145. 145. O primeiro dia em Sicar.
24 de abril de 1945.
[…].
145.1 Jesus fala a muita gente, do centro de uma praça. Ele subiu sobre o pequeno banco de pedra, que está perto da fonte. As pessoas estão todas ao redor Dele. Também ao redor Dele estão os doze, com uns rostos… consternados ou aborrecidos, ou até mostrando aversão por certos contatos. Especialmente Bartolomeu e Iscariotes estão mostrando abertamente o seu incômodo e, para evitar o mais possível a proximidade dos samaritanos, Iscariotes foi pôr-se a cavalo sobre um galho de árvore, como se quisesse dominar a cena, enquanto que o Bartolomeu foi encostar-se a um portão, no canto da praça. O preconceito está vivo e ativo em todos.
Jesus, ao invés, não tem nada de diferente do costume. Aliás, diria que procura não assustar com a sua majestade, e ao mesmo tempo, procura fazê-la brilhar, para tirar qualquer dúvida. Acaricia dois ou três pequeninos aos quais pergunta os seus nomes, se interessa por um velho cego, ao qual dá pessoalmente o óbolo, responde a duas ou três perguntas que lhe foram feitas, não sobre coisas de interesse geral, mas particulares.
145.2Uma é a pergunta de um pai a respeito da filha que fugiu por amor e que agora lhe pede perdão.
– Dá-lhe logo o teu perdão.
– Mas eu sofri com isto, Mestre! E ainda sofro. Em menos de um ano, envelheci dez anos.
– O perdão te dará alívio.
– Não pode ser. A ferida está aberta.
– É verdade. Mas na ferida há duas pontas que fazem sofrer. Uma é a inegável afronta que te fez tua filha. A outra é o esforço que fazes para deixar de amá-la. Tira ao menos esta. O perdão, que é a forma mais alta do amor, a tirará. Pensa, pobre pai, que aquela criatura nasceu de ti e que tem sempre o direito ao teu amor. Se tu a visses doente com uma doença da carne, e soubesse que, se não cuidas dela tu mesmo, morre, a deixarias morrer? Certamente não. E então, pensa que tu, tu mesmo, com o teu perdão, podes fazer parar o seu mal e até levá-la a ficar sã em seu instinto. Porque, vê, nela predominou o lado mais vil da matéria.
– Então dirias que eu devo perdoar?
– Tu o deves.
– Mas como farei para ficar a vê-la em casa, depois do que ela fez, e não amaldiçoá-la?
– Mas então não a terias perdoado. O perdão não consiste em reabrir-lhe a porta de tua casa, mas em reabrir-lhe o coração. Sê bom, homem. Por que não? A paciência que temos com o novilho teimoso, não a teríamos para com a nossa filha?
145.3 Uma mulher pergunta se está certo que ela se case com o cunhado para dar um pai aos seus orfãozinhos.
– Achas que ele seria um verdadeiro pai?
– Sim, Mestre. São três filhos homens. É preciso que um homem os guie.
– Então faz e sê uma mulher fiel, como o foste ao primeiro.
145.4 Um terceiro lhe pergunta se, aceitando o convite que lhe fizeram de ir para Antioquia, ele fará bem ou mal.
– Homem, por que queres ir para lá?
– Porque aqui não tenho meios para sustentar a mim e aos meus muitos filhos. Conheci um gentio que me tomaria a seu serviço, porque viu que sou bom no trabalho e daria trabalho também para os meus filhos. Mas eu não queria… parecer-lhe-á estranho o escrúpulo de um samaritano, mas eu o tenho. Eu não queria que perdêssemos a fé. É um pagão aquele homem, sabes?
– E então? Nada contamina se não se quer ser contaminado. Vai, pois, para Antioquia e sê do Deus verdadeiro. Ele te guiará e tu serás até o benfeitor do teu patrão, que conhecerá a Deus, através da tua honestidade.
145.5 Depois, começa a falar a todos.
– Eu ouvi a muitos de vós, e em todos senti que há uma dor secreta, uma pena, da qual talvez nem vos deis conta, e que vos faz chorar em vossos corações. Há séculos que ela vem se acumulando e nem as razões que vós dizeis, nem as injúrias, que se vos fazem, conseguem desfazê-la. Ao contrário, sempre mais endurece e pesa como a neve que se transforma em gelo.
Eu não sou um de vós e não sou tampouco um dos que vos acusam. Eu sou Justiça e Sabedoria. E, para a solução do vosso caso, vos cito ainda Ezequiel. Ele, profeticamente, fala1 de Samaria e de Jerusalém, chamando-as de filhas de um seio e dando-lhes os nomes de Oolá e Oolibá.
A primeira a cair em idolatria foi a primeira, chamada Oolá, porque já privava da ajuda espiritual, que lhe provinha de sua união com o Pai dos Céus. A união com Deus sempre é salvação. Trocou a verdadeira riqueza, o verdadeiro poder, a verdadeira sabedoria pela pobre riqueza, poder e sabedoria de alguém que era inferior a Deus, ainda mais do que ela, e foi seduzida a tal ponto, que se tornou escrava do modo de viver desse alguém que a havia seduzido. Para ser forte, tornou-se fraca. Para ser maior, tornou-se menor. Por ser imprudente, enlouqueceu. Quando alguém imprudentemente se contamina com alguma infecção, só pode livrar-se dela com muito trabalho. Vós direis: “Tornou-se menor? Não. Nós fomos grandes.” Grandes, sim, mas como? A que preço? Vós o sabeis. Quantas, mesmo entre as mulheres, conquistam a riqueza pelo preço tremendo de sua honra! Conquistam uma coisa que pode acabar. E perdem uma coisa que nunca tem fim: o bom nome.
Oolibá, vendo que a loucura de Oolá lhe tinha trazido riqueza, quis imitá-la e enlouqueceu mais do que Oolá, e com culpa dobrada, porque ela tinha consigo o verdadeiro Deus e não deveria nunca ter desprezado a força, que de tal união lhe provinha. Por isso lhe veio uma dura e tremenda punição, e maior virá à duplamente louca e fornicadora Oolibá. Deus lhe virará as costas. Já o está fazendo, para ir àqueles que não são de Judá. E não se poderá acusar a Deus de ser injusto, porque Ele não se impõe. Abre a todos os seus braços, a todos convida, mas, se alguém lhe diz: “Vai-te embora”, Ele se vai. Vai em busca de amor, vai levar seus convites a outros, até encontrar quem lhe diga: “Eu vou.” Por isso, Eu vos digo que podeis ter alívio em vosso tormento, e deveis tê-lo, se pensardes nisto.
Oolá, cai em ti mesma! Deus está te chamando. A sabedoria do homem está em saber reconhecer as próprias faltas, a sabedoria do espírito está em amar ao Deus verdadeiro e à sua Verdade. Não fiqueis olhando nem para Oolibá, nem para a Fenícia, nem para o Egito, nem para a Grécia. Olhai para Deus. Aquela é a Pátria de todos os espíritos retos: o Céu. Não existem muitas leis. Mas uma só: a de Deus. Por esse código, tem-se a Vida. Não digais: “Pecamos”, mas dizei: “Não queremos pecar mais.” Que Deus ainda vos ame, tendes a prova, nisto de ter-vos mandado o seu Verbo para dizer-vos “Vinde”, tendes a prova. Vinde, vos digo. Sois injuriados e proscritos? E por quem? Por pessoas semelhantes a vós. Mas Deus é mais do que eles, e Ele vos diz “Vinde.” Um dia chegará em que vos jubilareis por não terdes estado no Templo… Com a mente vos jubilareis por isso. Mas ainda mais se jubilarão os espíritos, porque sobre os retos de coração, espalhados pela Samaria, já terá descido o perdão de Deus. Preparai a chegada dele. Vinde ao Salvador universal, ó filhos de Deus que perdestes o Caminho.
145.6 – Mas, pelo menos alguns, nós iremos. São os do outro lado que não nos querem.
– E ainda com o sacerdote e profeta Eu vos digo2: “Eu pegarei a madeira de José, que está na mão de Efraim, com as tribos de Israel a ele unidas e a ajuntarei com a madeira de Judá, fazendo de tudo uma só madeira…” Sim. Não ao Templo. A Mim, vinde. Eu não rejeito. Eu sou aquele que é chamado o Rei que domina sobre todos. O Rei dos reis sou Eu. Eu vos purificarei a todos, ó povos que quereis ser purificados. Eu vos reunirei, ó rebanhos sem pastor, ou com pastores que se fazem ídolos, porque Eu sou o bom Pastor. Eu vos darei um tabernáculo único e o colocarei no meio dos meus fiéis. Esse tabernáculo será fonte de vida, pão de vida, será luz, será salvação, proteção, sabedoria. Tudo será, porque será o Vivente dado em alimento aos mortos para torná-los vivos, será o Deus que se derrama com a sua santidade para santificar. Isto Eu sou e serei. O tempo do ódio, da incompreensão, do temor, está superado. Vinde! Povo de Israel! Povo separado! Povo aflito! Povo distante! Povo querido, tão infinitamente querido porque doente, porque enfraquecido, porque esvaído em sangue por uma flecha que te abriu as veias da alma e dela fez fugir a união vital com o teu Deus, vem! Vem ao seio do qual nasceste, vem ao peito do qual te veio a vida. Doçura e calor ainda há aqui para ti. Sempre. Vem! Vem à Vida e à Salvação.
1 fala, em: Ezequiel 23.
2 digo, em: Ezequiel 37,19.