… Lázaro, tu me darias algumas dessas frutas? Eu as quereria levar para Maria e Matias. Eu acho que Joana não tem dessas.
– Ela não tem, pois dizia ontem quando falava de sua intenção de cultivá-las em Beter, fazendo construir uns solários. Mas no momento não posso dar, porque apanhei todas as que estavam boas e por alguns dias vamos ficar sem frutas maduras. Mas eu as mandarei ou, então, manda alguém vir apanhá-las na quinta-feira. Prepararemos com elas uma bonita cesta para os meninos. Não é assim, Marta?
– Sim, meu irmão. E colocaremos no meio os pequenos lírios dos vales, que muito agradam a Joana.
586.6Maria Madalena está de volta e vai entrando. Ela traz nas mãos uma ânfora de gargalo fino, que termina em um pequeno bico muito gracioso, como o pescoço de um passarinho. É feito de alabastro, de uma cor amarela rosada, como a pele de certas pessoas louras.
Os apóstolos olham para ela, talvez pensando que ela vai levando algum prato raro. Mas Maria não vai para o centro, para o meio do U da mesa, onde está sua irmã. Passa por detrás das cadeiras-leitos, vai colocar-se entre a de Jesus e a de Lázaro e aquela onde estão os dois Tiagos. Ela destampa o vaso de alabastro e põe a mão por baixo do biquinho, para recolher algumas gotas de um líquido que pinga e está escorrendo lentamente da ânfora aberta. Uma fragrância fina de tuberosas e de outras essências, um perfume intenso e muito agradável se espalha pela sala. Mas Maria não está contente com aquele pouco que está caindo. Ela se inclina e quebra o pescoço da ânfora com uma pancada certeira contra o canto do pequeno divã de Jesus. O gargalo cai por terra, espalhando sobre o mármore do pavimento as gotas perfumadas. Agora a ânfora está com uma boca larga e a exuberância do unguento extravasa para todos os lados.
Maria se coloca atrás de Jesus e derrama o óleo espesso sobre a cabeça do seu Jesus, impregna todos os seus cabelos e os puxa, para depois alinhá-los com um pente, que tira dos seus cabelos, e os põe em ordem sobre a adorável cabeça. A cabeça louro-avermelhada de Jesus brilha como se fosse de ouro escuro, que fica muito luzidio depois de feita aquela unção. A luz do lampadário, que os servos acenderam, se reflete sobre a cabeça loura de Cristo como sobre um capacete de um bronze acobreado e muito bonito. O perfume é inebriante. Penetra pelas narinas, sobe à cabeça. É excitante como o rapé, quando usado assim puro e sem mistura.
Lázaro, com a cabeça virada para trás, sorri ao ver com que cuidado Maria está ungindo e alinhando as madeixas de Jesus para que a cabeça dele apareça em ordem depois da fricção perfumada. E não se preocupa com as próprias tranças, que, não mais sustentadas pelo pente largo que ajuda os grampos a cumprirem suas tarefas, vão-se abaixando cada vez mais por sobre o pescoço, e já perto de se afrouxarem para baixo completamente, por cima dos ombros. Até Marta está olhando e sorri. Os outros estão falando entre si, em voz baixa, com diversas expressões nos rostos.
Mas Maria ainda não está satisfeita. Ainda há muito unguento no vaso quebrado, e os cabelos, mesmo sendo muitos, já estão saturados dele. Então Maria repete o gesto de amor2 que ela fez numa tarde já distante. Ela se ajoelha aos pés do divã, tira as fivelas das sandálias de Jesus e, mergulhando no vaso os longos dedos de sua mão muito bonita, tira de lá o mais que pode do unguento e o passa, o espalha por sobre os pés nus, dedo por dedo, depois pelas plantas dos pés e pelos calcanhares e por cima dos tornozelos, que ela descobre, jogando para trás a veste de linho; e, por último, passa sobre o dorso dos pés, demorando-se lá sobre os metatarsos, onde vão entrar os tremendos cravos, e continua a tirar, até não encontrar mais, o bálsamo de dentro do pequeno vaso, e depois o quebra, jogando-o no chão e, ficando com as mãos livres, desfaz rapidamente suas pesadas tranças, e retira, com aquela meada de ouro viva, macia e fluente, o resto que sobrou da unção dos pés de Jesus, dos quais está gotejando o bálsamo.
586.7Judas — que até aqui tinha ficado calado e observando, com um olhar impuro de luxúria e de inveja, a belíssima mulher e o Mestre, a quem ela estava ungindo na cabeça e nos pés — levanta agora a voz, a única voz de aberta censura. Os outros, não todos, mas alguns, tinham murmurado um pouco ou feito algum gesto de desaprovação e espanto, mas de modo pacato. Judas, porém, que se pôs de pé para ver melhor a unção feita nos pés de Cristo, diz atrevidamente:
– Eis uma coisa inútil, um esbanjamento pagão. Para que fazer isso? E depois não se quer que os membros do Sinédrio murmurem contra o pecado! Esses são atos de cortesãs lascivas e não condizem com a nova vida que Tu dizes viver, ó mulher. Elas fazem recordar-se demais o teu passado!
O insulto é tão grande que todos ficam atordoados. E então, todos se agitam, assentam-se nas pequenas camas, outros se põem de pé, e todos ficam olhando para Judas, como se ele fosse alguém que tivesse ficado doido de repente.
Marta está para explodir. Lázaro se levanta de repente, dá um murro na mesa, e diz:
– Em minha casa…
Mas depois olha para Jesus e se contém.
– Sim. Estais olhando para mim? Todos vós estáveis murmurando em vossos corações. Mas agora que eu me fiz vosso eco e disse abertamente o que estáveis pensando, eis que estais prontos para dizer que eu não tenho razão. Eu repito aquilo que eu disse. Não quero chegar a dizer que Maria seja a amante do Mestre. Mas digo que certos atos não são convenientes nem para Ele nem para ela. É uma coisa imprudente. E até injusta. Sim. Para quê todo esse gasto? Se ela queria destruir a lembrança do seu passado, podia entregar-me aquele vaso e aquele unguento. Pelo menos uma libra de nardo puro havia nele! E de alto preço. Além disso, eu podia também vender o vaso, que era bonito e precioso. Eu teria dado os denários aos pobres que nos assediam. Pobres nunca faltam. E amanhã em Jerusalém serão muitíssimos os que pedem uma esmola.
– Isto é verdade –concordam os outros–. Podias usar de um pouco dele com o Mestre e o que sobrasse…
586.8Maria Madalena está como se fosse surda. Continua a limpar os pés de Cristo com os seus cabelos soltos, que agora chegam até embaixo, porque estão pesados pelo unguento, e mais escuros do que no alto da cabeça. Os pés de Jesus estão lisos e macios, em sua cor de marfim velho, como se estivessem cobertos com uma epiderme nova. E Maria põe de novo as sandálias nos pés de Cristo e beija cada um dos pés, antes e depois de os ter calçado, surda a todos os outros assuntos que não sejam o seu amor por Jesus.
E Jesus a defende, pousando a mão sobre a cabeça inclinada dela, ao dar ela o seu último beijo, e dizendo:
– Deixai que ela o faça. Por que é que a fazeis sofrer e a aborreceis? Vós não sabeis o que ela fez. Maria cumpriu um dever fazendo uma boa ação para comigo. Pobres sempre os tereis entre vós. Mas Eu estou para ir embora. Pobres sempre haverá. Mas daqui a pouco não me vereis mais. Aos pobres podereis sempre dar uma esmola. A Mim, daqui a pouco, ao Filho do Homem entre os homens, não será mais possível prestar honra alguma por causa da vontade dos homens e porque a hora marcada terá chegado. O amor para ela é luz. Ela percebe que Eu estou para morrer, e quis antecipar para o meu corpo as unções que se fazem antes da sepultura. Em verdade Eu vos digo que nos lugares em que for pregada a Boa Nova lembrar-se-ão deste ato dela cheio de um amor profético. Isso em todo o mundo e em todos os séculos. Quisera Deus fazer de cada criatura uma outra Maria, que não faz caso do valor, que não alimenta apego, que não conserva lembrança ainda que bem pequena do passado, mas destrói e espezinha tudo o que é da carne e do mundo. Mas se reparte e se distribui, como fez com o nardo e o alabastro sobre o seu Senhor, e por amor dele. Não chores, Maria. Eu te repito neste momento as palavras que disse a Simão, o fariseu, e a Marta3, tua irmã: “Tudo é perdoado porque soubeste amar totalmente.” “Tu escolheste a melhor parte. E não te será tomada.” Vai em paz, minha doce ovelhinha reencontrada. Vai em paz. As pastagens do amor serão o teu eterno alimento. Levanta-te. Beija também as minhas mãos que te absolveram e abençoaram… Quantos já foram absolvidos, abençoados, curados e beneficiados por estas minhas mãos! E no entanto Eu vos digo que o povo ao qual prestei benefícios está preparando para estas mãos a tortura…
586.9Faz-se um silêncio pesado, no ar pesado por causa daquele penetrante perfume. Maria, com os cabelos soltos sobre os ombros como se fossem um manto, e sobre o rosto como se fosse um véu, beija a mão direita que Jesus lhe estende e já não consegue afastar dela os seus lábios…
Marta, comovida, vai para perto dela e lhe ajunta os cabelos soltos, e os trança, acariciando-a depois e espalhando-lhe o pranto pelas faces, procurando assim enxugá-lo…
Ninguém mais tem vontade de comer… As palavras de Cristo os fazem pensar.
O primeiro a levantar-se é Judas de Alfeu. Ele pede licença para retirar-se.
Tiago, irmão dele, o imita, e assim fazem André e João. Ficam os outros, mas já de pé, ocupados em purificar as mãos nas bacias de prata que os servos lhes estendem. Maria e Marta fazem o mesmo com o Mestre e com Lázaro.
586.10Entra um servo e se inclina para falar com Maximino.
– Mestre –diz Maximino, depois de o ter ouvido–, há pessoas que quereriam ver-te. Elas dizem que vêm de longe. Que faremos?
Jesus chama Filipe, Tiago de Zebedeu e Tomé e lhes dá esta ordem:
– Ide, evangelizai, curai, fazei tudo isso em meu Nome. E anunciai-lhes que amanhã subirei ao Templo.
– Será bom dizer isso, Senhor? –pergunta Simão, o Zelotes.
– É inútil deixar de dizê-lo, porque já foi dito, mais pelos inimigos do que pelos amigos, na Cidade Santa. Ide!
– Hum! Para que o saibam os amigos, vá lá! Mas eles não traem. Eu não sei é como é que os outros podem sabê-lo.
– Entre os muitos amigos sempre há algum inimigo, Simão de Jonas. Já são demais… os amigos, e com muita facilidade acolhidos como tais. Quando eu penso quanto tive que insistir e esperar! Eu!… Mas eram aqueles os primeiros tempos e nós não tomamos muito cuidado. E isso foi um mal. Mas isso acontece com todos os vencedores. As vitórias perturbam a limpidez da vista e enfraquecem a prudência no agir. Eu falo de nós, discípulos, naturalmente. Não do Mestre. Ele é perfeito. Se tivéssemos ficado no fim só nós doze, não se poderia tremer por medo de traições –mente desavergonhadamente Judas de Keriot.
É indescritível o olhar que Cristo pousou sobre o apóstolo traidor. É um sinal de advertência e de uma dor infinita. Mas Judas não o interpreta assim. Ele, passando pela frente da mesa, vai andando como quem quer sair… 586.11Jesus o acompanha com o olhar, e quando vê que ele vai sair mesmo, lhe pergunta:
– Aonde vais?
– Para fora… –responde evasivamente Judas.
– Para fora deste quarto ou para fora desta casa?
– Para fora… assim… Para caminhar um pouco.
– Não vás, Judas. Fica comigo, conosco…
– Já se foram embora os teus irmãos e João com André. Por que eu não devo ir?
– Tu não vais descansar como eles…
Judas nada responde, mas obstinado, sai. As palavras não se ouviram mais na sala. Os hospedeiros e os quatro apóstolos: Pedro, Simão, Mateus e Bartolomeu ficaram. Eles se olham uns aos outros.
Jesus olha para fora. Ele se levanta e vai para uma das janelas a fim de acompanhar com a vista os gestos de Judas e, quando o vê saindo da casa já vestido com o manto e dirigindo-se para a cancela, que daqui não se vê, chama-o em voz alta:
– Judas, espera-me! Eu preciso te dizer uma coisa –e empurra levemente Lázaro que, prevendo algum sofrimento para o Mestre, o tinha segurado com um braço pela cintura.
Ele sai da sala e alcança Judas, que continuou a caminhar ainda que mais lentamente.
586.12Jesus o alcança a um bom terço da distância entre a casa e a cerca do jardim, perto de um pequeno bosque com plantas de folhas grossas, parecendo uma cerâmica verde escura, toda coberta de pequenas flores, em ramalhete; e cada flor é uma cruzinha com umas pétalas amareladas e de um intenso perfume, mas cujo nome eu não sei.
Jesus o puxa para trás daquela moita e, sempre segurando-lhe a mão apertada sobre o antebraço, torna a perguntar-lhe:
– Aonde vais, Judas? Eu te peço. Fica aqui!
– Tu, que tudo sabes, por que me perguntas? E que necessidade tens de perguntar? Tu sabes que eu vou aos meus amigos. Tu não me dás licença de ir a eles. Mas eu vou.
– Os teus amigos! À tua ruína é o que deves dizer. Tu vais para ela. Vais aos teus verdadeiros assassinos. Não vás, Judas! Não vás! Tu vais cometer um delito… Não vás, Judas! Não vás! Tu vais cometer um delito… Tu…
– Ah! Tens medo?! Afinal, tens medo?! Afinal, te sentes homem finalmente! És um homem! Nada mais do que um homem. Porque somente o homem tem medo da morte. Deus sabe que não pode morrer. Se procedesses como Deus, saberias que não poderias morrer e não terias medo. Porque tu, agora, agora que sentes a morte perto de ti, tens esse medo comum a todos os homens, e procuras por todos os meios afastá-la, e ficas vendo em toda parte e em cada coisa um perigo. Onde estão tuas belas audácias? Onde os protestos firmes de estares contente e de teres sede de consumares o Sacrifício? Não tens mais nem mesmo um eco no coração! Tu pensavas que essa hora nunca chegaria e te fazias de forte, de generoso, e dizias frases solenes. Vai! Tu não és menos do que aqueles que chamavas de hipócritas! Tu nos lisonjeaste e nos traíste. A nós que por Ti havíamos deixado tudo. A nós que por tua causa somos odiados. Tu és a causa de nossa ruína…
– Basta. Vai! Vai! Há bem pouco tempo tu me disseste: “Ajuda-me a ficar. Defende-me!” E eu o fiz. E que foi que valeu? Dize-me ainda uma coisa, mas pensa bem antes de dizê-la. É esta a tua vontade? Esta de ir para os teus amigos e de preferi-los a Mim?
– Sim. É esta. Não preciso pensar, porque há tempo que eu só tenho essa vontade.
– Então, vai. Deus não contraria a vontade do homem –e Jesus lhe volta as costas, retornando vagarosamente para casa.
586.13E quando já está perto dela, levanta a cabeça atraído pelo olhar de Lázaro, que está de pé no mesmo lugar de antes, e virado para Ele… E é com rosto muito pálido que ele se esforça para sorrir ao amigo fiel.
Torna a entrar na sala, onde os quatro apóstolos estão falando com Maximino, enquanto Marta e Maria dirigem o trabalho dos servos, que estão pondo em ordem a sala, tirando a louça e tudo mais que foi usado no banquete.
Lázaro foi para a soleira da porta, tomou de novo Jesus pela cintura e, passando por um servo, lhe disse:
– Traze-me aquele rolo que está sobre a mesa do meu quarto de trabalho.
Ele leva Jesus para uma daquelas cadeiras grandes que estão ao lado das janelas, a fim de que Jesus se assente nela. Mas Jesus fica de pé, procurando prestar atenção em tudo o que Lázaro lhe diz… Mas é visível que o seu pensamento está em outro lugar e que o seu coração está muito aflito, ainda que, quando se lembra de que está sendo observado pelos apóstolos, Ele sorria para desfazer a suspeita que está no coração de alguém que está perto dele e que cochicha com o vizinho, e pisca os olhos mostrando o Mestre.
O servo volta com o rolo, e Pedro, visto que aqueles pergaminhos contêm coisas mais profundas do que sua cabeça possa entender, se retira, dizendo:
– Os peixes não comem certas iscas. É melhor ir falar com Maximimo sobre plantas e culturas.
Marta continua o seu trabalho. 586.14Maria, mesmo ficando calada, acompanha as palavras de Lázaro, que está mostrando ao Mestre alguns pontos assinalados nos pergaminhos, e dizendo:
– Não é que fez uma previsão singular este pagão? Mais do que muitos de nós. Talvez… se ele tivesse estado aqui enquanto Tu és o nosso Mestre, teria estado entre os teus discípulos e teria sido um dos melhores. E te teria entendido como muitos dentre nós não sabem entender. E que poema teria sugerido ao seu gênio a sua admiração por Ti. As tuas palavras teriam sido recolhidas e conservadas por um espírito que é luminoso, apesar de ser pagão. A tua vida descrita por uma inteligência aberta e límpida! Nós não temos mais escritores e poetas! Tu nasceste tarde. Quando o egoísmo da vida e a corrupção religiosa e social já haviam extinguido em nós a poesia e o gênio. Aquilo que, sem te conhecerem, os nossos sábios e profetas escreveram sobre Ti não encontrou ressonância na voz viva de algum dos teus seguidores. Os teus prediletos, os teus fiéis são, em sua maior parte, gente sem instrução. E os outros… Não. Não temos mais xioelet4 (digo como é pronunciado) para transmitirem às multidões a tua sabedoria e a tua figura. Nós não os temos mais, porque faltam-nos o espírito e a vontade mais do que a capacidade de o fazer. A parte humanamente mais eleita de Israel é surda como uma trompa velha, e não sabe mais cantar as glórias e maravilhas de Deus. O meu temor é que tudo se perca ou seja alterado, pela incapacidade ou pela má vontade…
– Isso não acontecerá. O Espírito do Senhor, quando já estiver estabelecido no interior dos corações, repetirá as minhas palavras e aplicará o sentido delas. É o Espírito de Deus que fala pelos lábios do Cristo. Depois… Depois falará diretamente aos espíritos e os fará lembrarem-se de minhas palavras.
586.15– Oh! Se isso fosse logo! Logo mesmo, pois as tuas palavras têm sido tão pouco escutadas e, menos ainda, tão pouco entendidas. Eu penso que, violento como um fogo que lança chamas, há de ser o rugido do Espírito de Deus, para esculpir com violência nas mentes aquilo que não quiseram acolher, porque era doce e brando. Eu penso que o Espírito chamejante queimará com suas chamas as consciências tíbias ou entorpecidas, escrevendo sobre elas as tuas palavras. O mundo deverá te amar. O Altíssimo assim o quer. Mas quando será isso? –diz Madalena com o seu ímpeto habitual.
– Quando Eu me tiver consumado no Sacrifício de amor. Então é que o Amor virá. Será como a chama bela que se levanta por sobre a Vítima imolada. E não se apagará essa chama, porque o Sacrifício não cessará. Uma vez que tenha sido estabelecido, durará por todo o tempo que durar a terra.
– Mas, então… Tu deverias mesmo ser imolado para que isso acontecesse?
– Assim é.
E Jesus faz o seu gesto habitual de adesão à sua própria sorte, com suas mãos viradas para fora, e inclina a cabeça. Depois a levanta de novo a fim de sorrir para Lázaro aflito, e diz:
– Mas não será violenta como um rugido a voz imaterial do Espírito de Amor, mas será doce como o Amor, o qual é suave como o vento de Nisã e, contudo, forte como a morte. É o inefável ministério do Amor! O complemento, a realização do meu ministério. O aperfeiçoamento do meu ministério de Mestre… Eu não tenho medo, como tu tens, ó Maria, que nada se perca daquilo que Eu dei. Pelo contrário, em verdade Eu te digo que raios de luz serão lançados sobre minhas palavras e vereis nelas o espírito. Eu me vou serenamente, porque entrego a minha doutrina ao Espírito Santo e o meu espírito ao Pai.
586.16Jesus inclina a cabeça, pensando, e depois, tendo colocado o rolo que deu origem àquela conversação sobre uma espécie de alta credência, ou cofre de ébano ou de outra madeira escura, toda marchetada com marfim amarelado, que quatro servos haviam transportado do quarto vizinho, e na qual Marta está pondo em ordem as louças mais preciosas, diz:
– Lázaro, vem para fora. Eu preciso falar-te!
– Já vou indo Senhor!
E Lázaro se levanta da cadeira na qual estava sentado e acompanha Jesus pelo jardim, que já vai ficando escuro enquanto vai morrendo no céu a última luz do dia, estando ainda fraco demais o primeiro esplendor da lua, que mal se manifesta.
586.17– Aqui –diz Jesus–, colocarás a visão de 2 de março de 1945: “O adeus a Lázaro”, desde este ponto: “Jesus caminha, dirigindo-se para além do jardim, lá para onde está o sepulcro que foi de Lázaro.”
1 Susana, agora discípula, está mencionada em 51.1/2 como a esposa das núpcias de Caná, a quem está dedicado o capítulo 52.
2 o gesto de amor, descrito em 236.2/3.
3 a Simão, o fariseu, em 236.4; e a Marta, em 377.5.
4 xioelet: Os judeus — anota Maria Valtorta numa cópia datilografada — chamavam assim aqueles que falavam nas reuniões. Os livros sapienciais são compostos por palavras dos scioelet contidas nos rótulos das Escrituras.
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