388. 388. Exortação a Judas Iscariotesque irá a Betânia com Simão Zelotes.


19 de fevereiro de 1946.

388.1 Eles devem ter prosseguido viagem naquela noite de luar e terão parado em alguma caverna, por algumas horas, retomando depois o caminho, ao romper do dia. Estão visivelmente cansados, pois é um caminho difícil, passando por sobre pedras quebradas, por entre arbustos espinhosos e lianas, que por cima delas alastraram, enleando-se lhes aos pés. Quem vai à frente da marcha é Simão, o Zelotes, que parece conhecer bem o lugar, e que se desculpa por causa da dificuldade do caminho, como se aquela dificuldade fosse causada por ele.

– Agora, quando estivermos novamente naqueles montes que estais vendo, poderemos andar melhor, e eu vos prometo mel selvagem e águas puras em abundância…

– Águas? Eu me jogarei dentro delas. A areia já me roeu os pés, como se eu tivesse caminhado em cima do sal, e a pele toda me está ardendo. 388.2Que lugares amaldiçoados! Oh! percebe-se, sim, percebe-se que estamos perto daqueles lugares que foram castigados pelo fogo1 do Céu! Aquele fogo ficou ainda no vento, na terra, nos espinhos, em tudo! –exclama Pedro.

– Contudo, aqui era uma beleza, tempos atrás, não é verdade, Mestre?

– Muito bonito. Nos primeiros séculos do mundo, estes lugares eram um pequeno Éden. O solo era fertilíssimo, rico de fontes, que serviam para muitos usos. E estava preparado para dar semente, o que é bom. Depois… a desordem dos homens pareceu atingir também os elementos. E aí veio a ruína. Os sábios do mundo pagão explicam de muitos modos o terrível castigo. De modos humanos, mas às vezes com um terror supersticioso. Mas, crede: foi somente a vontade de Deus que desfez a ordem em que estavam os elementos, e os do céu se uniram aos das profundezas, chocaram-se, arremeteram-se uns contra os outros, como em uma dança perigosa, os raios fizeram pegar fogo no betume, que os veios abertos do solo haviam deixado que se derramasse desordenadamente, e o fogo saía das vísceras da terra, e ainda vinha o fogo do céu alimentar o da terra, e abrir, com a espada dos seus raios, novas feridas na terra, que tremia em uma convulsão espantosa, queimando, destruindo, corroendo até à distância de estádios e mais estádios um lugar que antes era um paraíso e fazendo dele este inferno que estais vendo, e no qual não há sinal de vida.

Os apóstolos escutam atentamente… Bartolomeu pergunta:

– Crês Tu que, se se pudesse secar estas águas espessas no fundo do Grande Mar, encontraríamos restos das cidades castigadas?

– Com certeza. E até coisas quase intactas, porque a espessura das águas faz como a cal, recobrindo e conservando as cidades que foram sepultadas. Mas o Jordão espalhou muita areia sobre elas. E elas ficaram sepultadas duas vezes, para que não possa levantar-se mais, e são o símbolo daqueles que, obstinados em suas culpas, estão inexoravelmente sepultados pela maldição de Deus e pela prepotência de Satanás, ao qual, com tanta paixão eles serviram em suas vidas.

– E foi aqui que se refugiou2 Matatias de João de Simão, o justo asmoneu que, é uma glória com seus filhos de todo Israel.

– Foi aqui. Por entre estes montes e desertos, foi aqui que ele reformou o povo e o exército, e Deus esteve com ele.

– Mas, pelo menos… Para ele foi mais fácil, porque os Assideus foram mais justos do que os fariseus para contigo!

– Oh! Ser mais justo que os fariseus é até fácil. É mais fácil ainda do que ferir-se com este espinho, que se agarrou às minhas pernas… Olhai-o aqui –diz Pedro que, enquanto estava escutando, não olhou para o chão, e viu-se envolvido por uma moita de espinheiro, que o fez sangrar nas pernas.

– Nos montes há menos espinhos. Estás vendo como estão diminuindo? –conforta-o Simão, o Zelotes.

– Hum! És muito prático.

– Por aqui eu vivi, proscrito e perseguido.

– Ah! Então…

388.3 De fato os pequenos montes vão-se tornando verdes, um verde menos desagradável, ainda que neles haja pouca sombra e sua vegetação seja baixa, mas, em compensação, ela exala um aroma muito bom, e está coberta de flores, como um tapete multicor. Abelhas e mais abelhas nelas se saciam, e de lá partem para as cavernas, das quais os flancos dos montes estão cheios, e lá, por baixo das cortinas penduradas das heras e das madressilvas, vão depositar o mel em colmeias feitas pela natureza.

Simão, o Zelotes, vai a uma das cavernas, e sai de lá com uns favos de mel dourado, depois vai a outra, e a mais outra, e a outra ainda, até apanhar mel para todos, e o oferece ao Mestre e aos amigos, que comem com gosto o doce mel, que está pingando.

– Ah! Se tivéssemos pão! Como é bom! –diz Tomé.

– Oh! tambem sem é bom! É melhor que as espigas dos filisteus. E… esperamos que nenhum fariseu venha dizer-nos que não podemos comer –diz Tiago do Zebedeu.

Vão comendo assim, e chegam a uma cisterna, na qual se vertem as águas de alguns riachos, para se canalizarem depois, não sei indo para onde. A água que sobra sai da cavidade. É uma água fresca cristalina, e está protegida do sol e da contaminação, pela proeminência da rocha onde a cisterna foi escavada, e ao cair, forma um pequenino lago na rocha de sílica escura. Com evidente prazer os apóstolos se despem e, um por um, vão se lançando na água do tanque inesperado. Mas antes quiseram que Jesus gozasse daquele prazer, “para ficarem depois santificados em seus membros”, diz Mateus.

Retomam depois a marcha, tendo-se restaurado, ainda que agora tenham ficado mais esfaimados do que antes, e os mais esfaimados, além de comerem o mel, estão roendo raminhos de funcho selvagem e outras hastes comestíveis, cujos nomes eu não sei.

A vista que se tem daqui é bonita, olhada destes planaltos, destes montes estranhos, que parecem ter tido os seus cumes decapitados pelo golpe de alguma espada. Partes de outros montes verdes e de planícies férteis podem ver-se ao sul, e até, lá ao longe, algum trecho do Mar Morto que, ao lado do oriente é bem visível, com seus montes do outro lado, e dos quais se desprende uma névoa leve, que se levanta do sudeste. Ao norte, quando ele aparece por entre as cristas dos montes, pode ver-se o verde longínquo da planície do Jordão, e a oeste os montes altos da Judeia.

O sol começa a esquentar, e Pedro sentencia que “aquelas nuvens sobre os montes de Moab são sinal de calor forte.”

– Agora, vamos descer para o vale do Cedron. É um vale sombroso… –diz Simão.

– O Cedron?! Oh! Que foi que aconteceu para estarmos assim tão perto do Cedron?

– Sim, Simão de Jonas. O caminho estava áspero, mas, como ele abreviou o nosso percurso! Indo pelo vale que ele acompanha, logo estaremos em Jerusalém –explica Zelotes.

– E em Betânia… 388.4Eu deveria mandar algum de vós a Betânia para dizer às irmãs que levem Egla à casa da Nique. Ela me pediu muito isso. E é um pedido justo. Sendo viúva sem filhos, ela terá também seu santo amor, e a menina sem pais terá uma mãe verdadeiramente israelita, que a criará na antiga fé nossa e na minha. Eu também gostaria de ir… Seria um repouso de paz para um espírito amargurado… Na casa de Lázaro o coração do Cristo só encontra amor… mas é longa a viagem que pretendo fazer antes de Pentecostes!

– Manda-me, Senhor. E comigo alguém de boas pernas. Iremos a Betânia e depois subirei de novo até Keriot, e lá nos encontraremos

–diz, entusiasmado, o Iscariotes.

Os outros, ao contrário, esperando, como estavam, ser escolhidos para aquela viagem, que os separaria do Mestre, não estão nada entusiasmados.

Jesus fica pensando. E, ao pensar, olha para Judas.

E Judas insiste:

– Sim, Mestre! Fala que sim. Dá-me esta alegria!…

– És o menos preparado de todos, ó Judas, para ires a Jerusalém!

– Por que, Senhor? Eu a conheço melhor do que qualquer outro.

– É justamente por isso!… Jerusalém, não só é conhecida por ti, mas ela penetra em ti mais do que em qualquer outro.

– Mestre, eu te dou a minha palavra que não pararei em Jerusalém e, por minha vontade, não verei ninguém de Israel… Mas deixa-me ir. Eu te esperarei em Keriot e…

– E não farás pressão para que me prestem honras humanas?

– Não, Mestre. Eu o prometo.

Jesus continua a pensar.

– Por que, Mestre, ficas hesitando tanto? Será que desconfias tanto de mim?

– Tu és um fraco, Judas. E, afastando-te da Força, cais! Estás sendo bom, há já algum tempo. Por que queres ir perturbar-te, e depois dar-me desgostos?

– Mas não, Mestre! Eu não quero tais coisas! Um dia certamente eu deverei ficar sem Ti! E, então? Como farei, se não tiver me preparado?

– Judas tem razão –dizem muitos.

– Pois bem… Vai. Vai com Tiago, meu irmão.

Os outros respiram aliviados. Tiago suspira por ter que partir, mas docilmente diz:

– Sim, meu Senhor. Abençoa-nos e partiremos.

Simão, o Zelotes, fica com dó dele e diz:

– Mestre, os pais de boa vontade se fazem substituir pelos seus filhos para dar-lhes uma alegria. Este eu o tomei por filho3, junto com Judas. O tempo passou, mas o meu pensamento continua o mesmo. Atende ao meu pedido… Manda-me, com o Judas do Simão: Eu sou velho, mas sou resistente como um jovem, e Judas não precisará queixar-se de mim.

– Não, não é justo que tu te sacrifiques, afastando-te do Mestre em meu lugar. Certamente tu sofres por não ficares com Ele… –diz Tiago de Alfeu.

– O sofrimento se tempera com a alegria de deixar-te em companhia do Mestre. Contar-me-ás depois o que fizeste. Por outro lado, eu vou de boa vontade a Betânia… –termina o Zelotes, como querendo diminuir o valor de sua oferta.

– Está bem. Ireis vós, dois. 388.5Por enquanto, vamos continuar a andar até aquele pequeno povoado. Quem poderá subir e ir procurar pão, em nome de Deus?

– Eu! Eu!

Todos querem ir. Mas Jesus retém consigo Judas de Keriot.

Depois que todos já se afastaram, Jesus lhe segura as mãos, e lhe fala cara a cara. Fica parecendo que Ele quer transmitir-lhe o seu pensamento, e sugestioná-lo, até que Judas não possa mais ter outros pensamentos que não sejam aqueles que Jesus quer.

– Judas, não faças mal a ti mesmo. Não te faças mal, meu Judas! Não é verdade que não te sentes mais calmo e feliz, e livre daquelas sanguessugas da parte pior do teu eu humano, que é uma isca que Satanás está usando tão facilmente e o mundo também? Sim. É assim que te sentes. Pois bem. Trata de preservar a tua paz, o teu bem-estar. Não faças mal a ti mesmo, Judas. Eu leio dentro de ti. Estás agora em um momento tão bom! Oh! Pudesse Eu, pudesse, à custa de todo o meu sangue, conservar-te assim, destruir até o último baluarte, no qual se aninha quem é um grande inimigo para ti, e tornar-te todo espírito, inteligência de espírito, amor de espírito, espírito, espírito!

Judas, peito a peito, cara a cara com Jesus, tendo suas mãos nas mãos dele, está quase atordoado e murmura:

– Fazer mal a mim? O último baluarte? Qual será ele?…

– Qual? Tu o sabes. Tu sabes com que é que te estás fazendo mal! É com isso de ficares cultivando pensamentos de grandeza humana e amizades, que tu supões que sejam úteis para te darem essa grandeza. Israel não te ama, podes crer. Ele te odeia, como odeia a Mim, e como odeia a quem quer que possa ter o aspecto de um provável triunfador. E tu, justamente porque não escondes o pensamento de quereres ser esse tal, és odiado. Não creias nas palavras mentirosas deles, nem em suas falsas perguntas, feitas com a desculpa de que estão se interessando por ajudar-te. Eles te rodeiam para te fazerem mal, para ficarem sabendo e poderem te prejudicar. Eu não te peço por Mim. Mas por ti, somente. Eu, se fui escolhido para ser o alvo da maldade, serei sempre o Senhor. Poderão torturar minha carne, matá-la. Nada mais do que isso. Mas tu, mas tu. A ti matariam até a tua alma… Foge das tentações, meu amigo. Dize-me que fugirás delas. Dá ao teu pobre Mestre perseguido, angustiado, esta palavra de paz!

Jesus o tomou entre os braços, e lhe vai falando palavra por palavra, perto do seu ouvido, e os cabelos de um louro escuro de Jesus se misturam com os pesados cabelos encaracolados de Judas.

– Eu bem sei que hei de padecer e morrer. Sei que minha coroa só será a do mártir. Sei que a minha púrpura só será a do meu sangue. Para isso é que Eu vim. Porque por meio desse martírio, Eu redimirei a Humanidade, e o amor, desde um tempo sem limites, a essa ação me excita. Mas Eu quereria que nenhum dos meus se perdesse. Oh! São-me todos queridos os homens, porque neles está a imagem e a semelhança de um Pai: Oh! a alma imortal que Ele criou. Mas vós, vós diletos e prediletos, vós que sois sangue do meu sangue e pupila de meus olhos, não, não, perder-vos, não! Oh! Pois não haverá outra tortura igual a esta, ainda que Satanás cravasse em Mim as suas armas, até acesas em seus enxofres infernais, e me mordesse, me amarrasse, ele, que é o Pecado, o Horror, a Repugnância, não haverá tortura igual a esta para Mim, a de um eleito que se perde… Judas, Judas, meu Judas! Mas, queres que Eu peça ao Pai, que Eu passe três vezes por minha Paixão horrível, e dessas três duas sejam só para a tua salvação? Dize-o a Mim, Amigo, e Eu o farei. Eu direi que multiplicarei até o infinito os meus sofrimentos para isso. Eu te amo, Judas, amo-te muito. E quereria, quereria dar-te a Mim mesmo, fazer de ti outro Eu, para salvar-te de ti mesmo…

– Não, não chores, não fales assim, Mestre. Eu também te amo, eu também me daria a mim mesmo para ver-te forte, respeitado, temido, triunfante. Poderei não te estar amando com perfeição. Não estar pensando com perfeição. Mas faço uso de tudo o que eu sou, e talvez dele até abuse, e, por Javé eu te juro que não me aproximarei nem dos escribas, nem dos fariseus, nem dos saduceus, nem dos judeus, nem dos sacerdotes. Eles vão dizer que eu estou doido. Mas, não me importa. Basta-me que Tu não te aflijas por mim. Estás contente? Um beijo, Mestre, um beijo para ter a tua bênção e tua proteção.

388.6 Eles se beijam e se separam, enquanto os outros já estão voltando, de carreira pelas colinas abaixo e agitando grandes fogaças e pequenos queijos frescos. Assentam-se sobre a erva verde das beiras e repartem o alimento, contando como tiveram bom acolhimento, porque naquelas poucas casas há pessoas que conhecem os pastores-discípulos, e aceitam bem o Messias.

– Nós não dissemos que estavas aí, porque senão… –termina Tomé.

– Procuraremos passar por aqui algum dia. É preciso não se descuidar de ninguém –responde Jesus.

A refeição terminou. Jesus se levanta e abençoa os dois que vão para Betânia, e o que não ficam esperando a tarde para se porem a caminho, visto que o vale é sombreado e as águas são frescas. Jesus e os dez que ficam, estendem-se sobre a erva, e ficam repousando, à espera do pôr-do-sol, para depois tornarem a ir para a estrada, que vai para Engadi e Massada, como ouvi dizer os que ficaram.

1 castigados pelo fogo, como é mencionado em Gênesis 19,23-25.
2 se refugiou, como é mencionado em 1 Macabeus 2,28. As outras alusões estão presentes em 1 Macabeus 2.
3 tomei por filho, em 100.8.


1
2
3
4
5
6