306. 306. Também Simão Zelotes em Nazaré.Lições sobre o perigo do Óócio.


18 de outubro de 1945.

306.1 A tarde chega cedo em dezembro, e cedo se acendem as lâmpadas e se reúne a família em uma só sala. Isto é o que acontece também na casinha de Nazaré e, enquanto as duas mulheres trabalham, uma no tear e a outra com a agulha, Jesus, com João de Endor, sentados à mesa, conversam um com o outro em voz baixa, e Marziam está acabando de lixar dois cofres, que estão no chão.

O menino procura caprichar, com toda a força que tem, até que Jesus, tendo-se levantado e inclinando-se para a madeira, passa a mão sobre ela e diz:

– Agora, basta. Já está bem lisa e a poderemos envernizar amanhã. Agora põe todas as coisas em seus lugares, que amanhã continuaremos a trabalhar.

E, ao ir Marziam com seus apetrechos de polimento — são espátulas duras com peles raspentas de peixe pregadas nelas, para fazerem o que faz o nosso papelão com pequeninos fragmentos de vidro, e facas, que não são de aço, usadas nesse mesmo serviço — Jesus pega com seus braços robustos um dos cofres e o leva para a oficina, onde certamente ele vai ser trabalhado, porque lá se faz o trabalho de serrar e cortar as aparas, junto a um dos bancos, colocado para isso no centro da oficina. Marziam já colocou em seus lugares as suas ferramentas, pendurados em seus ganchos os seus apetrechos, e agora está ajuntando as aparas para jogá-las ao fogo, como ele diz, e gostaria de ir agora varrer o pó da serra, mas João de Endor acha melhor que ele mesmo o faça. Tudo está em ordem, quando Jesus chega com o segundo cofre, que Ele coloca perto do primeiro.

306.2 E os três estão para sair, quando ouvem bater à porta da casa e, logo depois, a voz grave do Zelotes ressoa como uma saudação profunda feita à Maria:

– Eu te saúdo, Mãe do meu Senhor, e bendigo a vossa bondade, que me concede poder morar debaixo do vosso teto.

– Simão chegou. Agora vamos saber qual a razão do seu atraso.Vamos… –diz Jesus.

Quando entram na pequena sala, onde está o apóstolo com as mulheres, ele está procurando livrar-se de um grande volume que traz às costas.

– A paz a ti, Simão…

– Oh! Mestre bendito! Eu estou atrasado, não é? Mas procurei fazer tudo e bem…

Eles se beijam. Depois Simão continua a sua exposição dos acontecimentos:

– Estive com a viúva do lenhador1. Os socorros que mandaste chegaram na hora. A velha está muito doente e por isso as despesas aumentaram. O pequeno carpinteiro se aplica em trabalhar em objetos pequenos como ele, e está sempre lembrando-se de Ti. Todos Te bendizem. Depois, eu fui a Nara, Samira e Sira. O irmão está mais duro do que nunca. Mas elas estão em paz, como santas que são, e comem o seu pobre pão temperado com o pranto e o perdão. Elas te bendizem pelo socorro enviado. Mas te suplicam que rezes para que seu duro irmão se converta. Também a velha Raquel Te agradece pela esmola. Finalmente, eu estive em Tiberíades, para as compras. Espero tê-las feito bem. Agora as mulheres irão vê-las. Em Tiberíades eu fui detido por alguns que pensavam que eu fosse um teu estafeta. Eles me detiveram durante três dias… Oh! Uma prisão dourada, para quem gostar dela! Porque, enfim, sempre é uma prisão. Eles queriam saber muitas coisas… Eu falei a verdade, dizendo-lhes que tu nos havias licenciado, e que, por tua vez, te havias retirado durante o tempo mais duro do inverno… Quando eles se persuadiram de que era verdade, e também porque eles foram conversar com Simão de Jonas e com Filipe, sem terem te encontrado e sem mais notícias de Ti, foi, então, que eles me deixaram vir-me embora. Pois também a desculpa de mau tempo perdeu o valor, com estes belos dias que estamos gozando agora. Esta a razão por que me atrasei.

– Não tem importância. Teremos tempo para estarmos juntos. Eu te agradeço por tudo… 306.3Mãe, olha com Síntique o que há no embrulho, e dize-me se te parece suficiente para aquilo que já sabes… –e, enquanto as mulheres desembrulham o volume, Jesus vai sentar-se, e está falando com Simão.

– E Tu, que fizeste, Mestre?

– Eu fiz dois cofres, para não ficar à toa, e porque eles serão úteis.Tenho passeado e aproveitado de minha casa…

Simão olha para ele fixamente… Mas nada diz.

As exclamações de Marziam que vê como vão saindo do embrulho panos, lãs, sandálias, véus e cintos, fazem que se virem para aquele lado Jesus e os seus dois companheiros.

Maria diz:

– Vai tudo bem, muito bem. Nós vamos começar já, e logo tudo estará cosido.

O menino pergunta:

– Vais casar-te, Jesus?

Todos se riem, e Jesus pergunta:

– Por que é que tens esta suspeita?

– Por causa destas roupas que são para homem e para mulher, e por causa dos dois cofres que fizeste. São para o teu enxoval e para o da esposa. Tu farás com que eu a conheça?

– Queres mesmo conhecer a minha esposa?

– Oh! Sim. Como deve ser bonita e boa. Como se chama?

– Por enquanto, isso é um segredo. Porque ela tem dois nomes, como tu, que primeiro eras Jabé, e depois Marziam.

– E eu não posso saber quais são?

– Por enquanto, não. Mas um dia saberás.

– Tu me convidas para os esponsais?

– Não vai ser uma festa para meninos. Mas Eu te convidarei para a festa do casamento. Serás um dos convidados e uma das testemunhas. Está bem assim?

– Mas, vai ser daqui a quanto tempo? Um mês?

– Oh! Muito mais!

– E, então, por que é que trabalhaste com tanta pressa, que te saíram até bolhas nas mãos?

– Elas vieram, porque Eu perdi o hábito de trabalhar com as mãos. 306.4Vê, menino, como a ociosidade nos faz mal? Sempre. Pois, quando voltamos ao trabalho, sofremos o dobro, porque ficamos muito delicados. Pensa! Se nos faz mal assim às mãos, que mal não nos fará à nossa alma? Estás vendo? Nesta tarde Eu precisei te dizer: “ajuda-me”, porque Eu estava com tanta dor na mão que nem podia segurar a grosa, enquanto que, dois anos antes, Eu era capaz de trabalhar até catorze horas cada dia, sem sentir dor. A mesma coisa acontece com quem se torna tíbio no fervor, na vontade. Ele se entrega sem resistência, pois tornou-se fraco, e nele penetram os venenos das doenças espirituais. Com dupla dificuldade é que ele agora realiza as boas obras, que antes tinha toda a facilidade para realizar, porque ele estava sempre se exercitando nelas. Oh! Nunca é conveniente ficar na ociosidade, como aqueles que dizem: “Quando passar este período, eu vou voltar mais disposto ao trabalho!” Ele não o conseguiria, a não ser com grande fadiga.

– Mas Tu não ficaste na ociosidade!

– Não. Eu tenho feito outro trabalho. Mas, não vês como a ociosidade de minhas mãos foi prejudicial a elas mesmas?

E Jesus mostra as palmas avermelhadas e com bolhas aqui e ali.

Marziam as beija, dizendo:

– Era assim que minha mãe me fazia, quando eu me machucava, porque o amor cura.

– Sim, o amor cura de muitas coisas… Pois bem. vem, Simão, tu dormirás no quarto do carpinteiro. Vem, então, que Eu te vou mostrar onde podes colocar as tuas vestes e… –e eles saem dali, e tudo termina.

1 viúva do lenhador, do qual se tratou em 266.2, 267, 268.1/2, 269.1. Nara, Samira e Sira, abaixo indicadas, são as irmãs mencionadas em 277.2.


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