399. 399. Discurso de despedida em Betsure amor materno de Elisa.
9 de março de 1946.
399.1 Mal acaba de raiar o dia, quando os infatigáveis caminhantes já estão avistando Betsur. Cansados, com as vestes amarrotadas, depois de um descanso muito incômodo nos bosques, eles estão olhando, agora para a cidade, que já está próxima, e onde eles têm a certeza de encontrar hospitalidade.
Os camponeses, que estão indo para o seu serviço, são os primeiros a encontrar-se com Jesus, e acham que é bom deixar de fazer os trabalhos daquele dia, e voltar para a cidade, a fim de ouvirem o Mestre. E assim também fazem uns pastores, depois de discutirem se vale a pena deixar o trabalho, ou não.
– Eu sairei de Betsur à tarde –responde Jesus.
– E irás falar, Mestre?
– Com certeza.
– Quando?
– Logo, responde Jesus.
– Nós temos nossos rebanhos… Não poderias falar aqui, nestas campinas? As ovelhas ficariam descansando, mordiscando as ervas, e nós não perderíamos a tua palavra.
– Acompanhai-me. Eu o farei nas pastagens do norte. Antes Eu quero ir ver Elisa.
Os pastores, com os seus bastões, fazem que as ovelhas se virem, e atrás dos homens se colocam eles e as suas ovelhas, que estão balindo. Atravessam a cidade.
399.2 Mas a notícia já chegou à casa da Elisa. E é sobre a área que está na frente da casa que Elisa, com Anastásica, prestam sua homenagem de discípulas ao Mestre, que as abençoa.
– Entra em minha casa, Senhor. Tu a livraste da dor, e ela quer ser o teu conforto, em cada um dos seus moradores e dos seus móveis –diz Elisa.
– Sim, Elisa. Mas, estás vendo quanta gente vem atrás de nós. Agora Eu irei falar a todos, e, depois da hora tércia, virei e permanecerei em tua casa, para tornar a partir à tarde. E falaremos uns com os outros… –promete Jesus, a fim de consolar Elisa, que estava esperando uma permanência mais longa dele, e fica com um semblante de decepcionada, ao ouvir as intenções de Jesus.
Mas Elisa é uma boa discípula, e não faz objeções. Ela somente pede licença para ir dar ordens aos seus servos, antes de ir com os outros para onde Jesus se dirige. E o faz com solicitude, bem diferente daquela mulher inerte do ano passado…
Jesus já está parado em um vasto prado, sobre o qual o sol está se divertindo, fazendo filtrar os seus raios através das copas das árvores de alto fuste que, se não me engano, são uns freixos. Jesus está curando um menino e um velho, o primeiro, doente de uma enfermidade interna, e o outro, dos olhos. Não há outros doentes, e Jesus abençoa os pequenos, que as mães lhe apresentam, esperando com paciência, que Elisa, junto com Anastásica, o encontrem. Ei-las chegadas, afinal.
399.3 E Jesus começa logo a falar:
– Povo de Betsur, escuta. No ano passado, Eu vos disse1 o que é preciso fazer para se ganhar o Reino de Deus. É a última vez que o Mestre vos fala assim, numa assembleia, à qual não falta ninguém. Depois, poderei encontrar-vos ainda, casualmente, um de cada vez, ou em pequenos grupos, pelos caminhos desta nossa pátria terrena. E, mais tarde, poderei ver-vos no meu Reino. Mas não será nunca mais como agora.
No futuro muitas coisas vos serão ditas sobre Mim, contra Mim, sobre vós e contra vós. Eles quererão aterrorizar-vos. Eu, com Isaías, vos digo: Não temais, porque Eu vos redimi, e vos chamei pelo nome. Só aqueles que quiserem abandonar-me é que terão razão para temer. Mas não aqueles que, sendo fiéis, são meus. Não temais! Vós sois meus e Eu sou vosso. Nem as águas dos rios, nem as chamas das fogueiras, nem as pedras, nem as espadas poderão separar-vos de Mim, se em Mim perseverardes. Pelo contrário, sem mais, as chamas, as águas, as espadas e as pedras a Mim vos unirão, e sereis outros Eu, e tereis o meu prêmio. Eu estarei convosco nas horas dos tormentos, convosco nas provas, convosco até à morte. E depois nada mais nos poderá separar.
Oh! Meu povo! Povo que Eu amei e reuni, e chamarei e reunirei mais ainda, quando Eu for elevado, atraindo-te todo a mim, ó povo escolhido, povo santo, não temas, porque Eu estou e estarei contigo, e tu me anunciarás, ó povo meu, e por isso vós, que o compondes, sereis chamados os meus ministros, e a vós Eu darei, e vos dou desde já, a ordem de dizer ao setentrião, ao oriente, ao ocidente e ao meio-dia que restituam os filhos e as filhas do Deus Criador, até mesmo os dos extremos confins do mundo, a fim de que todos me conheçam como seu Rei, e me invoquem por meu verdadeiro Nome, e tenham aquela glória para a qual todos foram criados, e sejam a glória de quem os fez e formou.
Isaías diz que as tribos e as nações, para crerem, invocarão as testemunhas da minha glória. E onde irei encontrar testemunhas, se o Templo e o Palácio Real, se as castas poderosas me rodeiam, e mentem, por não quererem dizer que Eu sou quem sou? Onde as encontrarei? Ei-las: são os que Eu curei em seus corpos e em suas almas, os que eram cegos, e agora estão vendo, eram surdos e agora ouvem, mudos, e agora sabem dizer o meu Nome, estes que eram oprimidos, e agora estão livres, todos, todos estes para os quais o teu Verbo foi Luz, Verdade, Caminho, Vida. Vós sois as minhas testemunhas, os servos por Mim escolhidos, para que conheçais e creiais e compreendais que sou Eu mesmo.
399.4 Sou Eu o Senhor, o Salvador. Sabei crer isto, indo contra todas as humanas ou satânicas insinuações. Esquecei-vos de todas as outras coisas que vos tiverem sido ditas por outra boca que não seja a minha, e que não se conformem com a minha palavra. Rejeitai qualquer outra coisa que vos possa ser dita no futuro. Seja lá a quem for que quiser fazer-vos abjurar o Cristo, dizei: “As obras dele falam ao nosso espírito,” e sede perseverantes na fé.
Eu muito me esforcei para dar-vos uma fé intrépida. Eu curei os vossos males e aliviei as vossas dores. Como um Mestre bom Eu vos instruí, e como um Amigo Eu fui ouvido, parti convosco o pão e reparti a bebida. Mas isto são ainda obras de um santo e profeta. Outras delas Eu farei, e serão tais, que removerão todas as dúvidas que as trevas puderem suscitar, assim como o turbilhão levanta nuvens de tempestade num céu sereno de verão. Deixai passar os aguaceiros, ficai firmes no amor para com o vosso Jesus, por este Jesus que deixou o Pai para vir salvar- vos, e que deixará a vida para dar-vos a Salvação.
Vós, ó vós, que Eu amei e amo muito mais do que a Mim mesmo, pois não existe amor maior do que o de quem se imola pelo bem daqueles a quem ama. Não queirais ser menos do que aqueles que na profecia de Isaías são chamados animais selvagens, dragões e abutres, isto é, gentios, idólatras, pagãos, imundos, os quais, quando por Mim mesmo Eu tiver dado testemunho do poder do meu amor e da minha Natureza, vencendo sozinho a própria morte — e isso é uma coisa que se pode averiguar e que ninguém, a não ser algum mentiroso, poderá negar, — haverão de dizer: “Ele era o Filho de Deus!” e, vencendo obstáculos, aparentemente insuperáveis, de séculos e séculos de um paganismo imundo de trevas, de vício, virão à Luz, à Fonte, à Vida. Israel, que não me oferece holocausto, que não me honra com vítimas, mas, pelo contrário, me faz sofrer com suas iniquidades e me faz vítima do seu coração cruel, e que ao meu amor que perdoa responde com um ódio subterrâneo, que me tira a terra de debaixo dos pés, para que Eu caia, a fim de poder dizer: “Estais vendo? Ele caiu, porque Deus o fulminou.”
Cidadãos de Betsur, sede fortes. Amai a minha palavra, porque ela é verdadeira, eo meu Sinal, porque ele é santo. Que o Senhor esteja sempre convosco, e vós ficai com os servos do Senhor, todos unidos, para que cada um de vós esteja lá para onde Eu vou, e a fim de que seja feita uma eterna morada no Céu para todos aqueles que, tendo superado a tribulação, vencido a batalha, morrem no Senhor, e no Senhor ressurgem para sempre.
399.5 – Senhor, que quiseste dizer, afinal? Nas tuas palavras havia gritos de triunfo e gritos de dor –dizem alguns dos cidadãos.
– Sim. Tu estás parecendo alguém que está cercado por inimigos
–dizem outros.
– E quase chegas a dizer que nós também o seremos –e outros.
– O que tem no teu amanhá, o Senhor? –e outros ainda.
– A glória! –grita Judas de Keriot.
– A morte! –suspira Elisa chorando.
– A Redenção. O cumprimento da minha missão. Não temais. Não choreis. Amai-me. Eu sou feliz, por ser o Redentor. Vem, Elisa. Vamos para tua casa…
E Ele vai à frente, abrindo caminho por entre o povo, que ficou perturbado com aquelas emoções tão opostas.
– Mas, por que, Senhor, sempre falas estas coisas? –resmunga, ao mesmo tempo interrogando e censurando, Judas.
E acrescenta:
– Não são coisas de Rei.
Jesus não lhe responde. Mas responde ao seu primo Tiago, que lhe perguntou, com os olhos brilhando por causa das lágrimas:
– Por que, meu irmão, citas sempre passagens do Livro em tuas despedidas?
– A fim de que quem me acusa não diga que Eu estou delirando e blasfemando, e a fim de que quem não quer render-se à realidade das coisas compreenda que a Revelação se referiu a Mim, ao mostrar um Rei de um reino não humano com a imolação da Vítima, da única vítima que pode restaurar o Reino dos Judeus, que foi destruído por Satanás e pelos progenitores. A soberba, o ódio, a mentira, a luxúria, a desobediência o destruíram. A humildade, a obediência, o amor, a pureza, o sacrifício, o restaurarão… Não chores, mulher. Aqueles que tu amas, e que estão esperando, suspiram pela hora da minha imolação…
399.6Entram todos na casa, e, enquanto os apóstolos estão ainda a restaurar seus membros e o estômago, Jesus vai ao jardim, bem conservado e florido, e, sozinho com Elisa, a escuta dizendo:
– Mestre, só eu é que estou sabendo que Joana quer te falar em segredo. Ela me mandou Jônatas. E ele disse: “É por causa de coisas muito graves.” Nem mesmo a filha que Tu me deste está sabendo o que é. Joana mandou servos para todos os lados, a fim de procurar-te. Mas não te encontraram.
– Eu estava muito longe e teria ido ainda mais longe, se o espírito não me tivesse incitado a voltar… Elisa, tu irás comigo e o Zelotes à casa de Joana. Os outros ficarão aqui dois dias descansando, e depois irão a Beter. Tu voltarás com Jônatas.
– Sim, meu Senhor…
Elisa olha para Ele, com um modo maternal, e o perscruta… Mas não consegue evitar de dizer estas palavras:
– Tu estás sofrendo?
Jesus balança a cabeça, sem um verdadeiro sinal de que não, mas com evidente desconforto.
– Eu sou uma mãe… Tu és o meu Deus… mas… Oh! Meu Senhor! Que achas que quer Joana? Tu estavas falando de morte, e eu cheguei a compreender, porque as virgens do Templo liam muito as Escrituras, onde falam de Ti como Salvador, e eu me lembro daquelas palavras. Estavas falando de morte, e o teu semblante resplandecia com uma alegria celestial… Agora não está resplandecente o teu rosto… Maria foi para mim como uma filha… E Tu és o Filho dela… Por isso, se não for pecado dizê-lo, eu olho um pouco para Ti como se fosses meu filho… Tua Mãe está longe… Mas Tu tens uma mãe ao teu lado. Bendito de Deus, não poderei aliviar o teu sofrimento?
– Já o estás aliviando, porque me amas. Que penso sobre o que Joana me vai dizer? A minha vida é como este roseiral. As rosas, sois vós, boas discípulas. Mas, se tirardes as rosas, que é que fica? Espinhos…
– Mas nós, ficaremos contigo até à morte.
– É verdade. Até à morte! E o Pai vos recompensará pelo conforto que me derdes. Vamos entrar em casa. Descansemos. Ao pôr-do-sol, partiremos para Beter.
1 Eu vos disse, em 209.5/7. O discurso que segue parece ser baseado em Isaías 43.
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