385. 385. Parábola da encruzilhadae milagres perto da região de Salomão.


16 de fevereiro de 1946.

385.1 O pequeno grupo sai da cozinha, aumentado agora com o velho, que vai se admirando agora, com a veste de algum dos apóstolos, dos de pequena estatura.

– Se queres ficar, pai… –Jesus lhe ia dizendo.

Mas o velho o interrompe:

– Não, não. Eu também vou. Oh! Deixa me ir! Eu comi ontem. Dormi esta noite, e numa cama. E já não tenho mais aquela dor no coração! Estou forte como um jovem…

– Então, vem. Ficarás comigo, com Bartolomeu e meu irmão Judas. E vós, dois a dois, espalhai-vos, como foi mandado. Antes da sexta, estejam aqui de novo. Ide, e a paz esteja convosco.

Separam-se, indo uns para o lado do rio, outros para as campinas. Jesus os deixa ir na frente, e depois, por último, põe-se Ele a caminho. Atravessa lentamente o lugarejo, e observado pelos pescadores que estão voltando do rio, ou que para ele estão indo, e pelas abegoas industriosas, que se levantaram bem cedo, para fazer a lixívia, para regar as pequenas hortas ou para fazer o pão. Mas ninguém fala nada.

385.2Somente um rapazinho, que vai tocando para o rio sete ovelhinhas, é que interroga ao velho:

– Aonde vais, Ananias? Estás deixando o lugar?

– Eu vou com o Rabi. Mas eu volto com Ele. Eu sou servo dele.

– Não. Tu és o meu pai. Todo velho justo é meu pai e uma bênção para o lugar que o hospeda e para quem o socorre. Felizes daqueles que amam e honram aos velhos –diz Jesus, com um aspecto solene.

O rapazinho olha, amedrontado, para Ele, e depois murmura:

– Eu, do meu pão dava sempre um pedaço ao Ananias… –como querendo dizer: “Não me censures que não o mereço.”

– Sim. Miguel era bom para comigo. Era amigo dos meus netos… e assim ficou sendo também amigo do vovô. Também a mãe dele não é má, e me socorreria. Mas ela tem onze filhos, que vivem todos da pesca…

Algumas mulheres se aproximam curiosas, e ficam escutando.

– Deus ajudará sempre a quem faz o que pode pelo pobre. E sempre há um modo de ajudar. Muitas vezes se diz: “Eu não posso”, e é mentira. Porque, quando se quer ajudar, sempre se encontra o bocado supérfluo, uma coberta rasgada, uma roupa que não se usa, para dá-la a quem não tem. E o Céu recompensa o presente feito. Deus te pagará, ó Miguel, os bocados que deste ao velho.

Jesus acaricia o rapazinho e se encaminha para frente.

As mulheres ficam paradas onde estavam, e depois vão fazer perguntas ao rapazinho, que lhes diz o que sabe. E o medo toma conta daquelas avarentas mulheres, que haviam fechado os seus corações às necessidades do velho.

385.3 Enquanto isso, Jesus, tendo chegado à última casa, se dirige para uma encruzilhada que, da estrada mestra se dirige para o lugarejo. Vê-se daqui que pela estrada estão passando caravanas, que estão de volta para as cidades da Decápole e da Pereia.

– Vamos até lá, e preguemos. Queres fazê-lo tu também, pai?

– Eu não sou capaz. Que devo dizer?

– Tu és capaz. A tua alma sabe a sabedoria de perdoar e de ser fiel a Deus, resignado até nas horas da dor. E tu sabes que Deus socorre a quem espera nele. Vai, e dize estas coisas aos peregrinos.

– Oh! Isto sim!

– Judas de Alfeu, vai com ele. E Eu fico com Bartolomeu na encruzilhada.

E, de fato, tendo chegado lá, põe-se à sombra de uma moita de plátanos frondosos, e fica esperando com paciência.

Os campos, ao redor, estão muito bonitos, cheios de searas e pomares. Há por entre eles um agradável frescor nesta manhã. Nossos olhos olham para eles com prazer. E as caravanas vão passando pela estrada… Poucos são os que estão olhando para os dois, que estão encostados nos troncos dos plátanos. Talvez pensem que são uns viajantes cansados. Mas sempre há alguém que reconhece a Jesus, e lhe faz um sinal, ou se inclina, saudando-o.

Finalmente, há um primeiro que para o seu burrinho e os dos parentes, apeia, e se dirige a Jesus:

– Deus esteja contigo, ó Rabi Eu sou de Arbela. Eu te vi no outono. Esta é a minha mulher; esta é a irmã dela, viúva; e a minha mãe. E aqui estão os filhos de todos nós. Dá-nos a tua bênção, Mestre. Eu soube que falaste no vau. Mas, quando cheguei lá, já era tarde … Mas, tu nos irás dizer uma palavra?

– A palavra não se nega nunca. Mas, espera alguns minutos, porque estão chegando outros…

De fato, muitos e muitos necessitados estão chegando à encruzilhada, vindos do lugarejo, e mais outros, que já haviam passado pela estrada, e voltaram atrás, enquanto que outros ainda, cheios de curiosidade, param e descem de suas cavalgaduras, enquanto outros param, mas ficam na sela. Vai-se formando um pequeno auditório, que vai aumentando.

Também Judas de Alfeu volta com o velho, e com eles estão dois doentes e muitos sãos.

385.4 Jesus começa a falar.

– Aqueles que percorrem as estradas do Senhor, as estradas indicadas pelo Senhor, e as percorrem com boa vontade, acabam encontrando o Senhor. Vós encontrais o Senhor, pois estais vindo depois de terdes cumprido o vosso dever de fiéis israelitas na Santa Páscoa. E eis que a Sabedoria vos fala nesta encruzilhada, onde a Bondade divina fez que nos encontrássemos. Tantas são as encruzilhadas que o homem encontra no caminho de sua vidal E ainda mais encruzilhadas sobrenaturais, do que encruzilhadas materiais. Cada dia nossa consciência se vê colocada na frente de bívios e quadrívios do Bem e do Mal. E ela deve escolher com atenção, para não errar. Porque, se errar, deverá voltar humildemente atrás, ao ser chamada ou advertida por alguém. E, ainda que lhe pareça mais bonito o caminho do Mal, ou simplesmente o da tibieza, ela deve saber escolher o caminho escabroso, mas seguro, do Bem.

Ouvi uma parábola.

Um grupo de peregrinos, que vinha de longínquas regiões, em busca de trabalho, chegou aos confins de uma província. Nesses confins havia muitos homens procurando trabalho, mandados por seus diversos patrões. Uns procuravam homens para as minas, outros para os campos de bosques, outros procuravam servos para um rico infame, e outros, soldados para um rei que residia no alto de um monte, em seu castelo, ao qual se podia chegar por uma estrada muito íngreme.

O rei queria suas milícias, mas exigia que elas fossem, não umas milícias de violência, e sim, de sabedoria, a fim de enviá-las depois pelas cidades, para santificarem os seus súditos. Por isso, ele vivia lá em cima, como em um eremitério, a fim de formar os seus servos, sem que as distrações mundanas os corrompessem, atrasando ou anulando a formação de seus espíritos. Não prometia altos pagamentos. Não prometia uma vida cômoda. Mas garantia que do seu serviço nasceria a santidade e o prêmio. Assim diziam os seus enviados àqueles que chegavam do outro lado da fronteira. Os enviados pelos patrões das minas ou dos campos, por sua vez diziam:

“Não vai ser uma vida cômoda, mas sereis livres, e ganhareis o com que possais ter um pouco de passatempo.”

E os que estavam procurando servos para o patrão infame, prometiam logo comida abundante, ociosidade, prazeres, riquezas:

“Basta que consintais em seus duros caprichos — oh! de modo nenhum insuportáveis! — e gozareis como uns sátrapas.”

Os peregrinos trocaram, então, ideias uns com os outros. Dividirem-se eles não queriam… Perguntaram:

“Mas, os campos e as minas, o palácio do homem gozador e o do rei, estão perto uns dos outros?”

“Oh! não!” responderam os que procuravam homens. “Vinde até aquele quadrívio, e vos mostraremos as diversas estradas.” Eles foram.

“Eis! Esta esplêndida estrada sombreada, florida, plana, com fontes de água fresca, desce até o palácio do Senhor,” disseram os procuradores de homens.

“Esta estrada, que é poeirenta, por entre campos serenos, conduz aos campos. Eis! Está exposta ao sol, mas vede que ainda está bonita,” disseram os dos campos.

“Esta assim sulcada por pesadas rodas e coberta de manchas escuras, mostra a direção das minas,” disseram aqueles das minas.

“Eis. Este caminho escabroso, aberto pelo meio das rochas, que o sol incendeia, cheio de abrunheiros e precipícios, que fazem a gente andar devagar, mas que, em compensação servem de defesa fácil contra os assaltos dos inimigos, conduz ao oriente, ao castelo severo, quase diríamos sagrado, onde os espíritos se formam para o Bem,” disseram os do rei.

385.5 E os peregrinos ficaram olhando. Eles faziam seus cálculos… Estavam sendo tentados por diversas coisas, das quais só uma era totalmente boa. E pouco a pouco, foram-se separando. Eles eram dez. Três resolveram ir para os campos… dois para as minas. Os que restaram olharam-se uns aos outros, e dois deles disseram:

“Vinde conosco. Vamos ao rei. Não ganharemos nem gozaremos sobre a terra, mas seremos santos para sempre.”

“Por aquele caminho ali? Só se fôssemos doidos! Não ganhar? Não gozar? Não valia a pena deixar tudo, e vir para um exílio, para termos menos do que tínhamos em nossa terra. Nós queremos é ganhar e gozar…”

“Mas vós perdereis o Bem eterno! Não ouvistes dizer que o patrão é infame?”

“Isso são histórias! Depois de pouco tempo, nós o deixaremos, mas teremos gozado, e estaremos ricos.”

“Nunca mais ficareis livres dele. Mal fizeram os primeiros, indo atrás da avidez pelo prazer. Ah! Não troqueis a vida eterna por uma hora fugaz!”

“Vós sois uns tolos, e credes em promessas de coisas irreais. Nós vamos atrás da realidade. Adeus!” e correndo, entram pela bonita estrada sombreada, florida, rica em águas, plana, e no fundo da qual está brilhando ao sol o magnífico palácio do gozador.

Os dois, que restaram, tomaram, chorando e rezando, o caminho íngreme. E, tendo andado uns poucos metros por ele, desanimaram, por ser ele muito difícil. Mas depois perseveraram. E a carne lhes ia parecendo sempre mais leve, quanto mais eles andavam para a frente, e seu cansaço tinha como consolo um júbilo estranho. Chegaram ofegantes e arranhados, ao cume do monte, e foram admitidos à presença do rei, o qual lhes disse tudo o que exigia para fazer deles os seus valentes, e terminou dizendo: “Pensai nisso, durante oito dias, e depois respondei.”

E eles pensaram muito, sustentaram duras lutas contra o Tentador, que queria inquietá-los com a carne, que lhes dizia: “Vós me estais maltratando,” com o mundo, cujas lembranças os seduziam ainda. Mas eles venceram. Ficaram. Tornaram-se heróis do Bem.

385.6Veio-lhes depois a morte, isto é, a glorificação. Lá do alto dos Céus, eles viram lá em baixo os que tinham ido para o patrão infame. Acorrentados, até depois da vida, gemiam na escuridão do Inferno. “Eles queriam ser livres e gozar,” disseram os dois santos.

E os três condenados os viram e, horrendos, os maldisseram, e maldisseram a todos, a Deus em primeiro lugar, dizendo:

“Todos vós nos enganastes!”

“Não. Não podeis dizer isso. Havia-vos sido falado sobre o perigo. Vós quisestes o vosso mal,” responderam os bem-aventurados, serenamente, ainda que estivessem vendo e ouvindo os sarcasmos obscenos e as blasfêmias obscenas atiradas sobre eles.

E viram os dos campos e das minas em diversas regiões de purificação, e eles também os viram, e disseram: “Nós não fomos nem bons nem maus, e agora estamos expiando a nossa tibieza. Rezai por nós.”

“Oh! Nós o faremos! Mas, por que foi que não quisestes vir conosco?”

“Porque fomos, não demônios, mas homens… não fomos generosos. Amamos o que era passageiro, ainda que fosse honesto, mais do que o que era Eterno e Santo. Agora estamos aprendendo a conhecer e a amar com justiça.”

A parábola terminou. Todos os homens estão na encruzilhada. Em uma eterna encruzilhada. Felizes daqueles que estão firmes e generosos em querer seguir os caminhos do Bem. Deus esteja com eles. Que Deus toque neles e os converta aos que assim não estão, e os leve a ser assim. Ide em paz.

385.7 – E os doentes?

– Que tem a mulher?

– Ela tem as febres malignas, que lhe roem os ossos. Ela foi até às águas milagrosas do grande Mar. Mas não encontrou alívio.

Jesus se inclina sobre a doente, e lhe pergunta:

– Quem achas tu que eu seja?

– Aquele que eu vinha procurando. O Messias de Deus. Piedade de mim, que tenho te procurado tanto!

– Que a tua fé te dê saúde aos teus membros e ao teu coração. E tu, homem?

O homem não responde. Por ele fala a mulher que o acompanha:

– Um câncer que lhe rói a língua. Não pode falar, e morre de fome.

De fato, o homem é um esqueleto.

– Tens fé que Eu te possa curar?

O homem faz sinal que sim, com a cabeça.

– Abre a tua boca –manda-lhe Jesus.

E encosta o seu rosto na horrorosa boca roída pelo câncer. Sopra levemente o seu hálito sobre ela. E diz:

– Eu quero!

Um momento de espera, e depois dois gritos:

– Os meus ossos ficaram sãos!

– Maria, eu estou curado! Olhai! Olhai a minha boca. Hosana! Hosana!

E quer levantar-se, mas vacila, por causa da fraqueza.

– Dai-lhe de comer –ordena Jesus. E quer retirar-se.

– Não te vás embora! Vão vir outros doentes! Outros, vão voltar… Cura também a eles, também a eles –grita a multidão.

– Todas as manhãs, desde cedo até a hora de sexta, Eu virei aqui. Que alguém de boa vontade procure reunir os peregrinos.

– Eu, eu, Senhor! –dizem muitos.

– Deus vos abençoe por isso.

E Jesus se vira para o lugarejo, com os seus primeiros companheiros e com os outros, que foram chegando aos poucos, enquanto Ele estava falando, e todos eles trazendo enfermos.

385.8 – Mas, onde estão Pedro e Judas de Keriot? –pergunta Jesus.

– Foram até à cidade vizinha. Estão cheios de dinheiro, e estão fazendo compras.

– Enfim, Judas operou um milagre, e está em festa –observa, sorrindo, Simão, o Zelotes.

– Também André, que ganhou uma ovelha de lembrança. Ele curou a perna quebrada de um pastor, e este lhe pagou assim. Nós a daremos ao pai. O leite faz bem aos velhos… –diz João, acariciando o velhinho, que está feliz.

Tornam a entrar na casa, e estão preparando um pouco de comida.

Estão para sentar-se à mesa, quando, carregados como uns burros, e acompanhados por uma carroça que está cheia daquelas esteiras que servem de camas aos pobres na Palestina, chegam os dois que faltavam.

– Perdoa, Mestre. Mas nós precisávamos disto. Agora iremos bem

–diz Pedro.

E Judas acrescenta:

– Observa. Compramos só o necessário, pobre, mas limpo, como Tu gostas –e põem-se a descarregar, despachando depois o carroceiro.

– Doze camas pequenas e doze esteiras. Alguma louça. Aqui as sementes. Ali estão os pombos. Lá está o dinheiro. E amanhã haverá muita gente. Ah! Que calor! Mas agora vai tudo bem. Que foi que fizeste, Mestre?

E, enquanto Jesus conta o que fez, assentam-se todos, contentes, à mesa.