305. 305. Jesus conforta Marziamcom a parábola dos passarinhos.
17 de outubro de 1945.
305.1 Jesus sai de casa, levando o menino seguro pela mão. Eles não vão indo para o centro de Nazaré mas, ao contrário, vão saindo para longe dele, pelo mesmo caminho por onde foi Jesus na primeira vez que deixou sua casa, para entrar na vida pública. E, tendo chegado às primeiras oliveiras, deixam a estrada mestra, para seguirem por caminhos estreitos, por entre as plantações, procurando o calor do sol depois de vários dias de um tempo chuvoso e sombrio.
Jesus convida o menino a correr e a pular. Mas Marziam responde:
– Eu prefiro estar perto de Ti. Eu já estou grande, e sou um discípulo.
Jesus sorri a esta… austera profissão de idade e dignidade. Na verdade, é bem pequeno o adulto que vai caminhando a seu lado. Ninguém lhe daria mais de dez anos. Mas ninguém pode negar que seja um discípulo, e menos ainda Jesus, o qual se limita a dizer:
– Mas tu ficarás aborrecido enquanto Eu estiver orando. Eu te trouxe comigo, mas para te divertires.
– Eu não poderia divertir-me nestes dias… Mas, estar perto de Ti me alivia muito… 305.2 Eu desejei muito este tempo… porque… porque…
O menino aperta os lábios, que lhe estão tremendo, e não fala mais.
Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça, dizendo:
– Quem crê na minha palavra não deve ficar triste como aqueles que não crêem. Eu digo sempre a verdade. Mesmo quando eu afirmo que não há separação entre as almas dos justos que estão no seio de Abraão e as dos justos que estão na terra. Eu sou a Ressurreição e a Vida, Marziam. E esta Eu a trago até mesmo antes de cumprir a minha missão. Tu sempre me disseste que os teus pais suspiravam pela vinda do Messias e pediam a Deus que pudessem viver muito, para poderem vê-lo. Portanto, eles acreditavam em Mim. Eles adormeceram nesta fé. Por ela, pois, eles já estão salvos, por ela eles já estão ressuscitados e vivos. Porque essa é uma fé que dá vida, ao dar uma sede de justiça. Pensa bem quantas vezes eles terão precisado resistir às tentações, para serem dignos de ir ao encontro do Salvador…
– Mas eles morreram sem chegarem a ver-te, Senhor… E morreram daquela maneira… Eu os vi, sabes, quando tiraram da terra todos os mortos da cidade… A minha mãe, o meu pai… os meus irmãozinhos… Que me importa, se para me consolarem, me diziam: “Os teus não são assim. Eles não sofreram.” Oh! Eles não sofreram. Então, eram penas, as pedras que caíram por cima deles? Eram como o ar a terra e a água que os sufocaram? E o pensamento deles nada terá sofrido, quando perceberam que iam morrer, e estando preocupados comigo?…
O menino está muito agitado e triste. Faz gestos de quem está sofrendo muito, e está de pé diante de Jesus, como se quisesse agredi-lo… Mas Jesus compreende aquele sofrimento, aquela necessidade de desabafar-se, e o deixa falar. Jesus não é daqueles que, a quem está delirando por uma verdadeira dor, ainda lhe diz:
– Cala-te. Estás me escandalizando.
305.3 O menino continua:
– E depois? Que foi que aconteceu depois? Tu sabes o que aconteceu depois! Se Tu não tivesses vindo, eu viraria uma fera, ou teria morrido, ou seria morto como uma serpente no mato. E não teria mais voltado para a mamãe, para o meu pai e para os irmãos, porque eu odiava Doras e… não amava mais a Deus como antes, quando eu tinha mamãe a querer-me bem, a ensinar-me a amar ao próximo. Eu quase que tinha inveja dos passarinhos, que enchiam seus papos, que tinham penas quentes, que faziam de novo os seus ninhos, enquanto que eu tinha fome, tinha uma roupa rasgada e não tinha mais casa… eu os espantava, eu que gosto tanto dos passarinhos, por causa da raiva que eu tinha, ao comparar-me com eles, e depois eu chorava, porque via que havia sido mau, e que merecia o Inferno…
– Ah! Então te arrependias por teres sido mau?
– Sim, Senhor. Mas como eu haveria de fazer para ser bom? Meu pai era velho. Mas ele dizia: “Daqui a pouco, tudo acabará…” Eu já estou velho… Mas eu não estava velho! Quantos anos ainda eu teria que passar, antes de poder trabalhar e comer como homem, e não como um cão vadio. Eu me teria tornado um ladrão, se Tu não viesses.
– Não te terias tornado, porque tua mamãe rezava por ti. Estás vendo que Eu vim, e te tomei comigo. Isto é prova de que Deus te amava e de que a tua mãe velava por ti.
O menino se cala, e fica pensando. Parece que está procurando uma luz no chão em que está pisando, de tanto que fica olhando para ele, enquanto vai caminhando ao lado de Jesus, por sobre a grama um pouco sapecada pelo vento do norte, que esteve soprando dias atrás. Depois, ele levanta a cabeça, e pergunta:
– Mas não teria sido uma prova mais bela, se não se fizesse morrer minha mãe?
305.4Jesus sorri, diante da lógica humana daquela pequena mente. Mas, com seriedade e bondade, lhe explica:
– Olha, Marziam. Eu vou fazer-te compreender as coisas, por meio de uma comparação. Tu me disseste que gostas de passarinhos, não é verdade? Agora, escuta uma coisa. Os passarinhos foram feitos para voar, ou para ficarem numa gaiola?
– Para voar.
– Está bem. E as mamães dos passarinhos, como fazem para alimentá-los, quando estão pequeninos?
– Põem-lhes a comida no bico.
– Sim. Mas levando-lhes o quê?
– Sementes ou moscas, lagartas ou migalhas de pão ou pedacinhos de frutas, que vão encontrando, ao voarem para cá e para lá.
– Muito bem. Agora escuta: Se tu, nesta primavera, encontrares um ninho caído no chão, com os filhotes dentro e a mãe sobre eles, que farias?
– Eu a apanharia.
– O ninho com tudo? Como ele está? Com a mãe também?
– Tudo. Porque é muito desagradável ficarem os pequenos sem a mamãe.
– Na verdade, no Deuteronômio está dito1 que se apanhem os pequenos, deixando livre a mãe, que se deve dedicar à geração de outros filhos.
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– Mas, se ela é uma boa mamãe, não vai embora. Ela corre para onde estão os seus pequenos. A minha mãe teria feito assim. E nem mesmo a Ti ela teria me dado para sempre, porque eu sou ainda menino. Também ela vir comigo, não teria sido possível, porque os irmãozinhos eram ainda menores do que eu. E, então, ela não me teria deixado sair.
– Está bem. Mas escuta: como disseste, gostarias mais se a mãe daqueles passarinhos e se eles também, tivessem a porta da gaiola aberta para poderem sair, e voltar com a comida apropriada, ou que ela também ficasse presa?
– Ah! eu a quereria livre para sair e voltar, até que os pequeninos crescessem… e eu lhes quereria todo bem se, tendo-os eu depois de terem crescido, eu os deixasse livres, porque o passarinho é feito para voar… E assim… para ser de fato bom mesmo, eu deveria deixar voar também os filhotes já crescidos, e dar-lhes a liberdade… Seria esse o mais verdadeiro amor que eu poderia ter para com eles. E também o mais justo… Sim! O mais justo, porque eu não faria nada mais do que permitir que se cumpra o que Deus quis que os passarinhos tivessem…
– Mas, muito bem, Marziam. Falaste mesmo como um sábio. Serás um grande mestre do teu Senhor e quem te escutar acreditará em ti, porque falarás como um sábio.
– É verdade. Jesus?
E aquele rostinho, antes inquieto e triste, depois confuso em seus pensamentos e preocupado com o esforço para julgar o que era melhor, agora se sente desembaraçado, e está radiante de alegria pelo elogio recebido.
– É verdade. 305.5Agora estás enxergando um pouco.E, visto que és um menino inteligente, julgas assim. Pensa, então, como julgará Deus, que é perfeito em tudo, ao cuidar das almas para o verdadeiro bem delas. As almas são como outros passarinhos, que a carne ainda segura presos na gaiola. Mas eles desejam a liberdade do Céu, do Sol que é Deus e da comida justa para eles, que é a contemplação de Deus. Nenhum amor humano, nem mesmo o santo amor da mãe pelos filhos, ou dos filhos pela mãe, é tão forte, que seja capaz de sufocar este desejo das almas de se reunirem em sua origem, que é Deus. Assim como Deus, por seu perfeito amor por nós, não encontra nenhuma razão que seja tão forte, que supere o seu desejo de unir-se à alma que o deseja. E, então, que acontece? Algumas vezes, Ele a ama tanto, que lhe diz “Vem! Vou dar-te a liberdade.” E Ele diz isso, mesmo quando se trata de meninos, que estão ao redor de sua mãe. Ele vê tudo. Ele tudo sabe, Ele faz bem feito tudo o que faz. Quando Ele livra uma alma — poderá não parecer assim aos homens, de inteligência relativa, mas assim é —, quando Ele livra uma alma, faz isso sempre por um bem maior, tanto para a própria alma como para os seus parentes. Ele, então, como Eu já te disse outras vezes, acrescenta ao ministério do anjo da guarda o ministério da alma que Ele já chamou a Si, e que ama, com um amor livre de toda impureza humana, os seus parentes, amando-os em Deus. Quando o Senhor livra uma alma, Ele se empenha em fazer as vezes dela, nos cuidados com os que ficaram vivos. Contigo Ele não fez assim? Não fiz Eu de ti, pequeno filho de Israel, o meu discípulo, o meu sacerdote de amanhã?
– Sim, Senhor!
– Agora, pensa um pouco. Tua mãe será libertada por Mim, e já não terá necessidade dos teus sufrágios. Mas tu, se ela tivesse morrido depois da Redenção, e tivesse necessidade de sufrágios, poderias sufragá-la como sacerdote. Pensa: não terias antes podido mais do que gastar, dando ofertas a um sacerdote do Templo para que fosse feito por ela o sacrifício de vítimas como cordeiros e pombos, ou de outro produto da terra. Isto teria acontecido, se tivesses continuado a ser aquele camponezinho, o Jabé, na casa de tua mãe. Agora é diferente. Tu, Marziam, como sacerdote de Cristo, poderias celebrar por ela diretamente o Sacrifício verdadeiro da Vítima Perfeita, em nome da qual todos os perdões são concedidos.
– E não o poderei mais fazer?
– Por teu pai, tua mãe e os irmãozinhos, não. Mas as poderás fazer por teus amigos e teus discípulos. 305.6Não é belo tudo isso?
– Sim, Senhor.
– Então, vamos voltar tranqüilos para casa.
– Sim. Mas eu não te deixei fazer a oração!… E isto me desagrada…
– Mas, nós fizemos a oração! Fizemos considerações sobre a verdade, e contemplamos a Deus em suas bondades… Tudo isso é oração, e tu a fizeste como um verdadeiro adulto. Vamos, agora. Vamos cantar um belo salmo de louvor pela alegria que está em nós.
E Jesus entoa3:
– Um belo canto brotou do meu coração…
Marziam une a sua voz fina à voz forte e viril de Jesus.
1 está dito em Deuteronômio 22,6-7.
2 está dito em Deuteronômio 22,6-7.
3 entoa o Salmo 45.
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