164. 164. O retiro sobre o monte para a eleição apostólica.
15 de maio de 1945.
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164.1 Parecem que as barcas de Pedro e de João estão velejando sobre o lago tranquilo, acompanhadas por todas as embarcações que estavam à margem em Tiberiades. As barcas e barquinhas são em grande número, que vão e vêm, procurando alcançar, ou até ultrapassar a barca de Jesus, para depois, colocarem-se atrás dela. Sobre as ondas azuis cruzam-se orações, súplicas, clamores e pedidos.
Jesus, em sua barca, leva também Maria e a mãe de Tiago e Judas, enquanto na outra barca, com o filho João, estão também Maria Salomé e Susana. Jesus está prometendo, respondendo e abençoando incansavelmente:
– Eu voltarei. Sim. Eu vo-lo prometo. Sede bons. Lembrai as minhas palavras, para uni-las às que vos direi depois. Será uma breve separação. Não sejam egoístas. Eu vim para os outros também. Bons! Sede bons. Senão faríeis mal a vós mesmos. Sim. Rezarei por vós. O Senhor esteja convosco. Certamente, Eu vou me lembrar do teu pranto, serás consolado. Espera, tem fé!
E assim, seguindo para a frente, com Ele abençoando e prometendo, a barca já vai se aproximando da beira. Aqui não é Tiberíades, mas um lugarejo bem pequeno, um punhado de casas pobres e quase abandonadas. Jesus e os seus descem as barcas que voltam por onde vieram, levadas pelos empregados de Zebedeu. As outras barcas também as imitam, e muitos resolvem descer aqui e, a todo custo, querem acompanhar Jesus. Entre eles estou vendo Isaque com seus dois protegidos, José e Timoneu. Não reconheço outros entre os muitos de todas as idades, desde adolescentes, até velhos.
164.2Jesus se retira do lugarejo, o qual fica indiferente a tudo, pois seus habitantes, além de serem poucos, são também muito maltrapilhos. Jesus manda que lhes sejam dadas algumas esmolas, e depois se dirige para a estrada mestra. Ele para e diz:
– Agora separemo-nos. Mãe, tu com Maria e Salomé, vão para Nazaré. Susana pode voltar para Caná. Eu estarei de volta logo. Sabeis o que tendes a fazer. Deus esteja convosco!
Mas para sua mãe, Jesus tem uma saudação especial, com um grande sorriso, também, quando Maria se ajoelha, dando o exemplo às outras, para ser abençoada, Jesus sorri com grande doçura. As mulheres, com as quais estão Alfeu de Sara e Simão, vão indo para a sua cidade.
Jesus se vira para os que ficaram:
– Eu vos deixarei. Mas, não vos mando embora. Deixo-vos por algum tempo., Vou me afastar com estes para aqueles desfiladeiros, que estais vendo adiante. Quem quiser me esperar, me espere nesta planície. Quem não quiser, volte para casa. Eu vou afastar-me para orar, porque estamos em vésperas de grandes coisas. Quem ama a causa do Pai, ore, unindo-se a Mim em espírito. A paz esteja convosco, meus filhos. Isaque, tu sabes o que deves fazer. Eu te abençôo, ó pequeno pastor.
Jesus sorri para o descarnado Isaque, agora pastor de homens que se reúnem ao redor dele.
164.3Jesus caminha agora de costas para o lago, e se dirige firmemente para uma garganta, entre as colinas que vão do lago para o oeste, em linhas quase paralelas. Entre uma e outra daquelas colinas rochosas e escabrosas, que se abrem verticalmente como um fiorde, desce um pequeno riacho de águas espumosas que vai fazendo um grande barulho. Acima aparece a montanha agreste, com árvores que cresceram por todos os lados, como puderam, entre uma pedra e outra. Uma trilha de cabras é o que se vê na mais escabrosa das colinas. E é por esta que Jesus vai-se enveredar.
Os discípulos o acompanham com dificuldade, em fila indiana e no mais absoluto silêncio. Só quando Jesus para, a fim de que possam tomar fôlego em algum lugar um pouco mais cômodo do que a trilha, que mais parece um arranhão naquela encosta intransitável, só então é que eles olham um para o outro, sem nada dizerem. Mas os seus olhares parecem estar dizendo: “Para onde será que Ele nos vai levar?” Mas não falam nada. Só se olham uns para os outros, e cada vez mais desconsoladamente, quanto mais veem que Jesus recomeça sempre a andar por aquela garganta selvagem, cheia de cavernas, de fendas, cheia de grandes pedras soltas sobre as quais é difícil andar, tanto por conta das pedras, como também por conta dos espinheiros e de muitas outras árvores, que agarram-lhes as roupas de todos os lados, e os arranham, fazendo que levem topadas, quando os ramos batem em seus rostos. Até os mais jovens, que estão levando pesadas bolsas, já perderam o bom humor.
164.4 Enfim, Jesus para, e diz:
– Aqui vamos ficar durante uma semana em oração, a fim de preparar-vos para uma grande coisa. Por isso quis isolar-me assim em um lugar deserto, longe das rotas dos caravaneiros e das cidades. Por aqui há cavernas que noutros tempos serviram aos homens. Vão servir agora também para nós. Por aqui há águas frescas e abundantes e o terreno é enxuto. Temos pão e comida suficientes para o tempo em que aqui ficarmos. Aqueles que no ano passado estiveram comigo no deserto sabem o que passei. Aqui é um palácio real, em comparação àquele lugar. E a estação, que agora já é boa, livra a estadia da aspereza da geada e do sol. Procurai, pois, permanecer aqui de boa vontade. Talvez nunca mais ficaremos assim juntos e sozinhos. Esta parada aqui deve servir para vos unir, fazendo de vós, não mais doze homens, mas uma só instituição.
Não dizeis nada? Não me perguntais nada? Colocai sobre aquela pedra os pesos que viestes carregando, e jogai pelo vale abaixo aquele outro peso que estais sentindo no coração: o da vossa humanidade. Eu vos trouxe até aqui para falar ao vosso espírito, para alimentar o vosso espírito e tornar-vos espirituais. Não vou falar muitas palavras: já vos falei muito, no correr desse ano, que passei convosco! Agora basta. Se tivesse que transformar-vos com a palavra, precisaria deter-vos dez ou cem anos, e continuaríeis a ser sempre imperfeitos. Agora é tempo de Eu me servir de vós. Para servir-me de vós, Eu preciso formar-vos. Então, vou recorrer ao grande remédio, à grande arma, que é a oração. Eu sempre rezei por vós. Mas agora quero que rezeis por vós mesmos. Por enquanto não vos vou ensinar a minha oração. Mas vos faço conhecer o modo como se há de rezar, e o que é a oração. Ela é uma conversação dos filhos com o Pai, de espíritos com o Espírito: é uma conversação aberta, fervorosa, confiante, recolhida e sincera. A oração é tudo: é confissão, é conhecimento de nós mesmos, é chorar sobre nós mesmos, é uma promessa feita a nós mesmos e a Deus, é um pedido a Deus, tudo isso feito aos pés do Pai. Não se pode fazer isso no meio de grande barulho, nem no meio das distrações, a não ser que já sejais uns gigantes na oração. Mesmo os gigantes sofrem o impacto do barulho do mundo nas suas horas de oração. Vós não sois gigantes, sois pigmeus. Sois crianças no espírito, deficientes do espírito. Aqui chegareis à idade da razão espiritual. O resto virá depois.
De manhã, ao meio-dia e à tarde nos reuniremos para rezar juntos, dizendo as antigas palavras de Israel, e para partirmos o pão, depois do que cada um voltará para a sua gruta, ficando diante de Deus e de sua alma, diante de tudo o que Eu disse sobre a vossa missão e vossa capacidade.
Avaliai-vos, auscultai-vos e decidi. É a última vez que vo-lo digo. Depois, devereis ser perfeitos, o quanto puderdes, sem cansaços nem fraquezas humanas. Depois disso, já não sereis mais Simão de Jonas e Judas de Simão. Não sereis mais André ou João, Mateus ou Tomé. Mas sereis os meus ministros. Ide. Cada um por si. Eu vou ficar naquela gruta. Estarei sempre lá. Mas, não vades a ela, sem uma razão séria. Deveis aprender a agir por vós mesmos e a ficar sozinhos. Porque, em verdade Eu vos digo, há um ano estávamos ainda para nos conhecermos, e dentro de dois estaremos para nos separarmos. Ai de vós e ai de Mim, se não tiverdes aprendido a agir por vós mesmos. Deus esteja convosco. Judas e João, levai para dentro da minha gruta, aquela ali, os mantimentos. Eles devem durar até o fim do tempo, e Eu é que os distribuirei.
– Eles não vão bastar!… –objeta alguém.
– Eles são suficientes para não morrermos. O ventre cheio demais torna o espírito pesado. Eu quero vos elevar, e não fazer de vós lastro de navio.